Herman José teve sorte. Tinha sido apontado como um abusador de crianças em Portugal, mas esteve no Brasil num trabalho para a SIC, na altura da suposta violação sexual com um adolescente de 17 anos. Senão, também seria impossível as crianças terem inventado tal acusação. Mas outros não tiveram tanta sorte. Depois de um julgamento com seis anos, todos os arguidos foram considerados culpados e condenados. Quais são as provas? As crianças não inventam. E têm uma memória brilhante. Quem se lembra ainda de Herman José como arguido do caso da Casa Pia?
07 setembro, 2010
29 agosto, 2010
Paulo, epilepsia e falácia de probabilidades
Tenho um esboço sobre falácias, mas não continuei a mexer nele por estar ocupado com trabalho e com um portefólio. Mas escrevo este artigo para responder a um comentário de Yuri sobre a hipótese de São Paulo ter sofrido epilepsia, para responder a parte do Argumento do Túmulo Vazio.
No seu blog "Pérolas dos poucos", ele coloca algumas questões:
- «Qual a probabilidade de Paulo sofrer de epilepsia?»
- «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra que derrubasse alguém de um cavalo?»
- «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra quando Paulo estivesse montado no cavalo?»
- «Qual a probabilidade de um terremoto despoletar um ataque de epilepsia?»
- «Qual a probabilidade de uma epilepsia levar à prosopagnosia e cegueira temporária?»
- «Qual a probabilidade de um epiléptico sofrer alucinações que transformam seus perseguidos em perseguidores?»
- «Qual a probabilidade de acontecer, simultaneamente, essas coisas?»
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Comentadores disseram que acreditam que é impossível acontecer tudo simultaneamente ou que é muito pouca, que crer nessa possibilidade é uma questão de fé. Cometem uma falácia de probabilidades que é comum entre criacionistas, para defender um suposto caso de Falácia da Conjunção. Apresento um exemplo através de uma doença crónica que eu tenho:
O meu nome é Pedro Amaral Couto. Sou um homem português que nasceu em São Miguel, mas que vive na Margem Sul da Grande Lisboa. Certa vez pelos doze anos senti-me mal-disposto com o cheiro de arroz de marisco e não conseguia comê-lo. A falta de apetite e os vómitos passaram a ser comuns e comecei a evacuar sangue. Pelos sintomas, a médica de família suspeitou que se tratava de doença de Crohn. Depois de terem sido feitas análises, fui medicado e passei a visitar regularmente um hospital. Fui descobrindo o que não posso comer: caranguejo, caldo-verde e sopas com puré, lacticínios e chocolate. Fiquei a saber que existem doentes que não podem comer bacalhau e outros que só podem comer carne se for triturada. Mais tarde, quando faltava pouco para o dia de meu aniversário, senti febres e uma comichão do traseiro. Tinha um abcesso, que fiquei a saber que era comum na doença de Crohn. No meu aniversário estive deitado numa cama. E celebrei-o com um bolo por cima da barriga. Fui eu que introduzi na Wikipedia o artigo sobre essa doença.
A priori, qual é a probabilidade de isso tudo acontecer? Na Europa, cerca de 7 pessoas em cada 100.000 sofre dessa doença; ie: a probabilidade de alguém ter a doença é de 0,007%. Se a multiplicarem com todas as probabilidades de todas as minhas características relacionadas com doença, terão o valor de tudo simultaneamente. E será muitíssimo mais pequeno. No entanto, foi o que me aconteceu e o diagnóstico foi feito pela descrição dos sintomas. Num caso particular, a probabilidade que interessa é aquela que tem em conta todos os dados conhecidos, o que poderá aumentar muito a probabilidade (que é a medida da nossa ignorância).
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1. «Qual a probabilidade de Paulo sofrer de epilepsia?»
Sobre a hipótese de epilepsia, usei palavras como "especulações" e "supostamente": não existe o mesmo grau de certeza que tenho sobre a minha doença. Mas é fundamentada na comparação feita por médicos dos sintomas de epilepsia com as cartas de Paulo. Nos sites dedicados à epilepsia, São Paulo é usado como exemplo de um epilético e a epilepsia era até chamada de "doença de São Paulo" na Irlanda.
- PubMed Central - J Neurol Neurosurg Psychiatry - St Paul and temporal lobe epilepsy
- BBC - Saint Paul (vídeo)
- German Epilepsymuseum Kork - Famous people who suffered from epilepsy: Saint Paul
- epilepsy.com - Religious Figures : Saint Paul
- epilepsy action - St Valentine and others - patron saints of epilepsy : «That this was an epileptic seizure is given even more credence by the fact that sight impediment – including temporary blindness lasting from several hours to several days – has actually been observed as a symptom or a result of an epileptic seizure. Paul himself perhaps provides further evidence of his epilepsy when he talks about his “physical ailment” in his letters; (2 Corinthians 12:7 and in Galatians 4:13-14). This connection between Saint Paul and epilepsy was so strongly perceived that in old Ireland, for example, epilepsy was sometimes known as 'Saint Paul's disease'.»
Se os sintomas de Paulo descrevem os sintomas de epilepsia, então a probabilidade deve ser elevada. Por exemplo, segundo Actos, foi cercado por uma luz, caiu, teve uma experiência religiosa, ouviu vozes e ficou cego durante três dias. Segundo as suas cartas, teve visões, sentiu-se arrebatado para o Paraíso, desejou que arrancassem os olhos para substituirem os seus, sentia-se esbofeteado por Satanás, notou que escrevia com letras grandes, dizia várias vezes que queria gloriar-se e enumerava as suas fraquezas e tinha uma doença que quem pedacia costumava ser desprezado (a epilepsia era chamada de "morbus insputatus": doença cuspida; era costume cuspir nos epiléticos).
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2. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra que derrubasse alguém de um cavalo?»
Eu não tinha sequer escrito a palavra "cavalo", na Bíblia não é dito que esteve montado num cavalo - apenas que «caindo em terra, ouviu uma voz» - e não é a queda que provoca epilepsia, por isso a pergunta é irrelevante. Mas sabe-se que os sismos alteram os comportamentos dos animais. Os cavalos ficam agitados durante um sismo antes de ser sentido por humanos. E é comum os epiléticos caírem num ataque de convulsões, porque a falta de equilíbrio é um dos sintomas de um ataque epilético. É o sintoma mais fácil de associar a um ataque epilético. Na Babilónia era chamada de "doença da queda". (Psychoses of epilepsy in Babylon: The oldest account of the disorder)
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3. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra quando Paulo estivesse montado no cavalo?»
4. «Qual a probabilidade de um terremoto despoletar um ataque de epilepsia?»
É irrelevante se aconteceu quando esteve montado num cavalo...
Os sismos na Palestina e arredores eram muitíssimo frequentes e foram descritos com muita frequência na Bíblia, que até teriam aberto jaulas de prisões, e sabe-se que num sismo a descarga eléctrica de fricção das rochas ao atingir o cérebro provoca um ataque num doente de epilepsia. Esse facto é usado para procurar um tratamento e até um meio de prever terramotos. Perguntar qual é a probabilidade de um terramoto despoletar um ataque de epilepsia num epilético é como perguntar qual é a probabilidade de luzes intermitentes despoletarem um ataque de epilepsia num epilético, como aconteceu com 685 epiléticos no Japão quando viram o Pikachu a brilhar num desenho-animado.
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5. «Qual a probabilidade de uma epilepsia levar à prosopagnosia e cegueira temporária?»
Problemas de visão é um sintoma predominante da epilepsia, que inclui cegueira que dura várias horas ou alguns dias depois de um ataque (sintoma de uma fase pós-ictal). Se alguém tem esse sintoma, muito provavelmente sofre de epilepsia, mesmo se acontecer num cão. É um dos sintomas descritos leva médicos a suspeitarem de que Paulo sofria de epilepsia.
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6. «Qual a probabilidade de um epiléptico sofrer alucinações que transformam seus perseguidos em perseguidores?»
Um meu primo pensou que era Jesus durante um ataque epilético. As alucinações visuais e auditivas com figuras luminosas, alterações de personalidade e sensação de estar a ser perseguido ou de ser alguém muito importante são sintomas da epilepsia. Se alguém caiu subitamente no chão e ficou cega durante três dias, e depois disso considera-se mais importante num contexto religioso e diz que viu ou ouviu Jesus e que sentiu-se perseguido no momento da queda , então provavelmente teve um ataque epilético, especialmente se diz que normalmente tem um mal físico e que sente um "espinho na carne". Mais sintomas de uma doença torna mais provável que seja essa doença. Não a torna mais improvável.
- Paranoia - The Psychology of Persecutory Delusions: «Persecutory delusions also occur in neurological disorders, such as dementia (Flint, 1991) and epilepsy (Trimble 1992).» ... «Perez, Trimble, Murray, and Reider (1985) report mental state data on 24 consecutive referrals of patients with epilepsy and delusions were much commoner (70%) in individuals with temporal lobe epilepsy.»
- Delusions, illusions and hallucinations in epilepsy:1. Elementary phenomena : «Delusional themes commonly include: guilt, worthlessness, ill-health, persecution, reference, grandeur, love, jealousy, poverty,infestation, and religion.»
- Neuropsychiatry, Lippincot Williams and Wilkims: «The mechanism for the development of chronic psychosis in epilepsy is not known» ... «A recent study (325) reported persistent symptoms of auditory hallucinations and delusions of persecution»
- The Epileptic, E. M. Blaiklock (Cambridge Journals) : «'The epileptic may be suspicious with delusions of persecution or elated with delusions of grandeu' (Insanity, G. H. Savage, p. 384)»
- Epilepsy Society - Ictal, Post-ictal and Interictal Psychosis
Ainda por cima, Saulo era supostamente um judeu ferrenho. E os judeus acreditavam que as doenças (mudez, cegueira, hemorróidas, etc.) eram punições de Deus, como descritas nas Escritutas Hebraicas. Mesmo segundo os Evangelhos, quando Jesus curava, dizia: «Seus pecados foram curados».
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7. «Qual a probabilidade de acontecer, simultaneamente, essas coisas?»
A probabilidade de acontecer tudo simultaneamente a uma pessoa ao acaso é muito baixa. ( Conhecem alguém com os sintomas descritos? ) Mas no Novo Testamento foram descritos sintomas que aconteceram pouco antes da conversão de Paulo e durante a sua vida. A questão não é sobre a probabilidade de tudo ocorrer simultaneamente. A questão é: qual é a probabilidade de não ser epilético, sabendo que sofre um conjunto de determinados sintomas? Ou, qual é a probabilidade de alguém que tem os sintomas características de uma doença não ter a doença? E já agora, qual é a probabilidade de ter sofrido um "golpe de calor", sugerido por Yuri, que tivesse provocado todos os sintomas? Só ele é que inventou uma explicação nos comentários, apesar de ele ter pedido que outros o fizessem.
Não sou especialista em epilepsia, nem sou psicólogo ou neurologista, nem sequer médico. Usei vários artigos de especialistas na matéria que concluíram que é muito provável que Paulo tivesse sofrido de epilepsia. No entanto escrevi «Mas parece que é dado demasiado crédito ao Livro dos Actos» (parágrafo 8).
O meu artigo era uma resposta a um argumento que conclui que a explicação mais plausível para o conteúdo do Novo Testamento é que Jesus realmente ressuscitou em carne e osso. Define-se o que é mais provável ou mais plausível através do que já conhecemos. Se não sabemos se extraterrestres existem e muito menos se visitem a Terra, mas sabemos que existem casos de alucinações, não se conclui que o mais plausível é que os que dizem que foram abduzidos por extraterrestres foram mesmo abduzidos, especialmente se for um fenómenos muito estudado. O mais plausível é que tenham sofrido de uma alucinação, talvez numa paralisia do sono, se não tiverem a mentir. E se quem tiver os mesmos sintomas de Paulo é diagnosticado como epiléptico, então o mais plausível é que Paulo tenha sofrido de epilepsia. São os sintomas que levam pensar que se sofre de uma determinada doença. E quantos mais sintomas característicos de uma doença tiverem ocorrido, a hipótese não se torna menos plausível. Pelo contrário! O Yuri pensou o contrário...
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19 junho, 2010
Lógica e anti-intelectualismo
¶1 Infelizmente em Portugal não se ensina Lógica em Matemática no ensino obrigatório nem no Secundário. Apenas no segundo ano de Filosofia, no 11º ano. Depois, academicamente, só na Universidade. Em Informática até aprende-se a uma linguagem de programação lógica, que é aplicada em Inteligência Artificial, para além das provas de decidibilidade com máquinas abstractas na Teoria da Computação - que permitiu a construção dos computadores modernos -, nas Base-de-Dados, nos fluxos condicionais e nos operações binárias. Esses conhecimentos permitiram a existência da Internet e das aplicações que estão a usar. Permitem as experiências e concursos na robótica. O computador Blue Deep que derrotou Kasparov num jogo de xadrez foi concebido por quem tem esses conhecimentos. A Lógica permite isso tudo, mas não é ensinada e promotores do anti-intelectualismo consideram que sabem melhor usá-la do que alguém que os que dependem dela no seus trabalhos e passatempos. Muitos deles são os mesmos que acham que sabem mais de Biologia do que um biólogo e mais Física do que um físico. Neste artigo apresento algumas noções básicas de lógica que são ensinadas em Introdução de Lógica e desafio-os a usarem um interpretador de PROLOG para testarem o que realmente sabem.
¶2 Os operadores lógicos são símbolos que ligam uma ou mais frases que podem ser verdadeiras ou falsas (proposições, predicados, fórmulas), de tal modo que o valor de verdade da composição dependa do valor de verdade das frases. O operador de negação (¬) que dá um valor de verdade oposto ao da frase que liga: se é verdadeira, dá falso; se é falsa, dá verdadeiro. O operador de conjunção (∧) liga duas frases e a composição só é verdadeira se as duas frases forem verdadeiras. O operador de disjunção (∨) liga duas frases e a composição só é falsa se uma das frases for falsa.
¶3 Um circuito electrónico pode representar uma composição de frases lógicas - aliás, um conjunto de componentes cujos nomes são referências a operadores lógicos (NOT, AND, OR, etc) por implementarem operações lógicas. Devem ter um caminho de pólo de uma bateria até ao outro pólo (daí o nome "circuito") e por isso são representados por uma linha fechada, mas na imagem seguinte - para ser mais fácil de perceber - supõe-se que as linhas representam um cabo com dois sentidos, como as fichas comuns. Para ser mais intuitivo, imaginem que cada círculo vermelho é um adaptador para ligar-se a outra ficha, tomada ou um candeeiro. A tomada está ligada no adaptador mais à esquerda. Se o circuito for fechado, a lâmpada fica acesa. Se for aberto, fica desligada. Cada ficha representa uma frase e uma das extremidades pode estar virada como uma porta, representando uma frase falsa, caso contrário está ligada e representa uma frase verdadeira. Uma operação de negação é mudar o estado dessa extremidade: se está aberta, fecha; se está fechada, abre. Uma disjunção é representada por uma bifurcação (três adaptadores). Em fichas de dois adaptadores estão representadas conjunções.
¶4 Em Lógica é irrelevante se uma frase é verdadeira ou falsa - supõe-se que não sabemos. O que interessa é a composição das frases por meio. Uma tabela de verdade permite avaliar todos os casos. Eis um exemplo para "¬(a ∧ b)" (V representa uma frase verdadeira; F representa uma frase falsa):
¶5 Chama-se "contradição" (⊥) a uma frase composta que é falsa independentemente dos valores de verdade das frases que compõe:
¶6 Aplicando a operação de negação a uma contradição, obtemos uma frase que é sempre verdadeira independentemente das frases que compõe - uma tautologia (⊤):
¶7 Obtemos uma frase equivalente (ie: com os mesmos resultados) de uma negação de uma frase composta se negarmos todas as frases e passarmos os operadores de disjunção para conjunção e vice-versa, e retirando o operador de negação de toda a frase composta (leis de De Morgan). Por exemplo, "¬(a ∧ ¬b)" equivale a "¬a ∨ ¬¬b". Notem que a aplicação dupla do operador de negação numa frase equivale à própria frase. Por exemplo, se b é verdadeiro, então ¬b é falso e por isso ¬¬b é verdadeiro.
¶8 Existem muitos outros operadores lógicos. Quando usamos o termo "disjunção" assumimos que se refere a uma disjunção inclusiva, se não houver uma indicação explícita do contrário. Uma disjunção exclusiva (⊕) é como a inclusiva mas é falsa se as frases que liga forem ambas verdadeiras; ou seja, "a ⊕ b" é equivalente a "(a ∨ b) ∧ ¬(a ∧ b)". Uma implicação (→) de uma frase em relação a outra significa que a primeira frase só é verdadeira se outra também o for. "a → b" (se a então b) equivale a "(a ∧ b) ∨ ¬a" (a e b ou não a). Uma equivalência (↔) entre duas frases significa que se uma forma verdadeira, a outra também é (tenho usado este conceito desde o parágrafo anterior). "a↔b" equivale a "(a ∧ b) ∨ (¬a ∨ ¬b)".
¶9 Se usarmos variáveis podemos usar quantificadores lógicos para indicar o alcance do uso da variável: se nos referimos a todos (para todos) ou a pelo menos um (existe). O quantificador universal (∀) indica que o uso da variável na frase aplica-se a todos os casos. "∀x: humano(x) → mortal(x)" pode lido como: "para todo o x, se x é humano, então x é mortal" ou "todos os humanos são mortais". É como usar conjunções para todas as instâncias (casos) de uma variável: ( humano(x1) → mortal(x1) ) ∧ ( humano(x2) → mortal(x2) ) ∧ ( humano(x3) → mortal(x3) ) ... O quantificador existencial (∃) indica que existe uma instância da variável que torna uma frase verdadeira. "∃x: humano(x) ∧ mulher(x)" pode ser lido como: "existe um x de tal modo que x é humano e x é mulher" ou "existe pelo menos um humano que é mulher". É o mesmo que usar disjunções para todas as instâncias de uma variável: ( humano(x1) ∧ mulher(x1) ) ∧ ( humano(x2) ∧ mulher(x2) ) ∧ ( humano(x3) ∧ mulher(x3) ) ...
¶10 A negação de uma quantificação universal de uma frase é a quantificação existencial da negação dessa frase: "¬∀x: f(x) ↔ ∃x: ¬f(x)". A negação de uma quantificação existencial de uma frase é a quantificação universal da negação dessa frase: "¬∃x: f(x) ↔ ∀x: ¬f(x)". Por exemplo, "nem todas as bolas são azuis" equivale a "existe pelo menos uma bola que não é azul". "Não existe pelo menos uma bola vermelha" equivale a "todas as bolas não são vermelhas".
¶11 A partir de várias frases separadas podemos obter uma frase nova. Por exemplo, se "a ∧ b" e "¬b" são verdadeiros, então "a" é verdadeiro (assumindo a Princípio do Terceiro Excluído - ou uma frase é verdadeira, ou é falsa; não há um terceiro valor). Em exames de Lógica pode ser necessário indicar os nomes das propriedades e dos princípios usados para se obter uma frase (a conclusão; ∴) a partir de outras (as premissas). Esse processo é uma demonstração lógica e no conjunto é um argumento.
¶2 Os operadores lógicos são símbolos que ligam uma ou mais frases que podem ser verdadeiras ou falsas (proposições, predicados, fórmulas), de tal modo que o valor de verdade da composição dependa do valor de verdade das frases. O operador de negação (¬) que dá um valor de verdade oposto ao da frase que liga: se é verdadeira, dá falso; se é falsa, dá verdadeiro. O operador de conjunção (∧) liga duas frases e a composição só é verdadeira se as duas frases forem verdadeiras. O operador de disjunção (∨) liga duas frases e a composição só é falsa se uma das frases for falsa.
¶3 Um circuito electrónico pode representar uma composição de frases lógicas - aliás, um conjunto de componentes cujos nomes são referências a operadores lógicos (NOT, AND, OR, etc) por implementarem operações lógicas. Devem ter um caminho de pólo de uma bateria até ao outro pólo (daí o nome "circuito") e por isso são representados por uma linha fechada, mas na imagem seguinte - para ser mais fácil de perceber - supõe-se que as linhas representam um cabo com dois sentidos, como as fichas comuns. Para ser mais intuitivo, imaginem que cada círculo vermelho é um adaptador para ligar-se a outra ficha, tomada ou um candeeiro. A tomada está ligada no adaptador mais à esquerda. Se o circuito for fechado, a lâmpada fica acesa. Se for aberto, fica desligada. Cada ficha representa uma frase e uma das extremidades pode estar virada como uma porta, representando uma frase falsa, caso contrário está ligada e representa uma frase verdadeira. Uma operação de negação é mudar o estado dessa extremidade: se está aberta, fecha; se está fechada, abre. Uma disjunção é representada por uma bifurcação (três adaptadores). Em fichas de dois adaptadores estão representadas conjunções.
~
¶4 Em Lógica é irrelevante se uma frase é verdadeira ou falsa - supõe-se que não sabemos. O que interessa é a composição das frases por meio. Uma tabela de verdade permite avaliar todos os casos. Eis um exemplo para "¬(a ∧ b)" (V representa uma frase verdadeira; F representa uma frase falsa):
| a | b | a ∧ b | ¬(a ∧ b) |
|---|---|---|---|
| V | V | V | F |
| V | F | F | V |
| F | V | F | V |
| F | F | F | V |
¶5 Chama-se "contradição" (⊥) a uma frase composta que é falsa independentemente dos valores de verdade das frases que compõe:
| a | ¬a | a ∧ ¬a |
|---|---|---|
| V | F | F |
| F | V | F |
¶6 Aplicando a operação de negação a uma contradição, obtemos uma frase que é sempre verdadeira independentemente das frases que compõe - uma tautologia (⊤):
| a | ¬a | a ∧ ¬a | ¬(a ∧ ¬a) | ¬a ∨ a |
|---|---|---|---|---|
| V | F | F | V | V |
| F | V | F | V | V |
¶7 Obtemos uma frase equivalente (ie: com os mesmos resultados) de uma negação de uma frase composta se negarmos todas as frases e passarmos os operadores de disjunção para conjunção e vice-versa, e retirando o operador de negação de toda a frase composta (leis de De Morgan). Por exemplo, "¬(a ∧ ¬b)" equivale a "¬a ∨ ¬¬b". Notem que a aplicação dupla do operador de negação numa frase equivale à própria frase. Por exemplo, se b é verdadeiro, então ¬b é falso e por isso ¬¬b é verdadeiro.
~
¶8 Existem muitos outros operadores lógicos. Quando usamos o termo "disjunção" assumimos que se refere a uma disjunção inclusiva, se não houver uma indicação explícita do contrário. Uma disjunção exclusiva (⊕) é como a inclusiva mas é falsa se as frases que liga forem ambas verdadeiras; ou seja, "a ⊕ b" é equivalente a "(a ∨ b) ∧ ¬(a ∧ b)". Uma implicação (→) de uma frase em relação a outra significa que a primeira frase só é verdadeira se outra também o for. "a → b" (se a então b) equivale a "(a ∧ b) ∨ ¬a" (a e b ou não a). Uma equivalência (↔) entre duas frases significa que se uma forma verdadeira, a outra também é (tenho usado este conceito desde o parágrafo anterior). "a↔b" equivale a "(a ∧ b) ∨ (¬a ∨ ¬b)".
~
¶9 Se usarmos variáveis podemos usar quantificadores lógicos para indicar o alcance do uso da variável: se nos referimos a todos (para todos) ou a pelo menos um (existe). O quantificador universal (∀) indica que o uso da variável na frase aplica-se a todos os casos. "∀x: humano(x) → mortal(x)" pode lido como: "para todo o x, se x é humano, então x é mortal" ou "todos os humanos são mortais". É como usar conjunções para todas as instâncias (casos) de uma variável: ( humano(x1) → mortal(x1) ) ∧ ( humano(x2) → mortal(x2) ) ∧ ( humano(x3) → mortal(x3) ) ... O quantificador existencial (∃) indica que existe uma instância da variável que torna uma frase verdadeira. "∃x: humano(x) ∧ mulher(x)" pode ser lido como: "existe um x de tal modo que x é humano e x é mulher" ou "existe pelo menos um humano que é mulher". É o mesmo que usar disjunções para todas as instâncias de uma variável: ( humano(x1) ∧ mulher(x1) ) ∧ ( humano(x2) ∧ mulher(x2) ) ∧ ( humano(x3) ∧ mulher(x3) ) ...
¶10 A negação de uma quantificação universal de uma frase é a quantificação existencial da negação dessa frase: "¬∀x: f(x) ↔ ∃x: ¬f(x)". A negação de uma quantificação existencial de uma frase é a quantificação universal da negação dessa frase: "¬∃x: f(x) ↔ ∀x: ¬f(x)". Por exemplo, "nem todas as bolas são azuis" equivale a "existe pelo menos uma bola que não é azul". "Não existe pelo menos uma bola vermelha" equivale a "todas as bolas não são vermelhas".
~
¶11 A partir de várias frases separadas podemos obter uma frase nova. Por exemplo, se "a ∧ b" e "¬b" são verdadeiros, então "a" é verdadeiro (assumindo a Princípio do Terceiro Excluído - ou uma frase é verdadeira, ou é falsa; não há um terceiro valor). Em exames de Lógica pode ser necessário indicar os nomes das propriedades e dos princípios usados para se obter uma frase (a conclusão; ∴) a partir de outras (as premissas). Esse processo é uma demonstração lógica e no conjunto é um argumento.
- ∀x: humano(x) → mortal(x)
- humano(Pedro)
- ∴ mortal(Pedro)
- (∀x: humano(x) → mortal(x)) ↔ (∀x: (humano(x) ∧ mortal(x)) ∨ ¬humano(x))
- ( humano(Pedro) ∧ mortal(Pedro) ) ∨ ¬humano(Pedro)
- ⊥ humano(Pedro) ∧ ¬humano(Pedro)
- ⊥ ( humano(Pedro) ∧ ¬mortal(Pedro) ) ∧ ( humano(Pedro) ∧ mortal(Pedro) )
- ∴ humano(Pedro) ∧ mortal(Pedro)
- ∴ mortal(Pedro)
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¶13 Este artigo é grande, mas apenas explica um pouco do elementar da Introdução de Lógica para totós. No entanto há quem ache que saiba Lógica, mas não sabe sequer o que está aqui explicado. Argumenta deste modo: «BIOlogia estuda o quê? FISIOlogia estuda o quê? TEOlogia estuda o quê? Vês o teu erro?» (A CIENTOlogia estuda o quê? A ASTROlogia estuda o quê? A CRIPTOZOOlogia estuda o quê? A UFOlogia estuda o quê? A PARAPSICOlogia estuda o quê? A FRENOlogia estuda o quê?) E denigre a experiência e profissão com piadas, como "Dr. Mats, PhD (Cientista Consensual)" e comportando-se como se tivesse autoridade sobre assuntos que não tem experiência, dando lições a quem o tem (curiosidade: se se interessa tanto por Ciência, por que será que não prosseguiu os estudos em Ciência, especialmente em Biologia?) Isso é uma postura anti-intelectualista. Por isso demonstram que não têm interesse em perceber como se chega às conclusões. Por isso a literatura prosélita está cheia de figuras, é muito colorida e escrita como se fossem revistas infantis. A idiotice é mais fácil. Bem, o próximo artigo será sobre falácias.
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Duas páginas do livro "Lógica Matemática - Teorias e exercícios; 10º ano de escolaridade" (1980, edições ASA):
Duas páginas de "Matemática - uma breve introdução" (Timothy Gowers, 2008, gradiva) do capítulo 3 ("Demonstrações"):
Duas páginas de "Ah, Descobri! - Jogos e diversões matemáticas" (Martin Gardner, 1978, gradiva) do capítulo 4 ("Ah! Lógico"):
Duas páginas de "The Art of Prolog - Advanced Programming Techniques" (1994, MIT) do capítulo 5 ("The Theory of Logic Programming"):
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13 junho, 2010
Re: A diferença é ser treta
¶1 Ludwig num artigo disse que não concorda «que o Estado gaste dinheiro a contratar padres para os hospitais, a subsidiar a vinda do Papa ou a pagar professores de religião nas escolas públicas» dando como exemplo a «Maia, dos livros da Alexandra Solnado ou do pessoal que fala com os mortos quem enfiar o barrete e julgar que aquilo é mesmo verdade» para explicar as razões.
¶2 Muitos católicos criticaram o modo como foi preparada a vinda do Papa. João César das Neves tinha comentado: «Enquanto os ateus e não-cristãos portugueses foram em geral respeitadores, as críticas, algumas violentas, vieram quase só de quem se diz católico.» Nas críticas houve referências sobre a separação entre Estado e religião, mas não por causa da visita em si, mas pelo incómodo causado aos utentes e despesas exorbitantes do Estado, ainda por cima em crise financeira:
¶4 Discordo com a opinião de que o Estado não deve suportar a assistência de padres por as crenças religiosas serem treta. Seria errado o Estado pagar a actores para se fazerem passar de Pai Natal nos hospitais? Pode dizer que não, mas se as resposta que deu era para quem considera que o Estado pode também pagar a esses actores, o argumento é mau: o Estado não reconhece que o Pai Natal exista e os adultos sabem que é um actor, ao contrário das crianças, a quem se destina os serviços.
¶5 Se a assistência de um padre ou do Pai Natal tem uma influência positiva na recuperação e bem-estar de um paciente, acho que o dinheiro está a ser usado para o fim específico dos estabelecimentos de saúde e que está a ser bem gasto. Afinal de contas, quem os recebe já tinha a crença. No entanto considero que não deve ser pago se o sacerdote aproveitar-se da situação do paciente, fazendo propaganda, transmitindo a ideia de que a recuperação deve-se a um poder sobrenatural ou de que não precisa do tratamento médico, ou até influenciar de modo a passar a recorrer a certos serviços, aderir comportamentos que não aderia ou ter uma crença que não tinha, como faria um astrólogo, em vez de simplesmente consolá-lo. E quem aceita essa razão, para ser consistente deve aceitar serviços que pessoalmente considerariam ridículos, como de uma stripper, que pode tornar o paciente mais alegre e dar-lhe mais sentido à vida. Caso contrário, podem estar a ser hipócritas. Considero o Pai Natal e o sacerdote ridículos, mas não devemos impor o que consideramos ridículos aos outros porque vivemos melhor com coisas ridículas.
¶6 Será que o Estado tem de pagar os pastéis de natas e a fábrica de ... "dito cujo" das Caldas da Rainha, apesar de serem culturas típicas de Portugal? Não é só por ser cultural que algo deve ser financiado pelo Estado. Seitas religiosas (inclusivé ateias) muito pequenas conseguem não só sobreviver muito bem, mas também conseguem ter sedes com equipamentos de impressão, para distribuição pelo mundo, e espaços de culto espalhados pelo mundo, mesmo sem que lhes paguem para realizarem casamentos, baptizados e funerais. Os padres recebem salário das arquidioceses, que por sua vez recebem os donativos e o dinheiro distribuído pelo Vaticano. Não é como investirem tempo e dinheiro numa pintura, num filme, numa música ou numa peça de teatro, para se expressarem livremente. E as obras de arte e os recintos são do Estado. O Estado não é dono das igrejas, nem as religiões pertencem ao Estado, que supostamente não recebe um tostão delas.
¶7 O Estado está dividido em poderes - Executivo, Legislativo, Judicial -, que estão separados entre si, mas não estão separados do Estado. Mas o Estado é separado da Igreja, que é outro poder. As igrejas católicas pertencem ao Vaticano, que tem as suas propriedades - não pertencem ao Estado. Podem pertencer nos jogos de computador de estratégia, como no Freeciv, para influenciar a população e arrecadar dinheiro, mas isso não é verdade num Estado laico. As pinturas religiosas podem pertencer ao Estado, mas as igrejas não. Os lucros vão para o Estado, não vão para o Vaticano. Mesmo aceitando financiamento de treta, ela deveria, pelo menos, estar em algo semelhante a uma biblioteca, onde sacerdotes informariam sobre as suas religiões, fariam os seus rituais de culto e prestariam os seus serviços. Mas não deveria servir para promover religiões nem discriminar umas de outras, que poderia servir pelo Estado para fins maliciosos ou para religiões influenciarem o Estado. Filmes e documentários sobre o Natal e a Páscoa têm interesse para a cultura, no sentido de conhecimento sobre as religiões, mas não fazer o mesmo com a outras religiões, é fazer propaganda subtil.
¶2 Muitos católicos criticaram o modo como foi preparada a vinda do Papa. João César das Neves tinha comentado: «Enquanto os ateus e não-cristãos portugueses foram em geral respeitadores, as críticas, algumas violentas, vieram quase só de quem se diz católico.» Nas críticas houve referências sobre a separação entre Estado e religião, mas não por causa da visita em si, mas pelo incómodo causado aos utentes e despesas exorbitantes do Estado, ainda por cima em crise financeira:
«Consultas e cirurgias adiadas e serviços de saúde a meio gás serão consequências da tolerância de ponto concedido nos dias 11, 13 e 14 de Maio devido à visita do papa e que os utentes criticam. A tolerância de ponto foi decretada pelo Governo» ... «Uma das consequências desta concessão sentir-se-á nos serviços de saúde pública. Hospitais e centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde não vão funcionar como se fosse feriado ou fim-de-semana. | Por esta razão, as consultas e as cirurgias programadas irão realizar nestas instituições. | A medida não agrada ao Movimento dos Utentes dos Serviços de Saúde, com o seu presidente, Manuel Vilas Boas, a lembrar que Portugal tem "um regime republicano e laico" e, por isso, "não tem de obedecer às regras religiosas".» ... «O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) acusa o Governo de ser "incoerente" ao conceder tolerância de ponto para a visita do Papa, o que deverá deixar os serviços de saúde como se existisse uma greve no sector.»
- Global, 6 de Maio de 2010
«É verdade que somos um País maioritariamente católico (inclui-me nos 88% da população que o assume), mas o nosso Estado é laico. É verdade que a vista de um Papa a Portugal acontece poucas vezes, mas o mesmo acontece com outros chefes de Estado. É verdade que as missas papais mobilizam milhares de fiéis com os respectivos condicionantes de trânsito, mas isso também acontece quando há mega-manifestações, e os exemplos são recentes, ou um um europeu de futebol. Tudo isto para concluir que apesar de considerar que Bento XVI deve ser devidamente recebido e que a sua visita deve mobilizar todos os meios humanos e técnicos considerados indispensáveis, apesar de pensar que Cavaco Silva faz bem em acompanhar os momentos públicos de Joseph Ratzinger no nosso País e até aceitar que o Papa deve ser tratado de forma especial, acho que as medidas enunciadas pelo Governo são exageradas. Quais são as razões para as escolas fecharem dia 13, por exemplo? Isso significa que muitos pais faltarão ao trabalho para ficar com elas. E porque foi decretada tolerância de ponto para Lisboa e Porto nas tardes dos dias 11 e 14? Só se for para um hospital ter argumentos para me desmarcar uma consulta nesse dia... às nove da manhã. Um dia de paragem de produtividade no País tem custos. E estes, fazem sentido?»¶3 Não podemos também criticar os elefantes brancos? O TGV não tem a ver com religião, por isso não faz qualquer sentido invocar a separação entre Estado e religião. Isso só permite que se fuja da questão, especialmente se for colocada por ateus. Note-se que João Paulo II já tinha visitado Portugal e, que eu saiba, não houve esses problemas.
- Filomena Martins, directora adjunta do Diário de Notícias
¶4 Discordo com a opinião de que o Estado não deve suportar a assistência de padres por as crenças religiosas serem treta. Seria errado o Estado pagar a actores para se fazerem passar de Pai Natal nos hospitais? Pode dizer que não, mas se as resposta que deu era para quem considera que o Estado pode também pagar a esses actores, o argumento é mau: o Estado não reconhece que o Pai Natal exista e os adultos sabem que é um actor, ao contrário das crianças, a quem se destina os serviços.
¶5 Se a assistência de um padre ou do Pai Natal tem uma influência positiva na recuperação e bem-estar de um paciente, acho que o dinheiro está a ser usado para o fim específico dos estabelecimentos de saúde e que está a ser bem gasto. Afinal de contas, quem os recebe já tinha a crença. No entanto considero que não deve ser pago se o sacerdote aproveitar-se da situação do paciente, fazendo propaganda, transmitindo a ideia de que a recuperação deve-se a um poder sobrenatural ou de que não precisa do tratamento médico, ou até influenciar de modo a passar a recorrer a certos serviços, aderir comportamentos que não aderia ou ter uma crença que não tinha, como faria um astrólogo, em vez de simplesmente consolá-lo. E quem aceita essa razão, para ser consistente deve aceitar serviços que pessoalmente considerariam ridículos, como de uma stripper, que pode tornar o paciente mais alegre e dar-lhe mais sentido à vida. Caso contrário, podem estar a ser hipócritas. Considero o Pai Natal e o sacerdote ridículos, mas não devemos impor o que consideramos ridículos aos outros porque vivemos melhor com coisas ridículas.
¶6 Será que o Estado tem de pagar os pastéis de natas e a fábrica de ... "dito cujo" das Caldas da Rainha, apesar de serem culturas típicas de Portugal? Não é só por ser cultural que algo deve ser financiado pelo Estado. Seitas religiosas (inclusivé ateias) muito pequenas conseguem não só sobreviver muito bem, mas também conseguem ter sedes com equipamentos de impressão, para distribuição pelo mundo, e espaços de culto espalhados pelo mundo, mesmo sem que lhes paguem para realizarem casamentos, baptizados e funerais. Os padres recebem salário das arquidioceses, que por sua vez recebem os donativos e o dinheiro distribuído pelo Vaticano. Não é como investirem tempo e dinheiro numa pintura, num filme, numa música ou numa peça de teatro, para se expressarem livremente. E as obras de arte e os recintos são do Estado. O Estado não é dono das igrejas, nem as religiões pertencem ao Estado, que supostamente não recebe um tostão delas.
¶7 O Estado está dividido em poderes - Executivo, Legislativo, Judicial -, que estão separados entre si, mas não estão separados do Estado. Mas o Estado é separado da Igreja, que é outro poder. As igrejas católicas pertencem ao Vaticano, que tem as suas propriedades - não pertencem ao Estado. Podem pertencer nos jogos de computador de estratégia, como no Freeciv, para influenciar a população e arrecadar dinheiro, mas isso não é verdade num Estado laico. As pinturas religiosas podem pertencer ao Estado, mas as igrejas não. Os lucros vão para o Estado, não vão para o Vaticano. Mesmo aceitando financiamento de treta, ela deveria, pelo menos, estar em algo semelhante a uma biblioteca, onde sacerdotes informariam sobre as suas religiões, fariam os seus rituais de culto e prestariam os seus serviços. Mas não deveria servir para promover religiões nem discriminar umas de outras, que poderia servir pelo Estado para fins maliciosos ou para religiões influenciarem o Estado. Filmes e documentários sobre o Natal e a Páscoa têm interesse para a cultura, no sentido de conhecimento sobre as religiões, mas não fazer o mesmo com a outras religiões, é fazer propaganda subtil.
12 junho, 2010
Re: Miscelânia criacionista: ciência infantil
¶1 Li o artigo «Miscelânia criacionista: ciência infantil». Antes de explicar como se obteve a conclusão de que a nossa espécie procriou com neandertais, Ludwig escreveu:
¶3 O que está a vermelho explica como é que os cientistas descobriram que a procriação ocorreu pelo ADN. H refere-se a humanos modernos e N refere-se a neandertais.
¶4 Ainda por cima evolucionistas já suspeitavam disso há anos - tenho seguido artigos e documentários sobre o assunto - e foram evolucionistas que o descobriram, resolvendo a questão - e agora criacionistas ficam com os louros?! [PubMed (1999); The Independent (2004); ScienceForums (2005) Cosmos (2006); Panda Thumb (2006); DailyTech (2010); Wikipedia]
¶5 Por que é que os evolucionistas colocaram essa hipótese se contradiz a Teoria da Evolução?! Há mais de um século, Charles Darwin, em Origem das Espécies, descreveu a evolução envolvendo hibridização - no oitavo capítulo, com o título "Hybridism"... [The Origin of The Species; Wikipedia]
¶6 Ou seja: a ideia dos evolucionistas era que dariam híbridos, como os híbridos de leões e trigres (liger), de zebras e cavalos (zorce), lobos com cães, camelos com lamas, leões com leopardos, ursos polares com ursos pardos, ovelha (ou carneiro) com bode (ou cabra), etc.
¶7 As diferenças entre humanos modernos e neandertais:
¶8 E a comparação de crânios humanos de espécies diferentes:
¶9 Acham que esses crânios todos são da mesma espécie?!
¶10 Noto que o tipo de prova usado para a conclusão de hibridismo tem sido rejeitado pelos criacionistas - pelo ADN -, pois leva a conclusões sobre a ancestralidade comum que rejeitam. Se prova-se que uma semente tem cerca de 2000 anos pelo processo de datação por carbono que rejeitam, acham que isso é uma prova do Criacionismo (porquê?). Eu achava que interessava que o modo como se chega às conclusões é que era importante! Em que é que isso dá? Num artigo da National Geographic com a tal notícia há uma ligação para um artigo sobre a descoberta de uma árvore com cerca de 9500 anos - os criacionistas da Nova Terra acreditam que a Terra tem cerca de 6000 anos. É triste, não é?
¶11 Então, finalmente, explico o tipo de resposta que o Ludwig respondeu. Suponham que defendem que acreditam em poderes mágicos e que passam o tempo no fórum de James Randi para refutá-lo. Dizem-lhes que provaram que Penn e Teller têm poderes mágicos porque fizeram bolas e uma batata aparecerem e desaparecerem. Mostram-vos como é feito o truque:
¶12 Então respondem dizendo que falaram tanto só para dizer no final que os defensores dos poderes mágicos nunca têm razão e que fazem raciocínios tendenciosos assim:
¶14 Já agora: como é que respondem a um geocentrista que diz que a Ciência provou o Geocentrismo?!
«Por feitio ou deformação profissional custa-me aldrabar as explicações. Por isso infligi aos meus filhos respostas que crianças com dois ou três anos não tinham paciência para ouvir, e muitas vezes me viraram as coisas a meio e foram brincar.»¶2 Ora, parece óbvio que não tem jeito para dar explicações a putos. Previa-se qual seria o género de birras em forma de ad hominems que iriam usar sem lerem o artigo. Talvez o truque seja o uso de desenhos:
¶3 O que está a vermelho explica como é que os cientistas descobriram que a procriação ocorreu pelo ADN. H refere-se a humanos modernos e N refere-se a neandertais.
¶4 Ainda por cima evolucionistas já suspeitavam disso há anos - tenho seguido artigos e documentários sobre o assunto - e foram evolucionistas que o descobriram, resolvendo a questão - e agora criacionistas ficam com os louros?! [PubMed (1999); The Independent (2004); ScienceForums (2005) Cosmos (2006); Panda Thumb (2006); DailyTech (2010); Wikipedia]
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¶5 Por que é que os evolucionistas colocaram essa hipótese se contradiz a Teoria da Evolução?! Há mais de um século, Charles Darwin, em Origem das Espécies, descreveu a evolução envolvendo hibridização - no oitavo capítulo, com o título "Hybridism"... [The Origin of The Species; Wikipedia]
¶6 Ou seja: a ideia dos evolucionistas era que dariam híbridos, como os híbridos de leões e trigres (liger), de zebras e cavalos (zorce), lobos com cães, camelos com lamas, leões com leopardos, ursos polares com ursos pardos, ovelha (ou carneiro) com bode (ou cabra), etc.
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¶7 As diferenças entre humanos modernos e neandertais:
¶8 E a comparação de crânios humanos de espécies diferentes:
¶9 Acham que esses crânios todos são da mesma espécie?!
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¶10 Noto que o tipo de prova usado para a conclusão de hibridismo tem sido rejeitado pelos criacionistas - pelo ADN -, pois leva a conclusões sobre a ancestralidade comum que rejeitam. Se prova-se que uma semente tem cerca de 2000 anos pelo processo de datação por carbono que rejeitam, acham que isso é uma prova do Criacionismo (porquê?). Eu achava que interessava que o modo como se chega às conclusões é que era importante! Em que é que isso dá? Num artigo da National Geographic com a tal notícia há uma ligação para um artigo sobre a descoberta de uma árvore com cerca de 9500 anos - os criacionistas da Nova Terra acreditam que a Terra tem cerca de 6000 anos. É triste, não é?
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¶11 Então, finalmente, explico o tipo de resposta que o Ludwig respondeu. Suponham que defendem que acreditam em poderes mágicos e que passam o tempo no fórum de James Randi para refutá-lo. Dizem-lhes que provaram que Penn e Teller têm poderes mágicos porque fizeram bolas e uma batata aparecerem e desaparecerem. Mostram-vos como é feito o truque:
¶12 Então respondem dizendo que falaram tanto só para dizer no final que os defensores dos poderes mágicos nunca têm razão e que fazem raciocínios tendenciosos assim:
- O defensor dos poderes mágicos diz uma coisa
- O que nega poderes mágicos diz o contrário.
- A ciência mostra que a posição do defensor dos poderes mágicos é a que mais se ajusta aos dados.
- Os que negam poderes mágicos mudam a sua posição, e dizem que o que eles queriam dizer é o que a ciência veio mostrar.
¶14 Já agora: como é que respondem a um geocentrista que diz que a Ciência provou o Geocentrismo?!
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Objectivo, relativo, absoluto, subjectivo
¶1 Se a lógica depende da palavra, isso não implica que um logicista tenha o dom da palavra, como um retórico. Pode ter todos os conceitos necessários para um problema e conseguir relacioná-los de modo a representar todos os passos até chegar a uma conclusão, como jogadas de xadrez, mas não conseguir expressar-se de forma adequada para outros. E há quem saiba convencer, mas infelizmente só conhece dois conceitos e uma forma de os relacionar. Assim chega-se à ideia de que objectivo é essencialmente o mesmo que absoluto e que opõe-se ao subjectivo. Pode usar as quatro palavras "absoluto", "objectivo", "relativo" e "subjectivo", mas tem apenas dois conceitos delas e apenas uma relação entre eles ao torná-los todos contraditórios. Todos nós temos esse género de limitações que podem ser ultrapassadas. Procuremos ultrapassá-las, nem que seja um pouco, num tema que tem dado pano para mangas: a moral.
¶2 Uma palavra pode ter vários significados. Tomemos a palavra "moral". O significado de "moral" em "o moral dos soldados" não é o mesmo que em "a moral da história", que por sua vez não é o mesmo que "a moral católica", que por sua vez não é o mesmo que "Hitler era moral". Essa palavra terá muitos outros significados fora da convenção e do uso vulgar, que a experiência moldou com a intuição. No contexto deste artigo, se dizem que há uma moral de Hitler, aceitam que é legítima e correcta (ética normativa). Se, por exemplo, determina que o genocídio é bom, então aceitam que assim é. A moral é o que determina (correctamete) se um comportamento é bom ou ou mau e é isso que se discute quando se fala em moral e dizem que é objectiva, absoluta, imutável e universal. Não nos façamos de parvos como se significasse regras de conduta de uma sociedade, grupo ou indivíduo, referindo-se apenas a um relativismo descriptivo.
¶3 Se a moral não é questão de opinião, mas de razão, a distinção entre o moral do imoral não pode ser apenas porque sim - dito de outra forma: porque é verdade. x porque y é equivalente a y então x. «"x é bom" é verdadeiro então "x é bom"» é uma tautologia que não acrescenta nada nem explica como é que se identifica o que é bom. Se a ideia é que a intuição dá-nos a resposta, então podemos ter respostas contraditórias de pessoas diferentes, com intuições diferentes, e assim a moral não é diferente de meras opiniões. Se é a razão que nos dá a resposta, uma teoria ética pode explicar a distinção entre o moral e o imoral com passos lógicos que formem um argumento. Existem várias teorias, como a Teoria dos Mandamentos Divinos, o Kantianismo, o Utilitarismo, o Contractualismo, o Colectivismo e o Objectivismo. Quem participa em discussões sobre ética, pelo menos como amador, sabe que defensores da Teoria dos Mandamentos acusam outras teorias de serem relativas ou subjectivas e, portanto, são meras opiniões ou convenções. Parece que o cerne da crítica está nos conceitos que têm de "relatividade", "subjectividade", "absolutividade" e "objectividade", por isso é neles que foco neste artigo.
¶2 Uma palavra pode ter vários significados. Tomemos a palavra "moral". O significado de "moral" em "o moral dos soldados" não é o mesmo que em "a moral da história", que por sua vez não é o mesmo que "a moral católica", que por sua vez não é o mesmo que "Hitler era moral". Essa palavra terá muitos outros significados fora da convenção e do uso vulgar, que a experiência moldou com a intuição. No contexto deste artigo, se dizem que há uma moral de Hitler, aceitam que é legítima e correcta (ética normativa). Se, por exemplo, determina que o genocídio é bom, então aceitam que assim é. A moral é o que determina (correctamete) se um comportamento é bom ou ou mau e é isso que se discute quando se fala em moral e dizem que é objectiva, absoluta, imutável e universal. Não nos façamos de parvos como se significasse regras de conduta de uma sociedade, grupo ou indivíduo, referindo-se apenas a um relativismo descriptivo.
¶3 Se a moral não é questão de opinião, mas de razão, a distinção entre o moral do imoral não pode ser apenas porque sim - dito de outra forma: porque é verdade. x porque y é equivalente a y então x. «"x é bom" é verdadeiro então "x é bom"» é uma tautologia que não acrescenta nada nem explica como é que se identifica o que é bom. Se a ideia é que a intuição dá-nos a resposta, então podemos ter respostas contraditórias de pessoas diferentes, com intuições diferentes, e assim a moral não é diferente de meras opiniões. Se é a razão que nos dá a resposta, uma teoria ética pode explicar a distinção entre o moral e o imoral com passos lógicos que formem um argumento. Existem várias teorias, como a Teoria dos Mandamentos Divinos, o Kantianismo, o Utilitarismo, o Contractualismo, o Colectivismo e o Objectivismo. Quem participa em discussões sobre ética, pelo menos como amador, sabe que defensores da Teoria dos Mandamentos acusam outras teorias de serem relativas ou subjectivas e, portanto, são meras opiniões ou convenções. Parece que o cerne da crítica está nos conceitos que têm de "relatividade", "subjectividade", "absolutividade" e "objectividade", por isso é neles que foco neste artigo.
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¶4 Qual é a posição do ponto y? Se estiver no ponto x, posso responder: «3 unidades para a direita e 1 unidade para cima» (tomando os lados dos quadrados como uma unidade). Estando no ponto x, podia dizer que do canto superior esquerdo A fica: «3 unidades para a direita e duas unidades para baixo». Do ponto B fica: «2 unidades para baixo e 1 unidade para a esquerda». Todas as respostas estão correctas, apesar das coordenadas serem diferentes. Mas é claro que existem respostas erradas: «do ponto A, y fica 1 unidade à direita e 2 para baixo» é falso. A verdade sobre uma posição depende de um referencial (ex: em relação ao ponto x), por isso é uma verdade relativa - um proposição que é verdadeira consoante o contexto.
¶5 Por exemplo, «está a chover» é verdadeiro ou falso consoante o lugar e o tempo. O valor de verdade de «está frio» depende do tempo, do lugar e de uma referência (é uma comparação implícita). Em «sinto frio» depende do sujeito, num determinado lugar e tempo - nesse caso também é uma verdade subjectiva - depende de pelo menos uma mente, porque o objecto está no sujeito.
¶6 Mas ser subjectivo não significa necessariamente que é relativo: pode não ser relativa se depender de apenas uma única mente, como na Teoria dos Mandamentos Divinos. Se «matar é mau» é verdadeiro porque Deus o disse, então é subjectivo. Se é verdadeiro independentemente do lugar, tempo, dos envolvidos, da situação e de qualquer outro contexto, então é uma verdade absolutista.
¶7 Quando faço uma medição, preciso de recorrer à minha mente para usar o medidor e ler o valor (por isso é subjectiva), que não é exactamente igual àquilo que meço, mesmo que o processo seja automatizado - uma das primeiras coisas que se aprende nas aulas de Laboratório de Física é calcular uma margem de erro através de várias medições. Dizemos que uma medida é uma aproximação de uma propriedade de algo que está fora da mente. Essa propriedade, por não depender de uma mente para existir, é objectiva - o objecto está fora do sujeito.
¶8 A Ciência não é o mundo real, mas um modelo que o representa. Se é uma criação mental humana, então é subjectiva, no entanto isso não implica que seja arbitrária - por exemplo, a ideia de que o ponto de ebulição da água é 100ºC não existe por uma decisão arbitrária. Os circuitos electrónicos podem ter um díodo semicondutor e existe o conceito de díodo ideal que explica como os díodos funcionam. Ambos são invenções humanas, mas a existência do díodo ideal é impossível fora da imaginação e isso não quer dizer que as conclusões a partir dele sejam meras opiniões. Se os números, os pontos, figuras geométricas e outras estruturas matemáticas existem apenas na mente - e por isso são entidades subjectivas -, isso não significa que um teorema seja uma mera opinião. Se um ponto, que não tem dimensões, não existe independentemente da mente, isso não quer dizer que a distância mínima entre dois pontos não seja um segmento de recta... na Geometria Euclediana.
¶9 Para o fim deste artigo, não interessa se concordam ou não com os exemplos em particular. Se forem platonistas matemáticos, não concordam com o último exemplo que dei, mas podem perceber o ponto-de-vista de um formalista matemático. O que interessa é esta ideia: quem acredita que uma entidade é subjectiva pode racionalmente concluir que proposições sobre ela são verdadeiras ou falsas. Por exemplo, a dor é subjectiva, mas isso não quer dizer que o que um médico diz sobre ela seja mera opinião.
¶10 Existem muitíssimas doutrinas filosóficas sobre a moralidade. Segundo as teorias morais consequencialismo, distingue-se o bem e o mal pelas consequências. No Consequencialismo Subjectivista, distingue-se também pelas intenções. No Consequencialismo Objectivista, a distinção é feita pelas acções em si. Utilitarismo não quer dizer que o bem significa o mesmo que útil... É consequencialista objectivista e determina o valor moral de uma acção segundo a distribuição e quantidade resultante de certas propriedades nos seres sentientes: um acto bom maximiza o bem («the greatest good for the greatest number of people») e minimiza o mal, um acto mau faz o contrário. O mais conhecido é o Utilitarismo Clássico, que é consequencialista objectivista universalista hedonista (hedonismo: o prazer é o único bem, o sofrimento é o único mal).
¶11 Dito isso, não percebo como é que algumas pessoas concluem que ideia o Utilitarismo defende que o bem e o mal são opiniões ou convenções e que por isso não se poderia fazer julgamentos morais. Concluo exactamente o contrário, independentemente de concordar ou não com a teoria moral. Por exemplo, um violador causa sofrimento às suas vítimas, por isso fico embasbacado quando respondem com "segundo quem? segundo o violador?". O Utilitarismo é relativista (depende das consequências: prender arbitrariamente é mau porque faz o preso sofrer, mas prender um violador para evitar sofrimento), mas não depende de opiniões.
¶13 Devemos dar o lugar no autocarro? Alguém com uma deficiência nas pernas, sofrendo imenso enquanto aguenta-se de pé, não deve dar o lugar. Os que têm mais força e equilíbrio é que devem dar o lugar aos que têm mais dificuldade. Que dieta devemos ter? Se todos seguíssem a mesma dieta, muitos ficariam doentes - depende pelo menos da constituição física, dos hábitos e da saúde. Isso é relativista e verdadeiro independentemente de opiniões. Há alguém que discorda? Porquê?
¶12 O Utilitarismo é só um exemplo; existem muitas outras teorias. Apresentei alguns conceitos e o exemplo do Utilitarismo para verificarem que existem muito mais hipóteses sobre a moral do que podiam pensar.
Sugestões para se informarem mais:
Notas sobre os comentários:
Se os comentários não estiverem relacionados com o artigo, não serão moderados, desde que não tenham links para fazer publicidade ou que choquem através de imagens violentas, ou pornográficas ou com conteúdo ilegal. Não o respondo na caixa de comentários - se disponível, faço-o num artigo. Recomendo que não incentivem discussões alheias nas caixas de artigos nem cedam a provocações. Quem não disser nada sobre o artigo, não tem nada a dizer sobre ele.
¶4 Qual é a posição do ponto y? Se estiver no ponto x, posso responder: «3 unidades para a direita e 1 unidade para cima» (tomando os lados dos quadrados como uma unidade). Estando no ponto x, podia dizer que do canto superior esquerdo A fica: «3 unidades para a direita e duas unidades para baixo». Do ponto B fica: «2 unidades para baixo e 1 unidade para a esquerda». Todas as respostas estão correctas, apesar das coordenadas serem diferentes. Mas é claro que existem respostas erradas: «do ponto A, y fica 1 unidade à direita e 2 para baixo» é falso. A verdade sobre uma posição depende de um referencial (ex: em relação ao ponto x), por isso é uma verdade relativa - um proposição que é verdadeira consoante o contexto.
¶5 Por exemplo, «está a chover» é verdadeiro ou falso consoante o lugar e o tempo. O valor de verdade de «está frio» depende do tempo, do lugar e de uma referência (é uma comparação implícita). Em «sinto frio» depende do sujeito, num determinado lugar e tempo - nesse caso também é uma verdade subjectiva - depende de pelo menos uma mente, porque o objecto está no sujeito.
¶6 Mas ser subjectivo não significa necessariamente que é relativo: pode não ser relativa se depender de apenas uma única mente, como na Teoria dos Mandamentos Divinos. Se «matar é mau» é verdadeiro porque Deus o disse, então é subjectivo. Se é verdadeiro independentemente do lugar, tempo, dos envolvidos, da situação e de qualquer outro contexto, então é uma verdade absolutista.
¶7 Quando faço uma medição, preciso de recorrer à minha mente para usar o medidor e ler o valor (por isso é subjectiva), que não é exactamente igual àquilo que meço, mesmo que o processo seja automatizado - uma das primeiras coisas que se aprende nas aulas de Laboratório de Física é calcular uma margem de erro através de várias medições. Dizemos que uma medida é uma aproximação de uma propriedade de algo que está fora da mente. Essa propriedade, por não depender de uma mente para existir, é objectiva - o objecto está fora do sujeito.
¶8 A Ciência não é o mundo real, mas um modelo que o representa. Se é uma criação mental humana, então é subjectiva, no entanto isso não implica que seja arbitrária - por exemplo, a ideia de que o ponto de ebulição da água é 100ºC não existe por uma decisão arbitrária. Os circuitos electrónicos podem ter um díodo semicondutor e existe o conceito de díodo ideal que explica como os díodos funcionam. Ambos são invenções humanas, mas a existência do díodo ideal é impossível fora da imaginação e isso não quer dizer que as conclusões a partir dele sejam meras opiniões. Se os números, os pontos, figuras geométricas e outras estruturas matemáticas existem apenas na mente - e por isso são entidades subjectivas -, isso não significa que um teorema seja uma mera opinião. Se um ponto, que não tem dimensões, não existe independentemente da mente, isso não quer dizer que a distância mínima entre dois pontos não seja um segmento de recta... na Geometria Euclediana.
¶9 Para o fim deste artigo, não interessa se concordam ou não com os exemplos em particular. Se forem platonistas matemáticos, não concordam com o último exemplo que dei, mas podem perceber o ponto-de-vista de um formalista matemático. O que interessa é esta ideia: quem acredita que uma entidade é subjectiva pode racionalmente concluir que proposições sobre ela são verdadeiras ou falsas. Por exemplo, a dor é subjectiva, mas isso não quer dizer que o que um médico diz sobre ela seja mera opinião.
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¶10 Existem muitíssimas doutrinas filosóficas sobre a moralidade. Segundo as teorias morais consequencialismo, distingue-se o bem e o mal pelas consequências. No Consequencialismo Subjectivista, distingue-se também pelas intenções. No Consequencialismo Objectivista, a distinção é feita pelas acções em si. Utilitarismo não quer dizer que o bem significa o mesmo que útil... É consequencialista objectivista e determina o valor moral de uma acção segundo a distribuição e quantidade resultante de certas propriedades nos seres sentientes: um acto bom maximiza o bem («the greatest good for the greatest number of people») e minimiza o mal, um acto mau faz o contrário. O mais conhecido é o Utilitarismo Clássico, que é consequencialista objectivista universalista hedonista (hedonismo: o prazer é o único bem, o sofrimento é o único mal).
¶11 Dito isso, não percebo como é que algumas pessoas concluem que ideia o Utilitarismo defende que o bem e o mal são opiniões ou convenções e que por isso não se poderia fazer julgamentos morais. Concluo exactamente o contrário, independentemente de concordar ou não com a teoria moral. Por exemplo, um violador causa sofrimento às suas vítimas, por isso fico embasbacado quando respondem com "segundo quem? segundo o violador?". O Utilitarismo é relativista (depende das consequências: prender arbitrariamente é mau porque faz o preso sofrer, mas prender um violador para evitar sofrimento), mas não depende de opiniões.
¶13 Devemos dar o lugar no autocarro? Alguém com uma deficiência nas pernas, sofrendo imenso enquanto aguenta-se de pé, não deve dar o lugar. Os que têm mais força e equilíbrio é que devem dar o lugar aos que têm mais dificuldade. Que dieta devemos ter? Se todos seguíssem a mesma dieta, muitos ficariam doentes - depende pelo menos da constituição física, dos hábitos e da saúde. Isso é relativista e verdadeiro independentemente de opiniões. Há alguém que discorda? Porquê?
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¶12 O Utilitarismo é só um exemplo; existem muitas outras teorias. Apresentei alguns conceitos e o exemplo do Utilitarismo para verificarem que existem muito mais hipóteses sobre a moral do que podiam pensar.
Sugestões para se informarem mais:
- Thinking Critically About the "Subjective"/"Objective" Distinction - Sandra LaFave (West Valley College)
- Varieties Of Objectivity
- Relativism and Moral Subjectivity
- Internet Encyclopedia of Philosophy
- Introducing Philosophy 11: Ethics - Paul Newall
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Notas sobre os comentários:
Se os comentários não estiverem relacionados com o artigo, não serão moderados, desde que não tenham links para fazer publicidade ou que choquem através de imagens violentas, ou pornográficas ou com conteúdo ilegal. Não o respondo na caixa de comentários - se disponível, faço-o num artigo. Recomendo que não incentivem discussões alheias nas caixas de artigos nem cedam a provocações. Quem não disser nada sobre o artigo, não tem nada a dizer sobre ele.
08 junho, 2010
Ressurreição de Jesus - 2) O túmulo vazio
[imagens ao lado, de cima para baixo: visão de Paulo a caminho para Damasco; visão em Revelação; visão de Pedro; visão de Estêvão; Jesus na Igreja de Éfeso (Scott Hahn)]
¶1 Seguindo o artigo anterior, sugiro que devemos recorrer aos documentos pré-marcanos (anteriores ao Evangelho Segundo Marcos) para conhecermos as crenças dos apóstolos. William Lane Craig fez isso: começou o seu argumento do sepulcro vazio com base numa de uma epístola de Paulo para defender os evangelhos como históricos:
¶4 O maior problema do argumento do túmulo vazio é que baseia-se em documentos que se parecem com boatos que passam nos e-mails e notícias sensacionalistas, e através deles, pressupõe-se o que os apóstolos não escreveram, como se fosse implícito o que foi escrito depois de morrerem, para além de excluir crenças dos apóstolos com o pressuposto de que os judeus não as tinham. O túmulo vazio seria uma prova tão boa, ainda por cima de um rico do Senedrim (em Marcos, um membro de um bouleutēs que não existia...), que se esperava que os apóstolos o mencionassem antes do evangelho de Marcos (quando estavam vivos!), em vez de descreverem apenas visões e vozes no céu, no deserto e nos sonhos, e, se fosse conhecidos publicamente, esperava-se que os seus inimigos os respondessem a tal alegação (qual foi a polémica judaica?). Aliás, nem se sabe onde seria Arimateia - só em Lucas é dito que fica na Judeia - e ainda por cima José de Arimateia seria um discípulo secreto que, começou por ser mencionado em Marcos e parece que os outros evangelhos mais antigos usaram-no como fonte.
¶5 Quais são os historiadores e escolares bíblicos que dizem que são documentos históricos, ainda por cima fidedignos, para que Craig use o que chama de "factos" nas suas premissas? Até teólogos e historiadores cristãos, como John Dominic Crossan (que costuma ser convidado em documentários sobre Jesus), dizem que os evangelhos não são documentos históricos. Deixo algumas referências:
¶1 Seguindo o artigo anterior, sugiro que devemos recorrer aos documentos pré-marcanos (anteriores ao Evangelho Segundo Marcos) para conhecermos as crenças dos apóstolos. William Lane Craig fez isso: começou o seu argumento do sepulcro vazio com base numa de uma epístola de Paulo para defender os evangelhos como históricos:
«Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras e que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também. Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo.»¶2 Mas Paulo não disse que o corpo de Jesus foi colocado num túmulo que foi três dias depois encontrado vazio. Isso é um pressuposto através da leitura dos evangelhos canónicos. O que Paulo disse não é inconsistente com o corpo enterrado, que manteve-se no mesmo lugar em decomposição. Para os judeus, o terceiro dia era uma prova de que estava mesmo morto. Alguns autores hebreus apocalípticos acreditavam na ressurreição do espírito, daí as aparições como as de Damasco, consistentes com as crenças gnósticas e zoroástrica. São Paulo mais à frente continuou com:
«Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos? E com que corpo vêm? Insensato! O que semeias não recobra vida, sem antes morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo da planta que há de nascer, mas o simples grão, como, por exemplo, de trigo ou de alguma outra planta. Deus, porém, lhe dá o corpo como lhe apraz, e a cada uma das sementes o corpo da planta que lhe é própria. Nem todas as carnes são iguais: uma é a dos homens e outra a dos animais; a das aves difere da dos peixes. Também há corpos celestes e corpos terrestres, mas o brilho dos celestes difere do brilho dos terrestres. Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua e outra a claridade das estrelas; e ainda uma estrela difere da outra na claridade. Assim também é a ressurreição dos mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso; semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual. Como está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o segundo Adão é espírito vivificante. Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo veio do céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o homem celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do homem celestial. O que afirmo, irmãos, é que nem a carne nem o sangue podem participar do Reino de Deus; e que a corrupção não participará da incorruptibilidade. Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. É necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade.»¶3 O Evangelho Segundo Lucas descreve Jesus ressuscitado com um corpo com carne e ossos: «apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho». Pois, mas contradiz a transformação para um corpo incorruptível sem carne nem sangue, como os corpos imortais de anjos, dos deuses greco-romanos e dos humanos que passaram para Hades, cujos cadáveres tinham moedas nas bocas ou nos olhos para pagarem o barqueiro Caronte, em vez de voltarem para assobrarem os vivos. Suponho, no entanto, que os cadáveres e as moedas continuavam no mesmo lugar. Flávio Josefo, um fariseu, disse em Antiguidades Judaicas e em Guerras Judaicas que os fariseus acreditavam na imortalidade do espírito e que era introduzido em corpos diferentes na ressurreição. E existem aparições de Elvis Presley (que deram origem ao Elvismo) e agora existem alegações sensacionalistas de que a sua campa foi encontrada vazia. O que isso prova?
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¶4 O maior problema do argumento do túmulo vazio é que baseia-se em documentos que se parecem com boatos que passam nos e-mails e notícias sensacionalistas, e através deles, pressupõe-se o que os apóstolos não escreveram, como se fosse implícito o que foi escrito depois de morrerem, para além de excluir crenças dos apóstolos com o pressuposto de que os judeus não as tinham. O túmulo vazio seria uma prova tão boa, ainda por cima de um rico do Senedrim (em Marcos, um membro de um bouleutēs que não existia...), que se esperava que os apóstolos o mencionassem antes do evangelho de Marcos (quando estavam vivos!), em vez de descreverem apenas visões e vozes no céu, no deserto e nos sonhos, e, se fosse conhecidos publicamente, esperava-se que os seus inimigos os respondessem a tal alegação (qual foi a polémica judaica?). Aliás, nem se sabe onde seria Arimateia - só em Lucas é dito que fica na Judeia - e ainda por cima José de Arimateia seria um discípulo secreto que, começou por ser mencionado em Marcos e parece que os outros evangelhos mais antigos usaram-no como fonte.
¶5 Quais são os historiadores e escolares bíblicos que dizem que são documentos históricos, ainda por cima fidedignos, para que Craig use o que chama de "factos" nas suas premissas? Até teólogos e historiadores cristãos, como John Dominic Crossan (que costuma ser convidado em documentários sobre Jesus), dizem que os evangelhos não são documentos históricos. Deixo algumas referências:
- Jesus’ Resurrection: Fact of Figment? A Debate Between William Lane Craig and Gerd Lüdemann - Roy W. Hoover
- The Birth of Christianity: Discovering What Happened in the Years Immediately After the Execution of Jesus - John Dominic Crossan
- The Case Against The Empty Tomb - Peter Kirby (The Journal of Higher Criticism; Drew University)
- Putting Away Childish Things: The Virgin Birth, the Empty Tomb, and Other Fairy Tales You Don't Need To Believe To Have A Living Faith - Uta Ranke-Heinemann (Sociology of Religion; Oxfourd Journals)
- The Jesus Controversy, perspectives in conflict - John Dominic Crossan, Luke Timothy Johnson, Werner H. Kelber
- Áudio:
- Will the Real Jesus Stand Up? - William Lane Craig, John Dominic Crossan
- Vídeo:
- Jesus the Man Crucified - Dr. Borg & Dr. Crossan
- A Death in Jerusalem - Crossan (The Jesus Seminar)
- Did Jesus Rise From The Dead - Bart Ehrman Vs William Lane Craig
- Can Historians Prove that Jesus Rose from the Dead? - Bart Ehrman
- Did Jesus rise from the Dead? - Shabir Ally
- Resurrection of Jesus: Fact or Fiction? - Hector Avalos
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¶6 O outro problema é fundamentar-se na estranheza da natureza dos testemunhos. Acho que Craig tem razão quando diz que as mulheres, tal como as crianças, não eram consideradas boas testemunhas entre os judeus. Os homens oravam: «Dou-te graças, Senhor, Rei do Universo, por não me teres feito mulher» [Sedar] Mas no Evangelho Segundo Marcos, as mulheres falham na tarefa de testemunhas e os destinatários eram gentis romanos, que tinham várias deusas (Vénus, Ceres, Diana, Vesta, Minerva) e sacerdotisas, e onde os judeus de influência helénica eram liberais e as judias podiam ter a sua propriedade, ter uma educação, serem chamadas para o serviço militar e serem presidentes de sinagogas. Além disso, São Paulo separou a Lei do seu cristianismo, os evangelhos descrevem uma grande aproximidade de Jesus em relação à franja da sociedade [Mc 5:26 ; Mc 10:14; Mt 5] e até o papel de Madalena nos evangelhos, especialmente os apócrifos de Filipe, Tomé e Madalena, deram origem aos conhecidos exageros n'O Código de Da Vinci.
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¶7 Finalmente as conversões dos apóstolos, especialmente de São Paulo: por que é que alguém se torna aquilo que perseguia? Existem algumas especulações dadas por neurologistas ao que é descrito no livro dos Actos. Sabe-se que existe uma relação entre a epilepsia e intensas experiências religiosas, por isso neurologistas especulam que a experiência de São Paulo sugira sofresse de epilepsia do lobo temporal. Supostamente a obsessão em relação aos cristãos levaria-o, ironicamente, a sentir-se perseguido por aqueles que perseguia, numa das suas alucinações: «Saulo, Saulo, por que me persegues?» ... «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.» (At 9:4). Num documentário da Discovery Channel, chamado Saint Paul, é dito que na Palestina a actividade sísmica é muito comum e os terramotos são muito mencionados na Bíblia (em Actos um terramoto destrói as portas de uma prisão), o que leva à ideia de que um abalo terá despoletado um ataque epilético. A epilepsia pode levar à prosopagnosia e cegueira temporária que, juntando a sintomas descritos nas cartas, explica muito bem o evento e mudança.
¶8 Mas parece que é dado demasiado crédito ao Livro dos Actos, tendo em conta que a historicidade desse livro é duvidosa entre escolares. Ainda por cima Actos contradiz sistematicamente as epístolas de Paulo. O modo como ele escreve as cartas leva as ideias de que tinha mau carácter, causando brigas e divisões através de doutrinas que não eram aceites pelos apóstolos, levando à suspeição de que tinha infiltrado no meio dos cristãos para legitimizar a sua teologia. Vridar propõe que o autor de Actos conhecia a Epístola aos Gálatas e que as discrepâncias são intencionais. Teria observado que a descrição da conversão de Paulo compara-o com os profetas Elias, Jeremias e Moisés e que podia ter o intuito de colocar-se acima dos apóstolos em autoridade.
¶9 Por que os apostólos haveriam de morrer por uma mentira? Na Bíblia só está descrita a morte de um apóstolo (para além de Judas): Tiago, irmão de João, morto à espada por ordem de Herodes. Não descreve a sua postura antes de morrer, ao contrário das tradições com origem nos apócrifos sobre a morte dos outros apóstolos, que queriam morrer e até convertiam os carrascos. Mas esses apócrifos foram considerados espúrios e heréticos desde Eusébio, ou os relatos são contraditórios. [1; 2; 3; 4; 5; vid1; vid2; vid3; vid4] . A pergunta assume que os apóstolos morreram pela sua fé, quando nem se sabe como morreram. Mesmo se fossem apanhados e dissessem que foi tudo mentira, seriam libertados?
¶10 Mas os cristãos eram perseguidos, torturados e condenados à morte pelos romanos. Se imensas pessoas dizem que viram Jesus, por que iriam arriscar a sua vida e até aceitar morrer por essa crença, se mentiam? Ora, a pergunta tem três pressuposições: 1) os discípulos viram Jesus em carne e osso ressuscitado; 2) se tiveram fé numa falsidade, então sabiam que é uma falsidade; 3) não se morre por causa de uma mentira. Existe pelo menos uma pessoa que acha que tem poderes do Dragon Ball, com discípulos, que levou uma ajoelhada na cara até sagrar, para além de ter perdido 5000 dólares. Porque raios se expôs a isso tudo, se sabia que era mentira? Joseph Smith, o fundador do mormonismo que revelou o Livro de Mórmon, foi morto por uma turba antes de ser julgado. Os Smith e os mórmons foram perseguidos por traição. Notem que, supostamente, houve onze testemunhas das suas placas de ouro com o Evangelho de Cristo nas Américas. Conclui-se que o mormonismo é verdadeiro? Jim Jones e David Koresh morreram, com os seus seguidores, motivados pelos seus cultos que lideravam. Será que por isso as suas crenças eram verdadeiras?
¶11 Se um grupo de pessoas está empenhado numa causa que dependia de um homem que amavam, é provável que sintam a sua presença depois da sua morte e tentem justificar com crenças dissonantes o que contradizia todas as suas expectativas. Em Marcos o próprio Herodes acreditava que Jesus era João ressuscitado: «Este é João, que mandei degolar; ressuscitou dentre os mortos.» («Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo»; 6:20). Por outro lado, na obra O Homem Que Se Tornou Deus, Gerald Messadié imagina Jesus safando-se em vez de morrer; no posfácio:
¶8 Mas parece que é dado demasiado crédito ao Livro dos Actos, tendo em conta que a historicidade desse livro é duvidosa entre escolares. Ainda por cima Actos contradiz sistematicamente as epístolas de Paulo. O modo como ele escreve as cartas leva as ideias de que tinha mau carácter, causando brigas e divisões através de doutrinas que não eram aceites pelos apóstolos, levando à suspeição de que tinha infiltrado no meio dos cristãos para legitimizar a sua teologia. Vridar propõe que o autor de Actos conhecia a Epístola aos Gálatas e que as discrepâncias são intencionais. Teria observado que a descrição da conversão de Paulo compara-o com os profetas Elias, Jeremias e Moisés e que podia ter o intuito de colocar-se acima dos apóstolos em autoridade.
¶9 Por que os apostólos haveriam de morrer por uma mentira? Na Bíblia só está descrita a morte de um apóstolo (para além de Judas): Tiago, irmão de João, morto à espada por ordem de Herodes. Não descreve a sua postura antes de morrer, ao contrário das tradições com origem nos apócrifos sobre a morte dos outros apóstolos, que queriam morrer e até convertiam os carrascos. Mas esses apócrifos foram considerados espúrios e heréticos desde Eusébio, ou os relatos são contraditórios. [1; 2; 3; 4; 5; vid1; vid2; vid3; vid4] . A pergunta assume que os apóstolos morreram pela sua fé, quando nem se sabe como morreram. Mesmo se fossem apanhados e dissessem que foi tudo mentira, seriam libertados?
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¶10 Mas os cristãos eram perseguidos, torturados e condenados à morte pelos romanos. Se imensas pessoas dizem que viram Jesus, por que iriam arriscar a sua vida e até aceitar morrer por essa crença, se mentiam? Ora, a pergunta tem três pressuposições: 1) os discípulos viram Jesus em carne e osso ressuscitado; 2) se tiveram fé numa falsidade, então sabiam que é uma falsidade; 3) não se morre por causa de uma mentira. Existe pelo menos uma pessoa que acha que tem poderes do Dragon Ball, com discípulos, que levou uma ajoelhada na cara até sagrar, para além de ter perdido 5000 dólares. Porque raios se expôs a isso tudo, se sabia que era mentira? Joseph Smith, o fundador do mormonismo que revelou o Livro de Mórmon, foi morto por uma turba antes de ser julgado. Os Smith e os mórmons foram perseguidos por traição. Notem que, supostamente, houve onze testemunhas das suas placas de ouro com o Evangelho de Cristo nas Américas. Conclui-se que o mormonismo é verdadeiro? Jim Jones e David Koresh morreram, com os seus seguidores, motivados pelos seus cultos que lideravam. Será que por isso as suas crenças eram verdadeiras?
¶11 Se um grupo de pessoas está empenhado numa causa que dependia de um homem que amavam, é provável que sintam a sua presença depois da sua morte e tentem justificar com crenças dissonantes o que contradizia todas as suas expectativas. Em Marcos o próprio Herodes acreditava que Jesus era João ressuscitado: «Este é João, que mandei degolar; ressuscitou dentre os mortos.» («Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo»; 6:20). Por outro lado, na obra O Homem Que Se Tornou Deus, Gerald Messadié imagina Jesus safando-se em vez de morrer; no posfácio:
«Surpreendido, igualmente por esta morte prematura, ou mesmo inexplicável, um guarda do Gólgota picou o peito de Jesus com a ponta da sua lancea consequência, era inútil quebrar-lhe as tíbias.» ... «A abundância de água referida por João, e inclusive enterrou-a aí, infligindo-lhe uma profunda ferida, mas como o Jesus não reagiu supôs que estava morto e que, por revela com o mínimo possível de dúvida que a lançada - a lancea tinha uma lâmina chata e afilada - furou a pleura e não o coração. Do coração, decerto que não sairia muita água. A abundância de água concorda com o princípio de pleurisia, que pode ser causada pela exposição prolongada de um corpo nu ao frio» ... «Porém, segundo um médico-legista interrogado, uma ferida infligida a um cadáver pode acarretar um derramamento daquilo a que se chama "sangue de cadáver", fluido constituído por soro e hemoglobina decomposta. Trata-se então de um líquido acastanhado.» ... «E ei que ainda por cima José de Arimateia e Nicodemos se armam em cangalheiros! Além disso, o costume exige que todos os judeus se retirem antes do pôr do Sol para o recinto da Grande Jerusalém. Pelo contrário, afadigam-se no Gólgota a assegurar a inumação de um inimigo público. Um tal comportamento dá que pensar, a menos que se opte pelo cepticismo. Em realidade, uma infracção explica a outra. José de Arimateia e Nicodemos sabem que Jesus não morreu. Daí a ligeireza com que ambos assumem a infracção religiosa.» ...¶12 É uma explicação baseada na estranheza de comportamentos de personagens, mas o autor (um historiador) coloca-a na perspectica de especulação para explicar as decisões na elaboração seu romance. Até médicos podem pensar que alguém está morto, por deixar de haver batimentos cardíacos, mas que deperta algum tempo depois, até na morgue - é o chamado síndrome de Lázaro, com pelo menos 24 casos documentados desde 1982. Flávio Josefo relatou um caso em que procurou três amigos que tinham sido crucificados e um deles tinha sobrevivido depois de retirado da cruz. Claro que com isso tudo não se conclui que sabemos o que aconteceu, nem sequer que Jesus não ressuscitou. Apenas mostra que temos conhecimentos, baseados na experiência e investigação científica, que explicam como poderia ter acontecido. E o que com este artigo tento mostrar é que os pressupostos de Craig não são o que chama de "factos".
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Notas sobre os comentários:
O artigo longo e os links servem para referências futuras e para quem tiver interessado em informar-se melhor sobre os temas. Agradeço os detalhes e correcções nos comentários que complementem o artigo.
Se os comentários não estiverem relacionados com o artigo, não serão moderados, desde que não tenham links para fazer publicidade ou que choquem através de imagens violentas, ou pornográficas ou com conteúdo ilegal. Não o respondo na caixa de comentários - se disponível, faço-o num artigo. Recomendo que não incentivem discussões alheias nas caixas de artigos nem cedam a provocações. Quem não disser nada sobre o artigo, não tem nada a dizer sobre ele.
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