22 julho, 2007

Fé e dúvida


«Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando;
porque o que duvida é semelhante à onda do mar,
que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte.»
- Tiago 1:6

«"Quando se duvida é preciso dirigir-se a uma autoridade,
às palavras de um padre ou de um douto,
e cessa qualquer razão de dúvida."»
- Nome da Rosa, de Umberto Eco

«"Não há progresso, não há revolução de eras,
na aventura do saber, mas, no máximo contínua
e sublime recapitulação."»
- Nome da Rosa, de Umberto Eco

«Não há progresso se este não surgir através das dúvidas»
- Pensamento hassídico


No site Montfort o senhor Orlando Fedeli, em resposta à pergunta "O que é fé?", por causa de liberalismos de um padre, escreveu: «A Fé é a virtude sobrenatural pela qual aceitamos firmemente as verdades que Deus revelou e que a Igreja nos ensina
Como sabemos quais são essas verdades reveladas? Existem livros contraditórios entre si que supostamente foram inspirados ou revelados por Deus, por vezes até entregues pessoalmente por um anjo. Ninguém nasce a conhecer essas verdades, é preciso ser ensinado. Crianças selvagens nem sequer são capazes de aprender religião ou apreender o conceito de Deus, mesmo com o esforço de padres. [1]
Segundo esse site católico, é a Igreja (Católica) que ensina essas verdades, mas em diversas outras religiões são outras fontes que merecem essa confiança. Quem não é católico não concorda. Outros cristãos têm fé em Deus e na Bíblia, mas não concordam com a Igreja nem com as interpretações da Palavra. Há ainda cristãos que têm outros livros como mais sagrados, como o Livro de Mormon, judeus acham que o cristianismo é paganismo e uma falsificação da sua fé, e islâmicos acham que judeus são impostores que falsificaram as escrituras. Há também muitas outras religiões, algumas mesmo ateias, como o budismo e o jainismo. Têm as suas testemunhas, milagres e escrituras. São falsas? Todas têm fé, mas não a mesma. Então há algum critério imparcial para definir alguma como verdadeira?

«Deus não propõe. Deus manda. Deus sendo infinitamente veraz, incapaz de errar e de nos enganar, tudo o que Ele nos diz é absolutamente certo. Por isso temos a obrigação de crer o que Deus nos diz.»
Nas organizações religiosas geralmente o objectivo da fé é a obediência. Existem até mitos em que a desobediência e o conhecimento tornaram-se a causa de todas as desgraças: para os católicos é a felix culpa. Mas não é o próprio Deus que vem ter connosco dizer o que quer, são necessários intermediários: os sacerdotes. Na práctica, é a eles que se obedece.

Abraão mostrou a sua fé obedecendo Deus, que tinha mandado sacrificar o seu filho como uma cabra. Neste caso, foi impedido, mas na Bíblia há casos menos conhecidos em que filhos são sacrificados a Deus, seja como primícias ou por promessas (Ex 13:15; 22:29; 34:19; Le 27:28-29; Jz 11:30-40 ). Até o cristianismo funda-se num sacrifício humano para salvar a humanidade dos pecados, como um bode espiatório. Mas mesmo sem sacerdotes, há até quem ouça vozes, supostamente de Deus, que manda matar. "Foi Deus que mandou": é uma desculpa suficiente. [2]

No 87º episódio do Star Trek: The Next Generation, chamado Devil's Due, um povo vivia bem, mas com uma profecia que indicava o fim desse bem-estar. Parecia ser confirmada com a chegada de uma estranha que ameaçava com poderes milagrosos, desaparecendo, reaparecendo, transformando-se em monstruosidades e provocando terramotos. Tinham de obedecer, ou desapareciam. Picard duvidava, começando por acreditar que era uma farsa. Até teve dúvidas disso quando presenciou os milagres. No entanto, com um teste, conseguiu reproduzir esses milagres e anulou os poderes da deusa, que não passava de uma farsa. Era como usando a nossa tecnologia tornássemos deuses numa tribo que a desconhece. Aconteceu quando os astecas receberam os espanhóis, devido a uma profecia que os levou a acreditar que Cortéz era o deus-rei Quetzalcóatl. Montezuma esforçou-se para acreditar nas crenças cristãs, apesar de pensar haver absurdos relacionados com a eucaristia e sacrifício de Cristo. Os astecas acabaram por serem conquistados, explorados e mortos. [3]

E se criássemos uma vida, como um Frankenstein, a definição de bom e mau dependeria do seu criador? Se fosse ordenado que matasse, seria bom, e a desobediência seria má, como no caso do rei Saul? Parece-me que é essa a lógica dos mitos.

«Perde-se a Fé quando se coloca em dúvida qualquer verdade que Deus revelou e que a Igreja ensina como dogma ou como verdade de Fé que deve ser crida por todos os fiéis.»
Podemos acreditar em algo, mas, no entanto, ter dúvidas. Em geral temos diferentes pesos de confiança, que é dinâmica de acordo com a nossa experiência. A nossa confiança em algo cresce se corresponde às nossas expectativas, caso contrário diminui: isto é aprender. Técnicas de programação na Inteligência Artificial, como a programação evolutiva, lógica fuzzy e redes neuronais, permitem os programas melhorarem-se com o tempo,com treino e aprendendo, permitindo, por exemplo, construção de robots, o reconhecimento facial, análise de voz, traduções, etc. A fé é uma certeza absoluta, um dogma, por isso não permite essa dinâmica. É necessário que seja verdadeira ou o erro será sempre mantido, porque não é possível ter dúvidas e, consequentemente, corrigir. Para manter este estado estático ora-se: «Convém rezar sempre pedindo a Deus que nos mantenha fiéis aumentando a nossa Fé que é uma certeza sobrenatual em tudo o que Deus revelou e que a Igreja ensina».

Alguns fóruns religiosos quando são feitas referências à dúvida, diz-se que é a maior inimiga da fé. Escrevem coisas como «verdadeiramente a dúvida é a grande vilã que impede o agir de Deus na vida das pessoas» e «o diabo é o pai da dúvida, da mentira, para que fiquemos desesperados na hora da luta». Testemunham que salmoniando para afastar a dúvida ou o diabo, conseguiram afastar o medo e acções que acham que não aguentariam de outro modo - como ser operado por um cirurgião. [5] Faz-me lembrar uma experiência que se fez no emprego, em que repetia várias vezes "sou leve como uma pena" para ser levantado facilmente, graças à auto-sugestão, por dois colegas que também salmoniavam. É claro que antes tinha sido feita uma experiência sem a auto-sugestão e os meus colegas tinham dificuldade em levantar-me.

O artigo Dúvida - O Pecado que Deus Mais Odeia, de David Wilkerson, começa com a seguinte frase: «De todos os pecados que podemos cometer, a dúvida é o mais odiado por Deus». É dado um exemplo citando o Salmo 106:6-7, que é explicado com as seguintes palavras: «"Dá para acreditar? Nosso Senhor se moveu de modo sobrenatural em nosso favor, livrando-nos do inimigo. Mas, mesmo depois desse incrível milagre, desconfiamos dEle. Como pudemos provocar a Deus dessa maneira?"»

«Todavia, o Senhor não vai operar através de um povo cheio de dúvida e descrença. A Bíblia diz: "sem fé é impossível agradar a Deus" (Hebreus 11:6).»
«Até mesmo Jesus foi impedido de operar maravilhas quando o povo não cria. "E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles" (Mateus 13:58).»
É precisamente o título deste blog: Crer para Ver. Quando era criança, imagens na TV com o Pai Natal transportado pelas renas, um ponto luminoso que se move no céu escuro e uma figura humana à noite perto da árvore de Natal eram provas de que o Pai Natal existe. Se tivesse a mesma atitude perante esta crença que sugerem nestes sites, não podia duvidar nem deixar de acreditar. Deixava de receber prendas se duvidasse. Mas também, se não acreditasse, deixava de ver o Pai Natal nas sombras do quarto e nas luzes do céu. Agora penso que essas luzes eram estrelas ou aviões, a figura à volta da árvore era o meu pai e o Pai Natal na TV era apenas um actor.
Quando somos crianças acreditamos que existem monstros que vemos à noite. Filmes inspiram-nos terror à noite, e livros podem influenciar-nos. Mesmo acreditando, a dúvida é suficiente para que as imagens horríveis desapareçam, aproximando-nos delas. Na cama, é possível estarmos conscientes, mas paralisados, sentindo um peso no peito e alucinar - chama-se paralisia do sono. [5] Já me aconteceu, e pensei ver o meu irmão à minha frente. Em certas culturas, vêem duendes, vampiros, figuras femininas, extraterrestres e até há quem pense que esteja a ser violado. O que vêem dependem do que acreditam.
Segundo a Bíblia, Jesus, quando fala sobre sinais, avisa para terem cuidado com falsos cristos, falsos profetas e daqueles que operam maravilhas (Mateus 24:24). No caso das maravilhas, existem feiticeiros cuja magia depende da crença. Na Índia, gurus exorcisam demónios. Transformam o leite dos côcos em sangue e flores. Andam sobre a água e o fogo. Na série Is It Real?, da National Geographic, um desenganador na Índia fingia ser um guru, conseguindo exorcisar uma menina possessa, para depois dizer que não era verdade e sugeria que para a próxima duvidassem esses milagres, que são usados para ameaças e extorsão. Então, que razão há para confiar absolutamente num indivíduo, se não se deve confiar quando outros conseguem o mesmo? E como o identificamos passados milhares de anos, sem sermos eludibriados? Com a fé?
Há muitos exemplos, que mostrarei noutros artigos, como uma arte marcial onde só é possível projectar crentes.

«Mas eles ainda duvidaram de Deus, considerando Seus poderosos feitos como algo de ocorrência natural
As trovões e as erupções vulcânicas expressavam a ira dos deuses. Várias enfermidades eram explicadas através de possessões demoníacas, castigos divinos ou resultados do pecado. Imensas pessoas foram acusadas de bruxas e condenadas à morte, porque foram responsabilidades por eventos que mais tarde foram explicados como fenómenos naturais.
O berço da ciência surgiu na Jónia, ilha da Grécia, quando os seus habitantes artesão e mercados perceberam que as crenças religiosas estavam em conflicto, começaram a duvidar, a especular e a experimentar [6]. Essa nova atitude chama-se filosofia ("amor pelo saber") e permitiu imensas descobertas que mudaram o mundo. As dúvidas e especulações tornaram-se blasfemas, como dizer que a Lua não era um deus mas apenas uma rocha. Proibir as dúvidas e a consideração de hipóteses alternativas desincentiva a investigação.

No artigo Dúvida. Quem nunca teve?, no blog Inquietações de um aprendiz, Márcio Rosa diz: «Se ninguém duvidasse de nada, a pesquisa, o debate e o interesse pelo conhecimento seriam completamente inócuos. Portanto, use sua dúvida para conhecer ainda mais a Deus.» Apesar disso, a dúvida é algo indesejável, como uma doença que tem de ser curada, com a fé como objectivo:
«peça sempre para o Senhor ajudá-lo a vencer sua incredulidade, você não vai ser julgado por isso, mas ajudado». Coloca exemplos do Novo Testamento: “Senhor, eu creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade” (Marcos 9:24), “Homem de pequena fé, por que você duvidou?” (Mateus 14:30-31) e "Pare de duvidar e creia" (João 20:27-28).
Uma determinada crença com tanto mérito, ou até menos, que outras, mas é tratada de modo especial. Há uma certeza absoluta, e qualquer dúvida é suprimida pela oração, mesmo com evidências contrárias. Crentes tentam converter questionando e fazendo duvidar de crenças alheias. Há até manuais para o efeito, com respostas a perguntas de descrentes. Ou seja, só é bom os outros terem dúvida - que estão sempre do lado errado -, pelo mesmo motivo que é mau nós termos grupo.
Se já existe uma crença indubitável à priori, não há maneira de mudar de ideias. É apenas uma questão de estar do lado que escolheu. E os mais fortes são os que resistem à peneira. Afinal onde está a pesquisa, o debate e o interesse pelo conhecimento?
É claro que a fé não existe apenas na religião. Também existe na política, no desporto, no senso-comum e em qualquer grupo onde haja pressão para acreditar nas suas ideias. Nestes casos, é só uma questão de se manter no lado certo, custe o que custar, independentemente de qualquer dúvida, opinião e evidências contrárias. A fé é como um condenado no corredor da morte, sem qualquer possibilidade de perdão, sem telefonema do governador. Se está certo, para quê o benefício da dúvida?


Referências:

2 comentários:

Dudyz disse...

Muito bom mesmo! Texto coeso, claro e cheio de referências. Quem dera se as pessoas se permitissem por um instante duvidar do que lhes é dito. Talvez teríamos um mundo mais harmônico e pacífico.

Pedro Amaral Couto disse...

Obrigado, dudyz.
Encontrei este vídeo no YouTube de um céptico ateu que deve interessar-te (e a muitos outros):
Belief and Dogma. Acho que é muito bom, mas infelizmente só tem 3 pontos (até agora).