29 dezembro, 2007

Extremistas ateus

No Natal o meu pai ofereceu-me o livro "Deus não é Grande", de Christopher Hitchens (ironicamente tem "Christ" ["Cristo", em inglês] no seu nome, como em "Christmas"). É a primeira obra desse autor que leio. Tal como Richard Dawkins (li apenas um livro dele: "O gene egoísta"), é considerado um militante ateu agressivo, e até extremista.


Há algumas semanas assisti uma entrevista com Dawkins, penso que na "BBC World", e ele dizia que as crianças não deveriam ser doutrinadas, mas que deviam aprender diversas religiões, para se decidirem de livre vontade. Também li uma entrevista dele na revista "Sábado" (portuguesa), de 11 de Outubro de 2007.
A respeito da existência de Deus, o entrevistador diz «Mas deixa uma possibilidade em aberto...», e Dawkins responde: «Como é que uma pessoa razoável pode não admitir essa possibilidade? Tal como podemos admitir a possibilidade da existência de fadas. O que não significa que a hipótese deva ser levada a sério.» Disse que teve uma educação religiosa: «Tal como a maioria das crianças inglesas ia à igreja aos domingos e na escola estudava a Bíblia. Aos 9 anos surgiram as minhas primeiras dúvidas. Apercebi-me de que existiam muitas religiões e que não podiam estar todas certas. Além disso, fiquei com a noção de que era apenas um acidente geográfico ter sido educado num ambiente cristão. Retomei a minha fé aos 13 anos, quando fiz a confirmação, mas dois anos depois deixei de acreditar.»
Ele diz que uma sociedade sem religião seria melhor, mas quando questionado se acredita que a religião é a raiz de todo o mal, como indicado no título de um seu documentário ["Root of all Evil"] responde que não: «A religião é a raiz de muitas coisas más, como algumas guerras, mas não de tudo. Lutei muito para que esse título fosse mudado, mas não o fizeram.» Fala de entrevistas que fez, e disse que o que chocou mais foram de um americano chamado Michael Bray, que "gostava da ideia de matar médicos que faziam abortos", e um judeu americano, chamado Yusuf Khattab, que "se converteu ao islamismo e passou odiar os judeus" [assisti um trecho sobre isso no YouTube] [1].
No final diz que «Quando aparecem os fundamentalistas estamos demasiado habituados à ideia de que a religião não deve ser discutida».


Já li o livro de Hitchens. As citações no início dos capítulos lembram-me os livros de Carl Sagan, mas Sagan é mais um divulgador de Ciência, e Hitchens parece ser mais um historiador (também é autor de "Thomas Jefferson: Author of America", "Thomas Paine's «Right of Man»: A Biography", "Letters to a Young Contrary" e "Why Orwell Matters" - da pequena nota biográfica) e crítico das religiões. Começa por colocar um aviso sobre ataques ad-hominem («Se o leitor a quem se destina este livro quiser ir para além da discordância com o autor e tentar identificar os pecados e deformidades que o incentivam a escrevê-lo» [...]), e a sua experiência religiosa, referindo-se primeiro à «mulher boa, sincera e simples, de fé estável e decente», Jean Watts, que dava-lhe «aulas sobre a natureza e as também sobre as escrituras», mas que certa vez, com 9 anos, chocou-se com certas palavras dela: [...] «a minha professora conseguira interpretar tudo mal em apenas duas frases. Os olhos estavam ajustados à natureza, e não o contrário».

É um livro muito interessante e bem escrito. As referências, no final, ocupam 8 páginas, com referências às páginas, e inclui links. Ele critica severamente Madre Teresa de Calcutá [2] e Gandhi, mas elogia Martin Luther King (que chama de Dr. King), e até ao referir que ele gostava de beber muito e de moças mais novas que a sua mulher não destoa o seu respeito. Também diz que tinha uma simpatia pelo papa João Paulo II, mas que por outro lado teve certas fixações, como pelo preservativo e a SIDA (ou AIDS, no Brasil).
Conta as suas viagens, como a Teerão, episódios com seus companheiros crentes (certa vez até foi confundido com uma reencarnação de um deus), entrevistas, etc.
«O argumento da fé é a base e a origem de todos os argumentos, porque é o começo - mas não o fim - de todos os argumentos de filosofia, ciência, história e natureza humana. É também o começo - mas de modo algum fim - de todas as controvérsias sobre a vida boa e a cidade justa. Precisamente porque somos criaturas ainda em evolução, a fé religiosa é inextirpável. Nunca se extinguirá, ou, pelo menos, não se extinguirá enquanto não ultrapassarmos os medo que temos da morte, do escuro, do desconhecido e uns dos outros. Por este motivo, eu não a proibiria, ainda que pensasse que podia. Dirão, talvez, que é muito generoso da minha parte. Mas os religiosos conceder-me-ão a mesma indulgência? Pergunto isto porque existe uma diferença verdadeira e séria entre mim e os meus amigos religiosos, e os amigos verdadeiros e sérios são suficientemente honestos para admitir isso. Eu contentar-me-ia em ir aos bar mitzvahs dos seus filhos, em maravilhar-me com as suas catedrais góticas, em "respeitar" a sua crença de que o Alcorão foi ditado, ainda que exclusivamente em árabe, a um mercador analfabeto, ou em interessar-me pelos consolos wicca, hinduístas e jainistas. E parece que continuarei a agir desta forma sem insistir na delicada condição recíproca - que é a de que, como consequência, me deixam em paz. Porém, no fundo, a religião é incapaz de fazer isto
Fala sobre católicos, xiitas, sunitas, judeus ortodoxos, Testemunhas de Jeová, Mórmons, hindus, budistas... e até no estalinismo. Já li "O triunfo dos porcos" [em inglês: "Animal Farm"] e "1984" de George Orwell, e no segundo há trechos como: «Somos os sacerdotes do Poder. Deus é poder.», [...] «se puder fugir à sua identidade, se puder fundir-se no Partido, então ele é o Partido, e é omnipotente e imortal», «Acreditas que os seres humanos não têm capacidade para se governar, por isso...», «No alto da pirâmide está o Grande Irmão. Este é infalível e omnipotente. Cada sucesso, realização, vitória, descoberta científica, toda a sapiência, virtude, realização, vitória, descoberta científica, toda a sapiência, inpiração. Nunca ninguém viu o Grande Irmão», [...] «completa obediência ao Estado, como também completa uniformidade de opinião em todos os súbditos.», [...] «as especulações que poderiam vir a ocasionar uma atitude de cepticismo ou de rebeldia são antecipadamente suprimidas pela disciplina aprendida na infância» [...] «faculdade de deter, de paralisar no limiar e como que por instinto qualquer pensamento perigoso.», «pureza e unidade», «manter a castidade», «Liga Juvenil Anti-Sexo», etc. Orwell refere-se à religião? Na Wikipedia é dito: «lendo Mil Novecentos e Oitenta e Quatro percebe-se que o Grande Irmão não é senão Stalin e que o arquiinimigo Goldstein não é senão Trotsky.» Hitchens citou George Orwell no seu livro: «Um Estado totalitário é, com efeito, uma teocracia, e para manter a sua posição a casta governante tem de ser considerada infalível.» ["A Prevenção da Literatura", 1946] Também coloca um trecho de "The Capive Mind", do polaco laureado Czeslaw Milosz, que dizia ter conhecido muitos cristãos polacos, franceses e espanhóis estalinistas, que afirmavam que «Estaline, o líder Comunista, cumpre a lei da história ou, por outras palavras, age de acordo com a vontade de Deus e, por conseguinte, temos de lhe obedecer». Os comunistas absolutistas simplesmente queriam substituir a religião que negavam.

Antes do capítulo dedicado aos agradecimentos, em "Conclusão: A Necessidade de um Novo Iluminismo", Hitchens, depois de referir o caso relativamente recente dos cartoons da Dinamarca, diz: «nenhum grupo de pessoas não religiosas que ameaçassem e praticassem actos violentos teriam vencido tão facilmente, nem lhes teriam arranjado desculpas».

Ainda encontrei uma série de vídeos com uma sua palestra, chamada "Christopher Hitchens on Freedom of Speech", sobre a liberdade de expressão. São esses os chamados de ateus militantes extremistas. Dawkins até foi comparado a Estaline no YouTube por um muçulmano fanático [naomi94isaCUNT; parece que ele já o removeu], e no seu canal apela aos muçulmanos [traduzido por mim]:
«O ateísmo é mau por baseia-se no acaso. É a sua escolha, Alá não pode forçá-los a submeterem-se. Mas vão ainda mais longe; há muitos ateus militante aqui que estão a tentar propagar ódio e intolerância à comunidade Muçulmana. Eles vão mentir a vocês e dizer que estão apenas a iniciar um debate civilizado e que nós, os Muçulmanos, estamos a "censurá-los". Mas na realidade o que A SEMANA DA CRITICAS AO ISLÃO tem a ver com debate civilizado? O que têm as injúrias aos nossos profetas, especialmente a Maomé (pbuh), têm a ver com debate civilizado? O que tem chamar ***** a Maomé e queimar o Corão a ver com debate civilizado? É óbvio que esses Ateus querem inicar a III Guerra Mundial connosco. Devemos unir-nos e assegurar-nos que todo esse lixo desapareça do YouTube.

Ateus Militantes que declaram guerra:
naomi94
Capnoswesome
Patcondell
kurtilein3
Atheistsatlarge
TheAmazingAtheist
Capnordinary
fakesagan

Vou listar os seus vídeos nos meus favoritos para que saibam quais os que devem denunciar ao YouTube.
»
Antes disso, Nick Gisburne foi expulso do YouTube por causa de um vídeo, chamado "Islamic Teachings Found in the Qu'ran" ["Ensinamentos Islâmicos Encontrados no Corão"], que simplesmente mostrava trechos do Corão [3]. A sociedade cristã criaciocista "Creation Science Evangelism" já tentou remover vídeos no YouTube que criticavam Kent Hovind, através de falsas denúncias de infrigimentos de copyright. Cristãos fanáticos chamam ateus de macacos, seres sub-humanos, que odeiam Deus e Jesus, que são ferramentas de Satanás, nomeadamente tony48075, que ainda disse odiar os brancos por serem racistas. O cromo diz que ninguém refutou VenomFangX, mas logo a seguir diz que não lê comentários nem assiste vídeo de ateus... Num vídeo, que também removeu, apela aos seus "companheiros cristãos" para que juntem para banirem ateus dos YouTube, especialmente o TheAmazingAtheist. E esses fanáticos fazem tudo isso com toda a impunidade! É que devemos respeitá-los...

Ora, recebi no mês passado uma mensagem de Erivelton, no ClubeCético, depois de ler alguns artigos deste blog:
«Sim estou lendo aos poucos, mas gostaria de saber o que te incentivou a agir desta maneira contra a religião?
Voce disse que tens uma doença, qual é o nome da doença mesmo?
Antes de vir para cá conversei muito com um espírita na qual diz que as escrituras é um montoado de relações de espíritos gurrreiros que se manifestavam aos homens e que eles pensavam que era Deus.
Conclusão: Considerei como um louco, pois até já admitiu que tem atestado de doente mental.
Não sei porque razão está agindo desta maneira, mas seria interessante me dar uma explicação da sua atitude.
Teus familiares são todos ateus?
Eles sabem o trabalho que fazes na internet?
Tens raiva de religião?
Condenas quem é religioso?
O que achou de hitler por matar milhões de judeus?
O que achou do catolicismo romano matar muitos incrédulos?
Acredito que não fez nenhum pacto religioso, pois não acredita em divindades.
Bom não é preciso responder minhas perguntas, mas fico sem entender como uma inteligência se comporta de uma maneira arbitrária sem provas de uma tal existência de Deus.
Tá certo que não podemos provar o que não existe, mas a pergunta seria: Deus existe?
Quero lhe dizer antecipadamente que não sou quem vai lhe julgar pelo trabalho que fazes, mas coloca na tua mente o seguinte:
Deus não criou o ser humano com a corda no pescoço e disse: Se não creres em mim, vai para o inferno Susto
Voce pode até não acreditar em Deus e isto é uma opinião particular sua que merece todo o respeito.
Existem pessoas que não são religiosas como são os protestantes e levam uma vida digna de respeito com o próximo.
Talvez voce me pergunte: O que pensa dos ateus?
Não existe diferença de um ateu para um falso profeta, ambos são anti cristos que darão conta como qualquer um no julgamento.
Já ouvi falar que existe diversos tipos de ateísmo: Forte, médio e fraco. Alguns ateus estão na balança e apenas estão precisando de um empurrão para se precipitar no abismo.
O ateísmo seria bom para se comportar da maneira como aplicas?» etc
Respondi no mesmo dia. Também devo ser considerado por ele como outro militante ateu extremista. Ao contrário dos cristãos fanáticos que dizem que Deus odeia os homossexuais, que dão graças ao 11 de Setembro e que banem livros e filmes, como o recente "A Bússola Dourada". Ao contrário dos que mataram por causa de cartoons e livros, que desejam açoitar alguém que aceitou o nome de Maomé para um urso de pelúcia e que mataram Benazir, que podia levar o Paquistão ao laicismo e democracia. Ao contrário do final do trecho supracitado! «Não existe diferença de um ateu para um falso profeta, ambos são anti cristos que darão conta como qualquer um no julgamento»Se for por criticar a impunidade de religiosos que são extremistas, e que sou extremista, pois seja.

Em breve colocarei algumas das mensagens, que estou a colocar numa Base-de-Dados sobre argumentos idiotas.


Referências e sugestões:

1 comentário:

Pedro disse...

Meu caro,

Acreditas em coincidências?

Pois neste momento, ao encontrar este artigo e o seu blog está me acontecendo uma bastante incrível.

Incrível porque eu, há poucos minutos, estava acompanhando as discussões em um tópico no Clube do Cético iniciado justamente por esse tal Erivelton que você cita. Aliás, um sujeito muito doido. A gente tem até dificuldade de entender o que ele quer dizer.

A outra coincidência é que eu tenho postado também no blogue do Mats, a quem vc também faz referência. Ou melhor, eu postava, até ele começar a bloquear meus comentários. Todos eles.

Mas eu gostaria de te fazer uma pergunta: nunca te passou pela cabeça a idéia da possibilidade do Mats ser ateu?