«Isso é um argumento falacioso por equivocação, ou falso dilema. Tu assumes que, como todos os outros deuses são falsos, então o Deus da Bíblia tem que ser Falso também. E como é que sabes que o Deus da Bíblia é Falso? Pelo simples facto de que os outros também são falsos!O historiador Stephen Henry Roberts, para resumir um texto que tinha elaborado numa newsletter em 1995, disse: «Eu defendo que nós dois somos ateus. Eu apenas acredito em menos um deus do que você. Quando perceberes a razão para não acreditares em todo os outros deuses, perceberás por que eu não acredito no vosso.»
Usando esta “lógica” (a mesma que o Dawkins usa) eu posso dizer que todos os bilhetes da lotaria são falsos, porque existem alguns que são falsos.» (...) «Mas o facto de que os bilhetes que já analisaste não têm prémio, não significa que o bilhete que sobra também não tém prémio.»
No documentário "The Root of All Evil", Richard Dawkins faz referência a um argumento de Bertrand Russel:
E assim adaptou o aforismo de Stephen Roberts com o objectivo de refutar um apelo à ignorância. Segundo os comentadores do fórum de Richard Dawkins, o "para além de um deus" serve para que se evitem argumentos que podem ser aplicados a outros deuses, função similar do Monstro Voador do Esparguete ou do Bule Celestial. [1]«O filósofo Bertrand Russel tem uma analogia. Imaginem um bule de louça chinesa a orbitar em torno do Sol. Não podem refutar a existência do bule, porque é demasiado pequeno para ser detectado pelos nossos telescópios. Ninguém, a não ser um louco, diz: "estou preparado para acreditar porque não consigo refutá-lo". Talvez devemos ser tecnicamente e estritamente agnósticos, mas na práctica somos todos ateus-do-bule. Mas vamos supor que todos numa sociedade, os professores, os anciãos de uma tribo, têm todos fé no bule. Histórias do bule seriam passadas por gerações, seriam parte de tradições da sociedade, existiriam livros sagrados sobre o bule. Então, quando alguém diz que não acredita no bule, poderia ser considerado excêntrico ou até mesmo louco. Existe um número de infinito de coisas como o bule celestial que não podemos refutar. Existem fadas, existem unicórnios, goblins... não podemos refutar qualquer uma dessas coisas. Mas não acreditamos nelas, tal como não acreditamos em Tor, Amon-Rá ou Afrodite. Somos todos ateus relativamente a quase todos os deuses que a humanidade já acreditou. Alguns de nós apenas vão para além de um deus.»
Ludwig Krippahl, no artigo «Como definirias "ateísmo"?» do seu blog "Que Treta!", escreveu algo similar:
«Admito a possibilidade de haver coisas que não podemos observar. Simplesmente não devemos afirmar que alguma dessas coisas exista porque isso é especular sem fundamento. Isto é consensual para unicórnios invisíveis ou extraterrestres de outras dimensões. Podem existir, mas se não se observam não se justifica afirmar que existem. Só que alguns chamam-me ateu porque aplico o mesmo critério ao que me dizem dos seus deuses.» (...) «A questão da existência de alguns deuses só vem à baila por causa dos que insistem que o seu é que é verdadeiro. Há imensos deuses que se pode rejeitar sem ninguém achar nada de estranho.»
É fácil lembrar-se de um argumento assim sem ter lido ou ouvido Richard Dawkins, Bertrand Russel, Stephen Roberts ou Ludwig Krippahl: simplesmente quer dizer que não se crê num determinado deus pelas mesmas razões que não se crê noutros deuses. Para transmitir essa ideia, Dawkins usou o termo "ateu" com um significado relativo - aquele que não acredita num determinado deus -, o que é bastante claro quando ele usa expressões como «ateus relativamente a quase todos os deuses» e «ateus-do-bule», cujo objectivo é enfatizar com uma palavra a similaridade entre ateus e teístas considerada no argumento, como fez Stephen Roberts. Se existem determinadas razões para assumir que algo não existe, seria incoerente assumir que outra coisa existe se existem as mesmas razões para assumir o contrário. Por que é que Mats não acredita noutros deuses, como Alá ou os deuses dos Vedas?Mesmo a analogia dos bilhetes de lotaria é péssima para refutar um falso dilema. Vamos supor que temos um molho de bilhetes e tiramos um de cada vez para ver se é premiado. Cada bilhete é 1) premiado ou 2) não é premiado: isso é uma dicotomia, isto é, só existem dois casos possíveis. Só seria uma falsa dicotomia se um argumento baseasse na ideia de que existem duas possibilidades, mas na realidade existem mais do que uma. Logo ele apresentou uma falsa analogia. [2]
Referências:
- [1]
- YouTube > I'm an atheist, and so are you.
- YouTube > About the Flying Spaghetti Monster
- Freelink > Brief history of The Quote...
- Wikiquote > Richard Dawkins > The Root of All Evil
- YouTube > One Less God
- houghton mifflin books > The God Delusion
- YouTube > Richard Dawkins "One God Further" we just believe in one less god than you
- YouTube > Root of All Evil
- Maverick Philosopher > "Some of Us Just Go One God Further"
- suite101 > Common Myths about Atheism
- Richard Dawkins > A Challenge to Atheists: come out of the closet
- The Simonyi Professorship Home Page > Snake Oil and Holy Water
- Richard Dawkins > How effective is the "one god further" argument?
- One God Further
- [2]
- Wikipedia > Dicotomia
- Wikcionário > dicotomia
- Crítica na rede > Guia das falácias > Falso dilema
- Crítica na rede > Guia das falácias > Falsa analogia
- Wikipedia > Falsa dicotomia
- Filosofia & Educação > Passos em Falso: falsas dicotomias
- Pseudo-História Colombiana > A Falácia, o Sofisma, e o Discurso Invertido na Pseudo-História
- Fallacy Files > The Black-or-White Fallacy
- Fallacy Files > Weak Annalogy
- Dicionário Cético > Falsa analogia


2 comentários:
Conclusão?
o meu ponto mantém-se: só porque os outros deuses são falsos, não quer dizer que o Deus da Bíblia é Falso.
Concordas com isto ou não, Pedro?
Olá, Mats.
Como podes ver no meu último artigo - que escrevi no Domingo - e que comentaste, é óbvio que concordo: «Isso seria uma analogia para a falsa dicotomia: 1) ou todos os deuses são verdadeiros, 2) ou todos os deuses são falsos.»
A conclusão é que os aforismos «Eu defendo que nós dois somos ateus. Eu apenas acredito em menos um deus do que você.» e «Somos todos ateus relativamente a quase todos os deuses que a humanidade já acreditou. Alguns de nós apenas vão para além de um deus.» não são como a analogia dos bilhetes. Veja nas referências finais: em Brief history of The Quote... o autor da primeira expressão escreve sobre a sua história. Em "Root of All Evil". Mas podes tentar mostrar que Dawkins disse algo isso: "como todos os outros deuses são falsos, então o Deus da Bíblia tem que ser Falso também".
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