15 março, 2009

Re: Lógica do Sabino > A teoria da evolução dos talheres > design e evolução

Continuo a responder à sátira da teoria da evolução dos talheres, de Sabino. Com o artigo pretendo que comparem a evolução do design dos talheres com a Teoria da Evolução, mostrando de forma mais aprofundada que é uma falsa analogia em relação ao registo fóssil e expondo a omissão de dados, que torna a sátira um grande argumento homem-palha. Apesar do artigo ser grande, só foco numa única propriedade que distingue o Design Inteligente da evolução: o modo como as funções são reutilizadas. Com isso mostro que a Teoria da Evolução é falsificável.


Sabemos que os talheres são fabricados e podemos observar o processo de fabrico. Por isso a comparação entre talheres ordenados e fósseis ordenados, como Shawn (aka VenomFangX) fez em 2007 [fig. 1 (3:32)], parece demonstrar que o uso de registos fósseis a favor da Teoria da Evolução é falacioso. Kent Hovind - a fonte principal de Shawn - tinha antes usado esse argumento e ele pode ser encontrado em vários sites, como o blog de Marcos Sabino. Tendo em conta que podemos observar que os talheres são fabricados e os animais reproduzem-se e sofrem mutações, no artigo anterior disse que era uma falsa analogia. [Gudotto's Weblog] Ou por outras palavras, aplicando recursivamento o que é denominado de "microevolução" - e já aceite por criacionistas -, é possível atingir as várias formas no registo fóssil. Por isso apresentei o exemplo das bananas domésticas, que têm origem numa mutação e são agora clones (não conseguem reproduzir sem ajuda e o método artificial impede que evoluem). Demonstrei que é uma falsa analogia [Crítica na Rede].

No entanto, os talheres evoluem, como qualquer outro tipo de tecnologia e cultura. Por exemplo, duas facas serviam para cortar carne. Um garfo de duas pontas substitui a faca que segurava a carne. Com três pontas, passou a ser comum usá-lo para passar a comida para a boca (em vez das mãos). Com quatro pontas, tornou-se mais fácil segurar a comida nesse processo. [figs. 2, 3, 4] Como a tecnologia muda com o tempo (ie: evoluiu) com o acumular do conhecimento, com os nossos desejos (melhorando, relativamente a eles) e reutilização de tecnologias, é possível ordená-los como nos talheres. Podia até ter sido - roda, skate, trotinete, motorizada e carro. Ou a evolução dos Sistemas Operativos. Ou podia dar como exemplo o fonógrafo, gramofone, o gira-discos, o disco-duro, a disquete, o CD-ROM e o DVD. Até podia dar como exemplo a evolução das línguas, observando que o português tem origem no latim, ou da moda, mesmo nos pormenores, como a altura das saias. Por isso a analogia entre talheres e fósseis podem ser convicentes. [vídeos: Pandadeist (3:12), DayfallKat (7:0)]

Mas a ordem não pode ser apenas de tal modo a convir uma tese. A tecnologia pode ser datada com um intervalo de erro que permite ordená-la cronologicamente. Por exemplo, facas e colheres existiam no Paleolítico, os garfos existiam na Idade Média. O conceito de spork só começou a existir no século XIX, como exemplo de objecto ridículo no poema "The Owl and the Pussycat", e os sporks só começaram a ser fabricados nos finais desse século. Logo a ordem indicada na teoria da evolução dos talheres de Sabino é incorrecta. [The (Predictable) Evolution Of Useful Things, California Academy of Sciences, Inventors, Estratosfera, Drª Shirley de Campos, Terra, History Blog, livro: The Evolution of Useful Things]

Além disso, se considerarmos os vários tipos de talheres, verificamos não ser possível ter algo como uma árvore genealógica através deles. Existem objectos que não aparentam uma transição entre um objecto para outro objecto: mais parecem combinações de objectos, como os canivetes. Existem todas as combinações possíveis: 1) colher com garfo (ex: spork), 2) colher com faca (ex: spife), 3) garfo com faca (ex: knork), 4) combinação de garfo, faca e colher (ex: kniforoon). [figs. 5, 6] Isso é de esperar num design inteligente, e podemos apresentar vários exemplos, como rádios e cinzeiros em carros, ou a inclusão das mesmas APIs em aplicações informáticas diferentes. Seres-vivos com essas características seriam como o querubim, a esfinge, o sátiro, o centauro, a sereia, a medusa, o minotauro, o pégaso, o grifo, a quimera. Isso não acontece.

Por exemplo, os cetáceos têm barbatanas, mas para elas não foram reutilizadas barbatanas dos peixes - foram patas de mamífero, com cinco dedos. Os leões marinhos também têm barbatanas, e vê-se bem os cinco dedos nelas com garras. O morcego tem asas, mas não são como as de aves - ele tem cinco dedos enormes com membranas interdigitais nas suas extremidades. [fig.7] É o que se espera na evolução convergente.

No caso do ADN um caso excepcional ajuda a perceber por que é que o modo de reutilização dos genes e funções interessa: bactérias parasitas e vírus transferem os seus genes para o ADN de outras espécies. Assim, no ADN humano reparamos várias sequências de genes de vírus, como pequenas funções de um software que é reutilizado noutro software. [Wikipedia; vídeo: cassiopeiaproject; cdk007; DonExodus2; standup4REALscience] Mas o mesmo tipo de reutilização dos genes não acontece nos outros seres-vivos, que transferem os genes na vertical - por reprodução, dos ascendentes para os descendentes . Se existe um designer inteligente, então não criou os seres-vivos como os engenheiros e inventores fazem. Fez de um modo que se confunde com a Teoria da Evolução. E com isso mostrei que a Teoria da Evolução é falsificável. Animais, como os ilustrados pelos cartoonistas da AnswersInGenesis [ao lado], ou como o crocoduck, refutariam a Teoria da Evolução.

Este artigo é grande, apesar de ter cortado secções que existiam e tornavam-o maior. É que a teoria da evoluçãos dos talheres de Sabino (ou de Kent Hovind, ou de VenomFangX) é muito interessante e daria uma obra de várias páginas - por isso pensei em criar um e-book sobre ela. Permite comparar as caricaturas dos criacionistas com a verdadeira Teoria da Evolução e explicá-la mais facilmente comparando-a com a teoria da evolução dos talheres. Podemos aplicar os mesmos argumentos deles aos talheres, por exemplo dizendo que não há aumento de informação entre a faca para a colher (apenas muda), da colher para o spork e do spork para o garfo (só diminui). Expõe as falsas analogia, homem-palha e omissão de dados num único argumento por meio de uma sátira.

2 comentários:

Miguel Milhao disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Miguel M disse...

Caro Pedro Couto,

Vais me desculpar mas eu não percebo o teu texto. Estás a defender o Sabino mas afirmas que ele não tem razão???

O que a teoria da evolução do design dos talheres que dizer é que na ausência de informação podem-se facilmente criar teorias que parecem realidade mas não passam de patetices.

O facto de demonstrares que a Teoria da evolução é falsificavel só ajuda o argumento do Sabino. Era justamente isso que ele criar demonstrar.

Cump.

Miguel