«There are many hypotheses in science that are wrong. That's perfectly all right; it's the aperture to finding out what's right. Science is a self-correcting process. To be accepted, new ideas must survive the most rigorous standards of evidence and scrutiny.»
- Carl Sagan in "Cosmos: A Personal Voyage" (ep. 4)
«The history of science, like the history of all human ideas, is a history of irresponsible dreams, of obstinacy, and of error. But science is one of the very few human activities — perhaps the only one — in which errors are systematically criticized and fairly often, in time, corrected. This is why we can say that, in science, we often learn from our mistakes, and why we can speak clearly and sensibly about making progress there. »
- Karl Popper in "Conjectures and Refutations: The Growth of Scientific Knowledge" (cap. 1)
Luciano: «O termo “ciência se corrige, no momento em que uma teoria científica é corrigida” é a falácia da composição, ou seja, a tentativa de se aplicar para o todo aquilo que é válido para uma das partes»
Luciano: «Mas o pior de tudo é que não é possível que “ciência se corrige” e “ciência não se corrige” estejam juntas, pois são logicamente contraditórias. Ou é um ou é outro.»
Luciano: «A ciência só poderia se corrigir se a ciência estivesse errada. Mas não estava. A definição de ciência segue a mesma de sempre.»
Luciano: ... «eu me corrijo, isso não implica em que automaticamente a entidade Administração seja corrigida.»
Luciano: ... «o grande objetivo do texto, ao desmistificar a expressão "ciência se corrige", era evitar a banalização do termo ciência. Deixar de olhar a ciência com olhos de "sonhador" e ver a ciência como ela realmente é. Na prática. Com todas as suas qualidades e defeitos, como qualquer área do conhecimento humano.»
Falácia de composição, essência e acidente
Professores, em geral, corrigem testes. Mesmo que escapem alguns erros e algumas respostas correctas sejam avaliadas como incorrectas, ao dizermos que corrigem os testes, dizemos uma verdade. Mesmo que, entre várias redacções, alguns erros não tenham sido corrigidos, dizemos que o professor corrige as redacções. Dizemos que nos corrigimos quando reconhecemos um erro e o emendamos. Não queremos dizer com isso que nos tornamos perfeitos e que não temos muitos outros defeitos. Os programadores informáticos disciplinados que se importam com os seus programas corrigem-nos. Podem ter uma lista de erros por corrigir - alguns marcados como incorrigíveis -, mas continuamos a considerar que a proposição da frase "os programadores corrigem programas" é verdadeira.
Durmo e como, mas não estou a dormir nem a comer. Mesmo que tenha tido uma noite em branco, continuamos a aceitar que durmo. Já tive de fazer jejuns para exames médicos e muçulmanos fazem jejuns todos os anos. Mas aceitamos que tanto eu como eles comemos e que se alguém diz que não comemos está a dizer uma falsidade. A pedras não comem nem dormem e dizemos que alguém não dorme se sofre de insónias e que não come se tiver anorexia ou recusa-se a comer - ou se fosse um anormal que não que não precisa de dormir ou comer. Diríamos que um professor não corrige os testes se as respostas estiverem todas certas, se ignora os erros ou limita-se a indicar um valor de avaliação. Dizemos que alguém não se corrige se nunca admite os seus próprios erros ou raramento o faz. E dizemos que um programador que não corrige os programas limita-se implementá-los sem os testar ou ignorando os bugs e a estrutura do código.
As teorias científicas não são irreduzíveis - pelo contrário, são estruturas conceptuais muito complexas. Por exemplo, a Teoria da Evolução é composta por várias teorias: a evolução em si, ancestralidade comum, gradualismo, multiplicação das espécies e selecção natural. [What is Darwinism?] Se partes das teorias são corrigidas, é verdade que as teorias são corrigidas. Dizer que algo é corrigido não quer dizer necessariamente que esse algo é um erro: pode ser algo que tenha erros. Além disso, corrigir ideias é uma acção aplicada às ideias, não é uma propriedade das ideias. Uma teoria não deixa de o ser por ser corrigida, tal como os testes, pessoas e programas informáticos não deixam de o ser por serem corrigidos. As correcções não fazem parte das suas essências - são, na terminologia filosófica, acidentais. [Wikipedia; Recanto das Letras; HyperFilosofia; Crítica; Wikipedia]
Teorias podem ser descartadas a favor de outras. As teorias do Éter e Flogisto servem de exemplos clássicos, que foram refutadas e substituídas pela Teoria Quântica dos Campos e pela Teoria Calórica, que por sua vez foi substituída pela Teoria do Calor. Como teorias erradas foram eliminadas como obsoletas e substituídas por outras melhores, houve correcções. O que é corrigido muda, mas não perde a sua essência - o que não é o caso nestes exemplos. Não foram as teorias que foram corrigidas, foi algo que as contém - a Ciência.
Fig.1: corrigindo P.P pode ser um programa informático e M1, M2 e M3 podem ser módulos.
P também, pode ser a Ciência e M1, M2 e M3 podem ser teorias.
A metodologia que corrige
Definições de "ciência" (P) segundo Luciano:
- «corpo de conhecimento adquirido através das práticas e pesquisas que tenham sido suportadas pelo método científico» (C)
- «sistema de aquisição de conhecimento baseado no método científico» (M)
A Ciência tem uma metodologia M para distinguir o verdadeiro do falso no seu domínio, para que se decida se uma ideia é incorporada no seu corpo de conhecimentos C ou removida de C. Como esse processo é iterativo e reconhecidamente falível, C é dinâmico, mesmo que intervenientes que implementam M estejam muito apegados a ideias antigas e recusam a actualizar C durante muito tempo. [Science for SEO] É com isso que se quer dizer "a ciência corrige-se". Nós corrigimo-nos porque nós próprios somos capazes de mudar as nossas próprias crenças. Existem robôs programados para aprenderem e serem autónomos, que podem corrigir-se, quer seja por técnicas como redes neuronais ou algoritmos de procura, como os genéticos, que implemente M aplicado em C. Se "administração" significa apenas um meio para atingir um objectivo, sem C, não faz sentido dizer que se corrige - mas corrige C que existe fora dela. Se for um grupo de indivíduos ou uma ciência - portanto, entidades -, é possível que se corrija.
Era muito comum Carl Sagan lembrar os erros e obstinação de cientistas. Ele disse que a Ciência é um processo de auto correcção depois de contar as ideias catastrofistas de Imannuel Velikovsky, e continuou dizendo que o pior não foi serem ridículas e contradizerem os factos - o pior foi cientistas terem tentado suprimir as suas ideias. [também em "Cérebro de Broca - Refexões sobre a beleza da Ciência", cap. 7] No capítulo 14, "A anticiência", em "Um Mundo Infestado de Demónios - A Ciência como Uma Luz na Escuridão", é dito que muitas vezes cientistas tiveram posturas dogmáticas que prejudicaram as vidas de outros cientistas e o empreendimento científico. O capítulo 16 tem o título "Quando os cientistas conhecem o pecado", onde é dito que a Ciência tem «responsabilidades profundas» «na má utilização das suas descobertas».
Eu próprio tinha colocado há dois anos mais exemplos no artigo "Ciência e dogma". Quando se diz que a Ciência corrige-se, tem-se em conta que humanos imperfeitos fazem parte dela e que ela não é perfeita. As contra-intuitivas Selecção Natural, Teoria da Relatividade e Mecânica Quântica sofreram oposição cerrada durante anos pela comunidade científica, consideradas absurdas. [CSUN; Discover Magazine; Florida State College] Mas a própria Ciência tem mecanismos que permitem reconhecer o valor das ideias e de correcção, sejam quais forem os preconceitos e dogmas dos envolvidos.
(A segunda parte não será logo a seguir a este artigo. Noto que o blog tem uma etiqueta chamada "semântica" e farei uma conclusão sobre disputas semânticas.)


1 comentário:
Certo,
Quer consideres a ciencia os cientistas, o conhecimento cientifico ou qualquer agrupamento destes é literalmente verdade que a ciencia se corrige.
Pois qualquer das entidades se corrige. E não ha maneira de dizer que a ciencia é irredutivel. Pelo menos até termos a Teoria de Tudo. Nessa altura a ciencia deixará de sofrer correcções.
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