27 setembro, 2009

Re: Será o comunismo realmente uma religião? > O que é uma religião?

Nota: o artigo é extenso, mas as três primeiras secções servem apenas de introdução para a última secção ("O que é uma religião?"), para que conheçam exemplos de sistemas reconhecidos como religiões nos estudos académicos da Religião, na Sociologia, na Filosofia, por muitos cristãos e inclusivé pela Igreja Católica. Existe outra indicação nessa secção para ignorarem mais texto. Este é um artigo para quem ama o conhecimento, em vez de ganhar lutas. Por favor, não digam que é muito grande ou que tem muitas referências - eu sei. Mas há gente que gosta de saber mais em vez de receitas para ganhar lutas.
«O que é então o tempo? Desde que ninguém me pergunte, eu sei. Se quiser explicar a quem me pergunta, não sei.» - Santo Agostinho de Hipona, in "Confissões" (Livro XI)

«A knowledge of the existence of something we cannot penetrate, of the manifestations of the profoundest reason and the most radiant beauty, which are only accessible to our reason in their most elementary forms--it is this knowledge and this emotion that constitute the truly religious attitude; in this sense, and in this alone, I am a deeply religious man
- Albert Einstein, in "The World as I See It"


Luciano: «
Pra mim é mto fácil.» [definir a palavra "religião"] «Estudei-a. Bastante.» (...) «Aliás, endeusamento de pessoas? Isso é OPOSTO de religião...» (...) «Idolatria é besteira. Essa é a mensagem BASE do cristianismo.» (...) «Budismo está mais para ideologia, mas não uma ideologia religiosa. Quer incluir o budismo no "case" religião também?»

Luciano: «A religião é definida como um conjunto de crenças relacionadas com o divino, transcendental e sagrado, juntamente com o conjunto de rituais, códigos morais e práticas que derivam dessas crenças.» (comparar com a Wikipedia)

Luciano: «O budismo, por não ser uma religião, mas quasi-religião (gostei do ‘quasi’), pode até ser tratado por religião. Pois tem quase tudo de religião, menos a crença em Deuses.» (...) «Budismo, talvez, uma quasi-religião. Já o comunismo é ANTI-religião ou OPOSTO-À-religião.»

Luciano: «Bom, vai ser interessante ver o que o PEdro acha que é uma religião. Pois ele, como ateu fanático e mentiroso contumaz, vai nos dar uma definição. Podemos pegar essa definição dele e ver o que RELIGIÃO NÃO É. Patético.»

Religiões primitivas
Neandertais enterravam cadáveres em cavernas, por vezes previamente descarnados. Pode ser que o fizessem por higiene e por fome. Nesse caso eram actividades mundanas, seculares, como quando lavamos as mãos antes de comer. Ou podem tê-lo feito por acreditarem que assim estabelecem uma ligação com o morto, conservando o corpo para visitá-lo e acreditando que o seu espírito está intacto, ou consumindo a sua carne acreditando que o espírito do familiar ficará dentro dele. Mais tarde, há 100 mil anos, humanos enterravam cadáveres com utensílios, capas, objectos decorativos, ossos de herbívoros, ocre vermelho. Durante o Paleolítico Superior, passaram a ser colocadas estatuetas e a serem pintadas imagens de bestas antropomorfizadas nas paredes de cavernas. Em Israel foi encontrado um esqueleto de uma mulher da cultura natufiana, separado de outros corpos, no meio de um círculo de carapaças de tartaruga, com ossos de leopardo, porcos, águias e de vacas, um pé humano e artefactos. [British Archaelogy Magazine; Science Daily; Schoyen Collection; Archaeology News Report; History of Science]

"Feitiço" tem origem numa palavra banto, que designava um objecto ou substância que se acreditava ter poderes mágicos, nas religiões da África ocidental, das religiões nativas americanas e na religião de Voodoo. A palavra portuguesa deu origem à palavra francesa "fetiche", normalmente associada ao sexo, mas começou por estar associado às religiões fetichistas e é usada na Antropologia nesse contexto. [Catholic Encyclopedia; Wikipedia; Hyeros]

O totetismo é a crença de que existe uma associação mística entre todos os membros de um grupo (clã) com antepassados, animais, vegetais ou fenómenos naturais (totems), como se tivessem a mesma identidade. Como religião, o totem é considerado sagrado, sendo até proibido ser tocado (tabu), e um protector e intermediário do clã, através de xamãs, que realizam rituais, e oferendas. Emile Durkheim, considerado o pai da Sociologia, que definiu "religião" como um sistema de símbolos, crenças e rituais que distinguem o sagrado do profano, que formam uma comunidade moral única, é conhecido por ter estudado em profundidade as religiões totemistas dos aborígenes recorrendo à etnografia. [Catholic Encyclopedia; Hyeros; Understanding the Sacred; Emile Durkheim’s Elementary Forms]

O animismo é a crença de que existem espíritos em todas as coisas, como os animais, plantas, pedras e fenómenos naturais. Na Psicologia, é um estágio infantil onde a criança personifica seres inanimados. Como uma forma de religião, entre povos colectores, crê-se que os seres-vivos, objectos e forças naturais são adorados por se crer que são capazes de intervir nos assuntos humanos. [Catholic Encyclopedia; Wikipedia; Hyeros; Encyclopedia of Religion and Nature]

Os povos com artefactos semelhantes aos usados por homens primitivos praticam essas três formas de religiões, por isso são chamadas de "religiões primitivas" (como as que o antropólogo Sir James George Frazer estudou, nos primórdios da Religião Comparada). Por exemplo, os aborígenes Walpiri constroem artefactos e fazem pinturas como os europeus de há 40 mil anos. Pintam lagartos no peito para participarem numa luta ao lado do espírito serpente arco-íris, que é venerada numa caverna sagrada com pinturas nas paredes, onde só os iniciados podem visitar depois de untarem o corpo com ocre vermelho e gordura. A sua religião é chamada de tjukurrpa.
Fig. 1: imagens de "A Vida na Terra" de David Attenborough;
- aborígenes a praticarem rituais religiosos.


Deuses e astros
Com a astrologia, os astros foram associados a deuses e mensageiros alados no Egipto, Mesopotâmia, China e na América do Sul, surgindo as religiões politeístas nacionais. Reis, considerados semi-deuses e venerados como tal, eram conservados em túmulos depois de mortos, com servos, animais domésticos, utensílios, decorações e rodeados de palavras mágicas para ressuscitarem. No Egipto, o povo unia-se para construir pirâmides que apontavam para a constelação de Órion, onde se esperava que o faraó fosse morar. A religião monoteísta mais antiga que se conhece surgiu também no Egipto, onde todos os deuses foram abolidos como falsos, excepto Aton, o Único Deus, o Deus Sol, que substituiu Amon. Mas só durou uma geração, sendo logo abolida. Os hebreus, ao contrário do que se pensa, não eram monoteístas - acreditavam que existiam vários deuses, mas apenas um, de origem cananita, merecia a adoração (monolatrismo e henoteísmo). [Love Egypt; Egyptology; Tour Egypt; Bible Origins; Wikipedia; Catholic Encyclopedia]

Contra ou sem deuses
Em 332 a.C. começou a existir uma dinastia grega (Ptolomaica) de faraós. Os gregos adoptaram elementos da cultura egípcia, incluíndo a religião, construindo templos em homenagem a deuses egípcios. Amon passou a ser Zeus, Isis passou a ser Atenas, Hator passou a ser Afrodite, Osiris passou a ser Dionísio, Anúbis passou a ser Hermes, etc. [Eternal Egypt; Sofiatopia] Eram feitas ofertas aos deuses e consultavam-se oráculos, mas com a Filosofia, houve gregos que, mesmo que acreditando na existência de deuses, deixaram de ser religiosos, alguns até acreditando que os deuses não são totalmente benévolos (disteísmo) ou até mesmo chegando ao ponto de odiarem os deuses (misoteísmo), punindo-os recusando-se a adorá-los. [Wikipedia; Shinpensburg University]


Fig2: imagem do 7º volume da Enciclopédia COMBI Visual (Religião 2)

Na Índia, o Budismo surgiu como seita do Brahmanismo (uma religião panenteísta hindu), substituíndo o Deus pelo Nirvana, um estado de espírito para a salvação deste mundo cheio de sofrimento. Esse conceito deu origem a outra religião dármica, o Jainismo. O Taoísmo é outra religião dármica, tradicionalmente politeísta. O Confucionismo, geralmente considerado apenas um sistema filosófico, pode ser considerado quasi-religioso ou uma religião de estado, onde foi substituído pelo Budismo, com adoração a antepassados, ritos, sacrifícios. [Wikipedia; Buddhism.About; Atheism.About; UrbanDharma; Dr. Ambedkar; Religion Facts; Wikipedia; Religion Facts; Standford Encyclopedia of Philosophy; Catholic Encyclopedia; Catholic Encyclopedia; Religious Tolerance]

Da filosofia Humanista passou a existir uma Religião Humanista, centrada na humanidade. August Comte, fundou a Religião da Humanidade, onde era profeta, com capelas espalhadas na França e no Brasil (curiosidade: o lema na bandeira do Brasil e a palavra "ultruísmo" deve-se a ele). [Wikipedia; Standford Encyclopedia of Philosophy; Humanism Today; Church of Humanism; Humanism of Utah] O Unitarismo Universalista é uma religião liberal, com raízes Protestantes, mas têm como membros ateus, agnósticos, cristãos, judeus, budistas, pagãos, panteístas, etc. ("many beliefs, one faith"), onde cada um procura o seu caminho espiritual pela experiência pessoal, razão e meditação. Nas congregações, aos domingos, os membros da fé estudam religiões diferentes. [Religious Tolerance; Unitarian Universalist Association of Congregations; unitarian; Apologetics; vídeo: Unitarian Universalism: You're a Uni-What?] Atribui-se a fundação da Igreja Satânica Anton Lavey, cujo credo é descrito em A Bíblia Satânica, seguida por ateus, agnósticos e deístas. A fé não se fundamenta na adoração a Satanás (que é tratado como um mero símbolo), mas no individualismo («Eu sou o próprio redentor») e têm os "9 Pecados Satânicos" e as "10 Regras Satânicas da Terra". [Church of Satan; Satanism101; Religious Tolerance; GotBible; PDF: The Satanic Bible]

No século XIX, com a popularização dos OVNIs, foram escritas obras pseudo-científicas como "Eram os deuses astronautas?", de Erich Von Däniken, e "Os deuses que fizeram o céu e a terra - o Romance da Bíblia", de Jean Sendy, que defendem que astronautas extraterrestres, chamados Elohim, chegaram à Terra e foram confundidos com deuses pelos humanos, algo como no filme e séries StarGate [vídeos: 1; 2; 3] Essa tese foi usada como base para a fundação das religiões ufólogas, onde supostamente os crentes, ou os líderes, comunicam com extraterrestres salvarem a humanidade. Por exemplo, os raëlianos são ateus e materialistas que se dedicam a seguir instruções de Claude Vorilhon, que, segundo ele, recebeu instruções dos Elohim para colonizarem outros planetas. O Movimento Internacional Raëliano tem igrejas, clero, ritos de iniciação que inclui um baptismo, organizam "meditações sensuais" que lhes trazem revelações, mudaram o seu símbolo por uma ordem dos Elohim, e consideram os profetas de várias religiões ("Prophets of Old") mensageiros dos Criadores Elohim, para guiar a humanidade para a "sabedoria", e preparam-se para recebê-los com "amor e respeito" numa embaixada.

O que é uma religião?
Uma religião não o é pelo que se crê. Por exemplo, a crença na existência de um Deus não é uma religião - pode fazer parte de uma filosofia ou fruto de mera intuição. Existiam, e talvez existam, pessoas que acreditam que deuses existem, mas odeiam-nos. Outros, como muitos deístas, não veneram deuses e consideram-se anti-religiosos, outros dizem que o deísmo é uma religião natural em oposição às religiões reveladas. [Sem Religião; Combate à religião; Deist Paladin; World Union of Deists; Jefferson Bible]

1) Dedicação e adoração
No Ocidente é costume associar a palavra "religião" à adoração a um ou mais deuses. No entanto, também é associado a sistemas de crenças, especialmente na Ásia, que não implicam crenças em deuses, como o Budismo. Sem tornar a crença na existência em divindades uma condição à definição de "religião", tornando-a um pouco mais lata, a ideia associada à palavra "religião" passa a estar a estar relacionado ao modo como se formam as crenças e a postura em associada a elas. Pode ser considerada uma forma de adoração, seja a deuses, forças naturais, humanos, animais, vegetais, objectos ou ideias. O religioso relaciona-se com uma entidade submetendo-se e dependendo totalmente dela, considerando-a superior a si mesmo e a tudo, exaltando-a. É o extremo oposto da atitude misoteísta. É comum associá-la à oração ou meditação, que formam as crenças religiosas, que são fundamentadas na autoridade pelos crentes, que nutrem uma grande afeição por elas, dedicando a sua vida nelas (), e as dúvidas nelas são consideradas males, logo uma aprovação quando as têm (dogma).

Esse conceito de religião é simples de perceber e de explicar. A imagem de um budista a prestar culto em frente a uma estátua de Buda leva-nos a considerá-lo um religioso. O Confuncionismo tornou-se uma religião de estado quando imperadores usaram a filosofia para que o povo respeitasse as suas ordens pela devoção a Confúcio, o que levou o imperador T'ai Tsung ordenar que em todas as províncias fossem construídos templos. Ateus podem ser acusados por fundamentalistas de adorarem a si mesmos - que é o que os satanistas ateus fazem, considerando-se "deuses" de si mesmos, mas não para os outros. E há a acusação de que americanos adoram ("worship") Barack Obama, em vez de Deus, formando uma religião. Mas para a Filosofia, Estudos de Religião, Sociologia, Antropologia e até para a Lei o sentido da palavra "religião" é mais complexo do que isso e de difícil definição. [Havard Law School; Cross Currents; AllAcademic; What is a Religion?; Anthropology and religion; Anthropology of religion; Religion Facts; Religious Tolerance; Wikipedia; Adherents; Wikibooks; Religion-online; Atheism.about; Infidels]

Nota: se está apenas interessado em brigas para ganhar discussões, em vez de aprender qualquer coisa, passe para a última sub-secção para não perder tempo ("Sobre discussões semânticas").

2) Caminho para a transcendência, salvação e sentimentos religiosos
Budistas tibetanos, que rapam a cabeça, vivem um estilo de vida monástico (sangha), que fazem peregrinações a lugares sagrados, que celebram dias santos, que têm livros sagrados, que fazem rituais de devoção à frente de estátuas, que vivem em função da crença de que reencarnam, que seguem um líder como o Dalai Lama, que veneram os Bodhusattvas, recorrem a Iluminados para encontrarem o "caminho para a sabedoria" e meditam para transfomarem a sua mente para se salvarem de todo o sofrimento, atingindo um estado de beatitude transcendental e uma compreensão última da realidade - como budas omniscientes -, são claramente religiosos. [Wikipedia; Religion Facts; BBC; Sacred Texts; Tibet; video: Discovering Buddhism] A meditação não tem necessariamente uma conotação religiosa. Pode ser praticada para relaxamento e aliviar a ansiedade e depressão, como um método psicoterapeutico, ou nas artes-marciais, sem haver o objectivo de se transformar espiritualmente nem de mudar o seu sistema de crenças e de vida . Mesmo que praticada religiosamente (ie: com zelo), como podemos fazer ao escovarmos os dentes, não passa a ser uma religião.

Mas um budista não o é por adorar Buda. Nem a crença da sua historicidade é uma condição para ser budista. Os Budismo não é uma religião profética: é uma religião mística. Os Iluminados (budas) ajudam os adeptos a encontrarem um caminho que os tranforma espiritualmente por cinco estágios da mente (níveis superiores de consciência) através das 4 Nobres Verdades, que os permite melhorar a moral e as suas vidas (bom karma) e salvarem-se do sofrimento com uma experiência de grande felicidade (Nirvana) - a salvação, que os torna sábios, conhecendo a realidade última (o Absoluto, que para um cristão é Deus), acabando com os seus ciclos de renascimentos (samsara). É "o caminho para a salvação", mas sem uma adoração já não é claro o motivo de ser chamado "religião", apesar da motivação e experiência ser diferente da meditação secular, tal como a diferença entre as motivações do enterro e canibalismo descritas no início deste artigo - a motivação está ligada à experiência de transcendência. [Buddhist Temples; Peter Morrell; Religious Tolerance; BuddhaNet; Buddhism.about]

Na Filosofia da Religião, a religião pode ser encarada do ponto-de-vista fenomológico das experiências religiosas, que podem estar relacionadas com um contexto material, em vez de divino, como o assombramento ao ver uma bela e enorme cascata, um forte sentimento de comunhão com os nossos "irmãos" ou um forte sentimento de dependência e nostalgia com a morte de alguém que nos apegámos durante muito tempo. Einstein chamava as suas emoções relacionadas com o desconhecido de "religião cósmica", distinguindo das "religiões do medo". Eu próprio, sem religião, posso ter sentimentos religiosos, como quando uma gata foi abatida por causa de um tumor maligno, que me inspirou a fazer a minha primeira pintura a aguarelas, depois de criança, como homenagem. O religioso dedica a sua vida a procurar ter esses sentimentos, que considera dar-lhes significado à vida e uma Verdade, geralmente associados a uma ideia de salvação e uma fé que supera as provas observadas neste mundo. Nas religiões tradicionais do Ocidente, isso implica o relacionamento com Deus ou deuses. Até o clube Benfica pode ser considerado uma religião e foi analizado como tal numa tese de licenciatura de Ciências da Religião! [Standford Encyclopedia of Philosophy; Religious-online; Sacred-Texts; Neil Rocha; Ciências das Religiões da Universidade Lusófona; Religião Benfica; videos: Benfica: uma religião; Benfica és a nossa fé]
Fig. 3: existem definições estritas e latas de religião. Definida como a adoração a um Deus é muito estrita (D). Sem "Deus" na definição, temos outra mais lata (A). Outra mais lata relaciona-se com o transcendente (T) e um caminho para a realidade última (C). Mesmo sem ter uma religião, é possível ter sentimentos religiosos. (P)

3) Comparando com não-religiões

Filosofias metafísicas, que teorizam sobre o sentido da vida e a moral, podem dar origem a religiões, como aconteceu com o Humanismo. O Humanismo Secular é simplesmente uma filosofia que centra os valores na humanidade, para que as pessoas tenham uma boa vida. No Humanismo Religioso há o conceito de salvação através da humanidade e procura-se experiências transcendentais. Para críticos do Humanismo Secular, o Humanismo é uma filosofia e uma religião que torna o Homem um deus. [Secular Humanism; Wikipedia; Creation Wiki]

O Cristianismo, por exemplo, tem uma filosofia ética, mas não tem a mesma importância no Humanismo Religioso, Budismo e Confuncionismo - a sua essência é o relacionamento com Jesus (daí acentuar-se que os outros três são filosofias). E alguns cristãos, para dizerem que no Cristianismo as obras não são importantes ou que não praticam rituais de culto, dizem que o Cristianismo não é uma religião, mas um relacionamento, ou que não são religiosos (ou não são praticantes). Neste caso, o conceito que atribuem ao termo "religião" concentra-se nos rituais. [AllAboutReligion; Knight For Christ; Debunking Skeptics; videos: Christianity Is Not A Religion]

As pseudo-ciências podem dar origem a religiões, e vice-versa, mas não são religiões por si mesmas. A astrologia é uma crença sobre a influência dos astros nas nossas vidas, o que nos permitiria fazer previsões através das suas posições, mas não implica qualquer experiência invulgar ou devoção. Associa-se o criacionismo à religião, mas tecnicamente não implica qualquer relação especial com Deus. Erich Von Däniken elaborou uma teoria sobre extraterrestres que visitaram a Terra e que foram considerados deuses. Não é uma religião, mas foi usada para formar religiões ufólogas, onde existem revelações de extraterrestres e devota-se a seguir as suas ordens para colonizarem outros planetas.

Apesar de muitas das superstições mais famosas serem religiosas - o poder da oração, o cruzar dos dedos, atirar o sal para trás das costas, o trevo da sorte, a sexta feira-treze, o medo de passar por debaixo de escadas, etc. - não são necessariamente religiosas (apesar de alguns dicionários fazerem essa relação e no catecismo católico ser dito que a superstição é "excesso perverso de religião"): a maioria dos mitos urbanos não são religiosos e em muitas religiões não existem revelações nem rituais para responder ao medo (como na deisidaimonia). [Vatican; Wikipedia]

Existem organizações que não são consideradas religiosas por não parecerem sinceras na sua religiosidade, com apenas outros objectivos como o enriquecimento ou a paródia (mas podem ser religiões mesmo se os líderes forem charlatães). O pastafarianismo é apenas uma paródia em resposta ao envolvimento político do criacionismo, suspeita-se que muitos (ou todos) dos que dizem pertencer à Religião Jedi apenas querem "chatear as pessoas" - mas é reconhecida na América -, suspeita-se que a Cientologia é apenas um negócio, etc. Nesse caso são pseudo-religiões. Cultos, como devotados à adoração de Elvis como o Senhor Salvador, onde se dedica a colocar velinhas à volta de retratos dele (não é uma mera homenagem), se não são piadas, são religiões. [AllExperts]

Seitas, como as Testemunhas de Jeová, consideram o Catolicismo uma religião, mas falsa: «Religião - definição: Uma forma de adoração.» (...) «Usualmente a religião envolve crença em Deus ou em diversos deuses; ou considera os humanos, os objetos, os desejos ou as forças como objectos de adoração.» (...) «Há religião verdadeira e religião falsa.» Por outro lado, o professor James Carmine, do departamento da Universidade (Católica) de Carlow, propôs que as pseudo-religiões (ou "religiões más"), do ponto-de-vista teológico (em sentido lato, usado entre estudiosos da Religião - ele considera o Budismo uma religião espiritual ateísta), fossem distinguidas pela 1) ausência de um guia de coerência teológica ; 2) inteiramente auto-refencial ("tenho razão porque tenho razão"); 3) os seus únicos frutos são a adesão a si mesmo. Em geral as definições do termo "pseudo-religião", ou as condições dadas para distinguir o que é chamado de "pseudo-religião", dependem das convicções religiosas ou morais de quem as cria - chegando ao ponto de ser dito que só o Cristianismo ou a "adoração do verdadeiro Deus" é uma religião -, ou são sinónimos de superstição ou religiões fora de uma corrente principal. [Wikipedia; Asa3; Jewish Ideas; George Fox University; Ingenta Connect; Stride Magazine; JRE; ]

Existem piadas que comparam a adulação exagerada das qualidades de uma pessoa, objecto ou ideia com uma religião, mas na verdade não é uma adoração, não pretende ser uma resposta ao sentido último da vida nem leva a experiências religiosas. Tratarei do termo "quasi-religião" noutro artigo - nos Estudos da Religião evita-se usar o termo "pseudo-religião".
Vídeo: (clicar na imagem) paródia dos Gato Fedorento - computador Magalhães como objecto de adoração, comparando a propaganda do Primeiro Ministro e os hinos de professores com uma religião. Curiosidade: Ricardo Araújo, o actor que interpreta o padre, é ateu.

- Sobre discussões semânticas
Luciano diz que estudou bastante religião e que por isso é muito fácil para ele definir o que é "religião" - ao contrário dos académicos nos Estudos da Religião. Parece que não conhecia o termo "quasi-religião" (apesar de ser usado de forma comum entre os estudiosos) e não mostra ter conhecimentos sobre as várias formas de religião, como a animista, totemista e fetichista. Não admite as religiões politeístas como religiões, não admite o Budismo e o Confuncionismo como religiões, por não serem teístas, adoptando uma definição muito restrita de "religião" (talvez a expressão "religião teísta" é o que quer dizer com "religião"). Nem conhece a posição da Igreja Católica em relação aos dogmas da Ressurreição de Jesus e Assunção da Virgem Maria (tratarei desses assuntos num artigo sobre metáforas na religião).

Coloquei a hipótese de ele ter copiado a sua definição de algum lado na Web. Na Wikipedia está: «pode ser definida como um conjunto de crenças relacionadas com aquilo que parte da humanidade considera como sobrenatural, divino, sagrado e transcendental, bem como o conjunto de rituais e códigos morais que derivam dessas crenças». O resto do artigo contradiz essa definição: «Algumas religiões não consideram deidades, e podem ser consideradas como ateístas (apesar do ateísmo não ser uma religião, ele pode ser uma característica de uma religião). É o caso do budismo, do confucionismo e do taoísmo. Recentemente surgiram movimentos especificamente voltados para uma prática religiosa (ou similar) da parte de deístas, agnósticos e ateus - como exemplo podem ser citados o Humanismo Laico e o Unitário-Universalismo.» O que contradiz com "Ao contrário do pensamento comum, o budismo não é uma religião, pois não existe um deus criador, não existem dogmas e nem proselitismo", também na Wikipedia, mas com indicação de fontes fiáveis. Como resposta Luciano disse: «Ué, note a sua falácia. O fato de eu citar UM PONTO da Wikipedia, me obriga a aceitar todos?!?!?!?! Não fantasie…». Isso indicia quais são as suas fontes para os estudos, para além das excessivas referências a Olavo de Carvalho. Noto que a definição da versão inglesa da Wikipedia não coloca a crença em divindades, como condição, e, ao contrário da versão portuguesa, tem referências: Clifford Geertz, Religion as a Cultural System (1973); Talal Asad, The Construction of Religion as an Anthropological Category (1982). Mostro algumas das minhas fontes e trabalhos dos meus estudos como amador:
Fig. 4: (clicar na imagem para ver pormenores)
à esquerda:
literatura, panfletos e imagens sobre religião por cima da minha cama;

no centro: notas sobre o Apocalipse retiradas do documentário "Por Detrás das Escrituras";
à direita: parte de um diagrama sobre a Bíblia;


Na Web podem encontrar mais imagens e alguns vídeos, como o estudo em desenho do processo de crucificação, uma crítica às interpretações modernas do Génesis com uma banda-desenhada (que foi adaptada para um vídeo) e um vídeo para verificar a postura de cristãos em relação à Bíblia como inerrável, que será comparada com as "posições oficiais" e "cristãos mais sofisticados". O Luciano só sabe o que significa "religião" - e é isso que discute. Seria como discutir o que significa "arte". Não deve saber que existe uma definição estrita de "ateu" e outra lata, que inclui o "deísmo" e o "panteísmo" - fiquei a saber disso através do Vocabulário de Filosofia, de Armand Cuviller. E fiquei a saber que a enciclopédia da inclui o agnosticismo, materialismo e panteísmo no ateísmo tratado num sentido lato, tal como apresenta o animismo, toteísmo e fetichismo como religiões, para além do Budismo. Estamos a discutir se um quadrado é um rectângulo, obrigando a usar a definição estrita de "rectângulo". (Reparem que a crença na existência de Deus é o "trunfo" do Luciano)

Pelo livro Cristianismo, de Linda Woodhead, fiquei a saber que o Cristianismo pode ser dividido em místico, bíblico e eclesiástico. De lá conheci O Sílabo dos Erros, que me levou a encontrar o site Montfort. Posso criticar a discussão de Luciano citando os versículos entre 31 e 34 do 2º fascículo do texto árabe e tradução portuguesa d'O Sagrado Al-Corão, editado pela Islam International Publications em 2003. As palavras são inventadas por humanas, têm sentidos diferentes e são entendidos de forma diferente consoante o contexto e função. É fácil escolher uma definição - especialmente se tiver um sentido estrito na sua comunidade. Mesmo que mostre que a Igreja Católica admite o Budismo como religião, o Luciano pode dizer que não - é uma "quasi-religião" (sem saber o que significa a palavra no Estudo das religiões). Ao verificar que é dito que só depois do budismo trocar Deus por Nirvana é que se tornou uma religião popular (espandindo-se da Índia para a China e Japão...), ele pode dizer: «"Popular Religion" é o mesmo que uma pseudo-ciência. Pode ser tratado por religião, mas não é.» e «Exemplo de "ciência popular": leitura na borra de café, quiromancia, leitura fria… não são ciência. Pronto, você está refutado.» E a religião impopular deve ser a religião verdadeira e tornar-se cada vez mais popular é tornar-se mais pseudo-religião.

É importante focar que ele admite a possibilidade de o Budismo ser uma quasi-religião, mas não admite que o Comunismo seja uma quasi-religião. Curiosamente nos Estudos da Religião o comunismo é considerado uma religião ou uma quasi-religião, consoante o conceito de religião. Daqui a dois artigos escrevo sobre o assunto, mas deixo algumas referências: religiononline.org; Adherents.com; Oxford Journals; Berdyaev Online Bibliotek Library; Svin.Lenin.Ru; Colorado University Religious Studies Department (cap. 8); Ideology of Religious Studies; Catholic City; Catholic On-Line.

Também é importante notar que ele acusa-me de querer associar os males do Comunismo às religiões como o Catolicismo, fazendo um jogo de contagens de mortes. Ele deve defender-se dessa alegação que faz sobre mim, e mesmo se fosse verdadeira, é irrelevante para defender a legitimidade de dizer que o Comunismo é uma religião - que é o que está em causa. Ao tentar mostrar que outros também dizem o mesmo, incluíndo cristãos (que é o que foquei), fui chamado de fanático. Sugiro que leiam as citações iniciais do artigo em questão e procurem perceber o que signifiquem.
Fig. 5:
- No meu conceito de pessoa, o Estaline (a) é uma pessoa (P).
- Esperto, estás a tentar associar o Estaline às pessoas! (ex: b)
- Mas as próprias pessoas dizem que Estaline é uma pessoa... Estou a ser honesto.
- És um fanático! O Estaline é uma pseudo-pessoa. E "pessoa popular" é uma pseudo-pessoa. Pode-se dizer que é uma pessoa, mas não é mesmo uma pessoa. Percebi o seu jogo e está a ser divertido.


Apesar de o meu objectivo ser minorar os preconceitos contra mim, é possível que o excesso de informação e a apresentação dos meus conhecimentos tenha um efeito contrários, acusando-me de arrogante e de cometer ataques ad hominem, ou de me acusarem de fanático por ter escrito um artigo tão grande. Há um ditado Zen Budista que diz que se encontrarem Buda na estrada, matem-no. A estrada é o caminho que o budista percorre. Buda é a imagem idealizada do seu objectivo. Com a sua morte, continuamos a progredir na estrada. Matem os preconceitos que têm contra mim e contra os outros (incluindo os que tiverem em relação ao Luciano). Leiam o que escreveram, perguntem o que querem dizer e façam o seu caminho. O Luciano pode ser um especialista em discussões semânticas, mas passemos aos factos. As palavras que ele coloca nos outros no seu blog, nos seus diálogos entre o Simplício e Salviati, podem não ser as palavras dos outros. O meu principal objectivo é dar uma lição sobre essas discussões de semântica, com um caminho.

Provavelmente daqui a uma semana (ou, se Deus quiser), publicarei um artigo com comparações entre Senso Comum, Religião, Ciência e Filosofia, para responder à questão "a Ciência corrige-se?", com uma introdução sobre um argumento dele. Vou abordar mais a religião do ponto-de-vista católico, como exemplo. Depois - se Deus quiser -, depois desse, escrevo o último artigo para responder à pergunta: "Será o comunismo realmente uma religião?". O Luciano irá ter a oportunidade de ter a última palavra - o objectivo não é ter uma batalha infidável. Leiam a minha resposta, leiam a resposta dele. Vocês é que decidem, de preferência com novas ideias que possam partilhar, com a oportunidade de não seguirem um nem o outro. Depois - se Deus quiser - irei escrever sobre metáforas na Bíblia. Depois - se Deus quiser - focarei nas relações entre Ciência e Religião, referidas no próximo artigo.

Se o António Parente e o Nuno Gaspar tiverem tido a paciência de ler este artigo, tenho curiosidade em saber se acho que tenho razão, se mudaram de opinião em relação a mim, se sou ignorante em matéria de Religião e se acham que estou a ser desonesto ao ter dito que o comunismo é uma religião. É um caminho longo, este artigo, mas pode valer a pena.

8 comentários:

charles disse...

Assim, ao que me parece todo sistema de crenças, cosmovisão é religião, o que colocaria todas as ideologias políticas nisso também. Mas não seria interessante afirmar que o sistema é parte da religião e não seu todo? Não seria a falta de um elemento supernatural o que o comunismo necessita para ser de fato uma religião?

O comunismo se afirmava como crença ou ciência? Aí que está a engenharia social promovida pelo Estado baseado principalmente por crenças materialistas e anti-religiosas (o ateísmo não é ruim, mas a anti-religião é) vindos da ilustração.

Marx de fato teve seu lado profético, ele via que os conflitos da Europa iriam acontecer e que os proletários iriam se unir contra os patrões que os mandavam lutar... essa profecia foi falsa.. mas alguns morreram para realizá-la na Rússia.

O negócio é profundo, mas é bom que seja discutido por mentes abertas...

Anónimo disse...

Estranho que ainda se discutam estes temas tão velhos. Porque razão se elegeu o comunismo e não outro "ismo" qualquer como o europeísmo? É evidente que só academicamente esta discussão continua a fazer sentido porquanto a intenção salvifica do comunismo foi aterradoramente desmontada pela história e, talvez, impulsionou os descrentes decepcionados a refugiarem-se em verdadeiras religiões.

Pedro Amaral Couto disse...

charles,

os raëlitas são ateus materialistas e o Movimento Internacional Raeliano é considerado uma religião, inclusivé pela Secretaria dos Direitos Humanos. O Unitário-Universalismo também é considerado uma religião.

Discute-se nos meios académicos se o Comunismo é uma religião através de outros factores. Por exemplo, Paul Tillich, professor de Filosofia Teológica, considera-o uma quasi-religião porque os seus objectivos não são incondicionais. [Christianity and the Encounter of the World Religions]

charles e americo: obrigado pelos comentários,

Guilherme Santos disse...

Pedro,

Excelente post, ganhei 3 horas lendo ele e os links/fontes que relacionaste.

Muito bom mesmo, apesar dos "ataques" que está acostumado em outros blogs, na minha opinião consegue responder com imparcialidade e objetividade.

E eu já disse isso aqui.
Continue a escrever post longos e com conteúdo, quem vem até aqui, não importa-se com o tamanho deles.

Manuel Rodrigues disse...

Boa noite Pedro,

Verifiquei na foto que possui o Cd-Rom da Torre de Vigia e o livro Raciocinios, eventualmente tem familiares Testemunhas de Jeová? O Pedro estudou a as Escrituras com tal grupo religioso?

Cumprimentos,
Manuel Rodrigues

Pedro Amaral Couto disse...

Manuel Rodrigues,

não tenho familiares Testemunhas de Jeová. Recebi o CD, livros e revistas como ofertas de um ancião que quis convencer-me receber um "estudo bíblico" (que durou cerca de 1 ano) depois de lhe fazer perguntas, tê-lo ajudado num questão de informática na óptica do utilizador em sua casa e ter-lhe dito que sofro de uma doença crónica (fui eu que introduzi um artigo sobre ela na Wikipedia: Doença de Crohn).

Também tenho revistas e panfletos que apanhei na rua ou que me foram dadas por Testemunhas de Jeová, como costumam dar a outras pessoas.

Cumprimentos

Manuel Rodrigues disse...

Obrigado Pedro por satisfazeres a minha curiosidade. Temos percursos diferentes, eu era ateu e tornei-me Testemunha de Jeová. Formas diferentes de ver o mundo e de o sentir.

Gosto de ler o seu blog (cansativo, mas inteligente). Como deve saber, não "esgrimo" em debates com pessoas que não têm interesse (e por vezes deturpam) na mensagem bíblica.

Quem sabe um dia regresse ao estudo bíblico...

Lamento o problema que têm.


Cumprimentos,
Manuel Rodrigues

Pedro Amaral Couto disse...

Luciano respondeu-me com um artigo com o título (...) O Senhor dos ateus, que tomei conhecimento através de um comentário anónimo. Iniciei uma resposta.

Peço que não o respondem aqui e que não o insultem - não quero actos de covardia e de desonestidade intelectual aqui. Prefiro receber críticas aos meu artigo aqui e que façam as críticas de outros blogs onde for apropriado, pensando por si mesmos.