Sou acusado no artigo de Luciano de distorcê-lo e fugir ao assunto. Mas, que ele me desculpe, acredito que ele é que me distorce e foge ao assunto. Não estou a dizer que é intencional. Podemos não ler correctamente as frases e textos, especialmente num monitor: lemos à pressa, estamos cansados, escapam-nos palavras, temos preconceitos que nos levam a parecer que as palavras são outras, etc. Já me aconteceu, por exemplo, com debates com criacionistas. É irrelevante para efeitos de debate se é ou não intencional. O que interessa é que se forem detectados, que o rumo do debate deixe de incluir as incorrecções. E, para nós próprios, interessa que aprendamos com os erros.
1) Criacionismo e xadrez:
Acho que quem lê o contexto do que me é citado verifica claramente que não corresponde ao que me é acusado. Por exemplo, no último ponto das suas respostas ele cita «pode faltar uma condição para eu ser campeão de xadrez, que é ganhar um campeonato de xadrez, tal como falta a aplicação do método científico no criacionismo para ser ciência» e diz que isso é fugir ao assunto. Ironicamente essa frase encontra-se numa secção com o título "Falsas analogias e maus argumentos" e é usada para dar um exemplo de distorção daquilo que digo para que seja dito que fiz uma falsa analogia [leiam também nos objectivos: (...) «responder às acusações de que cometo falsas analogias» (...)].
No primeiro parágrafo digo que ele costuma fazer-me essa acusação e apresento condições para demonstrar que houve essa falácia.
O segundo parágrafo serve para apresentar um exemplo, que julgo ser fácil de perceber («Apresento um exemplo em que ele diz que sou ruim em analogias.») É irrelevante se é sobre o criacionismo, ou outra coisa qualquer: é só um exemplo. A questão é que para dizer que sou ruim em analogias, distorce o que digo e argumenta contra outra coisa (falácia do homem-palha; «Jogar xadrez não implica em campeão de xadrez, mas sim em ser um enxadrista.»), e mantém a premissa que eu pus em causa, ignorando o que eu realmente disse («O criacionismo é ciência de amadores. Já foi substituido pelo design inteligente.»). O que Luciano citou é uma explicação da minha comparação no contexto: (...) «é como dizer "que sou um campeão de xadrez só porque jogo xadrez"».
No terceiro parágrafo fiz referência a um artigo onde refuto uma falsa analogia criacionista (a teoria da evolução dos talheres) e dou um exemplo de distorção do argumento criacionista ("a Teoria da Evolução é só uma teoria"). No final sugiro que leiam o contexto original daqueles que respondemos. Portanto, sugiro que leiam o meu texto original e comparem-no com o que Luciano respondeu.
Argumentar com base numa citação fora do contexto é uma falácia.«Um texto sem contexto, é pretexto.»
2) Bom e mau:
No primeiro ponto da mesma secção (Bizarrices do artigo [3]) ele diz que tento supor o que ele pensou, porque não escreveu sobre "bom" e "mau" e raramente escreve sobre juízos de valor. Mas se lerem o que ele citou, podem reparar que não é isso que digo sobre ele. Comparem o parágrafo:
«Talvez para ele quando se diz que algo não é bom, quer dizer que é mau, por isso não faz sentido dizer que algo não é bom, nem é mau. E uma pessoa boa tem de ser perfeita – se faz algumas maldades, não pode ser considerada boa.»com o ponto 4 de p.3.2.1: «Dizer "x corrige-se e evita correcções" não é uma contradição, do mesmo modo que dizer "x condena e salva" não é uma contradição.», que responde a este argumento: «Provavelmente ele pensou que eu, ao questionar a expressão “ciência se corrige” estava automaticamente dizendo que “ciência não se corrige”. Não, eu não acho que ciência se corrige, e nem evita correções.», que introduz um argumento onde se ignora a Lei do Terceiro Excluído: (...) «não é possível que “ciência se corrige” e “ciência não se corrige” estejam juntas, pois são logicamente contraditórias. Ou é um ou é outro. Mas, na ação de players, ambas ocorrem.».
Portanto, generalizando, ao dizer que X faz/é Y, então é impossível que X não faz/é Y. Com o "talvez para ele" estou a sugerir uma implicação do seu argumento usando casos particulares usados no dia-a-dia, tal como "não gosto nem desgosto", "não é bom nem mau", "ele teve aquele deslize, mas é boa pessoa", etc. Nesses casos notamos que o argumento de Luciano é inválido - não é consistente com o uso comum da linguagem. (n1) Comparem também com os exemplos do 2º parágrafo da secção "Falácia de composição, essência e acidente" de p.1 . O que eu fiz foi usar contra-exemplos, como também é feito em Fallacy Files.
Notas:
(n1) Tinha-me esquecido da palavra "diferente" no parágrafo em questão. Devia ter escrito: «Entramos num mundo onde a linguagem é completamente diferente daquela que estamos habituados.» (o "completamente" é um exagero)
Numa disjunção de duas proposições contraditórias, se uma delas é falsa, conclui-se que a outra é verdadeira: (¬x ∨ x) ∧ ¬x → x
3) Móveis e literatura:
Luciano afirma que os exemplos da cadeira e do livro, em p.1 1.e), são falácias do homem-palha com falsas analogias, porque não entendi «ainda o exemplo da entidade maior» (ler próximo artigo): deviam ter sido móveis e literatura. Nesse ítem digo que no argumento com a analogia da Política ele atribui-me a defesa da falácia da composição: «Luciano argumenta como se eu defendesse a falácia da composição, no entanto as teorias não se corrigem.» Como nota, acrescentei que apesar disso, «existem excepções à regra». O exemplo da cadeira e do livro são simples e do dia-a-dia - são fáceis de perceber. As falsas analogias dependem do que se pretende concluir com as analogias delas. Nesse caso nem eram analogias: eram exemplos de "excepções à regra". (Estava a comparar com o quê para serem falsas analogias?)
Notas:
Também tinha usado como exemplos o exército, o ministério, o júri e o povo. "Móveis" e "móvel" não são nomes colectivos - pode ser dito «os móveis foram queimados». Na Rede Psi é dito que a «literatura produz muito mais do que o simples registro da linguagem». Em "História e linguagens: texto, imagem, oralidade e representações" é dito que a «literatura produz sentimentos». Também produz «o registro da linguagem», «transmissão da experiência», etc. ("Só porque os outros dizem..." - Resposta daqui a dois artigos)
Para concluir:
No próximo artigo escrevo mais sobre distorções. Espero que compreendam a necessidade de dividir as respostas em vários artigos. Existem vários argumentos e contra-argumentos de diferentes géneros e estou a respondê-los tentando evitar o prolixo. Volto a frisar: leiam os textos que são criticados. A suas descrições nas críticas podem não corresponder à verdade, mesmo que lhes seja atribuída a falácia do homem-palha. E antes de fazerem tal acusação, verifiquem os contextos das frases: podem estar a fazer uma injustiça sem que saibam.
Apesar das notas esboçarem argumentos de outra natureza, o propósito deste artigo é apenas mostrar que no artigo de Luciano partes dos meus textos foram distorcidas, sendo citadas fora do contexto. Lembro que não devem fazer ataques pessoais, dizendo que tenho medo por não me ter debruçado noutros assuntos. Eles serão tratados - as notas lembram-no.
(continua)

2 comentários:
Pedro:
Acho curioso o Luciano dizer que tens medo de ir comentar no blogue dele. Ainda não o vi por aqui. Se calhar foi porque não procurei bem, sei la.
A parcialidade dele é pior que a de um arbitro comprado.
João,
quer seja verdade ou não, é irrelevante se Luciano tem ou não tem medo. Não devemos fazer o mesmo que consideramos ser incorrecto da parte dele, e que ele inclusivamente critica chamando de "leitura mental".
Achas que os fundos coloridos nos textos dos artigos seguintes são úteis?
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