26 outubro, 2009

Modelos entre guerras - não mostrou

(continuação do artigo anterior)

Neste artigo mostro que podemos distorcer os nossos próprios argumentos, no sentido de não demonstrarmos (ou mostrarmos) o que propunhamos inicialmente como conclusão, concluíndo outra coisa (quer a conclusão seja verdadeira ou falsa).

1) A Política e entidade maior:

Segundo Luciano não mostrei que «A Política ganhou a eleição, vencendo a Política por 11% de votos. Política substitui a Política, que entregará o cargo em 10 de Janeiro» não faz sentido, porque «a interpretação dependeria» «de uma extensa justificação» (prolixo?). Podem ler o contexto das frases aqui.

Dizer que ganhei vencendo-me e substituí-me também não faz sentido. Só se substitui por algo diferente e não se pode ganhar e vencer no mesmo contexto (exemplo: posso ganhar e perder um jogo em situações diferentes, mas não posso fazer os dois ao mesmo tempo). Substituir implica que o que substitui seja diferente do que é substituído. Vencer e ser derrotado implica uma competição - como no caso das eleições -, excepto se tiverem o mesmo significado de "superar-se" (melhorar-se), ou quando se diz "derrotar-se" ou "deixar-se vencer" (desistir, arruinar-se), ou que "venceu o prazo" (terminou o prazo), ... - as palavras têm vários significados.
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Tinha abordado a componente competitiva remetendo o "substitui" para o ponto 2. O modo como me tinha expressado pode não ter sido muito bom, mas foi suficiente. O que escrevi no parágrafo anterior é suficiente para mostrar que a frase não faz sentido, mas posso explicar-me melhor:

O que vence eleições é os partidos. Neste contexto a Política tem partidos. Se os partidos competem entre si, não faz sentido dizer que o conjunto dos partidos, ou a Política, vence ou ganha. Mas as relações de cooperação dos membros são atribuídos ao conjunto. É o caso das coligações, blocos e aliados, no contexto político (players: políticos). Na guerra também é o caso dos exércitos (players: soldados). Foi esse o género de contra-exemplos, baseados nos exemplos de Luciano, que diz serem red herrings (fuga do assunto), mas não explica porquê, nem que género de red herrings são, dizendo apenas que «nada tem a ver com o» seu «argumento original» (é apenas a definição de red herring).

Exemplo e contra-exemplo, para ser mais claro:
Nos partidos também existem eleições. Por exemplo, os militantes elegem por votos o secretário-geral do partido, que normalmente candidata-se para Primeiro Ministro. Apesar de em eleições em que partidos competem entre si faça sentido dizer que um partido venceu-as e substituiu outro, nunca faz sentido dizer que um partido venceu as eleições derrotando-se e substituindo-se.

Quer seja verdade ou não, "a Ciência venceu a Religião", "a Religião venceu a Ciência", "a Ciência substituiu a Religião" e "a Religião substitui a Ciência" fazem sentido (têm significado, são proposições). Quer dizer que uma diminui  a influência da outra, ou extinguiu a outra, e que as funções atribuídas a uma passaram a ser da outra. Mas "a Ciência venceu derrotando a Ciência substituindo a Ciência" não faz sentido. O que significa?

Nota: Se alguém perguntar por que é que as frases indicadas por Luciano não fazem sentido, é assim que respondo. (n1) Mas é preciso salientar que no seu argumento são tomadas outras considerações que, apesar da explicação que dei ser válida, poderão ser levantadas como objecção, nomeadamente: "a Política é uma entidade maior". Respondo-a a seguir (respondo a questão da atribuição de «todas as ações dos players» para uma próxima).
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O que faz nuns casos fazer sentido e noutros não, é as propriedades. Não interessa se é uma "entidade maior" ou não. Consideremos o Universo como tudo o que existe. O planeta Terra tem humanos. O Universo tem o planeta Terra. Logo o Universo tem humanos. Formalmente: H T ∧ T U → H U. Na Matemática dizemos que B é uma relação binária transitiva. Se a Política tem partidos e os partidos têm políticos, a Política tem políticos.

Existem actividades e instituições que dizemos que produzem, como a Culinária e restaurantes que produzem alimentos. Se uma propriedade for quantitativa, é possível que a propriedade do todo seja a média do todo, como a classificação de um júri. [ilustração]

Vitorioso, derrotado, substituto e substituído não fazem parte desses tipos de propriedades - só fazem sentido se aplicadas a indivíduos e entidades homogéneas em relação a outras entidades. Um grupo competitivo é heterogéneo - os seus membros estão em conflito. Um grupo cooperativo é homogéneo.
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Se mostrarem um exemplo de não-"entidade maior" que vença a si mesmo e que substitua a si mesmo, que tenha sentido, os argumentos são refutados. Aliás, para que o argumento de Luciano fosse válido, era o que devia ter feito - afinal de contas, se em nenhum contexto faz sentido, a conclusão dele e a condição de "entidade maior" são irrelevantes (ou como ele diz: "não tem valor argumentativo"). Só conclui-se que as frases não fazem sentido.

(n1) Nota: originalmente a objecção era meramente que afirmar «que o todo possui a mesma propriedade de suas partes ou de uma de suas partes» é um «erro lógico grotesco» de quem «não conhece o guia de falácias ou a natureza desta falácia citada» [p.3] Só na quarta parte da série é que tinha usado o termo "entidade maior" (duas vezes), definido como «o “guarda-chuva” em cima do todo», mas sem que fosse uma condição especial. Nos comentários passou a ser uma exigência, ignorando o argumento original. O único outro artigo com "entidade maior" é o "Pedro Amaral in Wonderland", que estou a responder.


2) "Ciência corrige-se" e Ciência X Religião:
[Bx.y]: ponto y de Bizarrizes do artigo [x], no artigo de Luciano. Exemplo: [B1.1] começa com «Ele afirma».

Luciano diz que minto [B1.1] e que ando perdido [B2.1] porque o artigo (que diz que tentei refutar) era sobre a «falsa dicotomia entre ciência X religião» (nos artigos anteriores era «conflito entre ciência e religião»). Para já, o que respondi foi aos argumentos indicados por Luciano. A via que ele opta para defender que não existe «dicotomia entre ciência X religião» é por discussões semânticas, discutindo o significado de "ciência corrige-se" (como podem verificar se lerem os textos dele: [1], [2], [3], [4]). Segundo ele, pelas definições que apresentou, «é impossível que “ciência se corrija”». E que «“ciência se corrige” como “ciência não se corrige” são afirmações equivocadas». (n2)

Se todos os argumentos de Luciano forem inválidos, não significa que a Ciência corrige-se ou não, nem que existe ou não um conflito entre a Ciência e Religião. Dizer o contrário seria cometer uma falácia da falácia (Argumentum ad Logicam). Mesmo que achasse que apenas um único argumento é inválido, é legítimo tentá-lo refutá-lo. Poderia concordar com as conclusões, mas rejeitar as premissas e considerar os argumentos inválidos. Portanto, se não defendo nos argumentos que existe conflito entre Ciência e Religião, é um red herring (Ignoratio Elenchi) pretender responder-me dizendo que não refutei a premissa de que não há esse conflito ou dicotomia, ou porque não respondi outros argumentos. Se inferirem do que digo que a Religião corrige-se ou não se corrige, fizeram-no por conta própria. «Tu o dizes.»

Para podermos avaliar a premissa de que a Ciência corrige-se e a Religião não, é preciso decidirmos o que significam "Ciência corrige-se" e "Religião corrige-se" - por isso é natural que me dedique primeiro a essa questão. Quem usa essas expressões é que deve explicá-las. Não é atribuindo conceitos a essas expressões sem consultar quem os usa que se refuta a alegação. E é preciso explicar por que é que se algo corrige-se e outro não, então os dois estão em conflito. Se nunca se mostrou a dependência das duas questões, então Luciano não pôde ter mostrado que não há o tal conflito, ou dicotomia, nem quem usa a "Ciência corrige-se" para dizer que há esse conflito (red herring, ou falácia da conclusão irrelevante). Ou seja, Luciano não demonstrou o que propôs demonstrar, cingindo-se a discussões semânticas.

(n2) Nota: Ironicamente, num artigo com uma lista de exemplos de características dos que chama "neo ateus", ele faz referência à Novilíngua (da obra 1984), com uma ligação para a Wikipedia. Tal como indicado por personagens da obra (que li e citei diversas vezes), na Wikipedia é dito que «novilíngua era desenvolvida não pela criação de novas palavras, mas pela "condensação" e "remoção"de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o escopo do pensamento. Uma vez que as pessoas não pudessem se referir a algo, isso passaria a não existir.» (...) «Ao contrário das outras línguas, onde cada vez mais são anexadas novas gírias e conceitos, a novilíngua retira termos, como antónimos e sinónimos.»

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