(continuação do artigo anterior)
Objectivos
- explicar o que significa "um método corrige" e "a Ciência corrige-se" (para isso uso o software como metáfora);
- mostrar que é legítimo dizer que o método científico corrige tal como dizer que a Ciência corrige;
- responder às acusações de que cometo falsas analogias e apresento más metáforas (no próximo artigo);
- (...) «se você quiser assumir a metáfora “ciência se corrige” então está ACEITANDO UM MODELO em que atribui ações dos players à ciência, e o poder argumentativo desta metáfora reduz-se a zero. Isso já está previsto no meu terceiro texto.» (...) «Aí fica “A ciência, como tudo, se corrige”. Ora, se é um atributo de TUDO, então PERDE O PODER ARGUMENTATIVO.» [link] [terceiro texto]
- a) Suponho que o "poder argumentativo" da metáfora seja a ideia de que, ao contrário da ciência, a religião corrige-se, mas como não o usei nem é o objectivo deste e dos artigos anteriores, é irrelevante, para além de ser uma questão à parte. Se inferir de um artigo tal conclusão, então é o próprio que chegou a tal conclusão.
- b) A Ciência não é o mesmo que as acções dos cientistas (ou seja quem forem os "players") e não se corrige porque cientistas corrigem teorias (a correcção faz parte da essência da Ciência). É uma actividade e uma abstracção, concebida por humanos, do que chamamos "fazer ciência" (tal como a Arte abstrai o que chamamos "fazer arte"; aplica-se à Filosofia, Religião, Desporto, Arte, ...). [Wikipedia; Free Inquiry; University of Rochester; The University of Georgia; The Scientist]
- a) A Ciência é um sistema (ou um instrumento) para fazer predições e organizar um corpo de conhecimentos. A Filosofia Natural foi sua percursora (se consideramos os métodos científicos fundamentais para a condição de Ciência), atribui-se a Ibn al-Haytham (Alhazem) a introdução do método científico e considera-se que a ciência moderna foi iniciada no século XVI, com a Revolução Científica.
- b) A Ciência não é uma empresa nem qualquer outra organização, tal como o Senso Comum, a Filosofia, Religião, Desporto e Arte também não o são. Não são abstracções de pessoas e lugares. O que abstraem é conjuntos de ideias (técnicas, regras, crenças, conhecimentos) e a aplicação delas para determinados fins, como uma actividade.
Comparação com actividades simples:
o sono, o banho, a higiene, a cozinha, a refeição e o trabalho não são nem têm pessoas, apesar de, por exemplo, alguém a cozinhar ser uma instância de cozinha. A Culinária não abstrai meramente certos tipos de prácticas - é também um conjunto de técnicas e instrumentos, é conhecimento. Não é os cozinheiros nem tem cozinheiros, nem restaurantes. Pode-se fazer culinária em casa, tal como se pode praticar desporto na praia com amigos, ou fazer arte como um amador, ou ter uma religião pessoal, ou filosofar no dia-a-dia ou fazer descobertas científicas fora de uma organização (como era comum no século XIX). O conceito de empresa, por outro lado, depende de funcionários e de administradores. Por exemplo, a Microsoft é Microsoft por causa das pessoas que a fundaram e seus sucessores, dos funcionários que trabalham para elas e dos locais onde trabalham. Para uma actividade ser uma actividade não existe essa dependência. Do mesmo modo, o conceito de família depende de pessoas (ou animais) (pai, mãe, filhos, avós, etc.)
- c) Se as ideias associadas a uma actividade são corrigidas ou melhoradas, não quer dizer que essa actividade corrigiu-as ou melhorou-as. Exemplos:
1) No Desporto não existe um meio de decidir que regras devem existir num deporto para o tornar interessante. A subjectividade dos interessados e experimentação é que levam a mudar as regras, que definem o desporto.
2) Na Arte existem técnicas para os artistas conseguirem os efeitos desejados, mas essas técnicas não derivam de um método artístico, para perceber que substâncias misturar para conseguir determinadas cores, para uma pintura parecer mais realista e para provocar certas percepções.
- c) "Ciência corrige-se" não é uma metáfora.
- a) A frase não é uma comparação. É uma referência à acção iterativa e recursiva no corpo de conhecimentos. [ver 2)d)]
- b) A associação de um verbo a um sujeito (incluindo uma abstracção) não implica que se atribua intencionalidade ao sujeito. Exemplo: os correctores ortográficos não têm a intenção de corrigir erros ortográficos, mas fazem-no. Os que o desenvolveram e os usam é que têm essa intenção. Alguém com uma intenção - como construir um carro - pode delegar a sua concretização a outras pessoas ou a máquinas.
- «O método, conforme citado por mim, é um produto de criação HUMANA para que sirva de MODELO para sua repetição por outras pessoas. Não tem nada a ver com “o processamento”. Em qualquer análise de processos, o processamento é feito por seguir um MÉTODO de como o processamento deve ocorrer…»
- a) A palavra "método" (inclusivamente na Filosofia) não é usada para designar uma mera fórmula - é usada como um procedimento. Diz-se que um método «corrige a postura e realinha a musculatura» ou «constrói desdobramentos mais bonitos», mas nunca se diz que uma receita faz bolos.
- Exemplos:
1) «It was easy to see that the method of science is criticism; i.e. attempted falsifications.» (Karl Popper, Conjectures and Refutations)
2) «My view of the method of science is, very simply, that is systematizes the pre-scientific method of learning from our mistakes. It does so by the device called critical discussion.» (Popper, 1994, p. 158)
3) «Método - Epist. (sentido abstracto) 1. "Arte de bem dispor uma sequência de diversos pensamentos, ou para descobrir a verdade quando a ignoramos, ou para prová-la aos outros quando já as conhecemos." (Port-Royal) (sentido concreto) 2. Processo especial: "O método das variações concominantes".» [img] (Armand Cubillier, Noveau Vocabulaire Philosophique, 1956, traduzido e adaptado por Lólio Lourenço de Oliveira e J. B. Damasco Penna)
4) «Bacon does not identify experience with everyday experience, but presupposes that method corrects and extends sense-data into facts» (...) (Standford Encyclopedia of Philosophy)
5) «The essential principle is just that each time the method makes a mistake» (...) «Reichenbach refers to this as the self-corrective method, and he cites Peirce, “who mentioned ‘the constant tendency of induction to correct itself,’”» (...) (Standford Encyclopedia of Philosophy)
- b) O software é de origem humana e também é um modelo, mas pode ter a capacidade de processamento de dados. Usamos instâncias diferentes do mesmo software (ie: repetem o modelo).
- Exemplo:
na Cornell foi desenvolvido um programa informático que deduz leis naturais [ref: Cornell]. O programa é um modelo que pode ser executado em computadores diferentes. Não é por humanos o terem criado, ou por ser um modelo, ou por o usarmos para determinado fim, ou por ser uma abstracção de instâncias em execução, ou por ser impessoal que deixa de ser verdade que deduz leis naturais.
- c) Correcção: cometi um lapso ao ter comparado o processamento de um programa com um método («o processamento é o método»). Os programas e as suas instâncias em execução (processos) também não são processamentos. Pretendia comparar o método científico com software e o corpo de conhecimento com a memória reservada a um programa.
- d) Comparação com software (metáfora):
1) Os elementos fundamentais do método científico (ou método hipotético-dedutivo) - caracterizações, hipóteses, predições e testes - são iterações e recursões. [Wikipedia; The University of Winnipeg; TomatoSphere; Plymouth State University]
2) As observações são como entradas de dados provenientes de sensores ou periféricos, que são tratadas pelo processador e gravadas como dados na memória.
3) As hipóteses são elaboradas pela generalização das observações, comparando-os e encontrando padrões, como numa uma rede neuronal (aplicações: reconhecimento óptico facial, reconhecimento facial, classificação de dados, avaliação de crédito, filtro de spam, etc.). [AI Topics; Imperial College London; Neural networks for knowledge representation and inference]
4) Os testes são como algoritmos genéticos combinados com redes neuronais, que avaliam e seleccionam as hipóteses através das predições. [ver 6)] [AI Topics; Newscastle University; Science Direct]
5) O corpo de conhecimento é como a memória, que é modificada por processos, que são os métodos. As instruções dos programas estão armazenados na memória - os métodos são conhecimento. No entanto, como processos, em geral distingue-se os programas da memória que lhes está reservada. Essa memória reservada é alterada pelos programas, mas, normalmente, os programas não são alterados por si mesmos (excepto em casos como na programação evolutiva, através de Assembly ou linguagens como Prolog). Os dados, hipóteses, leis e teorias estão num corpo de conhecimento, comparável à memória reservada de um programa.
6) Os processos filtram e classificam os dados numa hierarquia e estão associados a "provas". Não são imutáveis na memória - mesmo que sejam classificados como teorias muito fortes. Novas observações, novas hipóteses e novos testes servem para avaliar as teorias, que podem passar a ser consideradas obsoletas e substituídas por outras, como uma algoritmo genético que substitui uma solução por outra melhor, segundo uma função de adaptação (fitness). Neste caso, as teorias são como uma população que muda por selecção artificial. [Standford Encyclopedia of Philosophy; Internet Encyclopedia of Philosophy; Evolutionary epistemology, rationality, and the sociology of knowledge]
7) Os mesmos mecanismos que avaliam as hipóteses, para serem promovidas a teorias, também avaliam as próprias teorias, consideradas verdades estabelecidas. Do processo de avaliação, podem ser encontrados erros e daí as teorias serem modificadas ou removidas como obsoletas da sua posição (passam a apenas a ter interesse histórico). O resultado dessa avaliação é uma correcção, inerente ao método científico e, por sua vez, à Ciência. [comparar com figura em 2.d)4)]
- «A ciência só poderia se corrigir se a ciência estivesse errada. Mas não estava. A definição de ciência segue a mesma de sempre.» [artigo] «E de novo, como você resolve o problema da ciência ser MUTÁVEL e IMUTÁVEL ao mesmo tempo? Problema aliás, que é só seu. Pois eu não uso tais recursos erísticos de atribuir ação à ciência. » [link]
- a) Ao corrigir algo, a essência desse algo continua a mesma - o que muda é as propriedades acidentais. [cit: «As correcções não fazem parte das suas essências - são, na terminologia filosófica, acidentais.»]
Exemplos:
Se corrijo um programa ou um texto, as definições de programas e de textos continuam as mesmas. Se um programa corrige a si mesmo (alterando a memória reservada a ele pelo Sistema Operativo), continua a ser um programa por definição e o mesmo programa, na sua essência, tal como se corrigir-me, continua a ser o Pedro.
- b) Segundo a Lei do Terceiro Excluído, ou x ou não-x, e não há outra possibilidade: ¬(x ∨ ¬x) → ¬x ∧ x (absurdo!). Essa lei permite, por exemplo, provar que se um potência é racional, a sua base e expoente não são irracionais. O corpo de conhecimentos faz parte da Ciência, pela definição dad por Luciano. A propriedade de mutabilidade das partes é transferida ao todo, e basta que uma parte mude para que o todo mude. Portanto, a Ciência é mutável.
- «Provavelmente ele pensou que eu, ao questionar a expressão “ciência se corrige” estava automaticamente dizendo que “ciência não se corrige”. Não, eu não acho que ciência se corrige, e nem evita correções.» [link]
- a) Dizer "x corrige-se e evita correcções" não é uma contradição, do mesmo modo que dizer "x condena e salva" não é uma contradição. Estou acordado, mas é verdade que durmo. Não estou a comer, mas é verdade que como. Não estou a evacuar nem a urinar, mas é verdade que evacuo e urino. Um exército ataca e defende - ataca os inimigos e defende a si mesmo e os aliados. [cit: «Durmo e como, mas não estou a dormir nem a comer.» (...)]
- b) Se "a Ciência corrige-se" contradiz "a Ciência não se corrige", então conclui-se pela Lei do Terceiro Excluído, que «A ciência só poderia se corrigir se a ciência estivesse errada. Mas não estava.» leva à conclusão de que a Ciência não se corrige.
- «O que acontece é que um cientista talvez tenha a sua pesquisa refutada por um outro, assim como no cinema a Pixar trouxe uma nova técnica que superou a antiga animação.» [a seguir ao texto citado de 4.]
- a) Falácia da falsa analogia:
A Pixar não é um indivíduo como um cientista. Pelo contrário, é equiparável à Ciência, no sentido de ser uma entidade com "componentes" (animação), "players" (animadores), "público" (espectadores) e "domínio" segundo o Luciano, o que põe em causa os argumentos do artigo em questão e em "A difícil arte de dialogar com os neo-ateus Parte 2 OU Como discutir com aquele que não lê o que está escrito".
- b) Falácia da conclusão irrelevante:
Um cientista a refutar a pesquisa de outro cientista é uma instância de uma iteração do método científico, que é precisamente a correctiva. A Pixar ao trazer uma técnica que torna outra obsoleta, não fez uma correcção: fez uma melhoria. O que é mostrado é que na Ciência e na Pixar as ideias substituem outras. Concordo que cientistas refutam pesquisas de outros cientistas, mas isso não implica que não faz sentido dizer que a Ciência não se corrige.
- c) Inconsistências/duplipensar:
1) No caso da Pixar, parece que Luciano percebe que nem todas as acções dos "players" são atribuídas à empresa, apesar de atribuirmos acções dos "players" a elas. Por exemplo, se um empregado da Pixar faz um trabalho de animação pessoal em casa, não se atribui o trabalho à Pixar. Mas os trabalhos realizados pelos empregados na empresa são atribuídos à Pixar. Não é um exemplo da tal falácia da composição?
2) Luciano também disse que há um "público" que «beneficia do que os outros três fatores» (ex: Ciência, as teorias científicas e os cientistas) «geram» - e que diria melhor: «os benefícios gerados pelos players, que geram novos componentes». Vivo em Portugal. Eu diria melhor: vivo na Grande Lisboa. Diria ainda melhor: vivo no distrito de Setúbal. Diria ainda melhor: vivo no concelho do Seixal. Diria ainda melhor: vivo na freguesia de Amora. Diria ainda melhor: vivo na localidade das Paivas. Só falta indicar o endereço da minha casa. Então é incorrecto dizer que a Ciência gera benefícios?
3) A Ciência também gera malefícios, como armas de guerra e drogas. Concluímos que dizer que gera benefícios ou que não gera benefícios é um equívoco?




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