18 Outubro, 2009

Re: Neo-Ateísmo, Um Delírio > Ciência X Religião > p. 3.2.2

(continuação do artigo anterior)

Conclusões e contra-argumentos:

  • Mundo de Alice
A Ciência corrige-se ou não se corrige? Nem um nem outro, segundo o Luciano. Entramos num mundo onde a linguagem é completamente diferente daquela que estamos habituados. E quem tentar embrenhar-se nela, verá que é difícil dialogar com o Luciano. É preciso arte para isso. Talvez para ele quando se diz que algo não é bom, quer dizer que é mau, por isso não faz sentido dizer que algo não é bom, nem é mau. E uma pessoa boa tem de ser perfeita - se faz algumas maldades, não pode ser considerada boa. Nem não-boa. Mas, curiosamente a Ciência gera benefícios porque cientistas geram benefícios. Só que não se corrige, porque seria atribuir acções de uma parte da Ciência a ela própria e porque cienstistas não corrigiram certas ideias, como a hipótese dos multiversos, a memética e a teoria do aquecimento global de origem antropogénica. É um equivoco quando se diz que a Ciência não se corrige, mas pelos vistos pode-se dizer «o método não se corrige». Agora imaginem que quem defende tais coisas é considerado alguém que usa bem as palavras e que argumenta bem. É esse o mundo de Luciano, como tivéssemos atravessado o espelho de Alice onde os personagens são confusos.
  • Corrigir ou não corrigir... ou nem uma nem outra (¬(x ∨ ¬x))
Sobre o exemplo do CRM, ele diz que é absurdo dizer que a Ciência erra como dizer que o CRM erra. Mas se pesquisar no Google repara que é dito várias vezes que a Ciência erra ou que tem erros - eu próprio já o tinha dito antes de conhecer o blog de Luciano. [Scientific American História - Os grandes erros da Ciência; Ciência - A Vela no Escuro; Observatório de Imprensa; Que Treta! (comentário); Crítica: revista de Filosofia; Science Blogs; Discovery; The Report at VIII International Scientific Conference] Reparem na citação de Karl Popper: «The history of science, like the history of all human ideas, is a history of irresponsible dreams, of obstinacy, and of error. But science is one of the very few human activities — perhaps the only onein which errors are systematically criticized and fairly often, in time, corrected.» [Science : Conjectures and Refutations] "In which" significa "cujos" - se referisse a pessoas, seria "whom". Portanto, refere-se aos erros na Ciência - a "ciência é uma das poucas actividades humanas - talvez a única - cujos erros são sistematicamente criticado e geralmente corrigidos a tempo". E pelos vistos Popper tinha muita falta de imaginação com o "perhaps the only one" (ou se fosse um "neo-ateu" a dizê-lo). Afinal de contas, a Ciência tem ou não tem erros? Se for dito que não tem erros, transmite-se a ideia de que é perfeita e é dado óptimo material para os criacionistas.

Portanto, Luciano disse: «Implicaria em “O CRM errou e se corrigiu”» E concluiu com isso: «Claro que não se corrigiu, pois o sistema já está incorporando essa avaliação. O sistema é justamente para existir essa avaliação.» Comparem com 2.d)4) e 2.d)7) do artigo anterior. O sistema é um meio para atingir um fim. Se uso um martelo para bater num prego, o martelo bate no prego, mesmo que requeira a acção de alguém para isso. Por outro lado, se robôs são construídos para fabricarem carros, sem intervenção humana, os robôs é que fabricariam os carros, autononamente, mesmo sem terem consciência para terem intenção. É mais fácil de perceber isso do que com ideias. A relação entre ideias e o sistema nervoso é como a relação entre o software e o hardware. O software não é palpável - é simplesmente uma abstracção do que é representado no hardware: não é um caso particular de representação num determinado armazenamento - é uma generalização que ignora como a informação é representada, daí dizer que é uma abstracção. Apesar de imaterial, tal como uma ideia, o software afecta o hardware e interage com outro software. Se for um corrector ortográfico, detecta e corrige erros ortográficos. É num sentido similar que dizemos que métodos, sistemas e processos podem corrigir. No caso de uma entidade abstracta que seja um método e conhecimento, essa entidade corrige-se.

E se segundos os padrões de linguistica de Luciano é incorrecto dizer que um sitema corrige-se, o que interessa se as pessoas percebem o que quer dizer, tal como percebem quando ele diz que a Pixar inova? A língua é para servir o Homem, não é para o Homem ser servo dela.
  • Falsas analogias e maus argumentos
Luciano poderá dizer que até agora apresentei falsas analogias e más metáforas - ele até disse que tentei umas 10 analogias e que não são consistentes. Convém que ele mostre que as percebe e que responda ao que pretendem ilustrar. Reparem que no ponto 5.a) faço isso: a analogia pretende levar a uma conclusão, mas o que é comparado tem propriedades que negam o que se pretendia concluir. No caso em questão, pretende-se mostrar que a Ciência não realiza acções - os cientistas é que o fazem. E compara-os com a Pixar, atribuindo-lhe uma acção similar aos dos cientistas. Quais são as objecções em relação a "Ciência corrige-se"? Apliquem-nas ao exemplo da Pixar.

Apresento um exemplo em que ele diz que sou ruim em analogias. Ele disse, num comentário do Que Treta!, que o criacionismo é "uma parte da ciência em conflito com a ciência". Segundo a definição que ele tinha apresentado de "ciência", a aplicação do método científico é uma condição para que uma ideia faça parte do corpo de conhecimentos, que define a ciência - condição essa que não existe no criacionismo. Depois de lhe respondido com essa objecção (com mais palavras), acabei por dizer que o que ele disse é como os astrólogos que afirmam que a astrologia é uma ciência e que eles são cientistas, ou é como dizer «que sou um campeão de xadrez só porque jogo xadrez». Isto é: pode faltar uma condição para eu ser campeão de xadrez, que é ganhar um campeonato de xadrez, tal como falta a aplicação do método científico no criacionismo para ser ciência.
Resposta do Luciano: «Jogar xadrez não implica em campeão de xadrez, mas sim em ser um enxadrista. Vc pode ser um enxadrista amador... O criacionismo é ciência de amadores. Já foi substituido pelo design inteligente.» Ele responde como se eu estivesse a defender que jogar xadrez implica ser campeão de xadrez e insiste que o criacionismo faz parte da ciência.

Já agora, responder à "teoria da evolução dos talheres" como se o Sabino afirmasse que a Teoria da Evolução é só uma teoria (como uma mera hipótese), é distorcer o que ele disse - ele nunca usou esse argumento, que, aliás, é desincentivado pela AnswersInGenesis. Penso que tinha lido uma resposta do género (por isso tinha dito ao Luciano que «li o seu comentário na Lógica do Sabino»), mas não a encontro. De qualquer modo Luciano disse que cometi um «erro gravíssimo ao TENTAR refutar o Sabino» ao tentar «criar um conflito entre ciência e religião» e por isso preciso «de lições de argumentações». Convém primeiro que mostre onde é que faço tal coisa quando respondi ao Sabino.

Sabendo que Luciano tem o hábito de distorcer, é suposto perceberem que devem procurar as frases originais daqueles que ele acusa. Não é só a ele que o devem fazer: façam a mim, quer confiem ou não em mim. Sejam cépticos, pois podem ser vítimas de citações fora do contexto e de falácias do homem-palha. É irrelevante se estou desesperado, se não sei usar as palavras, se sou uma anta, um estulto, um imbecil, um fanático, nem sequer se nem sei ler o que está escrito - para provar que há uma falsa analogia deve perceber para que serve, o que é comparado e identificar as propriedades do comparado que negam a conclusão.

É claro que as metáforas não são perfeitas, caso contrário, por exemplo, estaria a afirmar que a Ciência e o software são o mesmo. O método científico não é um programa informático nem selecção artificial. O conhecimento não é memória nem uma rede neuronal. As metáforas servem apenas para explicar mais facilmente uma ideia através de ilustrações. Devem abstrair-se das metáforas e não levarem-nas longe demais. Vejam a vossa área de trabalho (desktop) no monitor. Está cheia de metáforas como as janelas, pastas, ficheiros e lixo. Mas se foram levadas longe demais, em vez de ajudar, atrapalham. Por exemplo, simular as limitações dos ficheiros em papel para que os ficheiros do computador pareçam mais com os físicos só atrapalha. Mas mesmo que não tendo as mesmas limitações, a metáfora é útil. E é desse modo que deve ser avaliada o seu mérito.

(continua na próxima semana)

5 comentários:

Anónimo disse...

http://neoateismodelirio.wordpress.com/2009/10/19/a-dificil-arte-de-dialogar-com-os-neo-ateus-parte-5-1-ou-pedro-amaral-in-wonderland/

http://neoateismodelirio.wordpress.com/2009/10/13/a-dificil-arte-de-dialogar-com-os-neo-ateus-parte-5-ou-o-senhor-dos-prolixos/

Joao disse...

Pedro,

Acho que qualquer pessoa com duas sinapses funcionais ja percebeu que a ciencia se corrige, e que isso é uma parte importante da sua evolução.

PS: Eu não comento ou blogo com outros nomes. Ja o disse no blogue do Ludwig e repito aqui. O tipo diz que eu sou mais não sei quantos. É mentiroso ainda por cima. So para saberes.

Dri Viaro disse...

Olá!!
Passei pra conhecer o blog, e desejar boa tarde.
bjss

aguardo sua visita :)

Pedro Amaral Couto disse...

Anónimo,

obrigado pelos URLs. Não sei se vai ler este comentário, mas recomendo-lhe que passe a usar a tag "a" para os links. Li ambas as páginas e iniciei uma resposta aqui. Penso que é mais útil ter os links para respostas em comentários dos artigos em questão, por isso vou colocar o último URL num comentário aqui.

Cumprimentos.

Pedro Amaral Couto disse...

João,

julgo que as ofensas estão a ir longe demais. Já li acusações a Luciano em meu nome (ou em minha defesa), que dispenso. Temos de ter outra atitude. É irrelevante se ele é mentiroso ou não - isso não pode servir de resposta.