07 Novembro, 2009

Modelos entre guerras - diálogos difíceis

(continuação do artigo anterior)

Parece que a profecia de Lourenço Serra foi cumprida - pelos vistos, escrevi comentários como Pedro Amaral Meme [humor]. Felizmente Luciano publicou os meus artigos acompanhados com o que deviam ser respostas em comentários, o que nos permite que compará-los. Sugiro-vos um exercício: antes de lerem os seus comentários, leiam primeiro os trechos dos meus artigos que copiou, pensem no que significam e comparem com o que Luciano escreveu.

Se para haver diálogo é necessário que se compreenda os diferentes pontos-de-vista para resolver problemas - mesmo que só teóricos -, julgo que as agressões verbais são obstáculos para o diálogo. Quem as pratica e obriga que os outros sejam educados, está a criar uma armadilha - é comum respondermos aos ataques pessoais, o que permite pretextos para que nos descredibilizem. A atitude agressiva ao defender pontos-de-vista, pode compremeter-nos ao ponto de ser mais difícil identificar e admitir os nossos erros. Passa a ser uma questão pessoal. Mesmo que acreditemos estarmos a ser honestos nos julgamentos, as respostas e atitudes dos adversários poderão ser adulteradas pelo preconceito.

Copiei os tais comentários em forma de quatro imagens (ver abaixo), acrescentei notas e identifiquei os ataques pessoais com fundos vermelhos. Neste artigo elaboro algumas das minhas respostas.


(clicar nas imagens para aumentá-las)

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Nos meus artigos, os trechos com fundo azul são citações. Por exemplo, citei as expressões de Luciano «a interpretação dependeria» «de uma extensa justificação», que ele usa para se referir a duas frases sem sentido. Mas, segundo ele, num comentário, escrevi: «Algo é inválido, pois depende de extensa justificação». Onde é que escrevi isso? A expressão não é encontrada pelo Google, nem neste blog antes deste artigo, nem nos trechos citados por ele. E não concordo que algo possa ser inválido por depender de uma justificação extensa.

Noutra ocasião, ele tinha dito que o criacionismo é «uma parte da ciência em conflito com a ciência», e eu apresentei uma resposta, lembrando que «segunda as definições que» ele deu, «para ser ciência é preciso ser ou derivar de "práticas e pesquisas que tenham sido suportadas pelo método científico"», e eu terminei com uma analogia: é «como dizer que sou um campeão de xadrez só porque jogo xadrez». Mostrei várias vezes uma distorção feita por Luciano da minha analogia, e nos últimos comentários supostamente sobre isso, ele distorceu-a e escreveu como se fosse dele: «O que é um CAMPEÃO de xadrez? É o mesmo que uma teoria que VENCEU dentre outras teorias... Por isso que o meu exemplo segue incólume. Pois eu disse que o criacionismo não ‘venceu’ nada, e o darwinismo ‘venceu’...» Onde é que ele tinha dito isso?

O fundo de côr amarela indica o cerne de um argumento. Por exemplo, se querem mostrar que Luciano não distorceu o que escrevi, devem responder às perguntas com fundo amarelo. Transcrevam dos meus textos aquilo que ele disse que escrevi, indicando as fontes, e indiquem exactamente onde está o seu exemplo.

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Ele nem sequer esclarece dúvidas e equívocos. Tinha-lhe enviado um exemplo de resposta a uma falsa analogia da "teoria dos talheres", do blog de Sabino. No dia seguinte recebi uma notificação por e-mail de um comentário de um "Luciano" nesse blog. Não voltei a encontrar a encontrá-lo, mas usei o caso para exemplificar um argumento homem-palha: «responder à "teoria da evolução dos talheres" como se o Sabino afirmasse que a Teoria da Evolução é só uma teoria (como uma mera hipótese), é distorcer o que ele disse» (...) « Penso que tinha lido uma resposta do género (por isso tinha dito ao Luciano que "li o seu comentário na Lógica do Sabino"), mas não a encontro.» Com uma pesquisa no Google, encontrei um comentário de um "Luciano", mas não parece ser o mesmo Luciano - foi uma mera coincidência.

No último comentário supostamente sobre o exemplo que dei, ele escreve como se eu tivesse dado um exemplo de criacionista a usar esse argumento num debate e como se não soubesse respondê-lo: «se o Pedro Amaral não tem esperteza para dizer algo como “sim, é só uma teoria, mas é uma teoria que É VÁLIDA, e a sua não é” É PROBLEMA DELE». E parece que não compreendeu o argumento, que é uma falácia da anfibologia e de homem-palha, que pode ser encontrado pesquisando por "evolution is just a theory" [exemplos: Wikipedia; Kent Hovind; Geerup; The Atheist Experience;]. É uma confusão entre o sentido vulgar de "teoria" e o sentido epistemológico. Como eu já tinha dito, criacionistas da AnswersInGenesis desincentivam o uso desse argumento: «“Theory” has a stronger meaning in scientific fields than in general usage; it is better to say that evolution is just a hypothesis or one model to explain the untestable past». A Creation Ministries faz o mesmo: «The problem with using the word ‘theory’ in this case is that scientists usually use it to mean a well-substantiated explanation of data.»

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O significado de palavras e expressões são convenções, por isso, só podem ser defendidas por meio da popularidade e da autoridade, se existe meio de mostrar que o uso de uma expressão é legítimo. O mesmo serve para outras convenções, como regras de trânsito, regras de boa-educação e protocolos, como os da Web. Se psicólogos que estudam os efeitos da literatura e historiadores que estudam a História da Linguagem usam a expressão "literatura produz", deve ser legítimo usá-la. E mesmo se não a usassem, também o seria se for entendida.

Para não entrarmos em discussões semânticas e evitarmos correr o risco de cometermos falácias, os termos devem ser usados com os significados aplicados por aqueles que respondemos,  se forem importantes nos argumentos. Por exemplo, é uma falácia da anfibologia elaborar um argumento assumindo que "teoria" de "teoria da evolução" tivesse o sentido vulgar, porque os cientistas usam-no com outro sentido. E o argumento de que CRM e a Ciência não se corrigem, porque é absurdo dizer que erram, é inválido se for como uma resposta para aqueles que aceitam e encontram um sentido na expressão "CRM e Ciência erram", por isso tinha escrito que «é dito várias vezes que a Ciência erra ou que tem erros» e que «eu próprio já o tinha dito antes de conhecer o blog de Luciano».

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Também para não entrarmos em discussões semânticas, deve ser possível descrever formalmente os argumentos, seguindo as regras lógicas, mesmo que por indução, por fuzzy logic ou por um algoritmo.

1.
Ser mutável é poder mudar e ser imutável é não ser mutável, por isso "ciência é mutável e é imutável" é uma contradição lógica: M ∧ ¬M. Se a ciência implica uma contradição, prova-se por reductio ad absurdum que não pode existir. Por exemplo, se implica que se corrije e não se corrije, prova-se que não pode existir. E se negarmos os dois, como alternativa, então conclui-se, aplicando a álgebra de Boole, que corrige-se ou não se corrige: ¬(M ∧ ¬M) ↔ ¬M ∨ M. É necessariamente um ou outro, sem uma terceira alternativa.

 2.
Mas "X corrige-se" não contradiz "X evita correcções" - são apenas opostos. As frases não significam que X corrige-se sempre nem que evita sempre correcções. Como o Luciano escreveu: «um deslize não implica em não ser boa pessoa». Afinal, "X evita correcções" não é o mesmo que "X não se corrige", e o que se corrige não precisa de ser perfeito sem nunca ter evitado correcções.

3.
Ao contrário de "X é mutável" e "X é imutável", que podem ser verdadeiras ou falsas, "X substui X" não tem qualquer significado. Se X e Y são diferentes e X substitui Y, então há uma propriedade Y que deixou de ter e que X passou a ter. O que significa se X for igual a Y? Se tudo fica igual, o que significa o contrário? É ficar igual, levando-nos a concluir que s(X, Y) =  ¬s(X, Y) . Nunca pode existir algo que substitua a si mesmo.

Luciano tinha afirmado que «não é possível que “ciência se corrige” e “ciência não se corrige” estejam juntas», porque «são logicamente contraditórias», mas «na ação de players, ambas ocorrem», e que não acha «que ciência se corrige, e nem evita correções». Usei analogias recorrendo às palavras "bom" e "mau", "gosto" e "desgosto" que Luciano diz serem falsas porque são juízos de valor e configuram situações de neutralidade. Eu já tinha dito que a validade de uma analogia depende do que se pretende demonstrar através dela. Não usei as palavras para juízos de valor - apenas interessa o facto de serem opostas. E a resposta de que são situações de neutralidade requer que se demonstre que afectam o facto de serem opostas. Alguém bom, pode fazer males, tal como o que se corrige, pode evitar correcções, e como alguém que condena, poder salvar ou evitar condenações. Já tinha notado algo semelhante, quando tinha dito que por não estar a dormir, não quer dizer que não durmo. Se evitou uma correcção, não significa que não se corrija. "Não se corrige" não é o mesmo que "evita correcções".

Noto que Luciano não apresentou um exemplo que faça sentido de uma entidade que não seja "maior", que vença derrotando a si mesma substituindo-se, para mostrar que o exemplo que ele apresentou com a Política é bom para o seu argumento e que a condição de entidade maior é necessária, especialmente para dar razão ao argumento de que leva a uma . Pode ser sempre dito que é preciso que assim seja, por uma mera questão de semântica, mas em geral não existem problemas em dizer que, por exemplo, a Culinária e restaurantes produzem alimentos.

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Quanto à pertinência, depende do que estamos a responder. Tenho o direito de focar aspectos concretos de um determinado argumento e só não estarei a ser pertinente se, ao dar a entender que os comento, comentar outra coisa. Se alguém citar trechos do meu blog para os comentá-los, essa pessoa é que estará a ser impertinente se discutir outros assuntos, como se eu fosse obrigado a dedicar-me a eles. Por exemplo, o Que Treta!, de Ludwig, é um blog português popular onde muitas vezes ateus e teístas nos comentários contra-argumentam Ludwig em pequenos aspectos dos seus artigos e comentários [exemplos: 1; 2; 3; 4;]. E ninguém se queixa por causa disso. Quem o fizesse, é que fugia do assunto para não responder.

Luciano, num comentário desse blog, tinha-me dito: «Eu sei que você é educado, e procura o conhecimento». Depois de escrever sobre religião e comunismo, começou a fazer-me insinuações. Quando publiquei o primeiro artigo para responder a essa discussão, fui acusado de «desonestidade intelectual e safadeza» e chamado de «ateu fanático e mentiroso costumaz». Passou a ser um hábito fazer ataques pessoais contra mim e chamar-me de neo-ateu - mas nunca sequer chamei-lhe de cristão, que seria irrelevante. Publiquei um artigo que expõe alguns conhecimentos que adquiri sobre religião, reconhecendo que é enorme e com instruções para saltarem secções, e a partir daí é que passei a ser chamado de prolixo. [valores na última imagem]

Em caracteres, este artigo é aproximadamente 1,5% menor do que "Ciência X Religião: retardo mental". Não precisei de dizer que Luciano é burrinho, que não tem cuidado a ler e que ainda não aprendeu - apesar de achar irónico. E se ele continua a fazer o que mostrei que faz, continua a ser difícil ter um diálogo com ele.

(próximo: fim da série)

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