03 Novembro, 2009

Modelos entre guerras - tornar-se o inimigo

(continuação do artigo anterior)
«Por que vês tu, pois, o argueiro no olho do teu irmão, e não vês a trave no teu olho? Ou como dizes a teu irmão: Deixa-me tirar-te do teu olho o argueiro, quando tens no teu uma trave? Hipócrita, tira primeira a trave do teu olho, e então verás como hás de tirar o argueiro do olho de teu irmão.» (Mateus, 8: 3-5)
Este artigo está intimamente relacionado com o tornar-se inimigo (nas respostas).

Julgo que não é Richard Dawkins, nem qualquer outro ateu, que melhor responde a criacionistas e que mais influência tem nos debates sobre o Design Inteligente: a meu ver, é o biólogo católico Kenneth R. Miller, que ilustra os seus discursos com diagramas, desenhos e com humor, e participou no julgamento de Dover. Ele é popular em muitos sites de ateus, que o admiram e promovem-no. [Exemplos: The Atheist Experience; Atheist Toolbox; The Atheist Jew; FreeThought & Rationalism Discussion Board; Infidels]

No YouTube, DonExodus2, que diz ser católico, é um dos divulgadores da Teoria da Evolução mais populares, considerado um livre pensador por ateus. O youtuber ateu TheAmazingAtheist criticou-o severamente e injustamente num vídeo. Como consequência, vários ateus responderam a esse vídeo, defendendo ferverosamente o católico, e abandonaram o canal do ateu. [Exemplos: ThetaOmega; dinguswad452; eddygoombah; frisbeesANDflipflops; 2freet] Um outro youtuber cristão, conhecido como TogetherForPeace, que publica vídeos especialmente sobre o Cristianismo, é muito respeitado e elogiado por ateus, apesar das divergências. Defendeu o ateu conhecido como Thunderf00t e participou num vídeo com a sexy (neo-)atéia conhecida frisbeesANDflipflops.

Cristãos que são hábeis a criticar os fundamentalistas e a transmitir conhecimentos de forma interessante, podem ser tratados como heróis por ateus. Mesmo outros cristãos inteligentes que divulguem as suas crenças, podem ser tratados com repeito profundo e elogios por ateus, mesmo que discordem. Talvez esses ateus possam ser chamados de "neo-ateus", mas parece que há algo no seu comportamento que se distingue em relação a outros cristãos onde nos debates geralmente há atrito.

A presença de dois ateus, um deles membros do Portal Ateu num programa televisivo, com o padre Joaquim Carreira das Neves, serve de exemplo para o que julgo levar ao mal-estar entre ateus e cristãos. Nesse caso, a culpa é dos ateus, que com a sua postura, pareceram estúpidos, arrogantes e preconceituosos - afinal são como os seus "inimigos"!

Por outro lado, Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, num artigo critica um comunicado da Associação Ateísta Portuguesa (AAP) distorcendo-o.
Nesse comunicado é dito que a associação «defende, a liberdade de crença de todos os religiosos, não se opondo à visita de qualquer líder religioso enquanto tal» e o que critica é que «a visita de Bento XVI a Fátima, em Maio de 2010, seja palco de manobras políticas, com a cumplicidade do Estado».
No entanto o bispo, como resposta, chamando a AAP de "grupinho", simplesmente disse que ela está «indignada com o facto de Bento XVI visitar Fátima», não percebendo «a figura intolerante, ridícula e marginal que assumem» e que deviam respeitar a maioria. [resposta de Ludwig]

Por vezes quando entramos numa cruzada, sem querer, podemos tornar-nos como os nossos inimigos (ou adversários). Cometemos os erros que criticamos e perdemos o fio-à-meada, corrompendo os nossos próprios valores e objectivos. Assim, em vez de contribuirmos para que percebam e detectem falácias, e argumentem de forma razoável, podemos estar a contribuir para o oposto como modelos. Um séquito de seguidores, em vez de responderem racionalmente, alvitam paixões com atitudes anti-sociais, respondendo apenas com ofensas (muitas vezes com palavrões) e com ataques pessoais ou acusações infundadas contra os críticos. E os opositores respondem de uma maneira semelhante - priveligiando uma suposta censura no blog do Luciano naquilo que escrevem.

Em "tornar-se o inimigo (nas respostas)" mostrei em que termos Luciano dirige-se a mim nas respostas, comete os mesmo erros que critica e nem sequer responde ao que escrevo, mas a outra coisa qualquer, quer seja intencionalmente ou não. Fui tratado como "o sujeito", para além de me chamar de "coitado", afirmando que sofro de uma ilusão e que gosto dela. Apresentou conclusões recorrendo à expressão "justificativa infantil", atribuíndo nomes de falácias sem explicar-se, com expressões repetidas várias vezes como "sem valor argumentativo algum" e sempre a dizer, sem explicar-se, que não o refutei ou que o que escrevi não foi negado por ele (mantras?) - será que ele irá responder dizendo que este artigo não o refuta e que é irrelevante? E eu só estou a referir-me à secção Bizarrices do artigo [2], que é apenas cerca de 22,6% de 15142 caracteres em 5 páginas. Ele «já tinha cantado a bola faz tempo», afirmou que tenho «um problema muito sério e triste», inventou a expressão «triologia pedriana», chama-me de «prolixo» e «justificador», chama-me de «coitadinho» que só fica «justificando o motivo pelo qual fez a besteira», associa-me termos como «patético», «fraqueza», «esforço hercúleo», «cara de cachorro pidão», diz que para mim a expressão "a ciência corrige-se" é um mantra, etc, etc. E isso a cerca de 1/3 do seu artigo. Será que vai dizer que escrevi este artigo por eu ter medo, ou qualquer outra especulação sobre as minhas motivações? ("leitura de pensamento") É a mesma atitude do bispo Carlos Azevedo e dos dois ateus que respondiam ao padre Carreira das Neves.

Quem escreve os comentários no seu blog também tem essa atitude, quer sejam cristãos ou ateus. Nos comentários do artigo em questão:
Nuno Gaspar: (...) «O Luciano tocou-lhe no nervo e ele desatou aos pinotes a arrufar referências avulsas e desconexas.»
Pedro Correia: (...) «Ao ler-se com atenção verifica-se que os posts do Luciano têm todos os defeitos grafados pelo José Oiticica, e nenhuma das qualidades apontadas por este.»
Lourenço Serra: (...) «Parece que Thomé está sonhando. O Luciano está correto ao retirar posts de moleques que não sabem argumentar, só ofender. Sou capaz de apostar que logo o Pedro ou João aparecem com outros nicks aqui para prosseguir com suas lamúrias.»
Tomé Santana de Gonçalves: «Nunca que ele volta para argumentar a sério. Voce apagou muitas palavras dele, editou seus próprios posts e deletou alguns dele. Todos na internet estão sendo testemunhas disso. Voce não está a fim de debater honestamente. Voce é um crápula.»

Comecei "tornar-se o inimigo (nas respostas)" com uma citação (supostamente de S. Paulo) dirigida a Tito, onde é dito que os cristãos devem servir de exemplo, com «gravidade, sinceridade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se envergonhe, não tendo nenhum mal que dizer de nós». Podemos tornar-nos modelos tanto para o bem como para o mal. Se somos um mau modelo, sem reparmos, podemos ser a causa de guerras desnecessárias, com quem sentiu-se ofendido e com motivos para dizerem mal. Se um cristão mostrar ser um bom modelo, ateus terão vergonha de o maltratar, e os que não tiverem e fazem-no, são criticados pelos outros.

O próximo artigo será o penúltimo da série Modelos entre guerras - como podem ter reparado o título não foi arbitrário. Depois, um artigo que compila e resume a série - rematando-a. A seguir uma série mais pequena sobre o modelo de Luciano e a suposta dicotomia entre Ciência e Religião, comparando com outras áreas, uma mais pequena sobre a Religião e o Comunismo, e de seguida uma série sobre o livro "Caim", de Saramago - que estou a ler - e interpretações e metáforas. Já agora: estou a ler também "A Linguagem de Deus", de Francis Collins.

Mas antes, deixo-vos duas perguntas: Acham que conseguem argumentar sem recorrer aos ataques pessoais? Qual é a utilidade desses ataques?

(continua)

1 comentários:

Joao disse...

Pedro:

Dizer a ciencia corrige-se pode ser uma metafora e uma personificação.

Mas tambem pode não ser.

Em portugues tu podes dizer corrige-se acerca de qualquer coisa feita por alguem.

Tal como "arranja-se o carro", "corrige-se a conta", etc.

Outra coisa. Usar um conceito que inclui mecanismos de autocorrecção e que é um fenomeno emergente da actividade cognitiva humana, não é uma personificação.

A ciencia enquanto actividade tem mecanismos de autoregulação, obviamente levados a cabo por pessoas, os cientistas, mas tal como um computador que executa um programa não tem intencionalidade consciente, tambem a ciencia se corrige sem intencionalidade ou personificação necessaria.

O conceito de ciencia inclui um programa auto-regulador em que o dado empirico é na realidade o mais forte modelador.

O Luciano percebeu isso e por isso passou à questão da falacia da composição. Em que aceita que dizer corrige-se é adequado tal como dizer "queima-se" ou "parte-se".

É mais que uma metafora, é a maneira mais literal de dizer o que se passa na evolução e progresso da ciencia. Se fores rebuscar muito, a linguagem é sempre o mapa e nunca o território, mas não sao usados outras imagens ou palavras para representar nada que não seja exactamente o que se quer dizer. A ciencia corrige-se. Por alguem. Que faz parte do processo. Se estamos a falar do processo e do corpo de conhecimentos como ciencia, é obvio que a correção passa a ser uma questão de auto-correcção. E como ja disse a auto-correcção é um fenomeno que existe na natureza a pontapé, quanto mais em sistemas inteligentes complexos.

A falacia da composição funcionaria neste caso se fosse de facto uma falacia de composição. A questão é que mesmo que a ciencia seja um fenomeno emergente, ao corrigir uma parte estamos a corrigir o todo. Porque a integração e a interação dos seus subsistemas é elevada. Isso verifica-se na pratica quando se fazem grandes "correcções" e se ultrapassam paradigmas e toda uma série de novas abordagens passam a ser possiveis numa data de areas.

Dito isto, posso não estar a acrescentar nada, porque dependendo do contexto podes dizer que ciencia é uma personificação ou tudo é uma metafora.

O Luciano tentou atacar o uso de "ciencia corrige-se" como metafora, mas perde porque pode ser usada a metafora e não implica que a estejamos a personificar.

Para mais, o texto original deixava bem claro que o que ele queria era negar auto-regulação no processo cientifico. Para dizer que tal como a religião a ciencia não se corrige. Mas errou e errou forte. Porque ambas se corrigem. Apenas uma se corrige mais lentamente que a outra. Mas a religião tambem evolui. Existem religiões mais sofisticadas que outras. Basta comparar o catolicismo romano com o Evangelismo literalista (atenção que existem formas moderadas, ainda que eu não percebo como se leva a bilbia à letra e se é moderado).