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Há alguns dias, em Portugal, podemos encontrar estandartes vermelhos em algumas janelas e varandas. No início, vendo-os ao longe, não percebi bem que figura estava no meio deles - parecia-me um sátiro a saltitar -, mas uma amiga jornalista cristã explicou-me que era o menino Jesus. Uma amiga designer estranhou que o menino Jesus estivesse a ser representado pendurado numa cruz. Expliquei-lhe que o que parecia ser a base da cruz era uma perna com uma sombra castanha, e que o topo era uma auréola como uma que encontrámos em estátuas numa loja chinesa.
Outro amigo designer mostrou-me uma imagem do "Santo Cachorro", desenhado pelo webdesigner Ricardo Mestre, como paródia. São curiosas as respostas. Por exemplo, comentadores dizem que esse último estandarte é, «no máximo, interesseiro» e que o seu autor «vai-se farta(r) de ganhar euros». Mas podemos descarregar a imagem gratuitamente da Web, para além de outras imagens de participantes na página de Facebook de Ricardo Mestre. A imagem é distribuída gratuitamente e parece que não tem existe qualquer contrapartida. Não se pode dizer o mesmo em relação aos estandartes do menino Jesus: são vendidas nas Igrejas Católicas por 15 euros cada um [1, 2, 3, 4]. As igrejas têm direito a receber donativos dos fiéis e têm o direito de vender imagens religiosas, mas como podemos reparar alguns fiéis apresentam respostas injustas e hipócritas e parece-me qu na Igreja Católica finge-se que os seus negócios não o são, por detrás da cortina do moralismo, neste caso, sobre o que entendem ser o sentido do Natal.
Vemos presépios nas lojas, existe publicidade sobre presépios vivos e uma notícia de um presépio roubado, e todos os anos no Natal são dados na TV desenhos-animados, filmes e documentários sobre Jesus, para além de programas com missas nos canais genéricos. No entanto, a Igreja Católica em Portugal e alguns católicos entendem que não existe a consciência (ou a suficiente) de que o Natal está relacionado com o nascimento de Jesus. Pelo menos nas decorações de Natal, por "algumas atitudes ligadas ao «politicamente correcto»". Se essas críticas têm algum sentido, significam que eu e todos os portugueses deveriam fazer presépios em casas e nas lojas no Natal. E, se são consistentes, todos os que vivem noutros países deveriam participar nos seus feriados religiosos, por exemplo, para celebrar o nascimento de Krishna (2 de Setembro) e para adorá-lo (13 de Julho). Eu sigo a tradição de montar um presépio porque gosto - mas tenho o dever de o fazer? E num país com feriados hindus, teria o dever de fazer um presépio para Krishna? E se não o fizesse, conclui-se que seria por uma atitude "politicamente correcta"?
Muitos feriados religiosos, como a de Imaculada Conceição, são apenas dias sem trabalho para muitos. Parece ser de mau tom passar a haver estandartes vermelhos com uma imagem de uma vulva de uma virgem para lembrar o significado dado ao dia 8 de Dezembro pela Igreja Católica, e oficializado pelo Estado Português. E não espero que na Páscoa surgem estandartes de judeus com uma imagem Moisés, outros de cristãos com uma imagem Jesus crucificado e muito menos de pagãos com imagens coelhos, ovos e a deusa Éster [deusa da fertilidade, que deu o nome inglês "Easter" à "Páscoa" - em vez dos festejos de "Passover"].
A verdade é que os significados dos dias dos feriados religiosos divertidos foram outros. A Igreja Católica absorveu-os e alterou-os, para destruir a concorrência, como a Microsoft. Note-se que não foi só com o coelhinho e ovos da Páscoa que os pagãos contribuíram nos feriados religiosos cristãos. A contribuição do paganismo no Natal ainda é notada no nome que alguns povos dão ao seu nome, como "Yule", na Escandinávia, que era um festival de Inverno dos povos germânicos. As decorações natalícias e a árvore de Natal eram proibídas até ao século XIX, por ter havido a crença de estarem associadas ao paganismo e porque o Profeta Jeremias tinha proibido a práctica pagã de cortar árvores para as decorar (Jeremias 10:2-4). A tradição do beijo debaixo de um azevinho, verde com bagas vermelhas, tem origens associadas às e saturnálias. Era também considerado sagrado para os druidas e na Inglaterra acreditava-se que afugentava os trasnos.
No século V, os cristãos não celebravam o Natal e Orígenes até dizia que apenas os pecadores, não os santos, é que celebravam os aniversários. Nos países cristãos anglo-saxónicos acreditava-se que o Natal tem origens pagãs, por isso os festejos natalícios foram proibidos no século XVII, tal como alguns prosélitos os proibem actualmente. Atribui-se o aniversário de Jesus a várias datas, tais como 20 de Maio, 19 e 20 de Abril, 28 de Março, 10 e 6 de Janeiro e 25 de Dezembro. Mas em 274 d.C., o imperador pagão Aurélio tinha proclamado esse dia como o de Dies Natalis Solis Invicti ["O Nascimento do Sol Invencível"]. Em 336 d.C., o convertido Imperador Constantino começou a celebrar o Natal no dia 25 de Dezembro e alguns anos depois o Papa Júlio I associou o nascimento de Jesus a esse dia. [infobritain; Why Christmas?; Wikipedia; History; Catholic Education; The Holiday Spot; Seyaku]
O que tinha significados pagãos, passou a ter outros significados, inclusivé cristãos. Conhecendo as origens das festas, uns repudiam-nas só por acreditarem que são supersticiosas e pagãs. Mas para outros o que interessa é o prazer que partilhamos com os outros, quer seja no Natal, no Carnaval ou no Dia das Bruxas - é isso que torna a participação festiva no Natal popular, ao contrário da Imaculada Conceição. E há também os que criticam os que não parecem dar a mesma importância às suas crenças religiosas através das decorações e notícias. O economista João César das Neves, no Destak, deu novos significados a duas personagens: comparou o Pai Natal com Herodes «gordo e de barbas brancas» e o Imperador Augusto com Obama, apesar do Pai Natal ser inspirado em São Nicolau e o Imperador Octávio Augusto ter sido considerado filho de um Deus e um salvador que iria trazer a Paz ao Mundo (a Pax Romana), tal como Jesus... Segundo ele, o «consumo, prazer, dinheiro, azáfama», muitas «renas, árvores, sinos, trenós, mas poucas manjedouras», e as «montras, anúncios, jornais, televisões» falarem «do Pai Natal ou do Obama em Copenhaga, não de Jesus» são «as condições ideais para o Natal», porque «foi precisamente assim na primeira vez que houve Natal. Quando Jesus nasceu também ninguém lhe ligou nenhuma. Toda a gente se atarefava na sua vida, sem sequer saber do estábulo. As atenções estavam centradas nas árvores, no gado, no consumo, prazer.»
Mas agora o Natal é mais como "Um Cântico de Natal", de Charles Dickens, onde dedica-se um dia para o descanso do trabalho, para a diversão, para a partilha e para os abusos dos doces - que o avarento Ebenezer Scrooge deprezava antes de se confrontar com os três espíritos do Natal. Uma pena para quem paga 15 euros para ter uma rua com as mesmas decorações vindas da mesma fábrica, em vez de ter uma imagem diferente de um menino Jesus. Talvez se passarem a ter consciência de que 15 euros é muito para um pano e que é suposto servir-se para as dioceses, saberão que o dinheiro afinal tem utilidade. Prefiro usá-lo para o meu prazer e prazer dos outros do que para dar sermões disparatados de moral sobre o que devemos fazer durante os feriados. Especialmente tendo em conta que a Igreja Católica mostrou não ter sentido de humor ao reagir contra um cartoon engraçado de uma igreja anglicana. Talvez devesse aprender mais com outras igrejas cristãs, em vez de parecer sempre ofendida quando ignora-se o "politicamente correcto". Pelo menos quando é ela a envolvida...



2 comentários:
Então Pedro? Esta tudo ok? Isto esta a precisar de um post.
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