17 Janeiro, 2010

Caridade, organizações, hipocrisia

¶1 Neste mês doei 100€ à UNICEF para ajudar a combater a malária, comprando 25 redes mosquiteiras, mais 100€ à Cruz Vermelha, para financiar os voluntários no Haiti. Com isso posso fazer descontos no IRC com recibos e receber prémios na Amazon, apesar de ignorá-los. Hoje comprei um vela para uma campanha do Hospital de Santa Maria. Por vezes, quando vou trabalhar e chego a casa, sou um bom samaritano que paga bilhetes e almoços e que ajuda uma senhora a transportar o carrinho com o seu bebé, recebendo um "Deus te pague". Uma colega de trabalho já me apanhou em flagrante a pagar um bilhete para o comboio a uma desconhecida. Mas nunca salvei a vida de alguém, como fez o meu pai, ao atirar-se ao mar dos Açores para salvar um homem que se afogava. Penso que normalmente esses actos não são divulgados e os doadores são anónimos - excepto entre celebridades e quando há o objectivo de proseletismo.

¶2 Nos Estados Unidos da América o sector que costuma receber mais donativos em dinheiro é o religioso (~35%), à frente da educação (~13%), da saúde, das ajudas humanitárias, dos benefícios públicos e sociais, da Cultura, do Ambiente e dos Assuntos Internacionais. E é o país com maior doações em dinheiro. A seguir estão por ordem decrescente: Reino Unido (que dá quase metade dos EUA), o Japão, a França, a Alemanha, a Holanda, a Suécia, a Espanha, o Canadá, ... Mas a Suécia, a Noruega e Luxemburgo são os que dão mais do seu produto nacional bruto - os EUA nem estão entre os 30 primeiros. E os americanos que mais doaram foram bilionários ateus: Warrent Buffet (31 biliões de dólares) e Andrew Carnegie (7,2 biliões de dólares). E foi um ateu filantropista que fez a maior doação de sempre a uma igreja - 22,5 milhões de dólares de Robert Wilson. [1; 2; 3; 4; 5; 6; 7; 8]

¶3 Por outro lado são questionáveis as motivações e fins de doações a organizações religiosas, para além dos estatutos de santos. Em Novembro do ano anterior a Igreja Católica em Washington ameaçou o Estado, negando a prestação de serviços sociais se a lei de casamento do mesmo sexo não fosse alterada. Madre Teresa de Calcutá recebeu 1.25 milhões de dólares roubados de Keating, 1.4 milhões de dólares do ditador corrupto do Haiti, Duvalier, 20 milhões de dólares não declarados da KGB pagos a Robert Hanssen e fundos para 150 conventos do corrupto Robert Maxwell - usaram o nome de Madre Teresa, que exigiu contribuições em troca. No entanto o dinheiro não foi usado para aliviar o sofrimento e tratar doenças - pelo contrário, ela promovia a ideia de que o sofrimento dos pobres é bonito «para partilhar a Paixão de Cristo», que é um dom de Deus e um bem para o Mundo. Os pobres e doentes ficavam deitados num tapete, no chão, defecavam na presença uns dos outros e não lhes era permitido visitas de amigos e familiares. As freiras eram obrigadas a obedecerem cegamente, reprimir as emoções e cortar relações com a família. E como a aplicação do dinheiro não é declarada, não se sabe bem para que é usado, para além das actividades religiosas. No entanto há um tabu em relação às críticas. [1; 2; 3; 4; 5; 6]

¶4 Como existe o hábito de acusar ateus de não serem caridosos e de declarar que não existem organizações de caridade atéias - às vezes com uma citação de Salmos 14 - passaram a existir algumas dessas organizações e dias especiais para, por exemplo, ateus doarem sangue e orgãos, como National Day Reason (com eventos para doações de sangue), a Atheist Blood Drive de Atheists Volunteers, Non-Believer Giving Aid / Richard Dawkins Foundation for Reason and Science, Council For Secular Humanism e Earth's Atheist Resistance To Holy Wars And Religious Devastation. Mas ateus podem cometer o mesmo erro de cristãos: foram enviados e-mails de um tal Atheist Charities Website cujo conteúdo era plágio de uma página do site Catholic Charities of San Francisco e fraudulento.

¶5 Existem muitos ateus que fundaram organizações com fins humanitários, como Bill e Melinda Gates, Ayaan Hirsi Ali, Goparaju Ramachandra Ra e Saraswathi Gora, Asa Philip Randolph, Terry Sanderson, Zackie Achmat, Ingrid Newkirk, Henry Stephens Salt, Lance Armstrong, Bob Gedolf, etc. Nessa lista, apenas o casal Goparaju e Saraswathi colocou uma referência ao ateísmo no nome de uma organização que fundaram: Atheism Centre. Religiosos podem abandonar o apoio a uma organização humanitária por saberem que foi fundada por um ateu. E muitos outros ateus foram ou são activistas e volutários por causas humanitárias, como Murlidhar Devidas Amte e Talisma Nasrim, e unem-se a religiosos, incluíndo clérigos, e vice-versa, como o reverendo Michael Scott que se juntou ao Comité dos 100, fundado por Nicolas Hardy Walter com a ajuda de Bertrand Russell, depois de despedir-se da presidência da Campanha Pelo Desarmamento Nuclear. Mas mesmo com o problema de existir preconceitos em relação a organizações cujos nomes fazem referência ao ateísmo, algumas têm histórias que lhes dão sentido, como quando o filho da fundadora Atheist Alliance International foi impedido de se juntar ao Boy Scouts of America porque a mãe é atéia. Mas penso que devia focar mais na discriminação contra os ateus.

¶6 Se alguém acha que não existem organizações humanitárias de ateus, enumerar organizações seculares como se fossem atéias não é uma boa resposta. Existem algumas que são atéias, mas normalmente os fundadores ateus não fazem questão de associar os ateísmo às suas organizações e actos. Quando faço doações ou ajudo alguém, não faço questão de dizer que sou ateu nem faço proseletismo. Do mesmo modo não vejo necessidade de mencionar o ateísmo e a religião no nome das organizações humanitárias, excepto se tiverem o proseletismo como objectivo ou se tiver objectivos políticos ou sociais para que se resolva a descriminação religiosa. Nem interessa a reputação - o que interessa é o que cada um de nós faz. É verdade: com uma pequena pesquisa, podem verificar que é normal os moralistas que interferem nos assuntos pessoais alheios, supostamente de boa reputação, revelarem-se afinal hipócritas.

¶7 O dízimo e ofertas para muitas das igrejas evangélicas são inúteis. São usados para literatura prosélita, "shows da fé" e para proveito próprio dos pastores, como no caso paradigmático do Reino Universal de Deus [1; 2; 3] No YouTube, um evangélico criacionista, conhecido como VenomFangX, com o hábito de criticar os ateus, evolucionistas e muçulmanos como imorais, prometeu usar o dinheiro que era doado para ele evangelizar, a partir de certa quantia, a uma organização canadiana que trata crianças doentes. Não cumpriu o prometido, cometendo uma ilegalidade, abandonando o seu canal com o pretexto de que tem sido alvo de ameaças de ateus, para além do seu site ter sido bloqueado pelos pais. Mas continuou a difamar ateus e dá lições de moral noutro canal e através da escola onde agora vive. [1; 2; 3; 4] Ele começou a fazer vídeos copiando as palestras do evangélico criacionista Kent Hovind, que foi preso por evasão fiscal. Jimmy Swaggart criticava outros evangélicos de infidelidade e a música rock e metálica cristã, mas chorou lágrimas de crocodilo quando descobriu-se que teve relações sexuais com um prostituto masculino. O evangélico Ted Haggard que criticava a homossexualidade como um pecado, segundo a Bíblia, teve também relações homossexuais com um prostituto, mas pediu desculpas aos homossexuais pelo sofrimento que tem causado. Agora foi a vez da metodista conservadora Iris Robinson. Criticou o perdão de Hillary Clinton a seu marido e declarou que a homossexualidade e a sodomia é mais vil do que a pedofilia. Mas afinal tinha um amante filho de um talhante, desviou dinheiro do Estado para ele e depois quis que devolvesse o dinheiro para financiar a igreja da irmã. Com escândalo, o seu marido, primeiro-ministro da Irlanda, despediu-se do cargo e perdoou a sua esposa. [1; 2; 3] E ainda houve uns disparates de Rush Limbaugh e do reverendo Pat Robertson sobre o Haiti. Mas alguns católicos que lerem este artigo vão focar no que eu disse sobre a Igreja Católica e Madre Teresa de Calcutá, sentido-se ofendidos, como os evangélicos ao lerem este parágrafo. Não percebem o texto, mesmo com os negritos.

3 comentários:

Joao disse...

Bom trabalho Pedro. Mas tenho duas coisas a apontar. Uma é o cherry picking, nesseçario para dar o exemplo de que existe imoralidade na Igreja, mas que não mostra mais que isso. Era preciso numeros grandes que provavelmente não há.

A outra critica é que associações seculares não religiosas devem ser inseridas num grupo de Não-religiosas, mesmo se não de ateitas. Isso é importante porque é correcto e permite responder a precoceitos religiosos sobre caridade.

Penso que estas criticas são reduzidas pela informação disponivel, pelo que me parece um bom post que reflete muita pesquisa.

Joao disse...

E o Swaggart da segunda vez chegou a dizer:

"The Lord told me it's flat none of your business."

leandro ribeiro disse...

« mesmo com os negritos. »

Ou, se calhar, por causa deles.