¶1 Quem não vive debaixo de uma rocha, sabe que houve um sismo no Haiti que praticamente devastou o país. Segundo Hugo Chávez, foi um ataque do EUA ao Haiti. Para Pat Robertson, o país estava amaldiçoado depois de um pacto com o Diabo. Seguindo consistentemente a resposta de Plantinga ao Problema do Mal, esses desastres naturais podem ser explicados como fruto do livre-arbítrio de demónios. Para criacionistas bíblicos, como o "perspectiva", é simples: Deus criou o mundo perfeito, com uma árvore envenenada. O primeiro casal de humanos desobedeceu a Deus comendo frutos da árvore e por isso todos nós temos problemas hereditários, como o envelhecimento, doenças, morte e necessidade de matar para sobreviver, para além dos outros seres-vivos terem os mesmos problemas, e existirem desastres naturais e comportamentos predatórios. Um dos modos de Deus controlar o mal dos humanos foi através de um dilúvio global, depois usou um sacrifício humano e agora temos duas escolhas: «viver do pecado, da morte, do sofrimento e da maldição», ou «a oferta gratuita que o Criador nos faz de podermos viver com Deus numa Criação inteiramente restaurada». Como se responde a respostas dessas? A resposta de "perspectiva" foi dada num comentário a um artigo do Que Treta!, e foi apenas ele que apresentou uma resposta - descreve um Deus negligente mas calculista, tirano com a bondade típica do Pai Estaline, com um plano rebuscado e idiota... mas respondeu, apesar de ser um spammer. Basta que comparem os conteúdos dos artigos e dos comentários. Também questiono como se responde a tais comentários...
¶2 Vejamos por exemplo o primeiro comentário de António Parente, que é o mais interessante. Segundo ele, o artigo (ou a "ideia" de Ludwig) é inviesado porque «Culpa Deus pelo sismo mas quando fala no "antibiótico" aí, alto lá, já é a "ciência", Deus não tem nada com isso» (...) «Ou considera que Deus é responsável por tudo aquilo que considera bom e mau ou então só considerá-lo mau quando lhe interessa e exceluí-lo do bom não me parece muito justo.» É interessante porque o mesmo tipo de crítica pode ser colocada aos teístas do Deus omnipotente e omnibondoso. Gente como o "perspectiva" é enviesada nessa questão: Deus é responsável por tudo o que é bom e as suas criações são os responsáveis exclusivas pelos males. Parece-me que a existência de um ser que é a causa sem causa, omnipotente e omnisciente implica que é responsável por tudo o que advir da criação, mas os outros comentadores não apresentam as suas posições.
¶3 Deístas não rezam a Deus por petição porque Ele não interfere com o Mundo. A oração e adoração são inapropriados no panteísmo, já que nesse caso Deus não é pessoal. O teísmo não implica orações de petição, mas segundo os evangelistas e autores das epístolas bíblicas, é recomendado (aliás, uma obrigação) entre os cristãos, para pedirem ajuda, sabedoria e perdão. (Mateus 6:9-13; Mateus 7:11; Mateus 7:7-8; Marcos 11:24; João 14:13-14; Tiago 1:5-8; Filipenses 4:6; Romanos 8:26-27; Efésios 3:2; Tiago 5:14-16) O Vaticano aceita a oração de petição - «O Homem é um mendigo de Deus» - , desde que se reconheça com humildade que não sabemos orar. Mas para António Parente, Ludwig fez «uma crítica ingénua à religiosidade popular que usa muito a oração de petição» e «os seus leitores crentes são um pouco mais sofisticados intelectualmente». Também não devem ser como o Dom Arcebispo Armando, que explica o exorcismo praticado por doutorados em Teologia, Psicologia ou Sociologia, numa página inteira do Destak. Mas não explicam como são.
¶4 Jairo Entrecosto nem sabe se o Deus omnipotente e omnisciente fez a Terra de modo a ter terramotos. Questiona o que os ateus fariam se fossem Deus, se acabavam com o sofrimento, a morte e com os sismos. E diz que os ateus julgam Deus, caso exista, com um desafio: «Comuniquem uma sentença: refiram aquilo que Deus, a existir, teria a obrigação de fazer no imediato». Pois eu digo que se um Deus omnipotente, omnisciente e omnibondoso existisse, nem sequer se punha a questão de acabar com os males: eles não existiriam à partida. Programadores que criam mundos virtuais apenas implementam os males "naturais" intencionalmente (excluíndo os bugs e as limitações físicas dos computadores) e, mesmo sendo infalíveis, sem poderes nem conhecimentos absolutos, implementam mecanismos de segurança para que males informáticos sejam evitados - e as vontades e consciências dos utilizadores continuam intactas. Se uma máquina for capaz de autonomamente praticar o mal, o seu criador é considerado culpado por esse mal, nem que seja por negligência. Seria eticamente obrigado a implementar algo como as Leis da Robótica. Até em filmes, como o Robocop, os argumentistas são capazes de pensar em seres com vontades e consciências, mas incapazes de realizarem o que se considera indesejável. E nós, mesmo sem termos criado o Mundo, não deixamos de punir e ajudar, mesmo que opunha os "livre-arbítrios" - o que quer dizer que somos mais bondosos do que um Deus omnipotente. No entanto, como pode uma formiga julgar um pé enorme que está sobre ela? O pé pode esmagá-lo antes de haver discussões. Mas, mesmo assim, existe um filme com o título "God on Trial", que pode ser visto no YouTube.
¶5 Mas nada disso responde ao artigo de Ludwig. Afinal de contas, os "leitores crentes um pouco mais sofisticados intelectualmente" do que os que praticam a "religiosidade popular" concordam com ele ou discordam? E com o quê? Acham que cristãos vêem o sismo do Haiti de forma diferente? É verdade que «os católicos vêem neste sofrimento uma prova do amor de Deus» e que, oram ao Senhor «pelas vítimas desta catástrofe» «implorando de Deus consolo e alívio do seu sofrimento»? Se são católicos, oraram seguindo o convite do Papa? Eu ainda não percebi. E mesmo se percebesse, julgo que teria a mesma dificuldade em respondê-los, tal como tenho em relação ao "perpectiva" e ao Hugo Chávez.
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