27 Fevereiro, 2010

Burca

1¶ Simplesmente dizer que não entendem o que criticam não responde às críticas. Não passa de uma observação sem fundamento. Análises de argumentos pouco sofisticados são válidas e muitos são fruto de gente sofisticada. Se são tão maus, por que é que quem critica quem os refuta não concorda que existem e que tão maus como são? Se um ateu escreve ou fala sobre algo relacionado com religião, é provável que cristãos respondem fazendo observações sobre o que julgam ser as suas motivações, o seu conhecimento e sobre o seu desagrado em relação às escolhas dos assuntos pouco sofisticados. Pode ser catalogado de neo-ateu ou excessivamente laicista por algumas das suas opiniões, como o repúdio em relação à burca.

2¶ Pelos vistos, mesmo sem dizer que a burca é um símbolo religioso nem usar essa ideia em argumentos, agora basta um ateu criticar o uso da burca para que se concluir que pretende terminar com os símbolos religiosos. Como o meu crucifixo florescente... Mona Eltahawy, no New York Times, criticou esse tipo de ataques a quem é contra a burca, como aconteceu a Jack Straw. Ela é uma muçulmana que diz que o modo de apoiar as muçulmanas é opor-se aos islamofobas e à burca. E apresentou exemplos de casos em que muçulmanos opunham-se ao uso da burca, nem que seja pelo menos em certos casos por razões de segurança, como nas universidades onde homens podem usar burcas para entrarem nos dormitórios de mulheres. Segundo ela a burca é uma afronta para as muçulmanas e priva a identidade da mulher.

3¶ O lobby The Muslim Canadian Congress [O Congresso Canadiano Muçulmano] convocou o governo para que proibisse o uso da burca e nicab, que consideram ser um símbolo medieval do extremismo misoginista sem fundamento islâmico. Numa entrevista, o seu porta-voz Farzana Hassan afirmou numa entrevista que cobrir a cara é ocultar a sua identidade, sendo uma questão de segurança pública por ser uma práctica comum para se cometer crimes. Aliás, já se cometeram assaltos com burcas, talvez por homens. Em Inglaterra houve uma série de assaltos a joelharias, sem que os bandidos possam ser identificados pelas imagens das câmaras de vigilância [1; 2]. Um banco de Paris foi assaltado também por duas pessoas com burcas. Dois homens, confundidos como mulheres por usarem burca, assaltaram um banco na Bósnia. Na Carolina do Norte alguém vestido com uma burca assaltou um banco. Nem se sabe se foi um homem ou uma mulher, apesar das imagens gravadas:


Terroristas, bombistas suicidas e líderes radicais usam a burca para matar e escapar sem poderem ser identificados, como os ladrões, os carrascos e mercenários, como os ninjas. Na Itália é proibido por Lei cobrir a cara em locais públicos, ocultando a identidade (artigo 5º da lei nº 152, de 22 de Maio de 1975). Na Bélgica existem leis que proíbem o uso de máscaras em locais públicos, excepto durante o Carnaval. Na Turquia - com uma maioria muçulmana - há 85 anos que é proibido usar lenços que cubram a cabeça e pescoço (com excepções), o que é excessivo. O hijab, a al-mira, o xaile, o véu e o chador não cobrem o rosto como fazem a burca e o nicab. Esses dois últimos não são "bocados de panos" e nas outras vestes que também servem de símbolos religiosos, não existem razões para que sejam proibidas. Não se está a propor que se proíba as toucas das freiras, as túnicas dos padres e os quipás dos judeus. Assim é patente o ridículo quando acusam de proporem o fim dos símbolos religiosos, especialmente tendo em consideração que muçulmanos também propõem a proibição das burcas. Não espero que façam as mesmas acusações às muçulmanas que usam hijabs, ou até de um ministro francês muçulmano que diz que a maioria dos muçulmanos é contra a burca - ele é um deles, mas os acusadores, para serem consistentes, deviam mostrar também indignação em relação aos evangélicos cristãos que propõem que muçulmanos sejam expulsos da Europa através do preconceito e implicando que o multuculturalismo implica aceitar o crime.

5¶ Mesmo que existem razões para que não andem pessoas com a cara tapada, há quem compare com ironia o uso da burca com cirurgiões nos blocos operatórios, soldadores nos locais de trabalho, jogadores de hóquei no ringue, esquiadores nas montanhas nevadas, motociclistas numa mota, e uso de cachecóis e de máscaras para proteger a boca e evitar contágio, como se uma máscara de protecção que não impede a identificação tivesse os mesmos problemas da burca. Como se o uso da burca nos locais públicos, em lojas e bancos, tivesse as mesmas razões do uso de uma máscara própria para o local de trabalho ou privado. E como se quem usasse a burca permitisse identificar-se revelando o rosto ou ser revistada. O que interessa é as razões para as proibições, não a ideia abstracta do uso de máscara. A polícia pode possuir armas de fogo nos espaços públicos, mas os civis não podem. Mas podem fazê-lo em locais privados, desde que tenham um certificado, documentos e sigam regras impostas pela Lei. Não vão usar o mesmo tipo de argumentos para defender que haja o direito de possuir e usar armas nas ruas, nas lojas, nos transportes públicos, nos bancos, nas escolas e locais de seviços públicos, pois não? Não esperem que se aceite, por exemplo, que se use máscaras de esqui nas mesmas condições como querem que se permita com a burca.

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