20 Fevereiro, 2010

Crentes intelectualmente sofisticados

António Parente (no Que Treta!):
  • (...) «os seus leitores crentes são um pouco mais sofisticados intelectualmente, penso eu, e mesmo quem opta pela religiosidade e piedade popular não se reconheceria no seu post.» [link]
  • (...) «Uma criança de 5 anos tem uma visão mais adulta da religião do que os comentários que leio aqui. Impressionante. Dramático. Deprimente.» [link]

A ocupar uma página completa do Destak de 22 de Janeiro de 2002 está uma explicação completa do Exorcismo pelo Arcebispo Dom Armando:
Segundo o Arcebispo, «no cristianismo, exorcismo» «é a cerimónia que visa esconjurar os espíritos maus, forçando-os a deixar os corpos possessos ou dominar sua influência sobre pessoas, objectos ou lugares. Quando objectiva a expulsão de demónios, chama-se Exorcismo Solene e deve fazer-se de acordo com fórmulas consagradas, que incluem aspersão de água benta, imposição das mãos, conjurações, sinais da cruz, recitação de orações, salmos, cânticos, etc. Além disso, o ritual católico do exorcismo só pode ser executado por Bispos ou sacerdotes somente quando são expressamente autorizados pelos bispos.» A seguir explica o que são possessões, encostos, espíritos opressivos, obsessões e possessões demoníacas, apresenta exemplos de exorcismos na Bíblia e na História da Igreja, indica as qualificações para se tornar um exorcista e explica como é realizado um exorcismo.
O encosto resolve-se com «água benta e sal exorcizado e o chamado exorcista pequeno acompanhado das respectivas orações». O espírito opressivo «tem a capacidade de "vampirizar" a energia do indivíduo» e é neutralizado com «um saquinho de cor vermelha, com relíquias dentro sempre junto ao corpo».
Mas não é mera religiosidade popular, de quem não é sofisticadamente intelectual! O Arcebispo diz que «o cristianismo deste século tem uma atitude mais científica em relação ao exorcismo pois todo o exorcista deve ser Doutorado em Teologia e em Psicologia ou Sociologia». O exorcista, «enriquecido com os dons carismáticos que Cristo concedeu aos apóstolos», «ordena a Satanás e aos espíritos tenebrosos para saírem do corpo de uma pessoa, casa ou coisa», usando uma estola, a santa cruz, água benta, santos óleos e incenso. Os sintomas são parecidos com os do filme "O Exorcista": «aversão ao sagrado, não gostar de entrar na igreja, bocejos irrefreáveis e ataques de sono, assim como emite arrotos e vómitos especialmente quando reza Sensibilidade à água benta, reacções violentas embora normalmente a pessoa seja pacífica, blasfemar, pode mudar a voz, ouvir sons estranhos, sentir presenças». Até podem acontecer «fenómenos "poltergeist"», que «só o Grande Exorcismo pode resolver».

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O actual Papa, quando era cardeal, escreveu em 24 de Setembro de 1985 a "Instrução sobre o Exorcismo", em resposta a «reuniões para orar no intuito de obter a libertação do influxo dos demônios» «efetuadas sob a direção de leigos, mesmo quando está presente um sacerdote», «embora não se trate de exorcismo propriamente dito». Segundo o cânone 1172 do Código de Direito Canônico, «a ninguém é lícito proferir exorcismo sobre pessoas possessas, a não ser que o Ordinário do lugar tenha concedido peculiar e explícita licença», por isso «não é lícito aos fiéis cristãos utilizar a fórmula de exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas, contida no Rito que foi publicado por ordem do Sumo Pontífice Leão XIII», que devem ser vigiados e admoestados pelos Bispos, «mesmo nos casos que pareçam revelar algum influxo do diabo, com exclusão da autêntica possessão diabólica». Segundo o Catecismo da Igreja Católica, Jesus praticou o exorcismo e «e é d'Ele que a Igreja obtém o poder e encargo de» «expulsar os demónios ou libertar do poder diabólico». Reparem que segundo o catecismo o exorcismo é um sacramental - não é uma forma de religiosidade ou piedade popular.


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No artigo anterior tinha citado uma frase da Primeira Secção da Quarta Parte do Catecismo da Igreja Católica: «o homem é um mendigo de Deus». Ratzinger em 2000 também deu instruções sobre as orações para alcançar de Deus a cura. Por exemplo, pela Unção dos enfermos, «a Igreja recomenda os doentes ao Senhor padecente e glorificado para que os alivie e salve», com uma bênção de óleo e uma reza: 
«derramai a vossa santa bênção para que sirva a quantos forem com ele ungidos de auxílio do corpo, da alma e do espírito, para alívio de todas as dores, fraquezas e doenças
 «e, a seguir, nos dois primeiros formulários da oração após a Unção, pede-se mesmo a cura do enfermo. A cura, uma vez que o sacramento é penhor e promessa do reino futuro, é também anúncio da ressurreição.» Depois da Comunhão pede-se que o «sacramento celeste nos santifique totalmente a alma e o corpo». «Na solene liturgia da Sexta-Feira Santa convida-se a rezar a Deus Pai todo-poderoso para que "afaste as doenças... dê saúde aos enfermos"». Apesar de as reuniões de oração para curas sem «carisma de cura» não serem todas lícitas aos olhos da Igreja, segundo o primeiro artigo das Disposições Disciplinares: «Todo o fiel pode elevar preces a Deus para alcançar a cura.», desde que se siga algumas regras.

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Católicos para Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, anunciam: «Hoje assim canta a antífona do Magnificat Maria subiu ao Céu: alegrai-vos, com Cristo Ela reina para sempre. Aleluia!» O Papa Pio XII, em ex cathedra, tinha associado esse evento à Virgem Maria como dogma no Munificentissimus Deus: (...) «para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial». O próprio Sucessor de Pedro ensinou a Infalibilidade Papal: o Segundo Concílio do Vaticano definiu que todos os ensinamentos do Papa devem ser aceites, através de uma submissão religiosa da mente e da vontade, mesmo sem ex cathedra, como consequência da sucessão de Pedro. Por outro lado, uma definição ex cathedra não pode estar errada, é irreformável e não é permitido os fiéis cristãos duvidarem dela, porque é uma deliberação ou clarificação do Papa com a assistência do Espírito Santo para receber uma Revelação Divina em matéria de fé ou moral, e por isso é impossível estar errada. A diferença, pelos vistos, é que em ex cathedra é impossível o Papa estar errado. Segundo o teólogo católico e historiador Klaus Schatz, existem sete documentos ex cathedra, desde o ano 449. No entanto, em 1998 o então cardeal Ratzinger e cardeal Bertone, enumeraram onze instâncias de infalibilidades papais numa lista que não é considerada exaustiva. Segundo a Igreja Católica, Deus conversa continuamente através da Bíblia e o Papa e seus bispos (o Magistério) têm a autoridade exclusiva de interpretá-la, por definindo as interpretações infalíveis. No Segundo Concílio do Vaticano, chegou-se a uma conclusão infalível de que são eles que falam em nome de Cristo e os crentes devem submeter-se mentalmente e na vontade, mesmo que não falem em ex cathedra (Obsequium religiosum - "Submissão Religiosa").

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Pelos vistos é errado dizer que isso acontece. É uma caricatura ou de crentes pouco sofisticada. Fazer uma peregrinação com bolhas nos pés e milho nos sapatos não é sofisticado. Mas é sofisticado o Papa auto-flagelar-se com um cinto. Vendilhões num santuário não é sofisticado, mas vender uma garrafinha de água benta do Jordão a 3 euros no Vaticano é. Dizer um espírito contou segredos encima de uma árvore e ver o Sol a bailar não é sofisticado. Mas quando resulta num culto do Papa, passa a ser sofisticado. Se o Papa compara a racionalidade cristã com a irracionalidade muçulmana ou fala sobre preservativos, os críticos não o percebem. É uma sina. Também não percebem a ideia de cada uma de três pessoas diferentes serem igualmente Deus e de que a substância de um pão passa a ser carne, mas a matéria continua igual. Eu também não devo ter percebido nada. E ninguém explica.

Deixo uns vídeos de caricaturas da religião e de gente intelectualmente pouco sofisticada.



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