28 Fevereiro, 2010

Meta-ética: dois modelos

«Aqui estou eu, apreciador da vida, sem querer morrer, apreciador do prazer e averso à dor. Suponhamos que alguém me rouba a vida... não seria prazeroso ou agradável para mim. Se eu, por outro lado, devesse roubar a vida de quem aprecia a vida, que não quer morrer, que aprecia o prazer e é averso à dor, não seria algo prazeroso ou agradável para ele. Para um estado que não é prazeroso ou agradável para mim também não deve sê-lo para ele; e se um estado não é prazeroso e agradável para mim, como posso eu infligi-lo a outros?» - Samyutta Nikaya v.353 
«Aqueles que vêem com ternura um dono de escravos e com frieza em relação aos escravos, nunca se colocam na posição dos últimos - que panorama desanimador, sem sequer a esperança de mudança! Imaginem-vos a possibilidade, de alguma vez acontecer a vós, de vossas esposas e pequenos filhos - os objectos que a nature leva a que o escravo considere ser dele - serem tiradas de vós e serem vendidas como bestas ao primeiro licitante!» - Darwin, in A Viagem do Beagle
«Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.» (...) «Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas» - Mateus 7:1-2,12

«Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil.» - Mateus 5:25-26
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1¶ Segundo a Teoria dos Mandamentos Divinos, bem é aquilo que Deus manda fazer e o mal é o proíbe fazer. Portanto, Deus é a única referência absoluta para se definir o que é o bem e o mal e, segundo cristãos bíblicos, fá-lo através das Escrituras. Por exemplo, segundo Guilherme de Occam, se Deus manda matar, então é bom matar. Assim justifica os homicídios e despojos dos hebreus. Apesar de ser um universalismo moral, é também um individualismo ético subjectivista (1), por depender da atitude de uma pessoa - Deus. Comparando com a educação de moral que um pai dá, é como responder às questões morais: «Porque eu digo» ou «Porque eu mando».

2¶ O que proponho é que para decidir se uma decisão é boa ou má, deve-se considerar o efeito que tem em todos os sujeitos, sem dar preferência a um deles ou a uma parte. É semelhante à Regra de Ouro, que a maioria das religiões, no entanto tomo em conta que o outro é diferente e devemos ter isso em conta numa avaliação moral. Na Regra de Ouro, comparando com a educação de pai é como dizer algo como: «Gostas/queres que te façam o mesmo?» Eu, por outro lado, questiono o que seria se fosse o outro, tendo em consideração a sua natureza, e considero que o que é do nosso interesse, ou que é bom para nós, não é necessariamente o gostamos ou queremos (pelos no curto prazo). Por exemplo, é do interesse da criança que estude para o futuro, apesar de não gostar nem querê-lo. E num mundo imperfeito muitas vezes é necessário recorrer a males temporários para ter um bem, por exemplo provocar dor para salvar uma vida, ou isolar alguém que prejudica grandemente outros, como o ladrão, o homicida e o violador.

3¶ Infelizmente existe uma tendência para distorcer essa última posição, limitando as alternativas à primeira, numa falsa dicotomia ou tricotomia, a outras que não aceito numa orgia de homens-palhas. A imagem seguinte mostra diagramas com os dois modelos (1 e 4) e outros dois que os que defendem o primeiro impingem como únicas alternativas ao seu:
 

4¶ O primeiro diagrama representa um individualismo ético: depende apenas de um único indivíduo ("A"). Em geral quem defende-o na forma da Teoria dos Mandamentos Divinos, impinge os modelos representados no segundo e terceiro diagramas. O segundo, tal como o primeiro, apenas uma parte define o que é bom e o que é mau, mas ela é maior que apenas um indivíduo. (Se uma sociedade que dissesse que a escravatura fosse boa, então seria?) No terceiro o bem e o mal é como o gosto: depende apenas de um sujeito. É a apenas nesse caso que costumam chamar de subjectivo. (E para o pedófilo?) O que defendo é o quarto modelo, que é muito mais complexo que os restantes casos.

5¶ Se existisse apenas um sujeito, ele depende apenas de si mesmo. Mas se ao deixar cair uma pedra na cabeça sentir dor, isso não seria mau para ele por uma opinião, tal como não se sente frio ou calor por opiniões. Se gosta de música alta e não lhe prejudica, então é bom ouvi-la.
Suponhamos que ele cria outro sujeito - passam a existir 4 relações: os sujeitos devem considerar o que é bom e mau para si mesmos e para o outro (conto com duas relações). Estes dois casos devem ser estudados isoladamente antes das generalizaçoes. Se o criador um sádico poderoso, não quer dizer que torturar a criatura seja boa. Ele deve ter em consideração a criatura. Se ela também gosta da mesma música alta e não lhe for prejudicial, então é bom tocá-la para ambos a ouvirem. Caso contrário seria mau - por isso é que existem os auscultadores...
Se for criado outro sujeito, passam a existir 9 relações. Com quatro sujeitos, seriam 16 relações. Para um sujeito em abstracto o melhor é um modelo com essas relações. Noutro modelo, corre o risco de calhar numa situação em que não é representativo numa avaliação moral.
Nesse modelo a existência de Deus é irrelevante para o que é bom e o que é mau. Para Deus ser bom, deve considerar o que é bom para todos. Mas é relevante para a Teoria dos Mandamentos Divinos. Para um seu proponente, não existiria moral ou um indivíduo ou grupo seriam a Referência Absoluta. Seguindo a sua lógica, ao visualizarem estarem errados, concluem que matar é tão bom ou mau como salvar uma vida, ou se a autoridade divina devia-se ao seu poder, a distinção entre bem e mal dependeria dos mais poderosos ou da maioria. São os que questionam por que é que devemos ter em consideração os outros que dizem que poderiam ser maus para connosco, ou não dariam valor ao bem, se fossem ateus racionais.

7¶ Além disso a sua teoria moral implica que se Deus for um sádico que dissesse que devíamos lutar uns contra os outros até à morte, então as guerras seriam boas. Podem pensar que resolvem o imbróglio dizendo que não é essa a natureza de Deus, mas isso seria admitir que nem eles acreditam que o bem e o mal é ditado por Deus: «reconhecemos que o sagrado é amado por Deus por ser sagrado, e não que é sagrado por ser amado» (in Êutífron, de Platão). Como convencem Deus, um ser omnipotente, que é errado torturar? Nem a Bíblia defende que o bem significa o mesmo que mandamentos divinos. Os profetas dão os seus "porque", "portanto" e "para que", como nas parábolas, e alguns até colocam em causa a justiça divina: «Não faria justiça o Juiz de toda a terra?»

(1) Correcção: o individualismo ético subjectivista não se refere apena a um indivíduo. Proposto por Protágoras, ignifica que existem tantos bens e tantos males quanto o número de sujeitos.

2 comentários:

Pedro Amaral Couto disse...

Mats:
https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8490759636998777416&postID=1336154297121882579

AInda bem que disseste para ler os tais pontos uma vez que descobri mais erros de lógica e de básico conhecimento Bíblico.

Segundo a Teoria dos Mandamentos Divinos, bem é aquilo que Deus manda fazer e o mal é o proíbe fazer.

Errado mais uma vez, Pedro.
"Bem" é aquilo que Deus qualifica de bem. Mal é aquilo que Deus qualifica de mal. Vês a distinçao? Deus mandou destruir a satânica cultura amalequitas, mas isso não foi "bom"; foi justo.


Por exemplo, segundo Guilherme de Occam, se Deus manda matar, então é bom matar. Assim justifica os homicídios e despojos dos hebreus. Apesar de ser um universalismo moral, é também um individualismo ético subjectivista (1), por depender da atitude de uma pessoa - Deus

Pois, mas Esta "Pessoa" não é Uma Pessoa Qualquer. E Alguém que é Omnisciente, Omnipresente. Omnipotente e, principalmente, Omnibenevolente. Estas características tornam as Suas definições de "bem" e de "mal" absolutas e não "subjectivistas", como erradamente to escreves.

O que proponho é que para decidir se uma decisão é boa ou má, deve-se considerar o efeito que tem em todos os sujeitos, sem dar preferência a um deles ou a uma parte.

É uma proposta válida, mas é uma proposta pessoal e relativa. Outros ateus podem levar em conta outros dados.

Voltamos ao ponto de partida.

O que defendo é o quarto modelo, que é muito mais complexo que os restantes casos.

Para além de ser confuso, é totalmente irrealista.

Diz-me onde é que digo que "devemos sentir empatia".


Não é esse o sentido da frase "Para o podermos fazer de forma eficaz, precisamos de nos colocar na pele dos outros - sentir empatia" ?


(A empatia é uma capacidade cognitiva - não podemos decidir tê-la! Leia bem o parágrafo 4.)


Podemos sim senhor. Há pessoas que decidem não ter empatia com o bebé no ventre materno (e por isso não sentem remorsos ao matá-lo) mas há outros que tem essa empatia.

Sentir empatia ou não sentir empatia é uma decisão e não uma reacção mecânica.

Pedro Amaral Couto disse...

Eu pensava que mandamento é uma ordem e que Deus é omnibenevolente. Afinal de contas dizes que ele ordena que façam o mal. Mas de qualquer modo é irrelevante: as conclusões sãos as mesmas. Quer dizer que se tiver fome tenho de saber o que Deus determinou sobre isso e se determinar que é bom, então é. Como vês, dá o mesmo.

Só porque alguém é omnipotente, omnisciente e omnipresente não quer dizer que o bem e o mal seja o mesmo que o ele qualifica (parágrafo 3 de comparação de dois modelos). Deves explicar porque é que para o bem e para o mal é diferente.

Tens razão, ter consideração pelos outros é pessoal. Tem a ver com a minha pessoa e com as outras pessoas. Mas é relativo a quê para ser relativo? Se disseres que é a mim, posso dizer que o que defendes é a tua. Se disseres que não é a tua, mas de Deus, então é relativo a Deus.