09 Maio, 2010

Meta-ética: moral e imoral

1¶ Mesmo para um sujeito isolado, único em toda a existência, existem coisas que são boas e outras que são más. Sensações agradáveis são boas. Sensações desagradáveis são más. É bom conseguir concluir projectos com sucesso. Tomar decisões informadas é bom. Não tomar decisões por ignorância ou ser responsável de resultados indesejáveis é mau. É bom ser livre de fazer o que deseja, é mau não poder o que tem vontade. Se não existir qualquer sujeito, tudo isso deixa de fazer sentido, deixando de existir o belo, nem o feio, nem o prazer, nem o sofrimento, nem o amor, nem o ódio, nem o bem, nem o mal.

2¶ Existem gradações de bem e de mal, tal como existem grandações de prazer e de sofrimento e maiores e menores vontades (e como a lógica fuzzy), e existem decisões e acções neutras. Estar paralisado num deserto escaldante durante dias até morrer de sede ou de fome é muito pior que uma leve comichão no nariz que pode ser aliviada ao esfregá-lo. Na imagem seguinte está uma representação dessa ideia (abaixo) e uma alternativa (acima).


3¶ O que é bom a curto prazo pode ter consequências muito más a médio ou longo prazo e vice-versa. Esperar e trabalhar arduamente pode ser desagradável, mas a paciência e deligência podem compensar. Podemos ter limitações e o mundo pode não ser perfeito, mas podemos pesar os prós e contras em curto, médio e longo prazo, avaliar os riscos e fazer sacrifícios para obtermos um bem, como um engenheiro. A imagem seguinte é um gráfico que representa um exemplo dessa ideia. O excesso pode ser muito bom no momento em que é praticado, mas com o tempo os seus efeitos são maus e podem influenciar a percepção da realidade ou limitar a liberdade que tinha.
3¶ Existindo dois sujeitos, o que foi dito nos parágrafos aplica-se a cada um deles e aos dois como um todo. Pode ser que um projecto de um dos sujeitos seja mais facilmente concluído com a ajuda do outro. Ou até mesmo seja apenas possível com cooperação. E assim poderão construir ferramente e mudar o ambiente de modo a viverem com mais conforto, liberdade e felicidade. Além disso se um deles estiver em apuros, o outro pode ajudá-lo. Ou podem prejudicarem-se.
4¶ Cometer um acto imoral é fazer um mal para alguém. Em certas situações devemos cometer males - por exemplo, ferir alguém que pretende cometer homicídio. Mas não deixa de ser imoral. O dever não é evitar o que é imoral - o que é impossível se não somos capazes de controlar tudo o que nos rodeia. Outras decisões são piores - por exemplo, deixar que se cometa um homicídio -, e o dever é escolher a melhor, por vezes entre tantas más. Para o podermos fazer de forma eficaz, precisamos de nos colocar na pele dos outros - sentir empatia. A psicopatia é uma doença (que pode ser hereditária) caracterizada por falta dessa capacidade cognitiva. São incapazes de colocar no lugar do outros, não conseguem ter sentimentos, não sentem remorsos, são frios e manipuladores. [Há algum tempo deu um episódio do Dr. House sobre o tema: trailer1, trailer2, argumento, erros.] Como o psicopata é tem essa incapacidade cognitica, é um ser imoral.

5¶ O pastor Ted Haggard é um exemplo de alguém que parece que aprendeu que o que fazia em relação aos homossexuais era imoral. A postura dele mudou muito depois de se descobrir que ele é homossexual e que tinha relações sexuais com um prostituto, pedindo desculpa aos homossexuais:




6¶ Mesmo para um egoísta em geral a melhor estratégia é não fazer mal aos outros e fazer o bem. Se Ted Haggard tivesse razão quando julgava os homossexuais, o razoável seria ele próprio sofrer o mesmo. Talvez tivesse sentido o que podiam ter sentido os homossexuais, especialmente os cristãos, ao ouvirem os sermões, e aprendeu que não queria ter Ted Haggards.

7¶ Os seres sociais instintivamente protegem os membros do seu grupo e cooperam com o grupo, porque identificam-se com o grupo e os seus membros. São apenas morais com o próximo. Ted Haggard, ao ser apanhado, passou a pertencer ao grupo dos homossexuais e ele deve ter sentido como um dos seus membros. Os humanos têm mais experiência em lidar com grupos diferentes em espaços geográficos distantes e até de espécies diferentes, têm maior capacidade de fazer experiências mentais para planear e prever e são capazes de transmitir mais eficazmente o que aprenderam em forma de cultura. A História é um trajecto de muitos Ted Haggards e os nossos conceitos de moralidade e imoralidade são produtos dela. Não só sentimos dor quando fazem mal aos nossos próximos, mas também a todos os seres sentientes. Percebemos que eles sentem dor, que têm desejos... em suma: têm poder de subjectividade, como nós. E ao percebermos isso, percebemos no senso-comum o que é ser moral e o que é ser imoral, mesmo continuando a ser um problema filosófico complexo que não foi ainda resolvido.

11 comentários:

Joao disse...

É um problema complexo que provavelmente nunca vai ser resolvido.

É como dizer onde acaba o cinzento claro e onde começa o cinzento escuro.

Ja para não falar que existem problemas obvios com o numero de factores em jogo ao mesmo tempo, tornando a computação de uma resposta em tempo real impossivel, mesmo que fosse possivel conhecer todas as variaveis.

Mats disse...

Tu dizes que "devemos sentir empatia".

Devemos? Porquê?

Pedro Amaral Couto disse...

Mats, é tão simples!

Para acederes à Web, deves ter um computador com acesso à Internet. Para isso deves estar ligado a um router ou a um ISP. Para digerires a comida, deves colocar a comida na boca, mastigá-la e engoli-la. Para atravessares a rua, deves olhar para os dois lados, senão arriscas-te a não consegui-lo.

Se não tens dúvidas nesses exemplos vamos aplicar ao contexto do que citaste. Para conseguir ajudar os outros, devo compreendê-los (colocar-me na pele dos outros). Para me ajudarem, devem compreender-me. (vide parágrafos 1-3) Os seres com empatia são aqueles capazes de se compreenderem.

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Já agora, a expressão entre aspas não são as minhas palavras. O que escrevi foi: ... «o dever é escolher a melhor, por vezes entre tantas más. Para o podermos fazer de forma eficaz, precisamos de nos colocar na pele dos outros - sentir empatia.»

Espero por repetires exactamente a mesma pergunta, apesar da resposta.

Pedro Amaral Couto disse...

Mats,

já conheço a tua táctica. Vês determinadas palavras, como "dever" e "mal", colocas expressões entre aspas como se eu as tivesse usado e depois simplesmente perguntas porquê, quando a resposta está no artigo (como notei). E repetes sempre a mesma pergunta, sem reflectires sobre o que é dito nem teres de pensar sobre o que está escrito. Posso fazer um programa informático muito simples para fazer o mesmo. E ele também não terá interesse nas resposta que lhe derem.

Mats disse...

Não sei qual é a "minha táctica", mas acho que esse tipo de discurso revela alguma mania da perseguição.

Enfim, eu não quis me alongar no comentário porque o assunto já foi falado várias vezes e sobre vários pontos.

As perguntas resumem-se a isto:

Quando usas o conceito de "bem" e "mal", estás a assumir uma forma de destingir uma da outra. Que forma é essa que usas? As tuas crenças pessoas? Uma lei externa e vinculativa? A Bíblia? O Qur'an ? A Origem das Espécies?

Em todos os debates sobre o bem e o mal está implícito por ambas as partes uma forma de se separar uma da outra, mas o relativista moral não tem bases para isso. Por isso é que a minha pergunta centra-se só nisso.

Quando dizes "devemos sentir empatia", isto é muito nobre e louvável.

Mas a pergunta é: devemos mesmo? Se eu não quiser sentir empatia, estou a violar alguma lei que se aplique a mim ? Que lei é essa?

Eu gostaria de saber.

Pedro Amaral Couto disse...

Mats,

pois seja mania da perseguição. O facto é que fazes sempre o mesmo e posso facilmente prová-lo indicando vários dos seus comentários. Se não tens consciência desse problema, o melhor é resolvê-lo.

P: «Quando usas o conceito de "bem" e "mal", estás a assumir uma forma de destingir uma da outra. Que forma é essa que usas? As tuas crenças pessoas?»

Leia os parágrafos 1, 3 e 4. E os parágrafos 2, 4 e 5 deste artigo. Sempre que for capaz de responder às perguntas meramente apontando parágrafos do que escrevi, demonstras o que escrevi sobre ti. Lembrei-me de numerar parágrafos a pensar em ti. LOL

Diz-me onde é que digo que "devemos sentir empatia". (A empatia é uma capacidade cognitiva - não podemos decidir tê-la! Leia bem o parágrafo 4.)

Não precisamos de leis para devermos comer quando temos fome - temos vontade, não entra em conflito com outras vontades, por isso fazemos. Diz-me onde é que digo que os deveres dependem de leis. E define o que entendes por "leis" e "deveres".

Mats disse...

AInda bem que disseste para ler os tais pontos uma vez que descobri mais erros de lógica e de básico conhecimento Bíblico.

Segundo a Teoria dos Mandamentos Divinos, bem é aquilo que Deus manda fazer e o mal é o proíbe fazer.

Errado mais uma vez, Pedro.
"Bem" é aquilo que Deus qualifica de bem. Mal é aquilo que Deus qualifica de mal. Vês a distinçao? Deus mandou destruir a satânica cultura amalequitas, mas isso não foi "bom"; foi justo.


Por exemplo, segundo Guilherme de Occam, se Deus manda matar, então é bom matar. Assim justifica os homicídios e despojos dos hebreus. Apesar de ser um universalismo moral, é também um individualismo ético subjectivista (1), por depender da atitude de uma pessoa - Deus

Pois, mas Esta "Pessoa" não é Uma Pessoa Qualquer. E Alguém que é Omnisciente, Omnipresente. Omnipotente e, principalmente, Omnibenevolente. Estas características tornam as Suas definições de "bem" e de "mal" absolutas e não "subjectivistas", como erradamente to escreves.

O que proponho é que para decidir se uma decisão é boa ou má, deve-se considerar o efeito que tem em todos os sujeitos, sem dar preferência a um deles ou a uma parte.

É uma proposta válida, mas é uma proposta pessoal e relativa. Outros ateus podem levar em conta outros dados.

Voltamos ao ponto de partida.

O que defendo é o quarto modelo, que é muito mais complexo que os restantes casos.

Para além de ser confuso, é totalmente irrealista.

Diz-me onde é que digo que "devemos sentir empatia".


Não é esse o sentido da frase "Para o podermos fazer de forma eficaz, precisamos de nos colocar na pele dos outros - sentir empatia" ?


(A empatia é uma capacidade cognitiva - não podemos decidir tê-la! Leia bem o parágrafo 4.)


Podemos sim senhor. Há pessoas que decidem não ter empatia com o bebé no ventre materno (e por isso não sentem remorsos ao matá-lo) mas há outros que tem essa empatia.

Sentir empatia ou não sentir empatia é uma decisão e não uma reacção mecânica.

Pedro Amaral Couto disse...

Responde nos artigos em questão. Quem estiver a ler os comentários deve ter o artigos comentados à vista. Copiei o comentário no sítio apropriado e respondo lá:

https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8490759636998777416&postID=5905297717428647283.

Pedro Amaral Couto disse...

Mats: ["devemos sentir empatia"] «Não é esse o sentido da frase "Para o podermos fazer de forma eficaz, precisamos de nos colocar na pele dos outros - sentir empatia" ?»

Olha bem para o "para o podermos fazer de forma eficaz". Isso significa que para fazer tal, devemos (precisamos, é necessário para, se não for assim não dá de outra forma) ter empatia, que é uma capacidade - não é um acto.

Também deves pensar que conseguimos decidir ter outras capacidades cognitivas. Decidimos sermos inteligentes ou estúpidos, sermos génios ou termos deficiências mentais? A psicopotia é um distúrbio caracterizada pela incapacidade (não conseguir) de empatia. Se tiveres razão, não existem psicopatas. Com a ablação do sistema límbico perde-se a capacidade de empatia. Pega num dicionário ou numa enciclopédia para veres os significados das palavras. Ou clica nos links que coloquei.

Mats disse...

Pedro,
Concordas que há pessoas que conscientemente decidem não ter empatia com a vida no ventre materno ou não?

Se sim, o que é que isso diz em relação à empatia? É uma decisão ou uma reacção?

Pedro Amaral Couto disse...

«Concordas que há pessoas que conscientemente decidem não ter empatia com a vida no ventre materno ou não?»

Não concordo.

«Se sim, o que é que isso diz em relação à empatia?»

Ora, que não podemos decidir tê-la.

«É uma decisão ou uma reacção?»

Nem uma nem outra. Ou tem ou não tem.

O que é que achas que significa a palavra "empatia"?