Tenho um esboço sobre falácias, mas não continuei a mexer nele por estar ocupado com trabalho e com um portefólio. Mas escrevo este artigo para responder a um comentário de Yuri sobre a hipótese de São Paulo ter sofrido epilepsia, para responder a parte do Argumento do Túmulo Vazio.
No seu blog "Pérolas dos poucos", ele coloca algumas questões:
- «Qual a probabilidade de Paulo sofrer de epilepsia?»
- «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra que derrubasse alguém de um cavalo?»
- «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra quando Paulo estivesse montado no cavalo?»
- «Qual a probabilidade de um terremoto despoletar um ataque de epilepsia?»
- «Qual a probabilidade de uma epilepsia levar à prosopagnosia e cegueira temporária?»
- «Qual a probabilidade de um epiléptico sofrer alucinações que transformam seus perseguidos em perseguidores?»
- «Qual a probabilidade de acontecer, simultaneamente, essas coisas?»
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Comentadores disseram que acreditam que é impossível acontecer tudo simultaneamente ou que é muito pouca, que crer nessa possibilidade é uma questão de fé. Cometem uma falácia de probabilidades que é comum entre criacionistas, para defender um suposto caso de Falácia da Conjunção. Apresento um exemplo através de uma doença crónica que eu tenho:
O meu nome é Pedro Amaral Couto. Sou um homem português que nasceu em São Miguel, mas que vive na Margem Sul da Grande Lisboa. Certa vez pelos doze anos senti-me mal-disposto com o cheiro de arroz de marisco e não conseguia comê-lo. A falta de apetite e os vómitos passaram a ser comuns e comecei a evacuar sangue. Pelos sintomas, a médica de família suspeitou que se tratava de doença de Crohn. Depois de terem sido feitas análises, fui medicado e passei a visitar regularmente um hospital. Fui descobrindo o que não posso comer: caranguejo, caldo-verde e sopas com puré, lacticínios e chocolate. Fiquei a saber que existem doentes que não podem comer bacalhau e outros que só podem comer carne se for triturada. Mais tarde, quando faltava pouco para o dia de meu aniversário, senti febres e uma comichão do traseiro. Tinha um abcesso, que fiquei a saber que era comum na doença de Crohn. No meu aniversário estive deitado numa cama. E celebrei-o com um bolo por cima da barriga. Fui eu que introduzi na Wikipedia o artigo sobre essa doença.
A priori, qual é a probabilidade de isso tudo acontecer? Na Europa, cerca de 7 pessoas em cada 100.000 sofre dessa doença; ie: a probabilidade de alguém ter a doença é de 0,007%. Se a multiplicarem com todas as probabilidades de todas as minhas características relacionadas com doença, terão o valor de tudo simultaneamente. E será muitíssimo mais pequeno. No entanto, foi o que me aconteceu e o diagnóstico foi feito pela descrição dos sintomas. Num caso particular, a probabilidade que interessa é aquela que tem em conta todos os dados conhecidos, o que poderá aumentar muito a probabilidade (que é a medida da nossa ignorância).
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1. «Qual a probabilidade de Paulo sofrer de epilepsia?»
Sobre a hipótese de epilepsia, usei palavras como "especulações" e "supostamente": não existe o mesmo grau de certeza que tenho sobre a minha doença. Mas é fundamentada na comparação feita por médicos dos sintomas de epilepsia com as cartas de Paulo. Nos sites dedicados à epilepsia, São Paulo é usado como exemplo de um epilético e a epilepsia era até chamada de "doença de São Paulo" na Irlanda.
- PubMed Central - J Neurol Neurosurg Psychiatry - St Paul and temporal lobe epilepsy
- BBC - Saint Paul (vídeo)
- German Epilepsymuseum Kork - Famous people who suffered from epilepsy: Saint Paul
- epilepsy.com - Religious Figures : Saint Paul
- epilepsy action - St Valentine and others - patron saints of epilepsy : «That this was an epileptic seizure is given even more credence by the fact that sight impediment – including temporary blindness lasting from several hours to several days – has actually been observed as a symptom or a result of an epileptic seizure. Paul himself perhaps provides further evidence of his epilepsy when he talks about his “physical ailment” in his letters; (2 Corinthians 12:7 and in Galatians 4:13-14). This connection between Saint Paul and epilepsy was so strongly perceived that in old Ireland, for example, epilepsy was sometimes known as 'Saint Paul's disease'.»
Se os sintomas de Paulo descrevem os sintomas de epilepsia, então a probabilidade deve ser elevada. Por exemplo, segundo Actos, foi cercado por uma luz, caiu, teve uma experiência religiosa, ouviu vozes e ficou cego durante três dias. Segundo as suas cartas, teve visões, sentiu-se arrebatado para o Paraíso, desejou que arrancassem os olhos para substituirem os seus, sentia-se esbofeteado por Satanás, notou que escrevia com letras grandes, dizia várias vezes que queria gloriar-se e enumerava as suas fraquezas e tinha uma doença que quem pedacia costumava ser desprezado (a epilepsia era chamada de "morbus insputatus": doença cuspida; era costume cuspir nos epiléticos).
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2. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra que derrubasse alguém de um cavalo?»
Eu não tinha sequer escrito a palavra "cavalo", na Bíblia não é dito que esteve montado num cavalo - apenas que «caindo em terra, ouviu uma voz» - e não é a queda que provoca epilepsia, por isso a pergunta é irrelevante. Mas sabe-se que os sismos alteram os comportamentos dos animais. Os cavalos ficam agitados durante um sismo antes de ser sentido por humanos. E é comum os epiléticos caírem num ataque de convulsões, porque a falta de equilíbrio é um dos sintomas de um ataque epilético. É o sintoma mais fácil de associar a um ataque epilético. Na Babilónia era chamada de "doença da queda". (Psychoses of epilepsy in Babylon: The oldest account of the disorder)
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3. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra quando Paulo estivesse montado no cavalo?»
4. «Qual a probabilidade de um terremoto despoletar um ataque de epilepsia?»
É irrelevante se aconteceu quando esteve montado num cavalo...
Os sismos na Palestina e arredores eram muitíssimo frequentes e foram descritos com muita frequência na Bíblia, que até teriam aberto jaulas de prisões, e sabe-se que num sismo a descarga eléctrica de fricção das rochas ao atingir o cérebro provoca um ataque num doente de epilepsia. Esse facto é usado para procurar um tratamento e até um meio de prever terramotos. Perguntar qual é a probabilidade de um terramoto despoletar um ataque de epilepsia num epilético é como perguntar qual é a probabilidade de luzes intermitentes despoletarem um ataque de epilepsia num epilético, como aconteceu com 685 epiléticos no Japão quando viram o Pikachu a brilhar num desenho-animado.
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5. «Qual a probabilidade de uma epilepsia levar à prosopagnosia e cegueira temporária?»
Problemas de visão é um sintoma predominante da epilepsia, que inclui cegueira que dura várias horas ou alguns dias depois de um ataque (sintoma de uma fase pós-ictal). Se alguém tem esse sintoma, muito provavelmente sofre de epilepsia, mesmo se acontecer num cão. É um dos sintomas descritos leva médicos a suspeitarem de que Paulo sofria de epilepsia.
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6. «Qual a probabilidade de um epiléptico sofrer alucinações que transformam seus perseguidos em perseguidores?»
Um meu primo pensou que era Jesus durante um ataque epilético. As alucinações visuais e auditivas com figuras luminosas, alterações de personalidade e sensação de estar a ser perseguido ou de ser alguém muito importante são sintomas da epilepsia. Se alguém caiu subitamente no chão e ficou cega durante três dias, e depois disso considera-se mais importante num contexto religioso e diz que viu ou ouviu Jesus e que sentiu-se perseguido no momento da queda , então provavelmente teve um ataque epilético, especialmente se diz que normalmente tem um mal físico e que sente um "espinho na carne". Mais sintomas de uma doença torna mais provável que seja essa doença. Não a torna mais improvável.
- Paranoia - The Psychology of Persecutory Delusions: «Persecutory delusions also occur in neurological disorders, such as dementia (Flint, 1991) and epilepsy (Trimble 1992).» ... «Perez, Trimble, Murray, and Reider (1985) report mental state data on 24 consecutive referrals of patients with epilepsy and delusions were much commoner (70%) in individuals with temporal lobe epilepsy.»
- Delusions, illusions and hallucinations in epilepsy:1. Elementary phenomena : «Delusional themes commonly include: guilt, worthlessness, ill-health, persecution, reference, grandeur, love, jealousy, poverty,infestation, and religion.»
- Neuropsychiatry, Lippincot Williams and Wilkims: «The mechanism for the development of chronic psychosis in epilepsy is not known» ... «A recent study (325) reported persistent symptoms of auditory hallucinations and delusions of persecution»
- The Epileptic, E. M. Blaiklock (Cambridge Journals) : «'The epileptic may be suspicious with delusions of persecution or elated with delusions of grandeu' (Insanity, G. H. Savage, p. 384)»
- Epilepsy Society - Ictal, Post-ictal and Interictal Psychosis
Ainda por cima, Saulo era supostamente um judeu ferrenho. E os judeus acreditavam que as doenças (mudez, cegueira, hemorróidas, etc.) eram punições de Deus, como descritas nas Escritutas Hebraicas. Mesmo segundo os Evangelhos, quando Jesus curava, dizia: «Seus pecados foram curados».
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7. «Qual a probabilidade de acontecer, simultaneamente, essas coisas?»
A probabilidade de acontecer tudo simultaneamente a uma pessoa ao acaso é muito baixa. ( Conhecem alguém com os sintomas descritos? ) Mas no Novo Testamento foram descritos sintomas que aconteceram pouco antes da conversão de Paulo e durante a sua vida. A questão não é sobre a probabilidade de tudo ocorrer simultaneamente. A questão é: qual é a probabilidade de não ser epilético, sabendo que sofre um conjunto de determinados sintomas? Ou, qual é a probabilidade de alguém que tem os sintomas características de uma doença não ter a doença? E já agora, qual é a probabilidade de ter sofrido um "golpe de calor", sugerido por Yuri, que tivesse provocado todos os sintomas? Só ele é que inventou uma explicação nos comentários, apesar de ele ter pedido que outros o fizessem.
Não sou especialista em epilepsia, nem sou psicólogo ou neurologista, nem sequer médico. Usei vários artigos de especialistas na matéria que concluíram que é muito provável que Paulo tivesse sofrido de epilepsia. No entanto escrevi «Mas parece que é dado demasiado crédito ao Livro dos Actos» (parágrafo 8).
O meu artigo era uma resposta a um argumento que conclui que a explicação mais plausível para o conteúdo do Novo Testamento é que Jesus realmente ressuscitou em carne e osso. Define-se o que é mais provável ou mais plausível através do que já conhecemos. Se não sabemos se extraterrestres existem e muito menos se visitem a Terra, mas sabemos que existem casos de alucinações, não se conclui que o mais plausível é que os que dizem que foram abduzidos por extraterrestres foram mesmo abduzidos, especialmente se for um fenómenos muito estudado. O mais plausível é que tenham sofrido de uma alucinação, talvez numa paralisia do sono, se não tiverem a mentir. E se quem tiver os mesmos sintomas de Paulo é diagnosticado como epiléptico, então o mais plausível é que Paulo tenha sofrido de epilepsia. São os sintomas que levam pensar que se sofre de uma determinada doença. E quantos mais sintomas característicos de uma doença tiverem ocorrido, a hipótese não se torna menos plausível. Pelo contrário! O Yuri pensou o contrário...





3 comentários:
meu deus ó red herring
é parecido ao carapau mas sabe pior que o clupeus sp.
pegaste numa coisa daquele maluco
e alongaste-a ao absurdo
já agora o cobol vai para os 51 anos
isso é que era um post de um pac
mão
esta juventude barbuda
só se safa o barbudo rijo e mesmo assi
dúvidas tenho
e 30 seguidores que só uns 2 ou 3 te devem ler
se queres mais 52
eu dou-tos eram 58 mas já não me lembro das passwords todas
Banda in barbar,
red herring é responder fugindo do assunto que se pretende responder. Por exemplo, há um red herring se o que se pretende refutar é uma ideia, mas em vez disso responde sobre as características da pessoa dessa ideia. Esse caso particular de red herring chama-se "ad hominem": http://www.fallacyfiles.org/adhomine.html. Os seus comentários são um bom exemplo disso: só uns 2 ou 3 é que devem ler, alongaste ao absurdo o que o maluco disse, COBOL é uma linguagem velha, etc. Mas respondes àquilo que escrevi...
Sou eu que decido o que respondo no blog. É nisso que depende se é ou não um red herring. Alguém decidiu que cometi um erro de argumentação com sete perguntas. Comecei por mostrar a falácia do argumento dele com um exemplo e respondi a cada pergunta com referências para fundamentar as minhas respostas. Todas as imagens que coloquei são sobre epilepsia, mas dedicadas à questão em particular. Portanto, onde está o red herring, pondo de lado o teu red herring?
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