¶2 Uma palavra pode ter vários significados. Tomemos a palavra "moral". O significado de "moral" em "o moral dos soldados" não é o mesmo que em "a moral da história", que por sua vez não é o mesmo que "a moral católica", que por sua vez não é o mesmo que "Hitler era moral". Essa palavra terá muitos outros significados fora da convenção e do uso vulgar, que a experiência moldou com a intuição. No contexto deste artigo, se dizem que há uma moral de Hitler, aceitam que é legítima e correcta (ética normativa). Se, por exemplo, determina que o genocídio é bom, então aceitam que assim é. A moral é o que determina (correctamete) se um comportamento é bom ou ou mau e é isso que se discute quando se fala em moral e dizem que é objectiva, absoluta, imutável e universal. Não nos façamos de parvos como se significasse regras de conduta de uma sociedade, grupo ou indivíduo, referindo-se apenas a um relativismo descriptivo.
¶3 Se a moral não é questão de opinião, mas de razão, a distinção entre o moral do imoral não pode ser apenas porque sim - dito de outra forma: porque é verdade. x porque y é equivalente a y então x. «"x é bom" é verdadeiro então "x é bom"» é uma tautologia que não acrescenta nada nem explica como é que se identifica o que é bom. Se a ideia é que a intuição dá-nos a resposta, então podemos ter respostas contraditórias de pessoas diferentes, com intuições diferentes, e assim a moral não é diferente de meras opiniões. Se é a razão que nos dá a resposta, uma teoria ética pode explicar a distinção entre o moral e o imoral com passos lógicos que formem um argumento. Existem várias teorias, como a Teoria dos Mandamentos Divinos, o Kantianismo, o Utilitarismo, o Contractualismo, o Colectivismo e o Objectivismo. Quem participa em discussões sobre ética, pelo menos como amador, sabe que defensores da Teoria dos Mandamentos acusam outras teorias de serem relativas ou subjectivas e, portanto, são meras opiniões ou convenções. Parece que o cerne da crítica está nos conceitos que têm de "relatividade", "subjectividade", "absolutividade" e "objectividade", por isso é neles que foco neste artigo.
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¶4 Qual é a posição do ponto y? Se estiver no ponto x, posso responder: «3 unidades para a direita e 1 unidade para cima» (tomando os lados dos quadrados como uma unidade). Estando no ponto x, podia dizer que do canto superior esquerdo A fica: «3 unidades para a direita e duas unidades para baixo». Do ponto B fica: «2 unidades para baixo e 1 unidade para a esquerda». Todas as respostas estão correctas, apesar das coordenadas serem diferentes. Mas é claro que existem respostas erradas: «do ponto A, y fica 1 unidade à direita e 2 para baixo» é falso. A verdade sobre uma posição depende de um referencial (ex: em relação ao ponto x), por isso é uma verdade relativa - um proposição que é verdadeira consoante o contexto.
¶5 Por exemplo, «está a chover» é verdadeiro ou falso consoante o lugar e o tempo. O valor de verdade de «está frio» depende do tempo, do lugar e de uma referência (é uma comparação implícita). Em «sinto frio» depende do sujeito, num determinado lugar e tempo - nesse caso também é uma verdade subjectiva - depende de pelo menos uma mente, porque o objecto está no sujeito.
¶6 Mas ser subjectivo não significa necessariamente que é relativo: pode não ser relativa se depender de apenas uma única mente, como na Teoria dos Mandamentos Divinos. Se «matar é mau» é verdadeiro porque Deus o disse, então é subjectivo. Se é verdadeiro independentemente do lugar, tempo, dos envolvidos, da situação e de qualquer outro contexto, então é uma verdade absolutista.
¶7 Quando faço uma medição, preciso de recorrer à minha mente para usar o medidor e ler o valor (por isso é subjectiva), que não é exactamente igual àquilo que meço, mesmo que o processo seja automatizado - uma das primeiras coisas que se aprende nas aulas de Laboratório de Física é calcular uma margem de erro através de várias medições. Dizemos que uma medida é uma aproximação de uma propriedade de algo que está fora da mente. Essa propriedade, por não depender de uma mente para existir, é objectiva - o objecto está fora do sujeito.
¶8 A Ciência não é o mundo real, mas um modelo que o representa. Se é uma criação mental humana, então é subjectiva, no entanto isso não implica que seja arbitrária - por exemplo, a ideia de que o ponto de ebulição da água é 100ºC não existe por uma decisão arbitrária. Os circuitos electrónicos podem ter um díodo semicondutor e existe o conceito de díodo ideal que explica como os díodos funcionam. Ambos são invenções humanas, mas a existência do díodo ideal é impossível fora da imaginação e isso não quer dizer que as conclusões a partir dele sejam meras opiniões. Se os números, os pontos, figuras geométricas e outras estruturas matemáticas existem apenas na mente - e por isso são entidades subjectivas -, isso não significa que um teorema seja uma mera opinião. Se um ponto, que não tem dimensões, não existe independentemente da mente, isso não quer dizer que a distância mínima entre dois pontos não seja um segmento de recta... na Geometria Euclediana.
¶9 Para o fim deste artigo, não interessa se concordam ou não com os exemplos em particular. Se forem platonistas matemáticos, não concordam com o último exemplo que dei, mas podem perceber o ponto-de-vista de um formalista matemático. O que interessa é esta ideia: quem acredita que uma entidade é subjectiva pode racionalmente concluir que proposições sobre ela são verdadeiras ou falsas. Por exemplo, a dor é subjectiva, mas isso não quer dizer que o que um médico diz sobre ela seja mera opinião.
¶10 Existem muitíssimas doutrinas filosóficas sobre a moralidade. Segundo as teorias morais consequencialismo, distingue-se o bem e o mal pelas consequências. No Consequencialismo Subjectivista, distingue-se também pelas intenções. No Consequencialismo Objectivista, a distinção é feita pelas acções em si. Utilitarismo não quer dizer que o bem significa o mesmo que útil... É consequencialista objectivista e determina o valor moral de uma acção segundo a distribuição e quantidade resultante de certas propriedades nos seres sentientes: um acto bom maximiza o bem («the greatest good for the greatest number of people») e minimiza o mal, um acto mau faz o contrário. O mais conhecido é o Utilitarismo Clássico, que é consequencialista objectivista universalista hedonista (hedonismo: o prazer é o único bem, o sofrimento é o único mal).
¶11 Dito isso, não percebo como é que algumas pessoas concluem que ideia o Utilitarismo defende que o bem e o mal são opiniões ou convenções e que por isso não se poderia fazer julgamentos morais. Concluo exactamente o contrário, independentemente de concordar ou não com a teoria moral. Por exemplo, um violador causa sofrimento às suas vítimas, por isso fico embasbacado quando respondem com "segundo quem? segundo o violador?". O Utilitarismo é relativista (depende das consequências: prender arbitrariamente é mau porque faz o preso sofrer, mas prender um violador para evitar sofrimento), mas não depende de opiniões.
¶13 Devemos dar o lugar no autocarro? Alguém com uma deficiência nas pernas, sofrendo imenso enquanto aguenta-se de pé, não deve dar o lugar. Os que têm mais força e equilíbrio é que devem dar o lugar aos que têm mais dificuldade. Que dieta devemos ter? Se todos seguíssem a mesma dieta, muitos ficariam doentes - depende pelo menos da constituição física, dos hábitos e da saúde. Isso é relativista e verdadeiro independentemente de opiniões. Há alguém que discorda? Porquê?
¶12 O Utilitarismo é só um exemplo; existem muitas outras teorias. Apresentei alguns conceitos e o exemplo do Utilitarismo para verificarem que existem muito mais hipóteses sobre a moral do que podiam pensar.
Sugestões para se informarem mais:
Notas sobre os comentários:
Se os comentários não estiverem relacionados com o artigo, não serão moderados, desde que não tenham links para fazer publicidade ou que choquem através de imagens violentas, ou pornográficas ou com conteúdo ilegal. Não o respondo na caixa de comentários - se disponível, faço-o num artigo. Recomendo que não incentivem discussões alheias nas caixas de artigos nem cedam a provocações. Quem não disser nada sobre o artigo, não tem nada a dizer sobre ele.
¶4 Qual é a posição do ponto y? Se estiver no ponto x, posso responder: «3 unidades para a direita e 1 unidade para cima» (tomando os lados dos quadrados como uma unidade). Estando no ponto x, podia dizer que do canto superior esquerdo A fica: «3 unidades para a direita e duas unidades para baixo». Do ponto B fica: «2 unidades para baixo e 1 unidade para a esquerda». Todas as respostas estão correctas, apesar das coordenadas serem diferentes. Mas é claro que existem respostas erradas: «do ponto A, y fica 1 unidade à direita e 2 para baixo» é falso. A verdade sobre uma posição depende de um referencial (ex: em relação ao ponto x), por isso é uma verdade relativa - um proposição que é verdadeira consoante o contexto.
¶5 Por exemplo, «está a chover» é verdadeiro ou falso consoante o lugar e o tempo. O valor de verdade de «está frio» depende do tempo, do lugar e de uma referência (é uma comparação implícita). Em «sinto frio» depende do sujeito, num determinado lugar e tempo - nesse caso também é uma verdade subjectiva - depende de pelo menos uma mente, porque o objecto está no sujeito.
¶6 Mas ser subjectivo não significa necessariamente que é relativo: pode não ser relativa se depender de apenas uma única mente, como na Teoria dos Mandamentos Divinos. Se «matar é mau» é verdadeiro porque Deus o disse, então é subjectivo. Se é verdadeiro independentemente do lugar, tempo, dos envolvidos, da situação e de qualquer outro contexto, então é uma verdade absolutista.
¶7 Quando faço uma medição, preciso de recorrer à minha mente para usar o medidor e ler o valor (por isso é subjectiva), que não é exactamente igual àquilo que meço, mesmo que o processo seja automatizado - uma das primeiras coisas que se aprende nas aulas de Laboratório de Física é calcular uma margem de erro através de várias medições. Dizemos que uma medida é uma aproximação de uma propriedade de algo que está fora da mente. Essa propriedade, por não depender de uma mente para existir, é objectiva - o objecto está fora do sujeito.
¶8 A Ciência não é o mundo real, mas um modelo que o representa. Se é uma criação mental humana, então é subjectiva, no entanto isso não implica que seja arbitrária - por exemplo, a ideia de que o ponto de ebulição da água é 100ºC não existe por uma decisão arbitrária. Os circuitos electrónicos podem ter um díodo semicondutor e existe o conceito de díodo ideal que explica como os díodos funcionam. Ambos são invenções humanas, mas a existência do díodo ideal é impossível fora da imaginação e isso não quer dizer que as conclusões a partir dele sejam meras opiniões. Se os números, os pontos, figuras geométricas e outras estruturas matemáticas existem apenas na mente - e por isso são entidades subjectivas -, isso não significa que um teorema seja uma mera opinião. Se um ponto, que não tem dimensões, não existe independentemente da mente, isso não quer dizer que a distância mínima entre dois pontos não seja um segmento de recta... na Geometria Euclediana.
¶9 Para o fim deste artigo, não interessa se concordam ou não com os exemplos em particular. Se forem platonistas matemáticos, não concordam com o último exemplo que dei, mas podem perceber o ponto-de-vista de um formalista matemático. O que interessa é esta ideia: quem acredita que uma entidade é subjectiva pode racionalmente concluir que proposições sobre ela são verdadeiras ou falsas. Por exemplo, a dor é subjectiva, mas isso não quer dizer que o que um médico diz sobre ela seja mera opinião.
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¶10 Existem muitíssimas doutrinas filosóficas sobre a moralidade. Segundo as teorias morais consequencialismo, distingue-se o bem e o mal pelas consequências. No Consequencialismo Subjectivista, distingue-se também pelas intenções. No Consequencialismo Objectivista, a distinção é feita pelas acções em si. Utilitarismo não quer dizer que o bem significa o mesmo que útil... É consequencialista objectivista e determina o valor moral de uma acção segundo a distribuição e quantidade resultante de certas propriedades nos seres sentientes: um acto bom maximiza o bem («the greatest good for the greatest number of people») e minimiza o mal, um acto mau faz o contrário. O mais conhecido é o Utilitarismo Clássico, que é consequencialista objectivista universalista hedonista (hedonismo: o prazer é o único bem, o sofrimento é o único mal).
¶11 Dito isso, não percebo como é que algumas pessoas concluem que ideia o Utilitarismo defende que o bem e o mal são opiniões ou convenções e que por isso não se poderia fazer julgamentos morais. Concluo exactamente o contrário, independentemente de concordar ou não com a teoria moral. Por exemplo, um violador causa sofrimento às suas vítimas, por isso fico embasbacado quando respondem com "segundo quem? segundo o violador?". O Utilitarismo é relativista (depende das consequências: prender arbitrariamente é mau porque faz o preso sofrer, mas prender um violador para evitar sofrimento), mas não depende de opiniões.
¶13 Devemos dar o lugar no autocarro? Alguém com uma deficiência nas pernas, sofrendo imenso enquanto aguenta-se de pé, não deve dar o lugar. Os que têm mais força e equilíbrio é que devem dar o lugar aos que têm mais dificuldade. Que dieta devemos ter? Se todos seguíssem a mesma dieta, muitos ficariam doentes - depende pelo menos da constituição física, dos hábitos e da saúde. Isso é relativista e verdadeiro independentemente de opiniões. Há alguém que discorda? Porquê?
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¶12 O Utilitarismo é só um exemplo; existem muitas outras teorias. Apresentei alguns conceitos e o exemplo do Utilitarismo para verificarem que existem muito mais hipóteses sobre a moral do que podiam pensar.
Sugestões para se informarem mais:
- Thinking Critically About the "Subjective"/"Objective" Distinction - Sandra LaFave (West Valley College)
- Varieties Of Objectivity
- Relativism and Moral Subjectivity
- Internet Encyclopedia of Philosophy
- Introducing Philosophy 11: Ethics - Paul Newall
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Notas sobre os comentários:
Se os comentários não estiverem relacionados com o artigo, não serão moderados, desde que não tenham links para fazer publicidade ou que choquem através de imagens violentas, ou pornográficas ou com conteúdo ilegal. Não o respondo na caixa de comentários - se disponível, faço-o num artigo. Recomendo que não incentivem discussões alheias nas caixas de artigos nem cedam a provocações. Quem não disser nada sobre o artigo, não tem nada a dizer sobre ele.























