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28 fevereiro, 2010

Meta-ética: dois modelos

«Aqui estou eu, apreciador da vida, sem querer morrer, apreciador do prazer e averso à dor. Suponhamos que alguém me rouba a vida... não seria prazeroso ou agradável para mim. Se eu, por outro lado, devesse roubar a vida de quem aprecia a vida, que não quer morrer, que aprecia o prazer e é averso à dor, não seria algo prazeroso ou agradável para ele. Para um estado que não é prazeroso ou agradável para mim também não deve sê-lo para ele; e se um estado não é prazeroso e agradável para mim, como posso eu infligi-lo a outros?» - Samyutta Nikaya v.353 
«Aqueles que vêem com ternura um dono de escravos e com frieza em relação aos escravos, nunca se colocam na posição dos últimos - que panorama desanimador, sem sequer a esperança de mudança! Imaginem-vos a possibilidade, de alguma vez acontecer a vós, de vossas esposas e pequenos filhos - os objectos que a nature leva a que o escravo considere ser dele - serem tiradas de vós e serem vendidas como bestas ao primeiro licitante!» - Darwin, in A Viagem do Beagle
«Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.» (...) «Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas» - Mateus 7:1-2,12

«Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil.» - Mateus 5:25-26
~

1¶ Segundo a Teoria dos Mandamentos Divinos, bem é aquilo que Deus manda fazer e o mal é o proíbe fazer. Portanto, Deus é a única referência absoluta para se definir o que é o bem e o mal e, segundo cristãos bíblicos, fá-lo através das Escrituras. Por exemplo, segundo Guilherme de Occam, se Deus manda matar, então é bom matar. Assim justifica os homicídios e despojos dos hebreus. Apesar de ser um universalismo moral, é também um individualismo ético subjectivista (1), por depender da atitude de uma pessoa - Deus. Comparando com a educação de moral que um pai dá, é como responder às questões morais: «Porque eu digo» ou «Porque eu mando».

2¶ O que proponho é que para decidir se uma decisão é boa ou má, deve-se considerar o efeito que tem em todos os sujeitos, sem dar preferência a um deles ou a uma parte. É semelhante à Regra de Ouro, que a maioria das religiões, no entanto tomo em conta que o outro é diferente e devemos ter isso em conta numa avaliação moral. Na Regra de Ouro, comparando com a educação de pai é como dizer algo como: «Gostas/queres que te façam o mesmo?» Eu, por outro lado, questiono o que seria se fosse o outro, tendo em consideração a sua natureza, e considero que o que é do nosso interesse, ou que é bom para nós, não é necessariamente o gostamos ou queremos (pelos no curto prazo). Por exemplo, é do interesse da criança que estude para o futuro, apesar de não gostar nem querê-lo. E num mundo imperfeito muitas vezes é necessário recorrer a males temporários para ter um bem, por exemplo provocar dor para salvar uma vida, ou isolar alguém que prejudica grandemente outros, como o ladrão, o homicida e o violador.

3¶ Infelizmente existe uma tendência para distorcer essa última posição, limitando as alternativas à primeira, numa falsa dicotomia ou tricotomia, a outras que não aceito numa orgia de homens-palhas. A imagem seguinte mostra diagramas com os dois modelos (1 e 4) e outros dois que os que defendem o primeiro impingem como únicas alternativas ao seu:
 

4¶ O primeiro diagrama representa um individualismo ético: depende apenas de um único indivíduo ("A"). Em geral quem defende-o na forma da Teoria dos Mandamentos Divinos, impinge os modelos representados no segundo e terceiro diagramas. O segundo, tal como o primeiro, apenas uma parte define o que é bom e o que é mau, mas ela é maior que apenas um indivíduo. (Se uma sociedade que dissesse que a escravatura fosse boa, então seria?) No terceiro o bem e o mal é como o gosto: depende apenas de um sujeito. É a apenas nesse caso que costumam chamar de subjectivo. (E para o pedófilo?) O que defendo é o quarto modelo, que é muito mais complexo que os restantes casos.

5¶ Se existisse apenas um sujeito, ele depende apenas de si mesmo. Mas se ao deixar cair uma pedra na cabeça sentir dor, isso não seria mau para ele por uma opinião, tal como não se sente frio ou calor por opiniões. Se gosta de música alta e não lhe prejudica, então é bom ouvi-la.
Suponhamos que ele cria outro sujeito - passam a existir 4 relações: os sujeitos devem considerar o que é bom e mau para si mesmos e para o outro (conto com duas relações). Estes dois casos devem ser estudados isoladamente antes das generalizaçoes. Se o criador um sádico poderoso, não quer dizer que torturar a criatura seja boa. Ele deve ter em consideração a criatura. Se ela também gosta da mesma música alta e não lhe for prejudicial, então é bom tocá-la para ambos a ouvirem. Caso contrário seria mau - por isso é que existem os auscultadores...
Se for criado outro sujeito, passam a existir 9 relações. Com quatro sujeitos, seriam 16 relações. Para um sujeito em abstracto o melhor é um modelo com essas relações. Noutro modelo, corre o risco de calhar numa situação em que não é representativo numa avaliação moral.
Nesse modelo a existência de Deus é irrelevante para o que é bom e o que é mau. Para Deus ser bom, deve considerar o que é bom para todos. Mas é relevante para a Teoria dos Mandamentos Divinos. Para um seu proponente, não existiria moral ou um indivíduo ou grupo seriam a Referência Absoluta. Seguindo a sua lógica, ao visualizarem estarem errados, concluem que matar é tão bom ou mau como salvar uma vida, ou se a autoridade divina devia-se ao seu poder, a distinção entre bem e mal dependeria dos mais poderosos ou da maioria. São os que questionam por que é que devemos ter em consideração os outros que dizem que poderiam ser maus para connosco, ou não dariam valor ao bem, se fossem ateus racionais.

7¶ Além disso a sua teoria moral implica que se Deus for um sádico que dissesse que devíamos lutar uns contra os outros até à morte, então as guerras seriam boas. Podem pensar que resolvem o imbróglio dizendo que não é essa a natureza de Deus, mas isso seria admitir que nem eles acreditam que o bem e o mal é ditado por Deus: «reconhecemos que o sagrado é amado por Deus por ser sagrado, e não que é sagrado por ser amado» (in Êutífron, de Platão). Como convencem Deus, um ser omnipotente, que é errado torturar? Nem a Bíblia defende que o bem significa o mesmo que mandamentos divinos. Os profetas dão os seus "porque", "portanto" e "para que", como nas parábolas, e alguns até colocam em causa a justiça divina: «Não faria justiça o Juiz de toda a terra?»

(1) Correcção: o individualismo ético subjectivista não se refere apena a um indivíduo. Proposto por Protágoras, ignifica que existem tantos bens e tantos males quanto o número de sujeitos.

26 outubro, 2009

Modelos entre guerras - não mostrou

(continuação do artigo anterior)

Neste artigo mostro que podemos distorcer os nossos próprios argumentos, no sentido de não demonstrarmos (ou mostrarmos) o que propunhamos inicialmente como conclusão, concluíndo outra coisa (quer a conclusão seja verdadeira ou falsa).

1) A Política e entidade maior:

Segundo Luciano não mostrei que «A Política ganhou a eleição, vencendo a Política por 11% de votos. Política substitui a Política, que entregará o cargo em 10 de Janeiro» não faz sentido, porque «a interpretação dependeria» «de uma extensa justificação» (prolixo?). Podem ler o contexto das frases aqui.

Dizer que ganhei vencendo-me e substituí-me também não faz sentido. Só se substitui por algo diferente e não se pode ganhar e vencer no mesmo contexto (exemplo: posso ganhar e perder um jogo em situações diferentes, mas não posso fazer os dois ao mesmo tempo). Substituir implica que o que substitui seja diferente do que é substituído. Vencer e ser derrotado implica uma competição - como no caso das eleições -, excepto se tiverem o mesmo significado de "superar-se" (melhorar-se), ou quando se diz "derrotar-se" ou "deixar-se vencer" (desistir, arruinar-se), ou que "venceu o prazo" (terminou o prazo), ... - as palavras têm vários significados.
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Tinha abordado a componente competitiva remetendo o "substitui" para o ponto 2. O modo como me tinha expressado pode não ter sido muito bom, mas foi suficiente. O que escrevi no parágrafo anterior é suficiente para mostrar que a frase não faz sentido, mas posso explicar-me melhor:

O que vence eleições é os partidos. Neste contexto a Política tem partidos. Se os partidos competem entre si, não faz sentido dizer que o conjunto dos partidos, ou a Política, vence ou ganha. Mas as relações de cooperação dos membros são atribuídos ao conjunto. É o caso das coligações, blocos e aliados, no contexto político (players: políticos). Na guerra também é o caso dos exércitos (players: soldados). Foi esse o género de contra-exemplos, baseados nos exemplos de Luciano, que diz serem red herrings (fuga do assunto), mas não explica porquê, nem que género de red herrings são, dizendo apenas que «nada tem a ver com o» seu «argumento original» (é apenas a definição de red herring).

Exemplo e contra-exemplo, para ser mais claro:
Nos partidos também existem eleições. Por exemplo, os militantes elegem por votos o secretário-geral do partido, que normalmente candidata-se para Primeiro Ministro. Apesar de em eleições em que partidos competem entre si faça sentido dizer que um partido venceu-as e substituiu outro, nunca faz sentido dizer que um partido venceu as eleições derrotando-se e substituindo-se.

Quer seja verdade ou não, "a Ciência venceu a Religião", "a Religião venceu a Ciência", "a Ciência substituiu a Religião" e "a Religião substitui a Ciência" fazem sentido (têm significado, são proposições). Quer dizer que uma diminui  a influência da outra, ou extinguiu a outra, e que as funções atribuídas a uma passaram a ser da outra. Mas "a Ciência venceu derrotando a Ciência substituindo a Ciência" não faz sentido. O que significa?

Nota: Se alguém perguntar por que é que as frases indicadas por Luciano não fazem sentido, é assim que respondo. (n1) Mas é preciso salientar que no seu argumento são tomadas outras considerações que, apesar da explicação que dei ser válida, poderão ser levantadas como objecção, nomeadamente: "a Política é uma entidade maior". Respondo-a a seguir (respondo a questão da atribuição de «todas as ações dos players» para uma próxima).
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O que faz nuns casos fazer sentido e noutros não, é as propriedades. Não interessa se é uma "entidade maior" ou não. Consideremos o Universo como tudo o que existe. O planeta Terra tem humanos. O Universo tem o planeta Terra. Logo o Universo tem humanos. Formalmente: H T ∧ T U → H U. Na Matemática dizemos que B é uma relação binária transitiva. Se a Política tem partidos e os partidos têm políticos, a Política tem políticos.

Existem actividades e instituições que dizemos que produzem, como a Culinária e restaurantes que produzem alimentos. Se uma propriedade for quantitativa, é possível que a propriedade do todo seja a média do todo, como a classificação de um júri. [ilustração]

Vitorioso, derrotado, substituto e substituído não fazem parte desses tipos de propriedades - só fazem sentido se aplicadas a indivíduos e entidades homogéneas em relação a outras entidades. Um grupo competitivo é heterogéneo - os seus membros estão em conflito. Um grupo cooperativo é homogéneo.
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Se mostrarem um exemplo de não-"entidade maior" que vença a si mesmo e que substitua a si mesmo, que tenha sentido, os argumentos são refutados. Aliás, para que o argumento de Luciano fosse válido, era o que devia ter feito - afinal de contas, se em nenhum contexto faz sentido, a conclusão dele e a condição de "entidade maior" são irrelevantes (ou como ele diz: "não tem valor argumentativo"). Só conclui-se que as frases não fazem sentido.

(n1) Nota: originalmente a objecção era meramente que afirmar «que o todo possui a mesma propriedade de suas partes ou de uma de suas partes» é um «erro lógico grotesco» de quem «não conhece o guia de falácias ou a natureza desta falácia citada» [p.3] Só na quarta parte da série é que tinha usado o termo "entidade maior" (duas vezes), definido como «o “guarda-chuva” em cima do todo», mas sem que fosse uma condição especial. Nos comentários passou a ser uma exigência, ignorando o argumento original. O único outro artigo com "entidade maior" é o "Pedro Amaral in Wonderland", que estou a responder.


2) "Ciência corrige-se" e Ciência X Religião:
[Bx.y]: ponto y de Bizarrizes do artigo [x], no artigo de Luciano. Exemplo: [B1.1] começa com «Ele afirma».

Luciano diz que minto [B1.1] e que ando perdido [B2.1] porque o artigo (que diz que tentei refutar) era sobre a «falsa dicotomia entre ciência X religião» (nos artigos anteriores era «conflito entre ciência e religião»). Para já, o que respondi foi aos argumentos indicados por Luciano. A via que ele opta para defender que não existe «dicotomia entre ciência X religião» é por discussões semânticas, discutindo o significado de "ciência corrige-se" (como podem verificar se lerem os textos dele: [1], [2], [3], [4]). Segundo ele, pelas definições que apresentou, «é impossível que “ciência se corrija”». E que «“ciência se corrige” como “ciência não se corrige” são afirmações equivocadas». (n2)

Se todos os argumentos de Luciano forem inválidos, não significa que a Ciência corrige-se ou não, nem que existe ou não um conflito entre a Ciência e Religião. Dizer o contrário seria cometer uma falácia da falácia (Argumentum ad Logicam). Mesmo que achasse que apenas um único argumento é inválido, é legítimo tentá-lo refutá-lo. Poderia concordar com as conclusões, mas rejeitar as premissas e considerar os argumentos inválidos. Portanto, se não defendo nos argumentos que existe conflito entre Ciência e Religião, é um red herring (Ignoratio Elenchi) pretender responder-me dizendo que não refutei a premissa de que não há esse conflito ou dicotomia, ou porque não respondi outros argumentos. Se inferirem do que digo que a Religião corrige-se ou não se corrige, fizeram-no por conta própria. «Tu o dizes.»

Para podermos avaliar a premissa de que a Ciência corrige-se e a Religião não, é preciso decidirmos o que significam "Ciência corrige-se" e "Religião corrige-se" - por isso é natural que me dedique primeiro a essa questão. Quem usa essas expressões é que deve explicá-las. Não é atribuindo conceitos a essas expressões sem consultar quem os usa que se refuta a alegação. E é preciso explicar por que é que se algo corrige-se e outro não, então os dois estão em conflito. Se nunca se mostrou a dependência das duas questões, então Luciano não pôde ter mostrado que não há o tal conflito, ou dicotomia, nem quem usa a "Ciência corrige-se" para dizer que há esse conflito (red herring, ou falácia da conclusão irrelevante). Ou seja, Luciano não demonstrou o que propôs demonstrar, cingindo-se a discussões semânticas.

(n2) Nota: Ironicamente, num artigo com uma lista de exemplos de características dos que chama "neo ateus", ele faz referência à Novilíngua (da obra 1984), com uma ligação para a Wikipedia. Tal como indicado por personagens da obra (que li e citei diversas vezes), na Wikipedia é dito que «novilíngua era desenvolvida não pela criação de novas palavras, mas pela "condensação" e "remoção"de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o escopo do pensamento. Uma vez que as pessoas não pudessem se referir a algo, isso passaria a não existir.» (...) «Ao contrário das outras línguas, onde cada vez mais são anexadas novas gírias e conceitos, a novilíngua retira termos, como antónimos e sinónimos.»

11 janeiro, 2009

Engonhanço

Mats diz que faço perder o seu tempo.

Criacionistas bíblicos e OVNIs

Eu fiz esse pedido antes de dizer se existe ou não criacionistas bíblicos que acreditam em OVNIs: «Dá-me um exemplo hipotético do que faria um criacionista Bíblico que acredita em OVNIs. Presumo que aceites esse pedido, já que se eu der um exemplo, o mais provável é que coloques aspas nas palavras.»
Mats esteve a engonhar. Dei o exemplo de mórmons que acreditam no Génesis literal, que é repetido no seu livro de Mórmon e que acreditam que Jeová, Satanás, os anjos e os mortos vivem em planetas [1], e disse: «Mas também não contam, não é? Por isso é que disse um exemplo hipotético. Não me deste, e pelos vistos nunca darás.»
Mats respondeu-me assim: «Um exemplo de um criacionista bíblico? Dr Jonathan Safarti. Outro: Dr Werner Gitt.»
Portanto, Jonathan Safarti e Dr Werner Gitt acreditam em OVNIs e são dois casos hipotéticos...
Num comentário que ele escreveu neste blog ele escreveu: «Dá-me uma definição com a qual eu possa trabalhar, e pára de fazer malabarismos semânticos, e mudanças de definições quando bem te apetece», portanto presumo que ele percebeu muito bem mas não quer responder e só engonha (fazer perder tempo).

Francis Crick
Tinha pedido uma citação de Crick, pelas seguintes razões:
1) Criacionistas como Mat citam-no com um determinado propósito - exemplo: Genesis Contra Darwin > Panspermia - Salvação ou Imaginação?;
2) No artigo de Mats que dei como exemplo, eu dei respostas como comentários e fiz referência a um artigo que escrevi uma semana de teres escrito o teu, que curiosamente também serviu de resposta;
3) O que Mats atribui a Crick é Design Inteligente - Dembski afirmou, para defender a ideia de que o Design Inteligente não é o mesmo que criacionismo, que o designer inteligente poderia ser extraterrestre;
4) Mesmo em sites criacionistas é dito que ele apenas apresentou uma hipótese. Quando Francis Crick e Leslie Orgel apresentaram a proposta da Panspermia Directa na Icarus, disseram claramente que «concluíram que é possível que a vida tenha chegado à terra desse modo, mas que as provas científicas são actualmente inadequadas para dizer qual seria a probabilidade.» Ele era céptico em relação à sua própria proposta. [2]
5) Eu tento promover o cepticismo. Um céptico procura as fontes. Se alguém afirma algo, deve estar preparado para apresentá-las.

Ele não colocou qualquer citação. Em vez disso fez três perguntas com falsas dicotomias escondidas. Por exemplo, Voltaire era ateu ou teísta? Nenhum dos casos - era deísta. Também podia perguntar-me se determinado ateu que viveu antes do século de XIX era evolucionista ou criacionista. Acho que o mais provável era não ser um nem outro.
Respondo as suas questões:
«1. O Crick era um evolucionista ou um criacionsita?»
Crick era evolucionista.
«2. O Crick era ateu ou teísta?»
Ele disse que era agnóstico com fortes tendências para o ateísmo. Para mim isso é suficiente para dizer que era ateu.
«3. O Crick acreditava em vida noutros planetas ou não?»
Não tenho dados suficientes para determinar se ele acreditava na existência de vida extraterrestre. O que ele fez foi apresentar uma hipótese que o próprio admitia não ter dados para determinar as probabilidades. No entanto, respondo com um sim pelas seguintes razões: a) ele apresentou a hipótese; b) Mats acredita que sim e acho que espera que responda com um "sim"; c) estou curioso em saber no que isso dá, apesar de prever que ele vai fazer um "Ah, ah!" e concluir que Crick era supersticioso;

O grupo mais propenso
Noto que esse é o cerne da questão! Basta ler o título que Mats usou: "Ateus Mais Propensos À Superstição".
Mats diz que fez a «a distinção entre “Não existe” e “Este grupo é mais propenso”»; diz que «mo primeiro caso basta só um, no segundo caso a existência de um exemplo que contradiz a proposição não invalida a mesma.» Parece-me mas é que não fez essa distinção. Vamos supor que o exemplo de Francis Crick é válido - então Mats apresentou um único exemplo. Basear-se num número de casos insuficientes para se chegar uma conclusão é uma falácia da falsa generalização. Um único exemplo mostra apenas uma excepção à regra. Primeiro é preciso provar que um grupo é mais propenso a algo (em geral por indução). A existência de um punhado de exemplares não serve, especialmente se posso encontrar muitos mais contra-exemplos.

Ele disse-me que só pedi um: «Portanto, um exemplo de um ateu que suporta a vida em outros planetas é suficiente porque foi exactamente isso que pediste.» Ele tinha dito antes o seguinte: «Mas tu dizes para te aprsentar UM ateu que acredite em vida no espaço, e eu apresento.» Eu não disse nada disso. Mats não me citou para fundamentar que eu disse aquilo nem admitiu que enganou-se.

Ele tinha-me dado a resposta «Mas tal como já o disse várias vezes, as pessoas mais susceptíveis de acreditar na vida no espaço são os evolucionistas. Não só isso não foi refutado, como até já apresente o exemplo do Crick.» Claro que ele não me vai citar para dizer que pedi só um exemplar, porque o que ele respondeu foi a isso: «Estarias a mostrar se procurasses aqueles que acreditam nisso ou os seus textos e os apresentasses - o que já pedi imensas vezes que o fizesses»

O que é que já pedi várias vezes? Citando-me:
1) «apresente exemplos de evolucionistas e ateus que acreditam que extraterrestres visitam a Terra, tal como afirmaste no artigo;»
2) «mostre onde é que no estudo (pesquise no site da Baylor ou arranje o livro) é dito que ateus são mais propensos a superstições do que cristãos.»
No dia 29 de Dezembro eu tinha escrito: «Não basta dizer que os evolucionistas são mais propensos a acreditar em OVNIs: tens de prová-lo ou pelo menos dar diversos exemplos
No dia anterior - quando comecei a comentar - escrevi: «Sobre a relação entre a crença na visita de extraterrestres e na evolução: não existe. Todas as organizações religiosas ufólogas que conheço defendem o design inteligente e são inspiradas em livros sagrados como a Bíblia e o Corão.»

Eu pedi isso imensas vezes, tanto no artigo original como na sequela. Como eu sei que existem evolucionistas (em sentido lato e apoiam o design inteligente) e ateus (que apoiam o design inteligente), Mats pergunta no dia 7 de Janeiro deste ano: «Então porque é que pedes que te dê exemplos de ateus que acreditam em vida no espaço e raptos à meio da noite, quando sabes que eles existem?» Eu já tinha dado o motivo no dia 31 de Dezembro do ano passado:
«Estou à procura de mais ufólogos com referências sobre o Design Inteligente e a evolução e a listá-los num artigo. Já enconrei montes deles.» (...) «Como vês, não tenho problemas em fazer o teu trabalho de casa - era isso que queria que fizesses. Se quiseres podes dar uma ajuda a encontrar mais, se tiveres interessado em responder a tua própria questão. Não posso é encontrar o que não existe - ainda não me mostraste onde no estudo é dito que os ateus são mais propensos à superstição que cristãos.»
Parece-me mas é que o Mats quer fugir o mais possível do que ele e Logan afirmaram. Eu próprio já disse, noutro artigo, que "existem grupos de ateus que têm religiões e partilham as superstições de teístas". Eu sei distinguir "existem" e "são os mais propensos" e mostrei-o mesmo antes de comentar nos artigos em questão de Mats. O que eu quero saber é se Mats consegue fazer a distinção.

Nota:
estive a fazer uma pesquisa no Gallup. Escreverei umas novidades para um próximo artigo.

03 janeiro, 2009

Apenas vão para além de um deus

Um comentador do artigo "Ateus Mais Propensos à Superstição" (do Mats) escreveu: « Já te disseram que somos ambos ateus, só que eu sou só mais um bocadinho.» Mats respondeu:
«Isso é um argumento falacioso por equivocação, ou falso dilema. Tu assumes que, como todos os outros deuses são falsos, então o Deus da Bíblia tem que ser Falso também. E como é que sabes que o Deus da Bíblia é Falso? Pelo simples facto de que os outros também são falsos!
Usando esta “lógica” (a mesma que o Dawkins usa) eu posso dizer que todos os bilhetes da lotaria são falsos, porque existem alguns que são falsos.» (...) «Mas o facto de que os bilhetes que já analisaste não têm prémio, não significa que o bilhete que sobra também não tém prémio
O historiador Stephen Henry Roberts, para resumir um texto que tinha elaborado numa newsletter em 1995, disse: «Eu defendo que nós dois somos ateus. Eu apenas acredito em menos um deus do que você. Quando perceberes a razão para não acreditares em todo os outros deuses, perceberás por que eu não acredito no vosso

No documentário "The Root of All Evil", Richard Dawkins faz referência a um argumento de Bertrand Russel:
«O filósofo Bertrand Russel tem uma analogia. Imaginem um bule de louça chinesa a orbitar em torno do Sol. Não podem refutar a existência do bule, porque é demasiado pequeno para ser detectado pelos nossos telescópios. Ninguém, a não ser um louco, diz: "estou preparado para acreditar porque não consigo refutá-lo". Talvez devemos ser tecnicamente e estritamente agnósticos, mas na práctica somos todos ateus-do-bule. Mas vamos supor que todos numa sociedade, os professores, os anciãos de uma tribo, têm todos fé no bule. Histórias do bule seriam passadas por gerações, seriam parte de tradições da sociedade, existiriam livros sagrados sobre o bule. Então, quando alguém diz que não acredita no bule, poderia ser considerado excêntrico ou até mesmo louco. Existe um número de infinito de coisas como o bule celestial que não podemos refutar. Existem fadas, existem unicórnios, goblins... não podemos refutar qualquer uma dessas coisas. Mas não acreditamos nelas, tal como não acreditamos em Tor, Amon-Rá ou Afrodite. Somos todos ateus relativamente a quase todos os deuses que a humanidade já acreditou. Alguns de nós apenas vão para além de um deus
E assim adaptou o aforismo de Stephen Roberts com o objectivo de refutar um apelo à ignorância. Segundo os comentadores do fórum de Richard Dawkins, o "para além de um deus" serve para que se evitem argumentos que podem ser aplicados a outros deuses, função similar do Monstro Voador do Esparguete ou do Bule Celestial. [1]

Ludwig Krippahl, no artigo «Como definirias "ateísmo"?» do seu blog "Que Treta!", escreveu algo similar:
«Admito a possibilidade de haver coisas que não podemos observar. Simplesmente não devemos afirmar que alguma dessas coisas exista porque isso é especular sem fundamento. Isto é consensual para unicórnios invisíveis ou extraterrestres de outras dimensões. Podem existir, mas se não se observam não se justifica afirmar que existem. Só que alguns chamam-me ateu porque aplico o mesmo critério ao que me dizem dos seus deuses.» (...) «A questão da existência de alguns deuses só vem à baila por causa dos que insistem que o seu é que é verdadeiro. Há imensos deuses que se pode rejeitar sem ninguém achar nada de estranho
É fácil lembrar-se de um argumento assim sem ter lido ou ouvido Richard Dawkins, Bertrand Russel, Stephen Roberts ou Ludwig Krippahl: simplesmente quer dizer que não se crê num determinado deus pelas mesmas razões que não se crê noutros deuses. Para transmitir essa ideia, Dawkins usou o termo "ateu" com um significado relativo - aquele que não acredita num determinado deus -, o que é bastante claro quando ele usa expressões como «ateus relativamente a quase todos os deuses» e «ateus-do-bule», cujo objectivo é enfatizar com uma palavra a similaridade entre ateus e teístas considerada no argumento, como fez Stephen Roberts. Se existem determinadas razões para assumir que algo não existe, seria incoerente assumir que outra coisa existe se existem as mesmas razões para assumir o contrário. Por que é que Mats não acredita noutros deuses, como Alá ou os deuses dos Vedas?

Mesmo a analogia dos bilhetes de lotaria é péssima para refutar um falso dilema. Vamos supor que temos um molho de bilhetes e tiramos um de cada vez para ver se é premiado. Cada bilhete é 1) premiado ou 2) não é premiado: isso é uma dicotomia, isto é, só existem dois casos possíveis. Só seria uma falsa dicotomia se um argumento baseasse na ideia de que existem duas possibilidades, mas na realidade existem mais do que uma. Logo ele apresentou uma falsa analogia. [2]

Referências:

28 dezembro, 2008

Mats - os ateus são os mais supersticiosos

O Monstro de Loch Ness
Para escrever o artigo anterior, fui à procura de patetices que o Mats escreveu nos comentários. Com isso encontrei um artigo dele com o título "Ateus Mais Propensos à Superstição Que Cristãos".
Numa nota ele começa por fazer jogos de palavras (como sempre faz quando usa aspas em palavras): «Prevendo a reacção dos darwinistas, deixem-me dizer que eu não acredito que o "monstro" do Loch Ness seja, ou tenha sido, um "monstro", mas sim um animal normal». É engraçado que nem pensei nisso - mas graças a isso, começarei por lembrar as crenças do sr. Mats. E ainda mais engraçado é que a figura do monstro de Loch Ness é como a de plesiossauro, e que nos artigos dos anos 30 era chamado de "monstro pré-histórico marinho" - um plesiossauro [1]. E é engraçado que qualquer animal que seja gigante, ou feio ou assustador, é um monstro, segundo os dicionários. Se perguntassem ao Mats se ele acredita num monstro de Loch Ness, como responderia? Ele não apoia a criptozoologia?

Comunicação com os mortos e mensagens nos sonhos
No estudo mencionado a crença na comunicação com os mortos está entre as superstições referidas. Mats traduz parte citação feita na sua fonte do seguinte modo: «quanto mais tradicional e evangélico fosse o inquirido menos susceptível ele era de acreditar, por exemplo, na possibilidade de comunicar com os mortos».

Os ateus são mais propensos em acreditar na possibilidade de comunicar com os mortos? Basta dar uma vista de olhos a
sites de ateus sobre ateísmo para repararem na crítica que fazem ao espiritismo e necromância. Na verdade quem acredita nessa capacidade de comunicar com os mortos critica os ateus. O mais ridículo é que Mats sabe muito bem que os destinatários do artigo não acreditam na existência de vida além da morte, mas ele próprio acredita e escreveu artigos a defendê-lo. [2] Na própria Bíblia é dito que o rei Saul, disfarçado, falou com o morto Samuel através de uma bruxa. Com excepções, como o Espiritismo Kardecista, os cristãos acreditam que existe algo de errado no mediunismo. Uns acham que é possível comunicar com os mortos mas é errado segundo a Bíblia e outros acham que na realidade são demónios que estão a comunicar. [3] Se fosse perguntado se acreditam na comunicação com os mortos, como responderiam? Também vão dizer que não acreditam em visões e mensagens divinas durante os sonhos? De onde vieram as vacas gordas e vacas magras, as revelações apocalípticas, a mensagem do anjo a José, as visões de Ezequiel? Dos ateus?

Noto que paranormal é um alegado fenómeno que
transcende as leis naturais e sem explicação científica, como um espírito a saír do corpo, ou qualquer outro fenómeno sobrenatural. Que eu saiba os chamados de naturalistas e materialistas é que não acreditam no paranormal. [4] Mats é que defende que espíritos saem do corpo para que haja testemunhas da existência de um Céu e de um Inferno, e desafia o ateus a encontrarem uma explicação natural. E ele chama-os de naturalistas e materialistas. [3]

Bigfoot, OVNIs e Astrologia
Tenho dois livros chamados "Os deuses que fizeram a Terra e o Céu", de Jean Sendy, e "Eram os deuses astronautas?", de Erich Von Dänken, que defendem que as escrituras sagradas, como a Bíblia, descrevem extraterrestres que tiveram contacto com seres humanos e foram considerados deuses. No primeiro livro a maioria dos capítulos começa com um excerto do Génesis; o último capítulo tem o título "De Moisés à vinda de Cristo". Na religião raelinana os membros são ateus defensores do design inteligente. No site do Movimento Raeliano existem títulos como "Message from the designers" ["Mensagem dos designers"] e "Design Inteligente para Ateus" ["Inteligent Design for Atheists"]. Um dos membros é Glenn, de Londres, que interpreta Jesus numa nova versão de "Jesus Christ SuperStar". Os mensageiros são chamados de "Elohim" ("deuses" em hebraico) - o mesmo nome usado nos dois livros que referi. Isso prova que existem grupos de ateus que têm religiões e partilham as superstições de teístas. A Ciência mostrou ter um enorme valor e foram algumas das suas características foram usadas para serem elaboradas pseudo-ciências, substituindo os anjos, demónios e deuses.

A obra "Um Mundo Infestado de Demónios" apresenta diversos exemplos disso. No 7º capítulo, com o mesmo título do livro, está: «No início dos anos 60 afirmei que as histórias de OVNI eram construídas sobretudo de forma a satisfazerem anseios religiosos. Numa época em que a ciência tornou mais difícil a adesão acrítica às religiões dos tempos antigos, apresenta-se uma alternativa à hipótese de Deus: envoltos num jargão científico, com os seus imensos poderes "explicados" por uma terminologia científica superficial, os deuses e demónios da antiguidade descem do Céu para nos assombrar, para fornecerem visões proféticas e para nos atormentarem com visões de um futuro mais auspicioso.»

No entanto a crença em extraterrestres que visitam a Terra para trazerem mensagens aos humanos não é exclusiva dos raëlianos. Existem muitas organizações cristãs que acreditam nisso, como a Cientologia, Universe People e o Nuwaubianismo, sendo algumas delas destructivas, como a Heaven's Gate, onde realizaram suicídios em massa. Até existem cristãos que dizem que a ufologia apoia o Cristianismo - já que os extraterrestres transmitem mensagens cristãs - e pretendem que seja discutida nas escolas. É claro que os cristãos conservadores colocam aspas na palavra "cristãos" para se referirem às pessoas que têm esse tipo de crenças. [5]

Presumo que o Mats também não acredita que aborda ateus que acreditam em extraterrestres que visitam a Terra. Também não me parece que Mats acredite que acreditam no Pé-Grande e em astrologia. Na AstrologySource é usada a Bíblia para defender a ideia de karma e a astrologia, no artigo "Astrology: A Theological Science" ["Astrologia: uma Ciência Astrológica"]. E segundo Mats, os ateus são os que mais acreditam na "ciência teológica". Que tal procurar conhecer as crenças dos astrólogos a respeito da existência de um Deus? [6; a, b, c, d]

Não sei qual é a relação entre o Pé-Grande e o ateísmo, mas parece ser uma raridade os ateus que acreditam nisso. Nem consigo encontrar um exemplar pesquisando por "atheist bigfoot" no Google. Quanto muito encontrei alguém no Yahoo Answers a dizer que é católico e que acredita que o Pé-Grande existe.
Encontrei no site da "Evolution News", da Discovery Institute, um artigo que começa por mencionar um ateu, chamado Steven Novella, que critica a crença apaixonada de um tal de Dipu Marak na existência do Ieti. Pois claro, ateus e agnósticos são os que em geral gastam tempo a testar experimentalmente as crenças, como a astrologia, e a apelar o espírito céptico, como no caso da existência do Pé-Grande. Curiosamente o artigo do site criacionista usa a mesma fonte do Mats - um artigo no DCExaminer escrito por Logan Gage. Mas perdeu-se uma grande oportunidade de apresentar um ateu que acredite no Ieti ou Pé-Grande. Uma coisa é certa: se fossem aparições de dinossauros e testemunhos de espíritos, iriam para a colecção de provas criacionistas. [7]

Superstições populares e cristãos
Devem ter sido os ateus que inventaram os unicórnios mencionados na Bíblia do Rei Jaime, as sereias, os duendes, os vampiros, os ogres, as bruxas e feiticeiros (objectos de estudos medievais), os sátiros (mencionados em Levítico 17:7 e nos capítulos 13 e 34 no livro de Isaías). Talvez tenham sido os ateus que se lembraram de lançar sal para cegar Satanás. Um homem entre 13 traiu o seu mentor numa sexta-feira, e daí os ateus devem ter tido a inspiração para o azar na sexta-feira treze. Devem ter sido os ateus que se lembraram de cruzar os dedos como um crucifixo. Também lembraram-se do gesto da cruz à frente da boca para que o diabo não entre. Também lembraram-se de levantarem-se com o pé direito para estar do lado direito de Deus, como tradição bíblica. Devem também devem ter inventado a ideia de que uma sombra numa fogueira devora a alma antes da véspera de Natal. Também batem na madeira porque foi o material onde Jesus foi crucificado. E vestem-se de preto nos funerais para não serem reconhecidos pelos espíritos. Os ateus usam rosários nos casamentos católicos para dar sorte. É óbvio que foram ateus que se lembraram de que quebrar espelhos afecta a alma. Também é óbvio que os ateus não atravessa escadas encostadas em paredes por representarem o triângulo da Santa Trindade. "Atchim!" "Santinho." "Deus te abençoe". [8]

Há criacionistas da Nova Terra que usam montagens para defender a descoberta de fósseis de nefelins, gigantes mencionados no Génesis antes do dilúvio. E esses ainda defendem que em Paluxy existem pegadas humanas por cima de pegadas de dinossauros, provando que humanos e dinossauros coexistiram. Segundo um mito urbano, a NASA descobriu que falta um dia e um cristão associou-o ao momento em que Deus parou o Sol, segundo o Livro de Josué. Na AnswersInGenesis esses mitos estão na lista de argumentos que os criacionistas não devem usar.

Existem grupos de criacionistas que opõem-se à vacinação, como originadora de doenças, e que defendem o poder do oxigénio de aumentar a longevidade e tamanho dos seres-vivos, tal como Sabino defendeu em comentários no blog "Que Treta!". Mats questiona num comentário do seu outro blog "Darwinismo":«mostra-me na Bìblia onde essas prácticas são ensinadas».
No canal da TV Cabo que tem um programa da IURD, vi um dos apresentadores a tentar curar miraculosamente uma mulher com câncro da mama através de orações, com uma Bíblia sobre a sua cabeça e uma colega a tocar no seio da doente. Há um site dedicado a esse tipo de coisas chamado "Why God Won't Heal Amputees", com diversos casos concretos e passagens bíblicas. Na web facilmente encontramos vídeos e artigos de exorcismos, alguns deles que levaram à morte de pessoas. "Vade retro, Satanás!" E quantas vezes aconteceu o Final do Mundo? Para quem não é Testemunha de Jeová, cientologista ou mórmon, é fácil reconhecer as supertições das suas religiões. Caso contrário, é muito difícil, tal como é difícil identificar superstições de origem critã ou bíblica se for um literalista bíblico. [9]

São curiosas as origens das superstições, tendo em que os ateus são os mais supersticiosos. E ainda mais curioso o facto de, segundo a Gallup, cerca de 1/4 (com 3% de erro) dos americanos admitem serem supersticiosos numa sondagem. Se todos os ateus da América fossem supersticiosos (cerca de 4%), restariam 21% dos americanos. Uma nota: não encontro qualquer referência à sondagem no site da Gallup referida no artigo citado pelo Mats.

Da fonte
O Mats já tem há muito tempo o hábito de usar fontes criacionistas que referem a outras fontes, em vez de procura aproximar-se o mais possível da fonte original. Por isso comete erros como no artigo "Últimas Palavras Famosas de Ateus". A fonte usada por Mats é de um artigo escrito por um membro da Discovery Institute - uma organização criacionista -, que por sua vez usa como fonte um artigo de opinião no The WallStreet Journal escrita por Mollie Ziegler, uma luterana membra do "Board for Communication Services" e da "Higher Things". Nesse artigo é dito que «os que se descrevem como ateus nem podem ser considerados estritamente racionais», referindo-se a uma sondagem no "Pew Forum on Religion & Public Life's" onde é dito que «21% dos que se dizem ateus acredita num Deus pessoal ou numa força impessoal», «dez por cento dos ateus reza pelo menos uma vez por semana e 12% acredita no Céu.» No "Pew Forum" é dito que isso é uma "medida de erro" ["measurement error"]. Talvez sejam como o Mats, pensando que ser ateu é não frequentar igrejas.

Logan Gage no seu artigo diz que Rodney Stark trabalha na Universidade de Baylor. Basta fazer uma pesquisa no Google pelo título do seu livro para encontrar o site dessa universidade sobre o estudo. Ateus e irreligião são discutidos na mesma secção. Simplesmente diz que o número de ateus não cresceu, a maioria dos europeus não é ateia, cerca de 1/3 dos irreligiosos são ateus materialista, cerca de 2/3 dos irreligiosos acreditam que um Deus existe mas não frequentam igrejas, 32% dos irreligiosos reza frequentemente, cerca de 1/3 deles acredita em Satanás e demónios e metade acredita em anjos e fantasmas.

Na secção sobre cristianismo e superstição, é dito que os cristãos tradicionalistas e conservadores têm menos tendência a acreditar em mensagens nos sonhos, no Pé-Grande, OVNIs, casas assombradas, comunicação com os mortos e astrologia. No próprio texto é dito que «os investigadores dizem que isso mostra que não é a religião em geral que suprime essas crenças, mas sim a religião conservadora.» Segundo o artigo do The WallStreet Journal, entre os que têm tendência a serem supersticiosos estãos os que pertencem a denominações Protestantes liberais.
Isso não é novidade para mim e a razão é fácil de perceber se lerem, por exemplo, a literatura de Testemunhas de Jeovás a respeito dos feriados, astrologia, ocultismo e independência de organizações religiosas (clique na imagem ao lado). Se, por exemplo, digo que não acredito na comunicação com os mortos, quero dizer que não acredito na possibilidade de comunicação com os mortos e quem acha que o faz está iludido ou é uma fraude. No entanto Testemunhas de Jeová, tal como os Evangélicos, acreditam que existe influência demoníaca na comunicação com os mortos. Na realidade dizem não acreditar por motivos igualmente supersticiosos. [3] Ora, no artigo do The WallStreet Journal é dito que Barack Obama acredita no paranormal e Sarah Palin não. Mas Sarah Palin recebe orações de um sacerdote para se proteger de feitiçaria. [10] Devo dizer que saber que Bill Maher promove pseudo-ciência, opondo-se à vacinação, surpreendeu-me, no entanto ele diz que não é ateu acreditando num Deus, por isso não é um ateu propenso à superstição. [11]

Resta perguntar como é que o Mats concluiu que «os ateus são mais propensos à superstição que cristãos». O estudo não sugere nada disso. Segundo o que escreveu, parece que ele acha que «as pessoas que nunca vão a casas de oração» são ateus. Ele sabe muito bem que eu e outros ateus que ele aborda não acreditamos nessas palermices e apenas quis desacreditar-nos com um ad hominem em forma de artigo.

Sigo uma filosofia céptica. Mesmo se o título do seu artigo fosse verdade, isso não me iria colocar no saco desses supersticiosos nem seria o suficiente para concluir que o que escrevo é falso. Como sempre, indico imensas referências para que o que escrevo seja escrutinado. Se Mats realmente acredita mesmo no que disse, então que apresente diversos exemplos para corroborá-lo, tal como faço.

Referências: