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15 julho, 2007

Beyond Belief 2006 : Ciência, fé e dúvida

«A ciência tem provas sem certeza.
Os teólogos têm certeza sem qualquer prova»
- Ashley Montagu

«Duvido, logo penso; penso, logo existo.»
Discurso do método, de René Descartes

Na quarta sessão do debate Beyond Belief 2006, o cientista cristão Darren Schreiber partilhou uma experiência pessoal, uma visão de versículos bíblicos, usando o seguinte argumento para defender que a religião tolera mais o desconhecido do que a ciência [1] :
«O desconhecido é um lugar muito desconfortável para um cientista. O que nos motiva muitas vezes é afastar-nos do lugar desse desconhecido, e pensei mais tarde na história de Jó na Bíblia. Jó nessa história coloca-se numa posição horrível e depara com o desconhecido. Enquanto meditava nisto hoje, pensava que existem quatro respostas que me impelem como pessoa de fé, quando me deparo com o desconhecido. Uma delas é continuar procurando. Penso que sou invocado a continuar procurando. Como nós, as pessoas de fé, somos impelidos para continuar procurando, não para desistir, não para dizer que não percebemos, mas continuar procurando. A segunda, é o empenho pela humildade, que sinto ter faltado na discussão de hoje. Se não temos humildade, como cientistas, é difícil perceber quando estamos errados. É difícil aperceber que ainda há algo mais que se desconhece, que nos levaria às seguintes hipóteses e seguintes resultados. A terceira que sinto impelido, como pessoa de fé quando me deparo com o desconhecido, é amar os outros. É novamente algo que é muito simples, mas também é algo que sinto faltar em alguma da discussão de hoje. Acho haver uma falta de respeito pelo sistema de crenças dos outros, uma falta de respeito pela fé que outros têm ou as escolhas que fazem. A terceira que sinto impelido ao ouvir a história de Jó na Bíblia é ter presente o desconhecido. Há coisas que simplesmente não sabemos. É algo desconfortável, é um lugar que não quero estar como cientista, mas algumas vezes tudo o que sabemos que a ciência nos diz é que estaremos nesse lugar do desconhecido.»
Ann Druyan, co-fundadora do Cosmo Studios e esposa de Carl Sagan, discorda deste argumento, respondendo:
« Penso que a ciência tem tolerância com o desconhecido que a religião não tem. A minha crítica não é em relação aos que buscam Deus, a minha crítica é com aqueles que acham que o conhecimento em relação a Deus é completo. E são essas pessoas que tornam grande parte da nossa existência neste planeta um inferno, porque pensam ter o direito de matar outras pessoas e magoá-las por causa do que acreditam ser a vontade de Deus. Isso é uma coisa muito destructiva.
Portanto a ciência, toda a metodologia da ciência, entende que não são permitidas essas verdades absolutas que a religião tem pretensão de ter, que não temos as respostas a essas perguntas e, para além disso, o pouco que pensamos saber, se nos provarem estar errado, dá-nos um prémio maior. Isso faz parte da metodologia e do próprio sistema.
Sim, para responder ao que Joan disse antes, cientistas fazem coisas horríveis. Cientistas têm preconceitos. Religiosos fazem coisas horríveis e têm preconceitos. Mas absolutamente intrínseco no método científico está o mecanismo de correcção de erros, que nos diz que nunca devemos esquecer disso. Esse mecanismo não está presente na religião.
Falando em humildade! É o facto de fazermos ciência e podermos levar a olhar para a pequeníssima Terra na apresentação de Carolyn: isso é humildade.
O que nos fez a ciência para a espiritualidade, é que tem sido a única coisa que conheço que nos impele a deixar a nossa necessidade infantil de centralidade. Ela é grandemente a essência de tantas fórmulas religiosas sobre de onde viemos e porque existimos. É um sinal de saúde mental podermos suportar a ideia de que este planeta esteve perfeitamente bem quase 13.5 biliões de anos sem nós, que a evolução cósmica continuou trinta biliões de anos até chegarmos aqui. Há quanto tempo temos a ciência? Há quanto tempo observamos sistematicamente a natureza? Nem sequer 400 anos. No entanto a ciência leva-no para fora de Encelados. Leva-nos para fora do Sistema Solar. Permite-nos deixar aquele espírito narcisista que impele a ser o centro de tudo. Por isso, no que diz respeito a humildade e tolerância pela ambiguidade e pelo desconhecido, penso que a ciência adora o desconhecido e que os cientistas são os que estão mais confortáveis no lugar do desconhecido. E é onde vivem. É esta a grande força da ciência, por isso respeitosamente o discordo.»


Ann Druyan - Beyond Belief 2006

Há quem ache que na comunidade científica (pelo menos entre os ateus) há sempre respostas na ponta da língua com nariz empinado. [2] Como resultado, surgem episódios, como um referido no blog Que Treta! [3], sobre um artigo no jornal Sol onde se fala numa sugestão (ou exigência) para incluir o criacionismo bíblico no programa de biologia, para transmitir aos jovens a ideia de que o conhecimento tem limites e "que a ciência não pode garantir a última verdade". [4]
As autoridades da cristandade já repudiaram a razão secular, a ciência e a filosofia
[5], e agora adoptam-nas quando são vantajosas. A História está repleta de instituições que pensavam conhecer a última verdade. Foi preciso flexibilidade nos sistemas de crenças para serem feitas descobertas, mesmo com o risco de punição por blasfémia. Agora exige-se que a fé seja vinculada na ciência e considerada racional.
Sem compreender os argumentos de Ann Druyan não é possível compreender como a ciência funciona e porque funciona. É por causa da fé que existem aberrações como a Sociedade da Terra Plana, e se a ciência adoptasse essa fé os satélites, por exemplo, não funcionavam e provavelmente nem haveria Internet. Isso acontece porque, ao contrário do que Darren Schreiber disse, a fé limita o que pode ser procurado. É contrária à dúvida e, por sua vez, à correcção de erros, necessária para definir o método científico.

Para a próxima semana publicarei um artigo sobre a relação entre a dúvida e a fé com exemplos.

Notas:
  • [1]
    • os textos foram traduzidos para português por mim e não sou um especialista em traduções (sou apenas um amador)
    • os negritos foram acrescentados
    • tomei conhecimento deste debate pelo blog de Helder Sanches
  • [2] Idiotice da semana > Nem Fé, nem Razão
  • [3] Que Treta! > Ao contrário
  • [4] Sol > Políticos indignados com mistura de ciência e religião nas escolas
  • [5]
    • «O bom cristão deve defender-se dos matemáticos e de todos os que se dedicam a ímpias predições, sobretudo quando as suas previsões sejam verdadeiras, porque esta gente, de acordo com os demónios, pode enganar o seu espírito e aprisionar a sua pessoa nos laços de um pacto diabólico.», in De genis ad litteram, de Santo Agostinho (ref: A Matemática - o romance dos números, de Giancarlo Masini - Círculo de Leitores, 2ª edição, na página 77 )
    • «Existe um outro tipo de tentação, mais perigosa ainda. Essa é a doença da curiosidade.», de Santo Agostinho
    • «A Razão deveria ser destruída em todos os cristãos. Ela é o maior inimigo da fé. Quem quiser ser um cristão deve arrancar os olhos de sua razão.», Martinho Lutero
    • «Em 1864, a Igreja Católica publicou uma condenação dos erros da razão moderna e da democracia - O Sílabo dos Erros - e em 1870 propôs a doutrina da infalibilidade papal.», in O Cristianismo, de Linda Woodhead (Compreender, 1ª edição, capítulo 5, p. 90)

08 julho, 2007

Ciência e dogma

«Por vezes, o óbvio está errado e o insólito é verdadeiro.»
- em Cosmos, de Carl Sagan

«O empreendimento colectivo do pensamento criativo e
do pensamento céptico, trabalhando conjuntamente,
faz avançar o conhecimento.»
- em Um Mundo Infestado de Demónios, de Carl Sagan


«
Ter a mente aberta é uma virtude,
mas não tanto que o cérebro caia fora.»
- James Oberg

«Prefiro ter uma mente aberta ao mistério
do que ter uma fechada pela crença.»
- How to Argue and Win Every Time,
de Gerry Spence
Este artigo é um pouco longo e faz menção a problemas diversos, apesar de estarem relacionados. É um defeito que tenho de corrigir...

A negação
à priori de ideias impediria que fossem feitas descobertas. Para as descobertas florescerem é necessário liberdade de imaginar. Muitas ideias que ferem o senso-comum e eram consideradas absurdas são agora consideradas científicas e até são usadas para construir máquinas úteis. A Teoria da Relatividade e a Teoria Quântica são dois exemplos recentes muito mencionados na literatura científica. Muitas especulações de filósofos que foram rejeitadas durante séculos foram confirmadas pela Ciência. Existem ideias que se consideravam mitos, mas confirmadas pela ciência, pelo menos parcialmente. Arqueólogos descobriram as ruínas de Tróia [1] e Cristãos revelam satisfação quando são descobertas evidências de personagens e eventos mencionados na Bíblia. [2] Há uma série popular no Discovery Channel, chamada Caçadores de Mitos [em inglês: MythBusters], onde se tenta desmascarar mitos, mas por vezes são revelados resultados surpreendentes, evidenciando a plausibilidade ou confirmação de ideias que pareciam absurdas. [3]

Apesar disso, o papa Bento XVI lamenta os critérios, matemáticos e empíricos, para determinar uma ideia científica por limitarem o conhecimento ou a razão [4], e, por outro lado, religiosos defendem que a ciência baseia-se na e que até tem dogmas [5]. Por ser exigente, a Ciência é limitada, e por ser descriptiva e não normativa, é também amoral (não confundir com imoral; noutra oportunidade escreverei sobre moral e ética). Proposições como "Deus existe", "existem espíritos", "posso mover as páginas do livro com a mente" e "a oração cura doenças" são descriptivas. Cientistas assumiam a existência de Deus quando faziam experiências, o que mostrou ser irrelevante. [6] A Scientific American investigou médiuns e oferecia 2.500 dólares para quem produzisse uma manifestação espírita que Houdini não desmacarasse. [7] Actualmente, James Randi diz oferecer 1 milhão de dólares a quem mostrar evidências de ter poderes paranormais, sob condições de observação controladas. [8] Pode-se realizar experiências para verificar se as orações realmente curam ou se têm efeitos no Universo. [9] O método científico exige que as hipóteses possam ser refutáveis [10]; se toda a falha levar a "justificacionismos", ilimitadas desculpas arbitrárias para salvar a crença, então ela não é científica nem racional.

Os pressupostos pessoais ou que são aceites actualmente na Ciência são irrelevantes: basta provar que estão errados. Por exemplo, Kepler tinha várias crenças frutos da religião e filosofia da época. Abandonou a fé no Mistério Cósmico e no Divino Geómetra com as descobertas que fez pela observação. Procurou explicações naturais para o que as bruxas eram acusadas, o que poderá ter levado à proibição de julgamento de bruxaria com escassez de provas. Pelo individualismo em matéria de fé, foi excomungado. [6] Carl Sagan, o famoso divulgador da Ciência, mostra vários exemplos do género no Cosmo.

Nicolau Copérnico, para facilitar os cálculos matemáticos, apresentou a suposição de que a Terra faz um movimento de translação em torno do Sol. [11] Muitos séculos antes, o filósofo grego Aristarco já tinha proposto a hipótese heliocêntrica, mas nunca foi aceite por contrariar a física aristotélica, crenças religiosas e a astrologia da época [12] Os teólogos cristãos repudiavam a hipótese heliocêntrica, apelando a Bíblia como autoridade absoluta. [13] Galileu continuou a obra de Copérnico com descobertas por meio de observações que contrariavam as ideias aristotélicas e ptolomaicas, mas teve de negar as suas conclusões, que eram consideradas falsas e proibidas pelos teólogos. Durante o julgamento, o Cardeal Bellarmino afirmou: «A Terra a girar em torno do Sol é tão errado quanto dizer que Jesus não é filho de uma virgem». [14]
O padre António Vieira, em História do Futuro, faz menção de dois cristãos que negavam veemente a existência de habitantes nos antípodas. [15] Lactâncio disse: «Porventura dizem estes alguma coisa que tenha fundamento, ou pode haver homem de tão pouco juízo que se lhe meta na cabeça que há homens que andem com a cabeça para baixo, e que todas as coisas que aqui estão em pé, e direitas, lá estejam dependuradas?» e «sabendo muito bem que tudo o que dizem são fábulas e mentiras, as defendem contudo para ostentar habilidade e engenho, empregando tão bons entendimentos em tão más coisas». Apesar de António Vieira rir dessa ideia, louva S. Agostinho por usar um argumento baseado na Bíblia: que é absurdo haver habitantes no lado oposto da Terra, porque os descendentes de Adão teriam de percorrer até lá e as Escrituras não falam dessas pessoas [16].
No século XII um cientista árabe acreditava que a Terra não é achatada, por isso todos os seus trabalhos foram confiscados e queimados. Em 1993 o teólogo muçulmano Sheikh Abdel Aziz ibn Baaz promulgou uma fatwa: «A terra é achatada, e qualquer um que negue essa afirmação é um ateu e merece ser punido» [17].

Houve também cientistas obstinados.
Médicos desafiaram Freud a provar que podia-se provocar histeria pela hipnose, mas negando os doentes que serviam de testemunha. Notavam que histeron significa útero e que a histeria provinha de uma disfunção desse orgão (segundo a crença da época). [18]
Semmelweis formulou uma hipótese que atribuía as mortes durante as dissecações a agentes contagiosos transportados pelos cirurgiões. Por isso sugeriu que lavassem as mãos com uma solução de óxido de cálcio clorado, isolassem os doentes e fervessem os instrumentos. Com essa sua iniciativa o número de mortes reduziu, mas o seu chefe, que não tinha sido consultado, e médicos obstetras teceram críticas severas, motivando perseguições a Semmelweis. [19]
Leopold Krone, um famoso matemático, acreditava que os números são uma invenção de Deus e que, por isso, os números irracionais deveriam ser banidos. Acusou de pecador e oprimiu o matemático Georg Cantor pelos seus conceitos sobre o infinito. [20]
De qualquer modo, os erros de cientistas são detectados e corrigidos por cientistas. Cientistas foram enganados com o embuste do homem de Piltdown, provavelmente pela pressa aliada ao desejo de provar o que acreditavam, mas foram os cientistas que desmascaram a fraude. [21] Os trabalhos do sul-coreano Hoo Suk Hwang publicados pela revista Science foram investigados pela Universidade de Seoul, mostrando serem falsificações. Daí, o processo peer-reviewing foi questionado, e revistas científicas começaram a adoptar métodos rigorosos para detectar fraudes. [22]

Nem mesmo na Matemática existem verdades absolutas. Bertrand Russell escreveu em Portraits from Memory [23]:
«Queria a certeza da mesma maneira que as pessoas querem a fé da religião. Pensava que a certeza seria encontrada mais provavelmente na matemática do que em qualquer outro lado. Mas descobri que muitas demonstrações, que os meus professores queriam que eu aceitasse, estavam cheias de falácias e que, se na verdade, a certeza pudesse ser encontrada na matemática, teria de ser num novo campo, com fundamentos mais sólidos do que até aí tinham sido julgados seguros. Mas à medida que o trabalho avançava, lembrava-me constantemente da fábula do elefante e da tartaruga. Depois de construir um elefante onde o mundo da matemática podia assentar, descobri que o elefante era instável e decidi construir uma tartaruga para evitar que o elefante caísse. Mas a tartaruga não era mais estável do que o elefante, e, após cerca de vinte anos de trabalho árduo, cheguei à conclusão que não podia fazer mais nada para tornar o conhecimento matemático isento de dúvida.»
Acreditou-se que os livros de Euclides continham verdades óbvias e inquestionáveis. Parece que a maioria ainda pensa assim, mas a partir do século XIX foram feitas descobertas na Matemática que contrariam os livros de Euclides e que são contra-intuitivas, mas muitas foram úteis para explicar fenómenos físicos. [24]


Na Ciência incentiva-se que os erros sejam criticados e corrigidos, ao invés de colocar a poeira debaixo do tapete. Na Ciência não existem livros sagrados nem sacerdotes do conhecimento que definem leis inquestionáveis.
A imaginação tem possibilidades ilimitadas. O método científico é aberto a essas possibilidades, mas selecciona as mais aptas que sobrevivem com o tempo pela poda da dúvida. Podem chamar fé a isso, mas se a vossa fé não é assim, então não é a mesma. Usar a mesma palavra para duas coisas diferentes não as torna iguais.
É verdade que a Ciência é limitada. É por isso mesmo que é útil. Não tem respostas para tudo, mas reconhecemos os méritos pelos resultados. Para as crenças merecerem o mesmo respeito, devia-se exigir o mesmo. Quanto a isso, há uma constante decepção na ilimitada estupidez dos dogmas, também chamados de Verdade.


Referências:
[1] Wikipedia > Anatólios; educação > História por Voltaire Schilling > Schliemann na procura de Tróia
[2] ChristianAnswers > A Confiabilidade Arqueológica da Bíblia
[3] MythBusters Results; Annotated Mythbusters
[4] O Insurgente > Fé, Razão e Reflexões: Memórias e Reflexões
[5] olho de rua > Ciência e religião: são compatíveis? Parte II
[6]
Cosmos, de Carl Sagan (no capítulo I, As costas do oceano cósmico)
[7] Projeto Ockham > Declínio e queda do espiritualismo
[8] Dicionário Cético > o desafio de Randi aos paranormais
[9] Que Treta ! > Ciência e naturalismo
[10] Wikipedia > Método científico ;
Science Passion! > Método científico ;
Espaço Científico Cultural > Teoria sobre o Método Científico
A Arte de Pensar > O falsificacionismo de Karl Popper
[11] História Ilustrada da Ciência - A Astronomia, à descoberta do infinito, de Giancarlo Masini
[12]
Encyclopedia Galactica > Aristarco
[13] C# > Martin Luther and Geocentricism
[14] Heródoto > Um julgamento histórico
[15] História do Futuro, de padre António Vieira
[16] Wikipedia > Flat Earth
[18] Deuses e Demónios da Medicina II, de Fernando Namora
[19] Semmelweis: uma história para reflexão
[20] Vida e Obra de Cantor
[21] Dicionário Cético > Fraude de Piltdown
[22] CiênciaHoje > A ciência policia-se ; Com Ciência > A clonagem das notícias de ciência
[23] citação extraída de: A experiência Matemática, de Philip J. Davis e Reuben Hersh (editora gradiva, 1ª edição; no capítulo 7: Da certeza à falibilidade, p. 313);
Educação Pública > O paradoxo de Alice e o de Dom Quixote;
[24] Um Salto Quântico No Infinito ;
Euclides, Geometria e Fundamentos ;
A crise nos fundamentos da Matemática e a Teoria da Computação ;
STR > Scientia > Transgredindo as fronteiras: em direcção a uma hermêutica transformativa da gravitação quântica

06 julho, 2007

Acreditar e fé

«Tal é a magia das falas humanas, que por humano acordo
significam muitas vezes, com sons iguais coisas diversas.»
- Nome da Rosa, de Umberto Eco

«Uma fé que não duvida, é uma fé morta.»
- A Agonia do Cristianismo, de Miguel de Unamuno

«A fé é uma posse antecipada do que se espera,
um meio de demonstrar as realidades que não se vêem»

«Pedes fé: mostro-te dúvida para provar que a fé existe.»
- Os homens e mulheres, de Robert Browning

Acreditar ou crer em x significa considerar x como verdadeiro. Mas o nível de confiança não é necessariamente absoluto. O sentido etimológico de "acreditar" é "dar crédito" (1), e a palavra é muitas vezes usada para exprimir uma convicção forte. Muitas definições nos dicionários associam à reputação ou autoridade, mas entre elas está "crer", que pode significar: "julgar, supor, presumir" (2).

Tal
como "roubar" é um termo mais abstracto para "furtar", "saquear", "fraudar" e "plagiar"; "acreditar" é um termo mais abstracto para "crer", "supor", "esperar" e "ter fé". Vulgarmente emprega-se essas palavras com valor relativo, mas em sentido teológico algumas delas indicam uma confiança absoluta.
Por exemplo, muitas vezes diz-se que se espera querendo dizer que se prevê ou deseja ("esperança média de vida", "é este o resultado esperado", "espera-se céu pouco nublado e limpo", "espero que corra tudo bem", "espero que amanhã faça sol"). Em sentido teológico é uma certeza absoluta, porque não se questiona a sua fonte, que é uma autoridade absoluta. Por isso há cépticos e ateus que evitam usar esses termos, o que penso ser uma atitude errada por criar tabus e, consequentemente, preconceitos e equívocos.

Uma "crença" é o acto de crer , mas pode significar o mesmo que religião. A palavra "fé" tem vários significados, como o "acto em algo que não está ou não pode ser comprovado" (2), mas em sentido teológico pode significar religião, as crenças de uma religião ou uma verdade absoluta.
A origem etimológica da palavra "fé" deriva da palavra latina "fide", que significa lealdade, honestidade, crédito e confiança (1, 2). Há quem diga que ter fé significa o mesmo que acreditar ou confiar. Há definições que indicam ser uma crença que não pode ser comprovada ou por questões emocionais (2, 3). De qualquer modo, na literatura religiosa muitas vezes existem definições elaboradas para explicar que existem fundamentos para a fé (6, 7), mas é sempre encarada como uma certeza de que algo é verdadeiro (4, 6).
Muitas vezes dizem que a Ciência exige pressupostos, concluindo que é necessário fé (8, 9). No fórum Clube Cético uma utilizadora iniciou um tópico com a pergunta: "Os Céticos também têm fé?", usando o Teorema de Gödel como introdução. Numa resposta mostrei, com exemplos, que o termo "fé" tem diferentes significados em contextos diferentes. Estamos conscientes que a fé que fazemos no senso-comum e na Ciência é limitada, e a confiança que temos nela não é a mesma que existe na fé religiosa (10). A fé religiosa não é um pressuposto, é um dogma.

Muitas ideias neste artigo merecem melhor aprofundamento, que deixarei para outras oportunidades.

(1) Machado, José Pedro - Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Livros Horizonte, 3ª edição
(2) Wikcionário; Priberam;
(3) Wikipedia
(4) «Fé não é ter um perfeito conhecimento das coisas; portanto, se tendes fé, tendes esperança nas coisas que não se vêem e que são verdadeiras.», Alma 32:20 (Livro de Mórmon)
(5) «Ter fé em Deus é mais que uma crença teórica Nele. Ter fé em Deus significa acreditar Nele, confiar Nele e estarmos dispostos a agir segundo a crença que temos Nele.» - Alaum.net > Baptismo
(6) «"A fé é a expectativa certa de coisas esperadas, a demonstração evidente de realidades, embora não observadas" - Hebreus 11:1. A verdadeira fé não é credulidade, isto é, crer logo em alguma coisa sem evidência sólida, ou só porque a pessoa quer que assim seja. A fé genuína requer conhecimento básico ou fundamental, familiaridade com a evidência, bem como genuíno apreço do que essa evidência indica. Assim, embora seja impossível ter verdadeira fé sem conhecimento exato, a Bíblia diz que "é com coração" que a pessoa exerce fé- Rom. 10:10» - Racioncínios à base das Escrituras, 1985, p. 164
(7) «Muitos que pensam que há uma contradição entre ciência e fé definem a fé como sendo “crença inquestionável” ou “crença sem evidência”.» [...] «Na Bíblia, a fé pode ser definida como completa confiança, confidência ou segurança. “Crença” é, talvez, uma das melhores palavras para descrever a fé. Ela vai além de simplesmente crer em alguma coisa. Muitos crêem em coisas, mas não querem pôr sua confiança em suas crenças. Isto não é fé. A verdadeira fé é atingida quando as pessoas sabem no que crêem, porque crêem nisso, e são devotados a agir por suas crenças.» - Estudos da Bíblia > A ciência da fé
(8) «Simplesmente não é possível pensar a partir de um ponto neutro e então concluir com a fé, porque toda razão nasce a partir da fé.» - Núcleo de Estudos Cristãos > O que significa pensar como um Cristão?
(9) «A ciência em si é baseada em certas pressuposições, tais como a realidade da verdade, a capacidade da mente humana de perceber adequadamente o mundo e a idéia de que os números e a linguagem têm significado verdadeiro. Estas coisas não podem ser comprovadas cientificamente, por isso um certo grau de fé precisa ser exercido.» -
Estudos da Bíblia > A ciência da fé
(10) «Em primeiro lugar, só o tipo de certeza que resulta da interacção entre elementos matemáticos e empíricos pode ser considerada científica. Algo que se reclame científico pode ser confrontado com este critério. Deste modo, as ciências humanas, como a história, a psicologia, a sociologia e a filosofia, tentam conformar-se com este canon de cientificidade. Um segundo ponto, importante para as nossas reflexões, é que pela sua própria natureza este método exclui a questão de Deus, fazendo-a aparecer como não científica ou como uma questão pré-científica. Consequentemente, deparamo-nos com uma redução do alcance da ciência e da razão que precisa de ser questionada.» - Fé, Razão e Universidade: Memórias e Reflexões

05 julho, 2007

Preâmbulo

«Algumas coisas precisam de ser acreditadas para serem vistas.» - Ralph Hodgson, em ESP
«A não ser que acreditem, não entenderão.» - Santo Agostinho, De Libero Arbitrio

No fórum Clube Cético foi enviado um tópico [1] sobre um vídeo que mostra um idoso que derruba os seus discípulos sem tocá-los. Ele simplesmente precisava de gesticular e os seus adversários eram projectados como atingidos por uma força invisível. Num combate contra um jovem alheio a essa técnica, os vários gestos não tiveram o mesmo resultado e foi derrotado miseravelmente com golpes convencionais.
Aqueles a quem mostrei o vídeo dizem ser inacreditável como há gente que acredita nesse género de coisas. Mas mesmo com esses falhanços há quem acredite. Num episódio da série Is it real?, da National Geographic, um discípulo experiente de George Dillman tenta derrubar um céptico com o Toque da Morte. Depois de muito gesticular, explica o falhanço: o céptico "não estava preparado para acreditar nessas coisas". O nome deste blog é inspirado nesses vídeos e nessa justificação.

Neste blog pretende-se questionar não apenas as crenças que achamos absurdas, mas o que nós próprios acreditamos e o que define um facto ou uma ideia científica, aprendendo com exemplos de apegos a absurdos, com a História e incentivando o pensamento crítico.

Já li e discuti muito sobre diversas crenças, que terei oportunidade de abordar, mas não sou perfeito, por isso gostaria que houvesse mais quem participasse na publicação de artigos. E convido a todos a criticarem os artigos, pois o blog destina-se a pensar, não apenas para ler e acreditar [2].


Referências:
  • [1] Clube Cético > Discussões > Ceticismo > Ki
  • [2] «Don’t think, just listen and believe» [Não pense, somente ouça e acredite], Answers in Genesis Creation Museum (ref: BlueGrassRoot > Fun at the Creation Museum)