«A ciência tem provas sem certeza.
Os teólogos têm certeza sem qualquer prova»
- Ashley Montagu
Os teólogos têm certeza sem qualquer prova»
- Ashley Montagu
«Duvido, logo penso; penso, logo existo.»
Discurso do método, de René Descartes
Na quarta sessão do debate Beyond Belief 2006, o cientista cristão Darren Schreiber partilhou uma experiência pessoal, uma visão de versículos bíblicos, usando o seguinte argumento para defender que a religião tolera mais o desconhecido do que a ciência [1] :
«O desconhecido é um lugar muito desconfortável para um cientista. O que nos motiva muitas vezes é afastar-nos do lugar desse desconhecido, e pensei mais tarde na história de Jó na Bíblia. Jó nessa história coloca-se numa posição horrível e depara com o desconhecido. Enquanto meditava nisto hoje, pensava que existem quatro respostas que me impelem como pessoa de fé, quando me deparo com o desconhecido. Uma delas é continuar procurando. Penso que sou invocado a continuar procurando. Como nós, as pessoas de fé, somos impelidos para continuar procurando, não para desistir, não para dizer que não percebemos, mas continuar procurando. A segunda, é o empenho pela humildade, que sinto ter faltado na discussão de hoje. Se não temos humildade, como cientistas, é difícil perceber quando estamos errados. É difícil aperceber que ainda há algo mais que se desconhece, que nos levaria às seguintes hipóteses e seguintes resultados. A terceira que sinto impelido, como pessoa de fé quando me deparo com o desconhecido, é amar os outros. É novamente algo que é muito simples, mas também é algo que sinto faltar em alguma da discussão de hoje. Acho haver uma falta de respeito pelo sistema de crenças dos outros, uma falta de respeito pela fé que outros têm ou as escolhas que fazem. A terceira que sinto impelido ao ouvir a história de Jó na Bíblia é ter presente o desconhecido. Há coisas que simplesmente não sabemos. É algo desconfortável, é um lugar que não quero estar como cientista, mas algumas vezes tudo o que sabemos que a ciência nos diz é que estaremos nesse lugar do desconhecido.»Ann Druyan, co-fundadora do Cosmo Studios e esposa de Carl Sagan, discorda deste argumento, respondendo:
« Penso que a ciência tem tolerância com o desconhecido que a religião não tem. A minha crítica não é em relação aos que buscam Deus, a minha crítica é com aqueles que acham que o conhecimento em relação a Deus é completo. E são essas pessoas que tornam grande parte da nossa existência neste planeta um inferno, porque pensam ter o direito de matar outras pessoas e magoá-las por causa do que acreditam ser a vontade de Deus. Isso é uma coisa muito destructiva.
Portanto a ciência, toda a metodologia da ciência, entende que não são permitidas essas verdades absolutas que a religião tem pretensão de ter, que não temos as respostas a essas perguntas e, para além disso, o pouco que pensamos saber, se nos provarem estar errado, dá-nos um prémio maior. Isso faz parte da metodologia e do próprio sistema.
Sim, para responder ao que Joan disse antes, cientistas fazem coisas horríveis. Cientistas têm preconceitos. Religiosos fazem coisas horríveis e têm preconceitos. Mas absolutamente intrínseco no método científico está o mecanismo de correcção de erros, que nos diz que nunca devemos esquecer disso. Esse mecanismo não está presente na religião.
Falando em humildade! É o facto de fazermos ciência e podermos levar a olhar para a pequeníssima Terra na apresentação de Carolyn: isso é humildade.
O que nos fez a ciência para a espiritualidade, é que tem sido a única coisa que conheço que nos impele a deixar a nossa necessidade infantil de centralidade. Ela é grandemente a essência de tantas fórmulas religiosas sobre de onde viemos e porque existimos. É um sinal de saúde mental podermos suportar a ideia de que este planeta esteve perfeitamente bem quase 13.5 biliões de anos sem nós, que a evolução cósmica continuou trinta biliões de anos até chegarmos aqui. Há quanto tempo temos a ciência? Há quanto tempo observamos sistematicamente a natureza? Nem sequer 400 anos. No entanto a ciência leva-no para fora de Encelados. Leva-nos para fora do Sistema Solar. Permite-nos deixar aquele espírito narcisista que impele a ser o centro de tudo. Por isso, no que diz respeito a humildade e tolerância pela ambiguidade e pelo desconhecido, penso que a ciência adora o desconhecido e que os cientistas são os que estão mais confortáveis no lugar do desconhecido. E é onde vivem. É esta a grande força da ciência, por isso respeitosamente o discordo.»
Ann Druyan - Beyond Belief 2006
Há quem ache que na comunidade científica (pelo menos entre os ateus) há sempre respostas na ponta da língua com nariz empinado. [2] Como resultado, surgem episódios, como um referido no blog Que Treta! [3], sobre um artigo no jornal Sol onde se fala numa sugestão (ou exigência) para incluir o criacionismo bíblico no programa de biologia, para transmitir aos jovens a ideia de que o conhecimento tem limites e "que a ciência não pode garantir a última verdade". [4]
As autoridades da cristandade já repudiaram a razão secular, a ciência e a filosofia [5], e agora adoptam-nas quando são vantajosas. A História está repleta de instituições que pensavam conhecer a última verdade. Foi preciso flexibilidade nos sistemas de crenças para serem feitas descobertas, mesmo com o risco de punição por blasfémia. Agora exige-se que a fé seja vinculada na ciência e considerada racional.
Sem compreender os argumentos de Ann Druyan não é possível compreender como a ciência funciona e porque funciona. É por causa da fé que existem aberrações como a Sociedade da Terra Plana, e se a ciência adoptasse essa fé os satélites, por exemplo, não funcionavam e provavelmente nem haveria Internet. Isso acontece porque, ao contrário do que Darren Schreiber disse, a fé limita o que pode ser procurado. É contrária à dúvida e, por sua vez, à correcção de erros, necessária para definir o método científico.
Para a próxima semana publicarei um artigo sobre a relação entre a dúvida e a fé com exemplos.
Notas:
- [1]
- os textos foram traduzidos para português por mim e não sou um especialista em traduções (sou apenas um amador)
- os negritos foram acrescentados
- tomei conhecimento deste debate pelo blog de Helder Sanches
- os textos foram traduzidos para português por mim e não sou um especialista em traduções (sou apenas um amador)
- [2] Idiotice da semana > Nem Fé, nem Razão
- [3] Que Treta! > Ao contrário
- [4] Sol > Políticos indignados com mistura de ciência e religião nas escolas
- [5]
- «O bom cristão deve defender-se dos matemáticos e de todos os que se dedicam a ímpias predições, sobretudo quando as suas previsões sejam verdadeiras, porque esta gente, de acordo com os demónios, pode enganar o seu espírito e aprisionar a sua pessoa nos laços de um pacto diabólico.», in De genis ad litteram, de Santo Agostinho (ref: A Matemática - o romance dos números, de Giancarlo Masini - Círculo de Leitores, 2ª edição, na página 77 )
- «Existe um outro tipo de tentação, mais perigosa ainda. Essa é a doença da curiosidade.», de Santo Agostinho
- «A Razão deveria ser destruída em todos os cristãos. Ela é o maior inimigo da fé. Quem quiser ser um cristão deve arrancar os olhos de sua razão.», Martinho Lutero
- «Em 1864, a Igreja Católica publicou uma condenação dos erros da razão moderna e da democracia - O Sílabo dos Erros - e em 1870 propôs a doutrina da infalibilidade papal.», in O Cristianismo, de Linda Woodhead (Compreender, 1ª edição, capítulo 5, p. 90)
