«Science is a way of thinking much more than it is a body of knowledge.»
- atribuído a Carl Sagan (sem fonte)
(...) «a ciência é mais do que um corpo de conhecimentos; é uma maneira de pensar.»
- Carl Sagan, in "Um Mundo Infestado de Demónios" (cap. 2; ed. gradiva)
(cap. 3) «Devo notar que emprego o termo "luta pela existência" no sentido geral e metafórico» (...) (cap. 4)«Diz-se que falo da selecção natural como de uma potência activa ou divina; mas quem critica o autor quando fala da atracção ou gravitação, como regendo o movimento dos planetas? Todos sabem o que significam, o que querem exprimir estas expressões metafóricas necessárias à clareza da discussão. É também muito difícil evitar personificar o nome "natureza"» (...)
- Charles Darwin, in "A Origem das Espécies" (tradução do médico e professor Joaquim Dá Mesquita)
«“A Ciência é antes um modo de pensar do que propriamente um conjunto de conhecimentos.” (Carl Sagan) Sagan deve ter confundido “conjunto de conhecimentos” com “corpo de conhecimento”.»
- Luciano Henrique, in "Neo-Ateísmo, um Delírio"
(...) «na situação padrão de ciência, nós não usamos metáforas. Nós tratamos tudo literalmente, pois as afirmações devem ser de testabilidade direta ou indireta.»
- Luciano Henrique, in "Neo-Ateísmo, um Delírio"
Analogias, contexto e falácias da composiçãoNum
comentário do seu blog "Neo-Ateísmo, um Delírio", Luciano Henrique objectou
a minha resposta dizendo que cometi o
«erro grave é tentar atribuir ação à conceitos inertes» e, «
para variar, mais analogias erradas» que, mencionando dois exemplos do artigo, seriam validas «
se afirmasse que “A língua portuguesa se corrigiu”» e «
“A Informática se corrigiu”». Como podem notar pela resposta, não é a primeira vez que ele acusa-me de fazer analogias falsa. No comentário começa por confundir a
4ª parte da sua série "
A difícil arte de dialogar com neo-ateus" com a
3ª parte (que tem o subtítulo "OU Mapeando aqueles que tentam validar uma
falácia da composição"), já que o exemplo do CRM está na 3ª mas não na 4ª. E diz que o exemplo que deu fecha a questão a seu favor. Sugiro que siga o seu próprio conselho e que leia bem o que está escrito.
Para defender convenientemente que existe uma falsa analogia,
convém que se responda ao que está a ser comparado e ao que se responde com a comparação. Os dois exemplos que ele usou do meu artigo encontram-se no primeiro e segundo parágrafos da secção com o título "Falácia da composição, essência e acidente": 1) «Mesmo que, entre várias redacções,
alguns erros não tenham sido corrigidos, dizemos que o professor corrige as redacções.»; 2) «E dizemos que um programador que
não corrige os programas limita-se implementá-los sem os testar ou ignorando os
bugs e a estrutura do código.» (Claro que ele não usou exemplos como "
Durmo e como, mas não estou a dormir nem a comer" que também são muito diferentes de "ciência corrige-se"...) Os dois parágrafos servem de introdução e preparação para os últimos dois parágrafos da mesma secção. No contexto dos exemplos, respondi ao argumento de que dizer que a ciência corrige-se - e até mesmo que cientistas corrigem a ciência -
é uma falácia de composição, até com um problema relativo ao
princípio de não-contradição (e a
lei do terceiro excluído?) e que a
ciência é imutável. Portanto, o objectivo dessa secção não é mostrar que a ciência corrige-se. Sugiro que releiam essa secção e que verifiquem se os argumentos de Luciano em questão são válidos, incluíndo a analogia do CRM, em vez de estarem satisfeitos com a questão a ser contornada com um
homem-palha.
Fig. 1: segundo Luciano, S não se corrige porque o que é corrigido é uma parte de S. Todas as palavras foram inventadas por seres humanos e os seus significados são meras convenções. A língua portuguesa é uma convenção, como a
Web, e depende dos que a conhecem para existir (o que significa serem corrigidas?). Dizer que um texto tem erros é dizer que viola as regras da língua. Por exemplo, "mabalarismo" está errado porque a palavra que se inventou como convenção para nos comunicarmos é "malabarismo". As linguagens de programação - que são também convenções - é que são
homólogas às línguagens naturais, como a portuguesa (a
Linguística é que é homóloga à
Informática). Os erros de programação são más aplicações da linguagem ou que não seguem a especificação.
A má aplicação ao ser corrigida não corrige nem melhora uma linguagem de programação, tal como a má aplicação da Ciência não a piora nem a correcção dessa má aplicação melhora a Ciência. Dizemos nesses casos que nos corrigimos (
comparar com «se eu me corrijo, isso não implica em que automaticamente a entidade Administração seja corrigida»).
Fig. 2: A correcção de uma aplicação errada de um conhecimento, por ignorância ou descuido, não corrige o tal conhecimento nem o que formou. Senão dir-se-ia que até os exames escolares corrigiriam o que se ensina aos alunos. S pode corrigir-se. C - o conhecimento - não o pode fazer. A Língua Portuguesa, as linguagens de programação e as teorias são como 2. A Linguística, a Informática e a Ciência são como 1.A palavra "informática" é muitas vezes usada para se referir a conhecimentos relacionados com o uso de computadores. Nesse sentido, até o uso do rato é informática (existe até o que é chamado de "informática na óptica do utilizador"). Como é apenas um conjunto de conhecimentos, não faz sentido dizer que se corrige. No entanto, no contexto científico, a Informática é uma ciência que faz parte da Matemática. Não é apenas um corpo de conhecimentos, mas também a metodologia que o dá forma e o dinamiza. Aí entramos na segunda secção do meu artigo: "
A metodologia que corrige". É aí que defendo que faz sentido dizer que a Ciência corrige-se e até disse que é possível que a Administração corrija-se se for uma entidade que é uma ciência, com
um corpo de conhecimentos e metodologia, ou representa um conjunto de pessoas, ao invés de um mero processo. Até fiz uma
ilustração para que se perceba a diferença.
A Ciência corrige-seNos intervalos do trabalho, costumo ler artigos relacionados com programação informática e tecnologias de informação, como o "
The Daily WTF". Na quarta-feira passada foi lá publicado
um artigo sobre código que se documenta tão bem que não precisa de comentários. Dizemos que
o código documenta a si mesmo, se é fácil de perceber por si mesmo o que faz (ie: produz um efeito no leitor), especialmente recorrendo a bons nomes para variáveis e funções. Caso contrário, é preciso o uso de comentários, com uma linguagem natural, para percebê-lo facilmente. É mais comum dizer que um
método ou que uma metodologia corrige [
1;
2;
3;
4]. Não são meras fórmulas, como uma receita, mas um processo, uma prática, um modo de proceder. Na primeira secção tinha apresentado exemplos do dia-a-dia, do senso-comum, para sensibilizar o leitor para a segunda secção cujo título implica que existe uma metodologia que corrige. Ora, a Ciência é tanto
um corpo de conhecimentos como a metodologia que lhe dá forma. Se fosse apenas o corpo de conhecimentos ou a metodologia, não se percebia o que significava "corrigir-se" - mas não é esse o caso.
Fig 3: «Dizemos que nos corrigimos quando reconhecemos um erro e o emendamos. Não queremos dizer com isso que nos tornamos perfeitos e que não temos muitos outros defeitos.» (...) «Nós corrigimo-nos porque nós próprios somos capazes de mudar as nossas próprias crenças. Existem robôs programados para aprenderem e serem autónomos, que podem corrigir-se» Reparem que muitas vezes quando dizemos que nos corrigimos, referimo-nos a algo externo a nós próprios (como uma gralha num texto) ou a um erro cometido no passado (como uma palavra mal pronunciada).
Na Ciência o mais importante não é o resultado em si -
o mais importante é como se chegou a ele. O processo mental que leva a uma crença é o que distingue a Ciência, o Senso Comum, a Filosofia e Religião entre si.
Todos evoluem, mas a mudança não implica correcção. Por exemplo, não faz sentido dizer que as línguas têm erros, sendo meras convenções para comunicar. São é melhoradas, do ponto-de-vista daqueles que as utilizam [
1;
2]. Na Ciência há uma metodologia que permite
identificar os seus próprios erros como tal e que iterativamente são eliminados e substituídos por ideias melhores. Quer dizer, a Filosofia, por exemplo, ajuda nos conceitos e epistemologia, que permite-nos ter uma metodologia e clareza, mas é a própria Ciência que descobre os seus próprios erros e corrige-os. (daqui a 2 artigos elaborarei o que escrevi neste parágrafo)
O livro "O cérebro de Broca - reflexões sobre a beleza da Ciência", de Carl Sagan, tem num final "apêndices ao capítulo 7", em 11 páginas cheias de fórmulas, um gráfico e uma tabela, para analisar as hipóteses do dr. Velikovsky. No início do capítulo 7 está:
«Os cientistas, como os outros seres humanos, têm as suas esperanças e os seus medos, as suas paixões e os seus desencantos - e as suas emoções fortes podem por vezes interromper o curso do pensamento claro e da prática ortodoxa. Contudo, a ciência também se corrige a si mesma. As hipóteses predominantes devem resistir ao confronto com a observação. Os recursos à autoridade são inadmissíveis. Os passos numa discussão fundamentada devem ser revelados a todos os que os quiserem ver. As experiências devem poder reproduzir-se.
A história da ciência está repleta de casos em que teorias e hipóteses previamente aceites foram completamente destornadas para dar lugar a novas ideias que explicam os dados de forma mais apropriada. Como existe uma inércia psicológica compreensível - que dura em geral uma geração -, essas revoluções do pensamento científico são amplamente aceites como um elemento desejável e necessário ao progresso científico.» (...) «A ideia da ciência mais como método que como corpo de conhecimentos não é muito apreciada fora da ciência, nem mesmo em alguns ramos da própria ciência.» [comparem com as citações no início deste artigo] (...) «É frequente que um artigo, revisto depois de ter sido objecto de crítica, acabar por ser aceite para publicação.» [exemplo dado: "Crítica a O Efeito de Júpiter", de J.Meeus (1975) e comentário na Icarus] (...) «A crítica vigorosa é mais constructiva na cência que outras áreas da actividade humana, porque na ciência há padrões adequandos de avaliação com os quais estão de acordo praticantes competentes.»
Continua com cerca de 60 página dedicadas a Immanuel Velikovsky - «As emoções da comunidade científica excederam-se com a publicação de Immanuel Velikovsky, especialmente do seu primeiro livro,
Mundos em Colisão, em 1950». Na penúltima página do capítulo está:
«A indignação que parece ter-se apossado de muitos cientistas, em geral calmos, ao colidirem com Mundos em Colisão produziu uma série de consequências.» (...) «Em toda a questão de Velikovsky, o único aspecto pior que a abordagem falsa, ignorante e doutrinária de Velikovsky e de muitos dos seus apoiantes foi a tentativa fracassada, por alguns que se intitulam cientistas, de suprimir os seus escritos. Todo o empreendimento científico sofreu com isto. Velikovsky não faz afirmações sérias, objectivas ou falsificáveis. Não há, pelo menos, nada de hipócrita na recusa rígida do imenso corpo de dados que contradiz os seus argumentos. No entanto, supõe-se que os cientistas estão preparados para entender que as ideias serão julgadas pelo seu mérito se o livre inquérito e o debate vigoroso forem permitidos.
Enquanto os cientistas não derem a Velikovsky a resposta ponderada que o seu trabalho exige, somos responsáveis das confusões velikovskianas.»
Comparem com o que Luciano diz a respeito com o que Sagan escreveu: «deve ter confundido “conjunto de conhecimentos” com “corpo de conhecimento”», não percebeu que «existe o bom profissional, e o mal profissional», que afirmou «que o cientista é alguém infalível e sem fé» e que a «ciência é o único método para descobrir a realidade», etc.
Deturpa o primeiro capítulo, de "O Mundo Assombrado por Demónios", com a introdução do taxista (na edição da
gradiva: «ele disse-me que estava contente por ser "aquele fulano cientista", pois tinha muitas perguntas a fazer sobre ciência»). Já agora comparem as suas respostas com o que escrevo.
Curiosamente acusou-me de "desonestidade intelectual e safadeza", e "ateu fanático e mentiroso costumaz". Outro chamou-me
de louco por associar os termos "idolatria" e "religião" e que sou um
ignorante por dizer que existem cristãos comunistas. Incentivo que duvidem de mim e verifiquem por si mesmos o que digo - se estiver errado, agradeço que me corrigem. Pelos vistos Luciano vai por outra via. Já agora: ontem à noite enviei um e-mail para benedictxvi[at]vatican[dot]va . Amanhã escreverei sobre religião, como tinha já dito. Posso ser um fanático que escreve poucos artigos e um mentiroso que coloca as provas das suas mentiras como referência, mas espero que sejam do vosso interesse.