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31 outubro, 2009

Modelos entre guerras - correcções de português

(continuação do artigo anterior)

"In which"
«The history of science, like the history of all human ideas, is a history of irresponsible dreams, of obstinacy, and of error. But science is one of the very few human activities — perhaps the only onein which errors are systematically criticized and fairly often, in time, corrected.»
Num artigo eu tinha escrito que "in which" significa "cujos". Luciano, como resposta no seu blog, disse que eu estava errado - «a tradução correta», de parte da segunda frase, é: «Mas a ciência é uma das raras atividades humanas – talvez a única – em que erros são sistematicamente criticados…». Ele apresentou uma tradução correcta e é verdade que cometi um erro, mas não apresentou uma explicação, optando a via da ofensa com: «sendo direto e sem ser prolixo, fica tudo mais fácil». Apresento um exemplo de como acho que Luciano deveria ter respondido.

a) Como é que deveria estar se o sentido fosse o mesmo que "cujos"?
Se significasse "cujos", em vez de "in which", deveria estar "of which" ou "whose". "Cujo" é equivalente a "dos quais", "do qual", "das quais" e "da qual", consoante o número e género, e "de que" e "de quem". Portanto, a palavra é um pronome relativo que indica posse. [Wikcionário; Ciberdúvidas; Língua Portuguesa; Gramática on-line] A palavra "whose" também é um pronome relativo que indica posse, com antecedente e consequente, e é equivalente a "of which". [dictionary.com; Grammar Quizzes; Wikibooks]

b) O que significa "em que"?
O termo é equivalente a "no qual", "nos quais", "na qual" e "nas quais", consoante o número e género, e sinónimo de "onde", se usado como pronome relativo (ou advérbio relativo) com valor circuntancial de lugar. Por vezes "cujo" é incorrectamente usado quando se deve usar um desses termos. O termo inglês "in which" é um advérbio relativo, que na escrita formal substitui "where" (em português significa "onde") . Exemplo: «The world in which we live», ie: «O mundo em que vivemos.» ("no qual" ou "onde" em vez de "em que" seria igualmente correcto);  [BBC - Learning English; Wikipedia; English Grammar Online; babla]

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Metáfora
Tinha cometido outro erro quando disse que "Ciência corrige-se" não é uma metáfora. Pareceu-me fazer sentido, depois ter escrito um artigo em que dou exemplos de acções atribuídas a seres inanimados. Mas lembrei-me que muitas vezes li sobre natureza como uma personificação (por exemplo, Charles Darwin no 3º capítulo de Origem das Espécies disse que é «muito difícil evitar personificar o nome "natureza"»). Pensei que dizer que "Ciência corrige-se" não é uma metáfora só faria sentido se o acto de corrigir fosse entendido como uma abstracção no mesmo nível - aparentemente não é o caso da natureza.

Tinha enviado uma mensagem no site Ciberdúvidas, em que pergunto se "o método corrige" e "a ciência corrige-se" são metonímias. Não recebi uma notificação para ler a resposta, mas depois de me ter lembrado do exemplo da natureza, procurei por ela e encontrei-a. "O método corrige", "a ciência corrige-se" e "a filosofia corrige-se" são uma metonímias, «porque se referem as pessoas que corrigem pelo instrumento que lhes permite a correcção», sendo que a «relação é de contiguidade, embora aqui o espaço considerado seja mental e comunicacional». Os dois últimos casos são também personificações. Mas nesses três casos «a metonímia faz parte dos próprios meios de representação do discurso corrente, pelo que podemos aqui falar de uma metonímia fixada no próprio sistema linguístico» - catacreses.

Exemplos de catacreses: "pernas da cadeira", "cabeça do alfinete", "dente de alho" (bulbilho), "dentes do serrote", "pele do tomate", "leito do rio", "asa do vaso", "árvore genealógica", "macaco do carro", "pé-de-cabra", "céu da boca", "planta do pé", "raiz do dente", "vinagre de maçã", "marmelada de laranja", "corpo do artigo", "casca do pão", "folha de papel", "trânsito engarrafado", "azulejo amarelo" (azulejo: peça de decoração azul), "embarcar no avião", "aterrar em Marte", "bolsa de valores", "nicho do mercado", "valor líquido", "rato do computador", "raízes da equação", "quadrado de um inteiro", "raiz quadrada", "número primos", "leis naturais", "Via Láctea", "anéis de Saturno", "buraco negro", "cadeia de ADN", etc.

A metáfora do software que eu tinha apresentado revela o meu erro. Apesar de na nossa linguagem estarem embutidas acções atribuídas a programas informáticos e ao software, na realidade os dois não fazem literalmente essas acções. Isso é mais claro nos programas. Vejam essa imagem. As instruções dos programas são armazenadas nas memórias secundárias (disco-duro, CDs, DVDs, etc) e transferidas para a memória primária (RAM) antes de serem executadas pelo CPU. Atribuímos acções a programas - ou associamos verbos aos programas como sujeitos de orações - através daquilo que o hardware faz, como formas de catacreses. As entidades e eventos que atribuímos a imagens no monitor são metafóricas - são só imagens, como um reflexo num espelho (nós não somos o reflexo). Dizer que um programa faz algo corresponde aos "acontecimentos" representados pelas imagens e outros eventos do hardware (como a ejecção do leitor de CDs e som das colunas), mas na realidade não passa de instruções que são representadas nas memórias, cujos sinais, que representam de outra forma as tais instruções, são passados para CPU, que afecta o hardware restante...  Mesmo dizer que as instruções são armazenadas na memória é tão correcto como dizer que se escreveu uns números numa folha: os números são abstracções. Num papel só podem estar as suas representações.

(continua)

04 janeiro, 2009

Falsa dicotomia, probabilidades e indução

«Quantas vezes já disse que quando eliminas o impossível,
seja o que restar, por mais improvável que seja, deve ser verdadeiro?»
- in "As Aventuras de Sherlock Holmes - O Sinals dos Quatro" cap. 6

No artigo anterior disse que o que Mats apresentou era um exemplo de dicotomia, no entanto parece que referia-se a essa falsa dicotomia: 1) ou todos os bilhetes são premiados, 2) ou nenhum bilhetes é premiado. É uma falsa dicotomia, porque para além desses dois casos, poderia haver apenas um ou mais bilhetes premiados entre outros que não são premiados.
Isso seria uma analogia para a falsa dicotomia: 1) ou todos os deuses são verdadeiros, 2) ou todos os deuses são falsos. Não equivale a dizer que a impossibilidade de provar a inexistência de algo em específico não significa que esse algo existe. Nem equivale a dizer que não se acredita em algo porque usa-se o mesmo critério que nos leva a não acreditar noutras coisas. Aparentemente não intencionalmente, Mats cometeu um argumento homem-palha, com uma interpretação de uma fracção de um texto que não era intenção do seu autor. [1]

Existe uma dicotomia quando, para um problema, considera-se apenas como opções dois casos exclusivos. Por exemplo:
  1. 1) ou é verdadeiro, 2) ou é falso
  2. 1) ou o bilhete é premiado, 2) ou não é premiado
  3. 1) ou existe algum deus, 2) ou nenhum deus existe
É uma falsa dicotomia se na realidade existirem mais do que duas opções para além das indicadas. Ou seja, quando é dito que há uma dicotomia quando não existe. O terceiro exemplo indicado acima não é uma falsa dicotomia, já que a negação lógica de "nenhum x existe" é "existe algum x" - basta mostrar pelo menos um exemplo que contradiga uma proposição universal ("todos x" ou "nenhum x") para refutá-la. [2]
"1) ou todos os deuses são verdadeiros, 2) ou todos os deuses são falsos" - que não é o mesmo - é uma falsa dicotomia porque existem mais opções: existir só um deus, ou um par de deuses, etc.

Probabilidades
Se atirar uma moeda ao ar, sai caras ou coroa. A probabilidade de sair caras é 1/2. Agora vamos supor que sabem que num papel está escrito "Iavé existe" ou "Iavé não existe", mas não sabem qual das frases está escrita. A probabilidade de estar escrito "Iavé existe" é 1/2. Obviamente, depois de ver o que está escrito, a probabilidade será 1 - se tiver escrito "Iavé existe" - ou zero - se tiver escrito "Iavé não existe".

Agora vamos supor que escrevo qualquer coisa num papel - qual é a probabilidade de estar escrito "Iavé existe"? É verdade que 1) ou escrevi "Iavé existe" 2) ou não escrevi "Iavé não existe". Portanto o número de casos favoráveis é igual a 1 e o número de casos possíveis é igual a 2, por isso a probabilidade de ter escrito "Iavé existe" é igual a 1/2, não é? Qual é a probabilidade de ter escrito "Iavé não existe"? 1/2? E qual é a probabilidade de ter escrito "O Monstro do Esparguete Voador existe"? E de ter escrito "O Bule Celestial existe"? Se deu sempre como resposta 1/2, some tudo e o resultado será superior a 1, apesar de a soma de todo o universo de resultados dever ser igual a 1.

É verdade que só posso ter escrito "Iavé existe" ou não ter escrito "Iavé existe". Mas também é verdade que ou escrevi "Iavé existe", ou escrevi "Iavé não existe", ou escrevi "O Monstro do Esparguete Voador existe", ou escrevi "O Bule Celestial existe", ou escrevi "Sou o Pedro", ou escrevi "Olá Mundo", ou escrevi qualquer outra coisa. Se os casos possíveis são infinitos, então a probabilidade de ter escrito "Iavé existe" é igual a zero no limite (ao dividir um por números cada vez maiores, os resultados tendem para zero). Essa é a mesma probabilidade de seleccionar aleatoriamente um número entre os números reais e esse número ser, por exemplo, o π. [3]

Vamos aplicar o mesmo processo ao exemplo dos bilhetes de lotaria: qual é a probabilidade de sair um bilhete premiado. Ou o bilhete é premiado ou não é premiado. Dizer que a probabilidade é 1/2 equivale a dizer que a probabilidade dos apostadores ganharem um prémio é 1/2. Se assim é, então cerca de metade dos que jogam na lotaria tem o seu bilhete premiado.

Indução
Agora apresento um exemplo clássico em Filosofia. Acredita que todos os corvos são negros? Porquê? Não se fundamenta na falsa dicotomia 1) ou todos os corvos são negros 2) ou nenhum corvo é negro?

Houve uma altura em que tinham sido já vistos imensos de cisnes e todos eram brancos. Seria razoável acreditar que existem cisnes negros? Na Austrália foram descobertos cisnes negros, contrariando a ideia de que todos os cisnes são brancos. Então, acreditam que todos os corvos são negros? Existe a mesma razão para acreditar que sim: existe um enorme número de casos particulares para se poder generalizar com um grande grau de segurança (indução). É claro que isso não significa que é logicamente impossível encontrar um contra-exemplo, tal como no caso dos cisnes, mas nestes casos o razoável é assumir uma lei geral com base nas estatísticas, especialmente se isso depender de decisões a serem tomadas. Existe a noção de que basta um corvo branco para refutar a ideia de que todos os corvos são negros. A questão é que nunca foram encontrados corvos brancos, mas foram sempre encontrados corvos negros. [4]

01 julho, 2008

Correcções

... para "Exemplo de complexidade irredutível?"

Mats respondeu-me:
«Pedro,
Tive o cuidado de dizer que o sistema do video (x) é que é CI. Tu podes adicionar o que quiseres a este sistema MAS não podes tirar nada de lá porque se o fizeres, ele deixa de fazer o que está a fazer.

Acho que tinha deixado isso bem claro?»

É verdade que ele disse «Se colocares algo antes do x, chamemos-lhe "x + 1", o x continua a ser irredutível» e disse «Por x eu digo o sistema que o video mostra. Por (x + 1) é o sistema do vídeo MAIS a peça que tu quiseres pôr antes do sistema. Não se chegou a dizer qual era a peça, mas é irrelevante. O que interessa é o x que nós temos.».

Nesse caso foi um erro dizer que ele afirmou que um sistema com uma parte adicional mantém-se irredutível (e não se compara com aquela do carro). Quando perguntei se colocando uma parte antes do sistema, se era irredutível, referia-me ao resultado com a nova parte.
Mas tive o cuidado de cortar o vídeo com o tal sistema que ele diz ser irredutível para mostrar que o sistema não é irredutível. Sem aquela roda dentada inicial (segundo a sua nomenclatura, seria "y = x - 1"). No final revelo o início desse vídeo, dizendo, numa nota, que não tinha incluído o início do vídeo (segundo a sua nomenclatura, seria "y + 1 = x"). O resultado é o mesmo:
1) O vídeo cortado mostra um sistema irredutível?
2) Sem o corte mostra um sistema irredutível?

Como resposta ao vídeo, ainda disse-me: «creationists don't say that mutations ONLY decrease information». É verdade que escrevi «Now creationists say the mutations only decrease information», que foi um lapso. Já tinha lido no "AnswersInGenesis" e o Jónatas Machado já tinha escrito sobre isso, por isso o que devia ter escrito é que agora os criacionistas dizem que as mutações não aumentam informação. Não apaguei o erro: só coloquei uma nota. Mas é irrelevante. O que é fundamental é que se de um estado X para um estado Y, há decréscimo de informação, então do estado Y para o X (sentido inverso) aumenta-se a informação (operação inversa).

Confesso que aprendo que devo ter mais atenção naquilo que leio e escrevo. Se apontamos os erros dos outros, devemos ser mais rápidos em apontar os nossos erros. Mas mesmo isso não afecta as conclusões. Só mostra que devo estar mais atento (o que admito como crítica). Gostava de ver se Mats é capaz de fazer o mesmo (que é a intenção disto tudo).