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cont.)
A Bíblia infalível
«Tive a impressão de que Guilherme não estava de modo nenhum interessado na verdade,
que mais não é que a adequação entre a coisa e o intelecto. Ele, pelo contrário, divertia-se
a imaginar o maior número de possíveis que fosse possível. Naquele momento,confesso,
desesperei do meu mestre, e surpreendi-me a pensar: "Ainda bem que chegou a Inquisição."
Tomei partido pela sede de verdade que animava Bernardo Gui.»
«Os livros não são feitos para se crer neles, mas para serem submetidos a investigação.»
- in "Nome da Rosa", de Umberto Eco
«Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante
à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte.»
- Tiago 1:6
Os seguintes cinco
cartoons encontram-se no
site "
Answers In Genesis".
- Ah, ah! A Bíblia é melhor que a Ciência

Descrição: Um criacionista pergunta a dois teólogos qual a razão de não tomarem a Bíblia de forma literal. Um deles responde: «Não podemos tomar a Bíblia literalmente. Foram escritas por homens». O criacionista retruca: «Homens inspirados por Deus!». O teólogo continua com um livro com o título "Factos Científicos - 1997": «Bem, seja como for! Os factos fiáveis são escritos por cientistas». O companheiro sussurra: «Estás a usar um livro científico do ano passado. Este aqui tem todos os novos factos!» Então o primeiro teólogo repete o que disse com um livro com o título: "Factos Científicos - 1998". O criacionista parece desanimado.
O cartoon é uma crítica e chacota do método científico, nomeadamente do Princípio de Refutabilidade e das Aproximações Sucessivas. O primeiro livro poderia muito bem ter o título "Teoria da Gravidade Universal de Newton" e o outro poderia ser "Teoria da Relatividade" para expor a mensagem anti-científica do
cartoon.
Mats diz que é uma «uma paródia aos "factos"
que os cépticos usam contra a Bíblia, factos esses que mudam mais facilmente que a posição de treinador no Benfica». Só que o cepticismo é fundamental na Ciência - como revelam os dois princípios mencionados -, senão tornar-se-ia uma religião...
Um outro
cartoon com uma mensagem similar:

Descrição: Um homem que vai desaparecendo até ficar uma Bíblia diz: «Pessoas cultas não acreditam mais na Bíblia! A Bíblia está ultrapassada! A Ciência é nosso guia. Esqueçam a Bíblia e entrem no "mundo moderno". A Bíblia já não...» Na legenda embaixo está uma citação de Marcos 13:31.
É claro que essa crítica ao método científico tem o propósito de
atacar as descobertas realizadas com esse mesmo método que contradizem os dogmas de criacionistas, especialmente os de Nova Terra:

Descrição: Alguém diz: «Como podes acreditar na Bíblia? A Bíblia não é fiável. Os cientistas têm as respostas para mostrar que a Bíblia não é verdadeira. Toma como exemplo a idade da Terra. Sigo as pessoas com quem posso confiar.» Aponta para uma lista de anos riscados, excepto a última: 4,5 biliões de anos.
É irónico que um exemplo de um criacionista evangélico de Nova Terra serve perfeitamente para desmascarar a arrogância e desprezo pelo método científico nesse
cartoon. Kent Hovind (que está preso por evasão fiscal...), depois de apresentar
"as imensas falhas na Ciência",
no seminário sobre a idade da Terra, ele apresentou uma ilustração:
se num mergulho fosse encontrado um navio com uma arca cheia de moedas, a idade do navio poderia ser estimada. Bastava ver as datas marcadas nas moedas:
não pode ter afundado depois dessa data. Com isso Hovind diz que essas gravações que indicam as datas não existem nos fósseis.
É óbvio que se realmente existissem gravações nos fósseis a indicar datas como representação simbólica como nas moedas, isso seria uma prova de que um ser inteligente que entende esses símbolos interviu na fossilização.
Os cientistas forenses não precisam desse tipo de gravações para estimarem a idade de cadáveres: observam o estado de decomposição, a dentição, a temperatura do corpo, as larvas presentes no corpo, etc. Pode-se igualmente
datar a idade de uma árvore pelos seus anéis, sem necessidade de uma gravação que indique o ano.
A datação dos fósseis pode ser relativa, por comparação dos estratos onde se encontram (um fóssil enterrado debaixo de outro foi enterrado primeiro, logo é mais antigo),
ou absoluta, com margens de erro calculadas,
através de conhecimentos químicos e geologia.
Os mesmos conhecimentos permitem construir e manter
reactores nucleares,
aceleradores de partículas,
fármacos na
medicina nuclear,
etc.
Mas o exemplo ilustrativo é interessante e vira-se contra o feiticeiro. Para já, as moedas não definem com precisão a data em que o navio afundou. Por exemplo, tenho uma moeda de origem espanhola com o valor de 0,50€ com o ano de 2001 gravado. Outra moeda com o mesmo valor, mas de outra origem, tem gravado o ano de 2002. Outra com o mesmo valor tem 2000 gravado. Por isso as moedas na arca
permitem apenas uma estimativa do afundamento do navio. É claro que a
moeda que tem a data mais recente é a mais próxima do ano real - estou a escrever este artigo no ano 2008. Faço colecção de moedas antigas: por exemplo, tenho uma moeda de um escudo de 1971, apesar de nesse ano ainda não ter nascido. Se fosse a primeira a ser encontrada no navio, poderia-se presumir que o navio foi afundado perto desse ano. Mas se fossem depois encontradas moedas do ano 2002, a estimativa mudava. Se depois fosse encontrada uma moeda de 2000, isso não mudaria o ano já estabelecido. Esse
procedimento heurístico característico da ciência está a ser criticado como se fosse um «
jogo de adivinhação que vai na "ciência" da datação» (como Mats diz).
- "Infalível" é pior
Descrição: «Em quem vai acreditar? Na Bíblia sagrada: "Está escrito" (Mat 4:4), ou na Crença da Evolução que foi reescrita e reescrita e reescrita e reescrita e...»
Se houvesse
a mesma desonestidade intelectual presente no criacionismo, não haveria esse "jogo de adivinhação", mantendo uma idade qualquer, como por exemplo, 6.000 anos. A Bíblia está
recheada de contradições numéricas, e
muitíssimas de outros géneros, existindo mesmo cristãos que
admitem existirem algumas dessas "aparentes" contradições, com o argumento
de que são erros de copistas e, tem
o benefício das conversões serem voluntárias e para
ganharmos a capacidade de distinguirmos o que é verdadeiro ou falso. Então de onde vem essa tal infalibilidade?

Descrição: O cartoon é um mero apelo à autoridade - (argumentum ad verecundiam) uma falácia, também implícito nos cartoons anteriores por meio de projecção. É perguntado como se sabe se a Palavra de Deus é verdadeira, apresentando quatro opções: a) porque os cientistas dizem que sim; b) porque os psicólogos dizem que sim; c) porque os teólogos dizem que sim; d) porque Deus diz que sim; É claro que é dada a resposta d), concluíndo: «A palavra de Deus é verdadeira não importando o que os homens dizem!!!».
É claro que isso
um óbvio argumento circular *:
A Palavra de Deus é verdadeira: como é que se sabe isso?
(uma falácia da pressuposição e petição de princípio: Deus existe? Os homens que escreveram o livro foram realmente inspirados por Deus? O que lá está escrito é mesmo verdadeiro?)
Porque Deus diz que a Palavra de Deus é verdadeira. (argumento circular: diz a verdade porque diz a verdade; apelo à autoridade: porque Ele disse)
Maomé foi um
mensageiro inspirado por Deus, logo o Corão é infalível.
Joseph Smith foi inspirado por Deus para traduzir o livro escrito por Mórmon e outros profetas inspirados por Deus, logo o Livro de Mórmon é infalível. Os
Vedas - mais antigos que qualquer escritura bíblica - também
foram revelados por Deus a homens inspirados. Assim cada
livro é sagrado segundo a freguesia,
porque todos homens que os escreveram foram inspirados por um Deus: a inspiração divina é uma ferramenta para um apelo à autoridade, proibindo que esses livros sejam questionados.
Assim limitam o conhecimento potencial com a limitação de livre-pensamento.
Assim não existe um mecanismo de auto-correcção que leva a dizer que um livro que diz que
a Terra é um círculo fixo com quatro pilares que suportam uma tenda metálica e com
mais de 400 contradições "aparentes"
é infalível. Se a
dúvida e a investigação não são incentivadas, nem há
um método para separar o trigo do jóio, como determinar o que é
verdadeiro ou falso? *
Na Ciência, pelo contrário, havendo um
mecanismo de auto-correcção, as ideias tornam-se obsoleta com o tempo, sendo substituídas por informação que se
adapta às descobertas realizadas. Assim as limitações da Ciência e o reconhecimento delas tornam-se uma força que as religiões não têm,
não tendo as mesmas limitações do conhecimento que pode adquirir, e com
capacidade de reconhecer os erros. Apesar disto, a Religião, sem qualquer mérito, deseja limitar esse conhecimento que a Ciência pode obter. [1]
(
cont.)
- [1] As condições de fronteira retringem equações diferenciais, podendo eliminar soluções que existiriam sem elas.
Sugestões:
A Bíblia e o Corão são confirmados pela Ciência - segundo os crentes (é claro que eles vão tentar refutar o outro lado):