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08 junho, 2010

Ressurreição de Jesus - 2) O túmulo vazio





[imagens ao lado, de cima para baixo: visão de Paulo a caminho para Damasco; visão em Revelação; visão de Pedro; visão de Estêvão; Jesus na Igreja de Éfeso (Scott Hahn)]

¶1 Seguindo o artigo anterior, sugiro que devemos recorrer aos documentos pré-marcanos (anteriores ao Evangelho Segundo Marcos) para conhecermos as crenças dos apóstolos. William Lane Craig fez isso: começou o seu argumento do sepulcro vazio com base numa de uma epístola de Paulo para defender os evangelhos como históricos:
«Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras e que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também. Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo.»
¶2 Mas Paulo não disse que o corpo de Jesus foi colocado num túmulo que foi três dias depois encontrado vazio. Isso é um pressuposto através da leitura dos evangelhos canónicos. O que Paulo disse não é inconsistente com o corpo enterrado, que manteve-se no mesmo lugar em decomposição. Para os judeus, o terceiro dia era uma prova de que estava mesmo morto. Alguns autores hebreus apocalípticos acreditavam na ressurreição do espírito, daí as aparições como as de Damasco, consistentes com as crenças gnósticas e zoroástrica. São Paulo mais à frente continuou com:
«Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos? E com que corpo vêm? Insensato! O que semeias não recobra vida, sem antes morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo da planta que há de nascer, mas o simples grão, como, por exemplo, de trigo ou de alguma outra planta. Deus, porém, lhe dá o corpo como lhe apraz, e a cada uma das sementes o corpo da planta que lhe é própria. Nem todas as carnes são iguais: uma é a dos homens e outra a dos animais; a das aves difere da dos peixes. Também há corpos celestes e corpos terrestres, mas o brilho dos celestes difere do brilho dos terrestres. Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua e outra a claridade das estrelas; e ainda uma estrela difere da outra na claridade. Assim também é a ressurreição dos mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso; semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual. Como está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o segundo Adão é espírito vivificante. Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo veio do céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o homem celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do homem celestial. O que afirmo, irmãos, é que nem a carne nem o sangue podem participar do Reino de Deus; e que a corrupção não participará da incorruptibilidade. Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. É necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade.» 
¶3 O Evangelho Segundo Lucas descreve Jesus ressuscitado com um corpo  com carne e ossos: «apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho». Pois, mas contradiz a transformação para um corpo incorruptível sem carne nem sangue, como os corpos imortais de anjos, dos deuses greco-romanos e dos humanos que passaram para Hades, cujos cadáveres tinham moedas nas bocas ou nos olhos para pagarem o barqueiro Caronte, em vez de voltarem para assobrarem os vivos. Suponho, no entanto, que os cadáveres e as moedas continuavam no mesmo lugar. Flávio Josefo, um fariseu, disse em Antiguidades Judaicas e em Guerras Judaicas que os fariseus acreditavam na imortalidade do espírito e que era introduzido em corpos diferentes na ressurreição. E existem aparições de Elvis Presley (que deram origem ao Elvismo) e agora existem alegações sensacionalistas de que a sua campa foi encontrada vazia. O que isso prova?

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¶4 O maior problema do argumento do túmulo vazio é que baseia-se em documentos que se parecem com boatos que passam nos e-mails e notícias sensacionalistas, e através deles, pressupõe-se o que os apóstolos não escreveram, como se fosse implícito o que foi escrito depois de morrerem, para além de excluir crenças dos apóstolos com o pressuposto de que os judeus não as tinham. O túmulo vazio seria uma prova tão boa, ainda por cima de um rico do Senedrim (em Marcos, um membro de um bouleutēs que não existia...), que se esperava que os apóstolos o mencionassem antes do evangelho de Marcos (quando estavam vivos!), em vez de descreverem apenas visões e vozes no céu, no deserto e nos sonhos, e, se fosse conhecidos publicamente, esperava-se que os seus inimigos os respondessem a tal alegação (qual foi a polémica judaica?). Aliás, nem se sabe onde seria Arimateia - só em Lucas é dito que fica na Judeia - e ainda por cima José de Arimateia seria um discípulo secreto que, começou por ser mencionado em Marcos e parece que os outros evangelhos mais antigos usaram-no como fonte.

¶5 Quais são os historiadores e escolares bíblicos que dizem que são documentos históricos, ainda por cima fidedignos, para que Craig use o que chama de "factos" nas suas premissas? Até teólogos e historiadores cristãos, como John Dominic Crossan (que costuma ser convidado em documentários sobre Jesus), dizem que os evangelhos não são documentos históricos. Deixo algumas referências:
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¶6 O outro problema é fundamentar-se na estranheza da natureza dos testemunhos. Acho que Craig tem razão quando diz que as mulheres, tal como as crianças, não eram consideradas boas testemunhas entre os judeus. Os homens oravam: «Dou-te graças, Senhor, Rei do Universo, por não me teres feito mulher» [Sedar] Mas no Evangelho Segundo Marcos, as mulheres falham na tarefa de testemunhas e os destinatários eram gentis romanos, que tinham várias deusas (Vénus, Ceres, Diana, Vesta, Minerva) e sacerdotisas, e onde os judeus de influência helénica eram liberais e as judias podiam ter a sua propriedade, ter uma educação, serem chamadas para o serviço militar e serem presidentes de sinagogas. Além disso, São Paulo separou a Lei do seu cristianismo, os evangelhos descrevem uma grande aproximidade de Jesus em relação à franja da sociedade [Mc 5:26 ; Mc 10:14; Mt 5] e até o papel de Madalena nos evangelhos, especialmente os apócrifos de Filipe, Tomé e Madalena, deram origem aos conhecidos exageros n'O Código de Da Vinci.

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¶7 Finalmente as conversões dos apóstolos, especialmente de São Paulo: por que é que alguém se torna aquilo que perseguia? Existem algumas especulações dadas por neurologistas ao que é descrito no livro dos Actos. Sabe-se que existe uma relação entre a epilepsia e intensas experiências religiosas, por isso neurologistas especulam que a experiência de São Paulo sugira sofresse de epilepsia do lobo temporal. Supostamente a obsessão em relação aos cristãos levaria-o, ironicamente, a sentir-se perseguido por aqueles que perseguia, numa das suas alucinações: «Saulo, Saulo, por que me persegues?» ... «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.» (At 9:4). Num documentário da Discovery Channel, chamado Saint Paul, é dito que na Palestina a actividade sísmica é muito comum e os terramotos são muito mencionados na Bíblia (em Actos um terramoto destrói as portas de uma prisão), o que leva à ideia de que um abalo terá despoletado um ataque epilético. A epilepsia pode levar à prosopagnosia e cegueira temporária que, juntando a sintomas descritos nas cartas, explica muito bem o evento e mudança.

¶8 Mas parece que é dado demasiado crédito ao Livro dos Actos, tendo em conta que a historicidade desse livro é duvidosa entre escolares. Ainda por cima Actos contradiz sistematicamente as epístolas de Paulo. O modo como ele escreve as cartas leva as ideias de que tinha mau carácter, causando brigas e divisões através de doutrinas que não eram aceites pelos apóstolos, levando à suspeição de que tinha infiltrado no meio dos cristãos para legitimizar a sua teologia. Vridar propõe que o autor de Actos conhecia a Epístola aos Gálatas e que as discrepâncias são intencionais. Teria observado que a descrição da conversão de Paulo compara-o com os profetas Elias, Jeremias e Moisés e que podia ter o intuito de colocar-se acima dos apóstolos em autoridade.

¶9 Por que os apostólos haveriam de morrer por uma mentira? Na Bíblia só está descrita a morte de um apóstolo (para além de Judas): Tiago, irmão de João, morto à espada por ordem de Herodes. Não descreve a sua postura antes de morrer, ao contrário das tradições com origem nos apócrifos sobre a morte dos outros apóstolos, que queriam morrer e até convertiam os carrascos. Mas esses apócrifos foram considerados espúrios e heréticos desde Eusébio, ou os relatos são contraditórios. [1; 2; 3; 4; 5; vid1; vid2; vid3; vid4] . A pergunta assume que os apóstolos morreram pela sua fé, quando nem se sabe como morreram. Mesmo se fossem apanhados e dissessem que foi tudo mentira, seriam libertados?

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¶10 Mas os cristãos eram perseguidos, torturados e condenados à morte pelos romanos. Se imensas pessoas dizem que viram Jesus, por que iriam arriscar a sua vida e até aceitar morrer por essa crença, se mentiam? Ora, a pergunta tem três pressuposições: 1) os discípulos viram Jesus em carne e osso ressuscitado; 2) se tiveram fé numa falsidade, então sabiam que é uma falsidade; 3) não se morre por causa de uma mentira. Existe pelo menos uma pessoa que acha que tem poderes do Dragon Ball, com discípulos, que levou uma ajoelhada na cara até sagrar, para além de ter perdido 5000 dólares. Porque raios se expôs a isso tudo, se sabia que era mentira? Joseph Smith, o fundador do mormonismo que revelou o Livro de Mórmon, foi morto por uma turba antes de ser julgado. Os Smith e os mórmons foram perseguidos por traição. Notem que, supostamente, houve onze testemunhas das suas placas de ouro com o Evangelho de Cristo nas Américas. Conclui-se que o mormonismo é verdadeiro? Jim Jones e David Koresh morreram, com os seus seguidores, motivados pelos seus cultos que lideravam. Será que por isso as suas crenças eram verdadeiras?

¶11 Se um grupo de pessoas está empenhado numa causa que dependia de um homem que amavam, é provável que sintam a sua presença depois da sua morte e tentem justificar com crenças dissonantes o que contradizia todas as suas expectativas. Em Marcos o próprio Herodes acreditava que Jesus era João ressuscitado: «Este é João, que mandei degolar; ressuscitou dentre os mortos.» («Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo»; 6:20). Por outro lado, na obra O Homem Que Se Tornou Deus, Gerald Messadié imagina Jesus safando-se em vez de morrer; no posfácio:
«Surpreendido, igualmente por esta morte prematura, ou mesmo inexplicável, um guarda do Gólgota picou o peito de Jesus com a ponta da sua lancea consequência, era inútil quebrar-lhe as tíbias.» ... «A abundância de água referida por João, e inclusive enterrou-a aí, infligindo-lhe uma profunda ferida, mas como o Jesus não reagiu supôs que estava morto e que, por revela com o mínimo possível de dúvida que a lançada - a lancea tinha uma lâmina chata e afilada - furou a pleura e não o coração. Do coração, decerto que não sairia muita água. A abundância de água concorda com o princípio de pleurisia, que pode ser causada pela exposição prolongada de um corpo nu ao frio» ... «Porém, segundo um médico-legista interrogado, uma ferida infligida a um cadáver pode acarretar um derramamento daquilo a que se chama "sangue de cadáver", fluido constituído por soro e hemoglobina decomposta. Trata-se então de um líquido acastanhado.» ... «E ei que ainda por cima José de Arimateia e Nicodemos se armam em cangalheiros! Além disso, o costume exige que todos os judeus se retirem antes do pôr do Sol para o recinto da Grande Jerusalém. Pelo contrário, afadigam-se no Gólgota a assegurar a inumação de um inimigo público. Um tal comportamento dá que pensar, a menos que se opte pelo cepticismo. Em realidade, uma infracção explica a outra. José de Arimateia e Nicodemos sabem que Jesus não morreu. Daí a ligeireza com que ambos assumem a infracção religiosa.» ...
¶12 É uma explicação baseada na estranheza de comportamentos de personagens, mas o autor (um historiador) coloca-a na perspectica de especulação para explicar as decisões na elaboração seu romance. Até médicos podem pensar que alguém está morto, por deixar de haver batimentos cardíacos, mas que deperta algum tempo depois, até na morgue - é o chamado síndrome de Lázaro, com pelo menos 24 casos documentados desde 1982. Flávio Josefo relatou um caso em que procurou três amigos que tinham sido crucificados e um deles tinha sobrevivido depois de retirado da cruz. Claro que com isso tudo não se conclui que sabemos o que aconteceu, nem sequer que Jesus não ressuscitou. Apenas mostra que temos conhecimentos, baseados na experiência e investigação científica, que explicam como poderia ter acontecido. E o que com este artigo tento mostrar é que os pressupostos de Craig não são o que chama de "factos".

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Notas sobre os comentários:
O artigo longo e os links servem para referências futuras e para quem tiver interessado em informar-se melhor sobre os temas. Agradeço os detalhes e correcções nos comentários que complementem o artigo.

Se os comentários não estiverem relacionados com o artigo, não serão moderados, desde que não tenham links para fazer publicidade ou que choquem através de imagens violentas, ou pornográficas ou com conteúdo ilegal. Não o respondo na caixa de comentários - se disponível, faço-o num artigo. Recomendo que não incentivem discussões alheias nas caixas de artigos nem cedam a provocações. Quem não disser nada sobre o artigo, não tem nada a dizer sobre ele.

05 junho, 2010

Ressurreição de Jesus - 1) Os Evangelhos

«E os principais dos sacerdotes e todo o concílio buscavam algum testemunho contra Jesus, para o matar, e não o achavam. Porque muitos testificavam falsamente contra ele, mas os testemunhos não eram coerentes. E, levantando-se alguns, testificavam falsamente contra ele, dizendo: "Nós ouvimos-lhe dizer: Eu derribarei este templo, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens." E nem assim o testemunho deles era coerente.» (Marcos 14)
¶1 A importância da incoerência dos testemunhos é óbvia e os teólogos da Idade Média já tinham noção das discrepâncias entre os evangelhos. Santo Agostinho, para defendê-los, comentou: «ou o manuscrito é defeituoso, ou o texto original foi mal traduzido, ou que eu não o entendi.» (carta 82 a São Jerónimo) No século II, Taciano escreveu um Evangelho em sírio chamado Diatessaron ("feito de quatro ingredientes"), cujo objectivo era harmonizar os quatro evangelhos canónicos sem as discrepâncias.

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¶2 Alguns trechos desses evangelhos foram acrescentados muito depois dos originais, como as duas versões finais do Evangelho Segundo Marcos, consoante a tradução, a seguir a «e nada diziam a ninguém porque temiam» (16:8; vide Manuscrito Alexandrino, Manuscrito Sinaítico e o O Códice Regius). Sir Isaac Newton, em An Historical Account of Two Notable Corruptions of Scripture, notou que o Comma Johanneum (I João 5:7-8) foi introduzido pela primeira vez introduzido numa tradução da Bíblia na terceira edição do Novo Testamento de Erasmo, mesmo sem qualquer documento anterior que o justificasse. Esses versículos não existiam e por isso nenhum teólogo o mencionava. Algumas passagens bíblicas e até alguns livros inteiros do Novo Testamento são consideradas pseudografias, mesmo por teólogos, como as epístolas a Timótio e aos Efésios e a Segunda Epístola de Pedro. Claro que isso tudo não prova que não houve uma ressurreição de Jesus, mas apresenta-nos uma explicação para as contradições e demonstra que devemos ser prudentes em relação às cópias e traduções.

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¶3 Mas noutras passagens fundamentais existem inconsistências. Eis por exemplo a descrição dos primeiros testemunhos do túmulo vazio:
    • Mateus: Madalena e Maria foram ver o túmulo;
    • Marcos: Madalena, Maria e Salomé foram;
    • Lucas: Madalena, Maria, Joana e outras mulheres foram ver o túmulo;
    • João: Madalena foi ver o túmulo;
    • Mateus: houve um terramoto durante a descida de um anjo que rolou a pedra do túmulo e sentou-se sobre ela;
    • Marcos: a pedra enorme já estava revolvida e ao entrarem no sepulcro as mulheres viram um jovem sentado à direita;
    • Lucas: as mulheres entraram no sepulcro e pararam junto delas dois homens;
    • João: Madalena viu que o sepulcro estava vazio e por isso foi ter com Pedro e João (o discípulo amado) para dizer que levaram o corpo;

    • Mateus: as mulheres correram para contar a boa-nova, mas entretanto encontraram Jesus; prostaram-se para lhe beijarem os pés e ele disse para dizer aos seus irmãos para irem para Galileia para o verem;
    • Marcos: as mulheres fugiram assustadas sem contar nada a ninguém;
    • Lucas: as mulheres foram contar as boas-novas aos apóstolos e a outros;
    • João: Pedro e João encontraram o sepulcro vazio. Madalena chorou junto do sepulcro e viu dois anjos sentados onde jazia o corpo. Ao voltar-se para trás, viu Jesus, que foi o primeiro a contar-lhe as boas-novas.
(A imagem seguinte é um esquema que ilustra a harmonização forçada de todas as narrativas)
¶4 O evangelho mais antigo (Segundo Marcos), ao contrário dos outros, termina dizendo que as mulheres não contaram as boas-novas (se ignorarmos as versões adicionadas, que contradizem o versículo 8), terminando abruptamente como o início. Talvez para justificar por que é que a história não era amplamente conhecida durante cerca de 40 anos até à escrita dos evangelhos, com as mulheres como testemunhas, em vez dos apóstolos, incluíndo Paulo, que já teriam morrido e que nas suas cartas descreviam Jesus ressuscitado como uma aparição em transes (I Cor 9:1; 15:5-8; At 7:55; 11:4-8). Cerca de 10 anos mais tarde, com o Evangelho Segundo Mateus, são mencionados guardas que foram instruídos para dizerem que o corpo foi roubado - sugerindo que a polémica do desaparecimento do corpo era recente - e é dito que os discípulos encontram Jesus. Mais 10 anos depois, em Lucas, é dito que Jesus disse que não é um espírito - talvez uma resposta aos gnósticos. E em João até há uma resposta àqueles que duvidam através de Tomé.
(Nota: A datação dos sinópticos definida pela maioria dos escolares baseiam-se em conjecturas - estive supô-las que estão correctas.)

¶5 Notem que apesar de assumidos como resultados de testemunhos, os Evangelhos Canónicos têm descrições de acontecimentos privados (as tentações no deserto, a oração no Jardim das Oliveiras, o interrogatório e o julgamento em portas fechadas, a traição e arrependimento de Judas, encontros secretos com Nicodemos e José de Arimateia, o processo que levou à condenação de João Baptista). E apesar das discrepâncias, 89% do material de Marcos é encontrado em Mateus, e  72% é encontrado em Lucas, sugerindo que Marcos foi usado como fonte para os outros, daí serem chamados de Evangelhos Sinópticos (syn=juntos; opticus=visto), daí a conjectura do Documento Q. Por isso não podem servir de confirmação mútua.

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¶6 As incoerências não implicam que as narrações não tenham uma base de verdade. As histórias são recontadas com modificações, algumas com o intuito de assegurar a veracidade das mesmas e refutar pormenores de outras versões. Os apócrifos são fruto de muitas tradições cristãs, como o nascimento na manjedoura e o número e nomes dos magos. Segundo os Evangelhos da Infância (de Tiago e Tomé), Jesus em criança era um traquinas, abusando dos seus poderes, e compreendeu as suas responsabilidades depois de ter sido acusado de ter morto outra criança. Nos Actos de Paulo, São Paulo converteu um leão que falava. Muitos desses apócrifos foram considerados heréticos e fantasiosos pela Igreja. O que isso tudo quer dizer é que os evangelhos a partir do de Marcos não são fidedignos. Quanto muito, têm algum fundo de verdade sobre o cristianismo do período pré-marcano que foi sendo distorcido com o tempo. Começo o próximo artigo com o argumento do túmulo vazio, de William Lane Craig.

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Notas sobre os comentários: se os comentários não estiverem relacionados com o artigo, não serão moderados, desde que não tenham links para fazer publicidade ou que choquem através de imagens violentas, ou pornográficas ou com conteúdo ilegal. Não o respondo na caixa de comentários - se disponível, faço-o num artigo. Recomendo que não incentivem discussões alheias nas caixas de artigos nem cedam a provocações. Quem não disser nada sobre o artigo, não tem nada a dizer sobre ele.

26 dezembro, 2009

Menino Jesus a 15 euros

Nos últimos artigos respondi a Luciano. Entretanto, estive a ler alguns livrism como "A Linguagem de Deus", de Francis S. Collins, onde está «A ciência é progressiva e autocorrige-se», no terceiro capítulo (p. 53). Podemos encontrar cópias de parte parte de "Conjecturas e refutações", de Karl Popper, na Web, e apesar de não encontrar uma cópia da obra completa na livraria onde comprei os outros livros, posso encomendá-lo. Assim espero poder usar essas obras como referência acabando com o pretexto de eu não os ter lido, como resposta aos meus artigos. Mas não é sobre isso que pretendo escrever neste artigo...

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Há alguns dias, em Portugal, podemos encontrar estandartes vermelhos em algumas janelas e varandas. No início, vendo-os ao longe, não percebi bem que figura estava no meio deles - parecia-me um sátiro a saltitar -, mas uma amiga jornalista cristã explicou-me que era o menino Jesus. Uma amiga designer estranhou que o menino Jesus estivesse a ser representado pendurado numa cruz. Expliquei-lhe que o que parecia ser a base da cruz era uma perna com uma sombra castanha, e que o topo era uma auréola como uma que encontrámos em estátuas numa loja chinesa.

Outro amigo designer mostrou-me uma imagem do "Santo Cachorro", desenhado pelo webdesigner Ricardo Mestre, como paródia. São curiosas as respostas. Por exemplo, comentadores dizem que esse último estandarte é, «no máximo, interesseiro» e que o seu autor «vai-se farta(r) de ganhar euros». Mas podemos descarregar a imagem gratuitamente da Web, para além de outras imagens de participantes na página de Facebook de Ricardo Mestre. A imagem é distribuída gratuitamente e parece que não tem existe qualquer contrapartida. Não se pode dizer o mesmo em relação aos estandartes do menino Jesus: são vendidas nas Igrejas Católicas por 15 euros cada um [1, 2, 3, 4]. As igrejas têm direito a receber donativos dos fiéis e têm o direito de vender imagens religiosas, mas como podemos reparar alguns fiéis apresentam respostas injustas e hipócritas e parece-me qu na Igreja Católica finge-se que os seus negócios não o são, por detrás da cortina do moralismo, neste caso, sobre o que entendem ser o sentido do Natal.



Vemos presépios nas lojas, existe publicidade sobre presépios vivos e uma notícia de um presépio roubado, e todos os anos no Natal são dados na TV desenhos-animados, filmes e documentários sobre Jesus, para além de programas com missas nos canais genéricos. No entanto, a Igreja Católica em Portugal e alguns católicos entendem que não existe a consciência (ou a suficiente) de que o Natal está relacionado com o nascimento de Jesus. Pelo menos nas decorações de Natal, por "algumas atitudes ligadas ao «politicamente correcto»". Se essas críticas têm algum sentido, significam que eu e todos os portugueses deveriam fazer presépios em casas e nas lojas no Natal. E, se são consistentes, todos os que vivem noutros países deveriam participar nos seus feriados religiosos, por exemplo, para celebrar o nascimento de Krishna (2 de Setembro) e para adorá-lo (13 de Julho). Eu sigo a tradição de montar um presépio porque gosto - mas tenho o dever de o fazer? E num país com feriados hindus, teria o dever de fazer um presépio para Krishna? E se não o fizesse, conclui-se que seria por uma atitude "politicamente correcta"?

Muitos feriados religiosos, como a de Imaculada Conceição, são apenas dias sem trabalho para muitos. Parece ser de mau tom passar a haver estandartes vermelhos com uma imagem de uma vulva de uma virgem para lembrar o significado dado ao dia 8 de Dezembro pela Igreja Católica, e oficializado pelo Estado Português. E não espero que na Páscoa surgem estandartes de judeus com uma imagem Moisés, outros de cristãos com uma imagem Jesus crucificado e muito menos de pagãos com imagens coelhos, ovos e a deusa Éster [deusa da fertilidade, que deu o nome inglês "Easter" à "Páscoa" - em vez dos festejos de "Passover"].

A verdade é que os significados dos dias dos feriados religiosos divertidos foram outros. A Igreja Católica absorveu-os e alterou-os, para destruir a concorrência, como a Microsoft. Note-se que não foi só com o coelhinho e ovos da Páscoa que os pagãos contribuíram nos feriados religiosos cristãos. A contribuição do paganismo no Natal ainda é notada no nome que alguns povos dão ao seu nome, como "Yule", na Escandinávia, que era um festival de Inverno dos povos germânicos. As decorações natalícias e a árvore de Natal eram proibídas até ao século XIX, por ter havido a crença de estarem associadas ao paganismo e porque o Profeta Jeremias tinha proibido a práctica pagã de cortar árvores para as decorar (Jeremias 10:2-4). A tradição do beijo debaixo de um azevinho, verde com bagas vermelhas, tem origens associadas às e saturnálias. Era também considerado sagrado para os druidas e na Inglaterra acreditava-se que afugentava os trasnos.

No século V, os cristãos não celebravam o Natal e Orígenes até dizia que apenas os pecadores, não os santos, é que celebravam os aniversários. Nos países cristãos anglo-saxónicos acreditava-se que o Natal tem origens pagãs, por isso os festejos natalícios foram proibidos no século XVII, tal como alguns prosélitos os proibem actualmente. Atribui-se o aniversário de Jesus a várias datas, tais como 20 de Maio, 19 e 20 de Abril, 28 de Março, 10 e 6 de Janeiro e 25 de Dezembro. Mas em 274 d.C., o imperador pagão Aurélio tinha proclamado esse dia como o de Dies Natalis Solis Invicti ["O Nascimento do Sol Invencível"]. Em 336 d.C., o convertido Imperador Constantino começou a celebrar o Natal no dia 25 de Dezembro e alguns anos depois o Papa Júlio I associou o nascimento de Jesus a esse dia. [infobritain; Why Christmas?; Wikipedia; History; Catholic Education; The Holiday Spot; Seyaku]

O que tinha significados pagãos, passou a ter outros significados, inclusivé cristãos. Conhecendo as origens das festas, uns repudiam-nas só por acreditarem que são supersticiosas e pagãs. Mas para outros o que interessa é o prazer que partilhamos com os outros, quer seja no Natal, no Carnaval ou no Dia das Bruxas - é isso que torna a participação festiva no Natal popular, ao contrário da Imaculada Conceição. E há também os que criticam os que não parecem dar a mesma importância às suas crenças religiosas através das decorações e notícias. O economista João César das Neves, no Destak, deu novos significados a duas personagens: comparou o Pai Natal com Herodes «gordo e de barbas brancas» e o Imperador Augusto com Obama, apesar do Pai Natal ser inspirado em São Nicolau e o Imperador Octávio Augusto ter sido considerado filho de um Deus e um salvador que iria trazer a Paz ao Mundo (a Pax Romana), tal como Jesus... Segundo ele, o «consumo, prazer, dinheiro, azáfama», muitas «renas, árvores, sinos, trenós, mas poucas manjedouras», e as «montras, anúncios, jornais, televisões» falarem «do Pai Natal ou do Obama em Copenhaga, não de Jesus» são «as condições ideais para o Natal», porque «foi precisamente assim na primeira vez que houve Natal. Quando Jesus nasceu também ninguém lhe ligou nenhuma. Toda a gente se atarefava na sua vida, sem sequer saber do estábulo. As atenções estavam centradas nas árvores, no gado, no consumo, prazer.»

Mas agora o Natal é mais como  "Um Cântico de Natal", de Charles Dickens, onde dedica-se um dia para o descanso do trabalho, para a diversão, para a partilha e para os abusos dos doces - que o avarento Ebenezer Scrooge deprezava antes de se confrontar com os três espíritos do Natal. Uma pena para quem paga 15 euros para ter uma rua com as mesmas decorações vindas da mesma fábrica, em vez de ter uma imagem diferente de um menino Jesus. Talvez se passarem a ter consciência de que 15 euros é muito para um pano e que é suposto servir-se para as dioceses, saberão que o dinheiro afinal tem utilidade. Prefiro usá-lo para o meu prazer e prazer dos outros do que para dar sermões disparatados de moral sobre o que devemos fazer durante os feriados. Especialmente tendo em conta que a Igreja Católica mostrou não ter sentido de humor ao reagir contra um cartoon engraçado de uma igreja anglicana. Talvez devesse aprender mais com outras igrejas cristãs, em vez de parecer sempre ofendida quando ignora-se o "politicamente correcto". Pelo menos quando é ela a envolvida...


27 setembro, 2009

Re: Será o comunismo realmente uma religião? > O que é uma religião?

Nota: o artigo é extenso, mas as três primeiras secções servem apenas de introdução para a última secção ("O que é uma religião?"), para que conheçam exemplos de sistemas reconhecidos como religiões nos estudos académicos da Religião, na Sociologia, na Filosofia, por muitos cristãos e inclusivé pela Igreja Católica. Existe outra indicação nessa secção para ignorarem mais texto. Este é um artigo para quem ama o conhecimento, em vez de ganhar lutas. Por favor, não digam que é muito grande ou que tem muitas referências - eu sei. Mas há gente que gosta de saber mais em vez de receitas para ganhar lutas.
«O que é então o tempo? Desde que ninguém me pergunte, eu sei. Se quiser explicar a quem me pergunta, não sei.» - Santo Agostinho de Hipona, in "Confissões" (Livro XI)

«A knowledge of the existence of something we cannot penetrate, of the manifestations of the profoundest reason and the most radiant beauty, which are only accessible to our reason in their most elementary forms--it is this knowledge and this emotion that constitute the truly religious attitude; in this sense, and in this alone, I am a deeply religious man
- Albert Einstein, in "The World as I See It"


Luciano: «
Pra mim é mto fácil.» [definir a palavra "religião"] «Estudei-a. Bastante.» (...) «Aliás, endeusamento de pessoas? Isso é OPOSTO de religião...» (...) «Idolatria é besteira. Essa é a mensagem BASE do cristianismo.» (...) «Budismo está mais para ideologia, mas não uma ideologia religiosa. Quer incluir o budismo no "case" religião também?»

Luciano: «A religião é definida como um conjunto de crenças relacionadas com o divino, transcendental e sagrado, juntamente com o conjunto de rituais, códigos morais e práticas que derivam dessas crenças.» (comparar com a Wikipedia)

Luciano: «O budismo, por não ser uma religião, mas quasi-religião (gostei do ‘quasi’), pode até ser tratado por religião. Pois tem quase tudo de religião, menos a crença em Deuses.» (...) «Budismo, talvez, uma quasi-religião. Já o comunismo é ANTI-religião ou OPOSTO-À-religião.»

Luciano: «Bom, vai ser interessante ver o que o PEdro acha que é uma religião. Pois ele, como ateu fanático e mentiroso contumaz, vai nos dar uma definição. Podemos pegar essa definição dele e ver o que RELIGIÃO NÃO É. Patético.»

Religiões primitivas
Neandertais enterravam cadáveres em cavernas, por vezes previamente descarnados. Pode ser que o fizessem por higiene e por fome. Nesse caso eram actividades mundanas, seculares, como quando lavamos as mãos antes de comer. Ou podem tê-lo feito por acreditarem que assim estabelecem uma ligação com o morto, conservando o corpo para visitá-lo e acreditando que o seu espírito está intacto, ou consumindo a sua carne acreditando que o espírito do familiar ficará dentro dele. Mais tarde, há 100 mil anos, humanos enterravam cadáveres com utensílios, capas, objectos decorativos, ossos de herbívoros, ocre vermelho. Durante o Paleolítico Superior, passaram a ser colocadas estatuetas e a serem pintadas imagens de bestas antropomorfizadas nas paredes de cavernas. Em Israel foi encontrado um esqueleto de uma mulher da cultura natufiana, separado de outros corpos, no meio de um círculo de carapaças de tartaruga, com ossos de leopardo, porcos, águias e de vacas, um pé humano e artefactos. [British Archaelogy Magazine; Science Daily; Schoyen Collection; Archaeology News Report; History of Science]

"Feitiço" tem origem numa palavra banto, que designava um objecto ou substância que se acreditava ter poderes mágicos, nas religiões da África ocidental, das religiões nativas americanas e na religião de Voodoo. A palavra portuguesa deu origem à palavra francesa "fetiche", normalmente associada ao sexo, mas começou por estar associado às religiões fetichistas e é usada na Antropologia nesse contexto. [Catholic Encyclopedia; Wikipedia; Hyeros]

O totetismo é a crença de que existe uma associação mística entre todos os membros de um grupo (clã) com antepassados, animais, vegetais ou fenómenos naturais (totems), como se tivessem a mesma identidade. Como religião, o totem é considerado sagrado, sendo até proibido ser tocado (tabu), e um protector e intermediário do clã, através de xamãs, que realizam rituais, e oferendas. Emile Durkheim, considerado o pai da Sociologia, que definiu "religião" como um sistema de símbolos, crenças e rituais que distinguem o sagrado do profano, que formam uma comunidade moral única, é conhecido por ter estudado em profundidade as religiões totemistas dos aborígenes recorrendo à etnografia. [Catholic Encyclopedia; Hyeros; Understanding the Sacred; Emile Durkheim’s Elementary Forms]

O animismo é a crença de que existem espíritos em todas as coisas, como os animais, plantas, pedras e fenómenos naturais. Na Psicologia, é um estágio infantil onde a criança personifica seres inanimados. Como uma forma de religião, entre povos colectores, crê-se que os seres-vivos, objectos e forças naturais são adorados por se crer que são capazes de intervir nos assuntos humanos. [Catholic Encyclopedia; Wikipedia; Hyeros; Encyclopedia of Religion and Nature]

Os povos com artefactos semelhantes aos usados por homens primitivos praticam essas três formas de religiões, por isso são chamadas de "religiões primitivas" (como as que o antropólogo Sir James George Frazer estudou, nos primórdios da Religião Comparada). Por exemplo, os aborígenes Walpiri constroem artefactos e fazem pinturas como os europeus de há 40 mil anos. Pintam lagartos no peito para participarem numa luta ao lado do espírito serpente arco-íris, que é venerada numa caverna sagrada com pinturas nas paredes, onde só os iniciados podem visitar depois de untarem o corpo com ocre vermelho e gordura. A sua religião é chamada de tjukurrpa.
Fig. 1: imagens de "A Vida na Terra" de David Attenborough;
- aborígenes a praticarem rituais religiosos.


Deuses e astros
Com a astrologia, os astros foram associados a deuses e mensageiros alados no Egipto, Mesopotâmia, China e na América do Sul, surgindo as religiões politeístas nacionais. Reis, considerados semi-deuses e venerados como tal, eram conservados em túmulos depois de mortos, com servos, animais domésticos, utensílios, decorações e rodeados de palavras mágicas para ressuscitarem. No Egipto, o povo unia-se para construir pirâmides que apontavam para a constelação de Órion, onde se esperava que o faraó fosse morar. A religião monoteísta mais antiga que se conhece surgiu também no Egipto, onde todos os deuses foram abolidos como falsos, excepto Aton, o Único Deus, o Deus Sol, que substituiu Amon. Mas só durou uma geração, sendo logo abolida. Os hebreus, ao contrário do que se pensa, não eram monoteístas - acreditavam que existiam vários deuses, mas apenas um, de origem cananita, merecia a adoração (monolatrismo e henoteísmo). [Love Egypt; Egyptology; Tour Egypt; Bible Origins; Wikipedia; Catholic Encyclopedia]

Contra ou sem deuses
Em 332 a.C. começou a existir uma dinastia grega (Ptolomaica) de faraós. Os gregos adoptaram elementos da cultura egípcia, incluíndo a religião, construindo templos em homenagem a deuses egípcios. Amon passou a ser Zeus, Isis passou a ser Atenas, Hator passou a ser Afrodite, Osiris passou a ser Dionísio, Anúbis passou a ser Hermes, etc. [Eternal Egypt; Sofiatopia] Eram feitas ofertas aos deuses e consultavam-se oráculos, mas com a Filosofia, houve gregos que, mesmo que acreditando na existência de deuses, deixaram de ser religiosos, alguns até acreditando que os deuses não são totalmente benévolos (disteísmo) ou até mesmo chegando ao ponto de odiarem os deuses (misoteísmo), punindo-os recusando-se a adorá-los. [Wikipedia; Shinpensburg University]


Fig2: imagem do 7º volume da Enciclopédia COMBI Visual (Religião 2)

Na Índia, o Budismo surgiu como seita do Brahmanismo (uma religião panenteísta hindu), substituíndo o Deus pelo Nirvana, um estado de espírito para a salvação deste mundo cheio de sofrimento. Esse conceito deu origem a outra religião dármica, o Jainismo. O Taoísmo é outra religião dármica, tradicionalmente politeísta. O Confucionismo, geralmente considerado apenas um sistema filosófico, pode ser considerado quasi-religioso ou uma religião de estado, onde foi substituído pelo Budismo, com adoração a antepassados, ritos, sacrifícios. [Wikipedia; Buddhism.About; Atheism.About; UrbanDharma; Dr. Ambedkar; Religion Facts; Wikipedia; Religion Facts; Standford Encyclopedia of Philosophy; Catholic Encyclopedia; Catholic Encyclopedia; Religious Tolerance]

Da filosofia Humanista passou a existir uma Religião Humanista, centrada na humanidade. August Comte, fundou a Religião da Humanidade, onde era profeta, com capelas espalhadas na França e no Brasil (curiosidade: o lema na bandeira do Brasil e a palavra "ultruísmo" deve-se a ele). [Wikipedia; Standford Encyclopedia of Philosophy; Humanism Today; Church of Humanism; Humanism of Utah] O Unitarismo Universalista é uma religião liberal, com raízes Protestantes, mas têm como membros ateus, agnósticos, cristãos, judeus, budistas, pagãos, panteístas, etc. ("many beliefs, one faith"), onde cada um procura o seu caminho espiritual pela experiência pessoal, razão e meditação. Nas congregações, aos domingos, os membros da fé estudam religiões diferentes. [Religious Tolerance; Unitarian Universalist Association of Congregations; unitarian; Apologetics; vídeo: Unitarian Universalism: You're a Uni-What?] Atribui-se a fundação da Igreja Satânica Anton Lavey, cujo credo é descrito em A Bíblia Satânica, seguida por ateus, agnósticos e deístas. A fé não se fundamenta na adoração a Satanás (que é tratado como um mero símbolo), mas no individualismo («Eu sou o próprio redentor») e têm os "9 Pecados Satânicos" e as "10 Regras Satânicas da Terra". [Church of Satan; Satanism101; Religious Tolerance; GotBible; PDF: The Satanic Bible]

No século XIX, com a popularização dos OVNIs, foram escritas obras pseudo-científicas como "Eram os deuses astronautas?", de Erich Von Däniken, e "Os deuses que fizeram o céu e a terra - o Romance da Bíblia", de Jean Sendy, que defendem que astronautas extraterrestres, chamados Elohim, chegaram à Terra e foram confundidos com deuses pelos humanos, algo como no filme e séries StarGate [vídeos: 1; 2; 3] Essa tese foi usada como base para a fundação das religiões ufólogas, onde supostamente os crentes, ou os líderes, comunicam com extraterrestres salvarem a humanidade. Por exemplo, os raëlianos são ateus e materialistas que se dedicam a seguir instruções de Claude Vorilhon, que, segundo ele, recebeu instruções dos Elohim para colonizarem outros planetas. O Movimento Internacional Raëliano tem igrejas, clero, ritos de iniciação que inclui um baptismo, organizam "meditações sensuais" que lhes trazem revelações, mudaram o seu símbolo por uma ordem dos Elohim, e consideram os profetas de várias religiões ("Prophets of Old") mensageiros dos Criadores Elohim, para guiar a humanidade para a "sabedoria", e preparam-se para recebê-los com "amor e respeito" numa embaixada.

O que é uma religião?
Uma religião não o é pelo que se crê. Por exemplo, a crença na existência de um Deus não é uma religião - pode fazer parte de uma filosofia ou fruto de mera intuição. Existiam, e talvez existam, pessoas que acreditam que deuses existem, mas odeiam-nos. Outros, como muitos deístas, não veneram deuses e consideram-se anti-religiosos, outros dizem que o deísmo é uma religião natural em oposição às religiões reveladas. [Sem Religião; Combate à religião; Deist Paladin; World Union of Deists; Jefferson Bible]

1) Dedicação e adoração
No Ocidente é costume associar a palavra "religião" à adoração a um ou mais deuses. No entanto, também é associado a sistemas de crenças, especialmente na Ásia, que não implicam crenças em deuses, como o Budismo. Sem tornar a crença na existência em divindades uma condição à definição de "religião", tornando-a um pouco mais lata, a ideia associada à palavra "religião" passa a estar a estar relacionado ao modo como se formam as crenças e a postura em associada a elas. Pode ser considerada uma forma de adoração, seja a deuses, forças naturais, humanos, animais, vegetais, objectos ou ideias. O religioso relaciona-se com uma entidade submetendo-se e dependendo totalmente dela, considerando-a superior a si mesmo e a tudo, exaltando-a. É o extremo oposto da atitude misoteísta. É comum associá-la à oração ou meditação, que formam as crenças religiosas, que são fundamentadas na autoridade pelos crentes, que nutrem uma grande afeição por elas, dedicando a sua vida nelas (), e as dúvidas nelas são consideradas males, logo uma aprovação quando as têm (dogma).

Esse conceito de religião é simples de perceber e de explicar. A imagem de um budista a prestar culto em frente a uma estátua de Buda leva-nos a considerá-lo um religioso. O Confuncionismo tornou-se uma religião de estado quando imperadores usaram a filosofia para que o povo respeitasse as suas ordens pela devoção a Confúcio, o que levou o imperador T'ai Tsung ordenar que em todas as províncias fossem construídos templos. Ateus podem ser acusados por fundamentalistas de adorarem a si mesmos - que é o que os satanistas ateus fazem, considerando-se "deuses" de si mesmos, mas não para os outros. E há a acusação de que americanos adoram ("worship") Barack Obama, em vez de Deus, formando uma religião. Mas para a Filosofia, Estudos de Religião, Sociologia, Antropologia e até para a Lei o sentido da palavra "religião" é mais complexo do que isso e de difícil definição. [Havard Law School; Cross Currents; AllAcademic; What is a Religion?; Anthropology and religion; Anthropology of religion; Religion Facts; Religious Tolerance; Wikipedia; Adherents; Wikibooks; Religion-online; Atheism.about; Infidels]

Nota: se está apenas interessado em brigas para ganhar discussões, em vez de aprender qualquer coisa, passe para a última sub-secção para não perder tempo ("Sobre discussões semânticas").

2) Caminho para a transcendência, salvação e sentimentos religiosos
Budistas tibetanos, que rapam a cabeça, vivem um estilo de vida monástico (sangha), que fazem peregrinações a lugares sagrados, que celebram dias santos, que têm livros sagrados, que fazem rituais de devoção à frente de estátuas, que vivem em função da crença de que reencarnam, que seguem um líder como o Dalai Lama, que veneram os Bodhusattvas, recorrem a Iluminados para encontrarem o "caminho para a sabedoria" e meditam para transfomarem a sua mente para se salvarem de todo o sofrimento, atingindo um estado de beatitude transcendental e uma compreensão última da realidade - como budas omniscientes -, são claramente religiosos. [Wikipedia; Religion Facts; BBC; Sacred Texts; Tibet; video: Discovering Buddhism] A meditação não tem necessariamente uma conotação religiosa. Pode ser praticada para relaxamento e aliviar a ansiedade e depressão, como um método psicoterapeutico, ou nas artes-marciais, sem haver o objectivo de se transformar espiritualmente nem de mudar o seu sistema de crenças e de vida . Mesmo que praticada religiosamente (ie: com zelo), como podemos fazer ao escovarmos os dentes, não passa a ser uma religião.

Mas um budista não o é por adorar Buda. Nem a crença da sua historicidade é uma condição para ser budista. Os Budismo não é uma religião profética: é uma religião mística. Os Iluminados (budas) ajudam os adeptos a encontrarem um caminho que os tranforma espiritualmente por cinco estágios da mente (níveis superiores de consciência) através das 4 Nobres Verdades, que os permite melhorar a moral e as suas vidas (bom karma) e salvarem-se do sofrimento com uma experiência de grande felicidade (Nirvana) - a salvação, que os torna sábios, conhecendo a realidade última (o Absoluto, que para um cristão é Deus), acabando com os seus ciclos de renascimentos (samsara). É "o caminho para a salvação", mas sem uma adoração já não é claro o motivo de ser chamado "religião", apesar da motivação e experiência ser diferente da meditação secular, tal como a diferença entre as motivações do enterro e canibalismo descritas no início deste artigo - a motivação está ligada à experiência de transcendência. [Buddhist Temples; Peter Morrell; Religious Tolerance; BuddhaNet; Buddhism.about]

Na Filosofia da Religião, a religião pode ser encarada do ponto-de-vista fenomológico das experiências religiosas, que podem estar relacionadas com um contexto material, em vez de divino, como o assombramento ao ver uma bela e enorme cascata, um forte sentimento de comunhão com os nossos "irmãos" ou um forte sentimento de dependência e nostalgia com a morte de alguém que nos apegámos durante muito tempo. Einstein chamava as suas emoções relacionadas com o desconhecido de "religião cósmica", distinguindo das "religiões do medo". Eu próprio, sem religião, posso ter sentimentos religiosos, como quando uma gata foi abatida por causa de um tumor maligno, que me inspirou a fazer a minha primeira pintura a aguarelas, depois de criança, como homenagem. O religioso dedica a sua vida a procurar ter esses sentimentos, que considera dar-lhes significado à vida e uma Verdade, geralmente associados a uma ideia de salvação e uma fé que supera as provas observadas neste mundo. Nas religiões tradicionais do Ocidente, isso implica o relacionamento com Deus ou deuses. Até o clube Benfica pode ser considerado uma religião e foi analizado como tal numa tese de licenciatura de Ciências da Religião! [Standford Encyclopedia of Philosophy; Religious-online; Sacred-Texts; Neil Rocha; Ciências das Religiões da Universidade Lusófona; Religião Benfica; videos: Benfica: uma religião; Benfica és a nossa fé]
Fig. 3: existem definições estritas e latas de religião. Definida como a adoração a um Deus é muito estrita (D). Sem "Deus" na definição, temos outra mais lata (A). Outra mais lata relaciona-se com o transcendente (T) e um caminho para a realidade última (C). Mesmo sem ter uma religião, é possível ter sentimentos religiosos. (P)

3) Comparando com não-religiões

Filosofias metafísicas, que teorizam sobre o sentido da vida e a moral, podem dar origem a religiões, como aconteceu com o Humanismo. O Humanismo Secular é simplesmente uma filosofia que centra os valores na humanidade, para que as pessoas tenham uma boa vida. No Humanismo Religioso há o conceito de salvação através da humanidade e procura-se experiências transcendentais. Para críticos do Humanismo Secular, o Humanismo é uma filosofia e uma religião que torna o Homem um deus. [Secular Humanism; Wikipedia; Creation Wiki]

O Cristianismo, por exemplo, tem uma filosofia ética, mas não tem a mesma importância no Humanismo Religioso, Budismo e Confuncionismo - a sua essência é o relacionamento com Jesus (daí acentuar-se que os outros três são filosofias). E alguns cristãos, para dizerem que no Cristianismo as obras não são importantes ou que não praticam rituais de culto, dizem que o Cristianismo não é uma religião, mas um relacionamento, ou que não são religiosos (ou não são praticantes). Neste caso, o conceito que atribuem ao termo "religião" concentra-se nos rituais. [AllAboutReligion; Knight For Christ; Debunking Skeptics; videos: Christianity Is Not A Religion]

As pseudo-ciências podem dar origem a religiões, e vice-versa, mas não são religiões por si mesmas. A astrologia é uma crença sobre a influência dos astros nas nossas vidas, o que nos permitiria fazer previsões através das suas posições, mas não implica qualquer experiência invulgar ou devoção. Associa-se o criacionismo à religião, mas tecnicamente não implica qualquer relação especial com Deus. Erich Von Däniken elaborou uma teoria sobre extraterrestres que visitaram a Terra e que foram considerados deuses. Não é uma religião, mas foi usada para formar religiões ufólogas, onde existem revelações de extraterrestres e devota-se a seguir as suas ordens para colonizarem outros planetas.

Apesar de muitas das superstições mais famosas serem religiosas - o poder da oração, o cruzar dos dedos, atirar o sal para trás das costas, o trevo da sorte, a sexta feira-treze, o medo de passar por debaixo de escadas, etc. - não são necessariamente religiosas (apesar de alguns dicionários fazerem essa relação e no catecismo católico ser dito que a superstição é "excesso perverso de religião"): a maioria dos mitos urbanos não são religiosos e em muitas religiões não existem revelações nem rituais para responder ao medo (como na deisidaimonia). [Vatican; Wikipedia]

Existem organizações que não são consideradas religiosas por não parecerem sinceras na sua religiosidade, com apenas outros objectivos como o enriquecimento ou a paródia (mas podem ser religiões mesmo se os líderes forem charlatães). O pastafarianismo é apenas uma paródia em resposta ao envolvimento político do criacionismo, suspeita-se que muitos (ou todos) dos que dizem pertencer à Religião Jedi apenas querem "chatear as pessoas" - mas é reconhecida na América -, suspeita-se que a Cientologia é apenas um negócio, etc. Nesse caso são pseudo-religiões. Cultos, como devotados à adoração de Elvis como o Senhor Salvador, onde se dedica a colocar velinhas à volta de retratos dele (não é uma mera homenagem), se não são piadas, são religiões. [AllExperts]

Seitas, como as Testemunhas de Jeová, consideram o Catolicismo uma religião, mas falsa: «Religião - definição: Uma forma de adoração.» (...) «Usualmente a religião envolve crença em Deus ou em diversos deuses; ou considera os humanos, os objetos, os desejos ou as forças como objectos de adoração.» (...) «Há religião verdadeira e religião falsa.» Por outro lado, o professor James Carmine, do departamento da Universidade (Católica) de Carlow, propôs que as pseudo-religiões (ou "religiões más"), do ponto-de-vista teológico (em sentido lato, usado entre estudiosos da Religião - ele considera o Budismo uma religião espiritual ateísta), fossem distinguidas pela 1) ausência de um guia de coerência teológica ; 2) inteiramente auto-refencial ("tenho razão porque tenho razão"); 3) os seus únicos frutos são a adesão a si mesmo. Em geral as definições do termo "pseudo-religião", ou as condições dadas para distinguir o que é chamado de "pseudo-religião", dependem das convicções religiosas ou morais de quem as cria - chegando ao ponto de ser dito que só o Cristianismo ou a "adoração do verdadeiro Deus" é uma religião -, ou são sinónimos de superstição ou religiões fora de uma corrente principal. [Wikipedia; Asa3; Jewish Ideas; George Fox University; Ingenta Connect; Stride Magazine; JRE; ]

Existem piadas que comparam a adulação exagerada das qualidades de uma pessoa, objecto ou ideia com uma religião, mas na verdade não é uma adoração, não pretende ser uma resposta ao sentido último da vida nem leva a experiências religiosas. Tratarei do termo "quasi-religião" noutro artigo - nos Estudos da Religião evita-se usar o termo "pseudo-religião".
Vídeo: (clicar na imagem) paródia dos Gato Fedorento - computador Magalhães como objecto de adoração, comparando a propaganda do Primeiro Ministro e os hinos de professores com uma religião. Curiosidade: Ricardo Araújo, o actor que interpreta o padre, é ateu.

- Sobre discussões semânticas
Luciano diz que estudou bastante religião e que por isso é muito fácil para ele definir o que é "religião" - ao contrário dos académicos nos Estudos da Religião. Parece que não conhecia o termo "quasi-religião" (apesar de ser usado de forma comum entre os estudiosos) e não mostra ter conhecimentos sobre as várias formas de religião, como a animista, totemista e fetichista. Não admite as religiões politeístas como religiões, não admite o Budismo e o Confuncionismo como religiões, por não serem teístas, adoptando uma definição muito restrita de "religião" (talvez a expressão "religião teísta" é o que quer dizer com "religião"). Nem conhece a posição da Igreja Católica em relação aos dogmas da Ressurreição de Jesus e Assunção da Virgem Maria (tratarei desses assuntos num artigo sobre metáforas na religião).

Coloquei a hipótese de ele ter copiado a sua definição de algum lado na Web. Na Wikipedia está: «pode ser definida como um conjunto de crenças relacionadas com aquilo que parte da humanidade considera como sobrenatural, divino, sagrado e transcendental, bem como o conjunto de rituais e códigos morais que derivam dessas crenças». O resto do artigo contradiz essa definição: «Algumas religiões não consideram deidades, e podem ser consideradas como ateístas (apesar do ateísmo não ser uma religião, ele pode ser uma característica de uma religião). É o caso do budismo, do confucionismo e do taoísmo. Recentemente surgiram movimentos especificamente voltados para uma prática religiosa (ou similar) da parte de deístas, agnósticos e ateus - como exemplo podem ser citados o Humanismo Laico e o Unitário-Universalismo.» O que contradiz com "Ao contrário do pensamento comum, o budismo não é uma religião, pois não existe um deus criador, não existem dogmas e nem proselitismo", também na Wikipedia, mas com indicação de fontes fiáveis. Como resposta Luciano disse: «Ué, note a sua falácia. O fato de eu citar UM PONTO da Wikipedia, me obriga a aceitar todos?!?!?!?! Não fantasie…». Isso indicia quais são as suas fontes para os estudos, para além das excessivas referências a Olavo de Carvalho. Noto que a definição da versão inglesa da Wikipedia não coloca a crença em divindades, como condição, e, ao contrário da versão portuguesa, tem referências: Clifford Geertz, Religion as a Cultural System (1973); Talal Asad, The Construction of Religion as an Anthropological Category (1982). Mostro algumas das minhas fontes e trabalhos dos meus estudos como amador:
Fig. 4: (clicar na imagem para ver pormenores)
à esquerda:
literatura, panfletos e imagens sobre religião por cima da minha cama;

no centro: notas sobre o Apocalipse retiradas do documentário "Por Detrás das Escrituras";
à direita: parte de um diagrama sobre a Bíblia;


Na Web podem encontrar mais imagens e alguns vídeos, como o estudo em desenho do processo de crucificação, uma crítica às interpretações modernas do Génesis com uma banda-desenhada (que foi adaptada para um vídeo) e um vídeo para verificar a postura de cristãos em relação à Bíblia como inerrável, que será comparada com as "posições oficiais" e "cristãos mais sofisticados". O Luciano só sabe o que significa "religião" - e é isso que discute. Seria como discutir o que significa "arte". Não deve saber que existe uma definição estrita de "ateu" e outra lata, que inclui o "deísmo" e o "panteísmo" - fiquei a saber disso através do Vocabulário de Filosofia, de Armand Cuviller. E fiquei a saber que a enciclopédia da inclui o agnosticismo, materialismo e panteísmo no ateísmo tratado num sentido lato, tal como apresenta o animismo, toteísmo e fetichismo como religiões, para além do Budismo. Estamos a discutir se um quadrado é um rectângulo, obrigando a usar a definição estrita de "rectângulo". (Reparem que a crença na existência de Deus é o "trunfo" do Luciano)

Pelo livro Cristianismo, de Linda Woodhead, fiquei a saber que o Cristianismo pode ser dividido em místico, bíblico e eclesiástico. De lá conheci O Sílabo dos Erros, que me levou a encontrar o site Montfort. Posso criticar a discussão de Luciano citando os versículos entre 31 e 34 do 2º fascículo do texto árabe e tradução portuguesa d'O Sagrado Al-Corão, editado pela Islam International Publications em 2003. As palavras são inventadas por humanas, têm sentidos diferentes e são entendidos de forma diferente consoante o contexto e função. É fácil escolher uma definição - especialmente se tiver um sentido estrito na sua comunidade. Mesmo que mostre que a Igreja Católica admite o Budismo como religião, o Luciano pode dizer que não - é uma "quasi-religião" (sem saber o que significa a palavra no Estudo das religiões). Ao verificar que é dito que só depois do budismo trocar Deus por Nirvana é que se tornou uma religião popular (espandindo-se da Índia para a China e Japão...), ele pode dizer: «"Popular Religion" é o mesmo que uma pseudo-ciência. Pode ser tratado por religião, mas não é.» e «Exemplo de "ciência popular": leitura na borra de café, quiromancia, leitura fria… não são ciência. Pronto, você está refutado.» E a religião impopular deve ser a religião verdadeira e tornar-se cada vez mais popular é tornar-se mais pseudo-religião.

É importante focar que ele admite a possibilidade de o Budismo ser uma quasi-religião, mas não admite que o Comunismo seja uma quasi-religião. Curiosamente nos Estudos da Religião o comunismo é considerado uma religião ou uma quasi-religião, consoante o conceito de religião. Daqui a dois artigos escrevo sobre o assunto, mas deixo algumas referências: religiononline.org; Adherents.com; Oxford Journals; Berdyaev Online Bibliotek Library; Svin.Lenin.Ru; Colorado University Religious Studies Department (cap. 8); Ideology of Religious Studies; Catholic City; Catholic On-Line.

Também é importante notar que ele acusa-me de querer associar os males do Comunismo às religiões como o Catolicismo, fazendo um jogo de contagens de mortes. Ele deve defender-se dessa alegação que faz sobre mim, e mesmo se fosse verdadeira, é irrelevante para defender a legitimidade de dizer que o Comunismo é uma religião - que é o que está em causa. Ao tentar mostrar que outros também dizem o mesmo, incluíndo cristãos (que é o que foquei), fui chamado de fanático. Sugiro que leiam as citações iniciais do artigo em questão e procurem perceber o que signifiquem.
Fig. 5:
- No meu conceito de pessoa, o Estaline (a) é uma pessoa (P).
- Esperto, estás a tentar associar o Estaline às pessoas! (ex: b)
- Mas as próprias pessoas dizem que Estaline é uma pessoa... Estou a ser honesto.
- És um fanático! O Estaline é uma pseudo-pessoa. E "pessoa popular" é uma pseudo-pessoa. Pode-se dizer que é uma pessoa, mas não é mesmo uma pessoa. Percebi o seu jogo e está a ser divertido.


Apesar de o meu objectivo ser minorar os preconceitos contra mim, é possível que o excesso de informação e a apresentação dos meus conhecimentos tenha um efeito contrários, acusando-me de arrogante e de cometer ataques ad hominem, ou de me acusarem de fanático por ter escrito um artigo tão grande. Há um ditado Zen Budista que diz que se encontrarem Buda na estrada, matem-no. A estrada é o caminho que o budista percorre. Buda é a imagem idealizada do seu objectivo. Com a sua morte, continuamos a progredir na estrada. Matem os preconceitos que têm contra mim e contra os outros (incluindo os que tiverem em relação ao Luciano). Leiam o que escreveram, perguntem o que querem dizer e façam o seu caminho. O Luciano pode ser um especialista em discussões semânticas, mas passemos aos factos. As palavras que ele coloca nos outros no seu blog, nos seus diálogos entre o Simplício e Salviati, podem não ser as palavras dos outros. O meu principal objectivo é dar uma lição sobre essas discussões de semântica, com um caminho.

Provavelmente daqui a uma semana (ou, se Deus quiser), publicarei um artigo com comparações entre Senso Comum, Religião, Ciência e Filosofia, para responder à questão "a Ciência corrige-se?", com uma introdução sobre um argumento dele. Vou abordar mais a religião do ponto-de-vista católico, como exemplo. Depois - se Deus quiser -, depois desse, escrevo o último artigo para responder à pergunta: "Será o comunismo realmente uma religião?". O Luciano irá ter a oportunidade de ter a última palavra - o objectivo não é ter uma batalha infidável. Leiam a minha resposta, leiam a resposta dele. Vocês é que decidem, de preferência com novas ideias que possam partilhar, com a oportunidade de não seguirem um nem o outro. Depois - se Deus quiser - irei escrever sobre metáforas na Bíblia. Depois - se Deus quiser - focarei nas relações entre Ciência e Religião, referidas no próximo artigo.

Se o António Parente e o Nuno Gaspar tiverem tido a paciência de ler este artigo, tenho curiosidade em saber se acho que tenho razão, se mudaram de opinião em relação a mim, se sou ignorante em matéria de Religião e se acham que estou a ser desonesto ao ter dito que o comunismo é uma religião. É um caminho longo, este artigo, mas pode valer a pena.