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29 agosto, 2010

Paulo, epilepsia e falácia de probabilidades

Tenho um esboço sobre falácias, mas não continuei a mexer nele por estar ocupado com trabalho e com um portefólio. Mas escrevo este artigo para responder a um comentário de Yuri sobre a hipótese de São Paulo ter sofrido epilepsia, para responder a parte do Argumento do Túmulo Vazio.

No seu blog "Pérolas dos poucos", ele coloca algumas questões:
  1. «Qual a probabilidade de Paulo sofrer de epilepsia?»
  2. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra que derrubasse alguém de um cavalo?»
  3. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra quando Paulo estivesse montado no cavalo?»
  4. «Qual a probabilidade de um terremoto despoletar um ataque de epilepsia?»
  5. «Qual a probabilidade de uma epilepsia levar à prosopagnosia e cegueira temporária?»
  6. «Qual a probabilidade de um epiléptico sofrer alucinações que transformam seus perseguidos em perseguidores?»
  7. «Qual a probabilidade de acontecer, simultaneamente, essas coisas?»
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Comentadores disseram que acreditam que é impossível acontecer tudo simultaneamente ou que é muito pouca, que crer nessa possibilidade é uma questão de fé. Cometem uma falácia de probabilidades que é comum entre criacionistas, para defender um suposto caso de Falácia da Conjunção. Apresento um exemplo através de uma doença crónica que eu tenho:

O meu nome é Pedro Amaral Couto. Sou um homem português que nasceu em São Miguel, mas que vive na Margem Sul da Grande Lisboa. Certa vez pelos doze anos senti-me mal-disposto com o cheiro de arroz de marisco e não conseguia comê-lo. A falta de apetite e os vómitos passaram a ser comuns e comecei a evacuar sangue. Pelos sintomas, a médica de família suspeitou que se tratava de doença de Crohn. Depois de terem sido feitas análises, fui medicado e passei a visitar regularmente um hospital. Fui descobrindo o que não posso comer: caranguejo, caldo-verde e sopas com puré, lacticínios e chocolate. Fiquei a saber que existem doentes que não podem comer bacalhau e outros que só podem comer carne se for triturada. Mais tarde, quando faltava pouco para o dia de meu aniversário, senti febres e uma comichão do traseiro. Tinha um abcesso, que fiquei a saber que era comum na doença de Crohn. No meu aniversário estive deitado numa cama. E celebrei-o com um bolo por cima da barriga. Fui eu que introduzi na Wikipedia o artigo sobre essa doença.

A priori, qual é a probabilidade de isso tudo acontecer? Na Europa, cerca de 7 pessoas em cada 100.000 sofre dessa doença; ie: a probabilidade de alguém ter a doença é de 0,007%. Se a multiplicarem com todas as probabilidades de todas as minhas características relacionadas com doença, terão o valor de tudo simultaneamente. E será muitíssimo mais pequeno. No entanto, foi o que me aconteceu e o diagnóstico foi feito pela descrição dos sintomas. Num caso particular, a probabilidade que interessa é aquela que tem em conta todos os dados conhecidos, o que poderá aumentar muito a probabilidade (que é a medida da nossa ignorância).

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1. «Qual a probabilidade de Paulo sofrer de epilepsia?»


Sobre a hipótese de epilepsia, usei palavras como "especulações" e "supostamente": não existe o mesmo grau de certeza que tenho sobre a minha doença. Mas é fundamentada na comparação feita por médicos dos sintomas de epilepsia com as cartas de Paulo. Nos sites dedicados à epilepsia, São Paulo é usado como exemplo de um epilético e a epilepsia era até chamada de "doença de São Paulo" na Irlanda.
  • PubMed Central - J Neurol Neurosurg Psychiatry - St Paul and temporal lobe epilepsy
  • BBC - Saint Paul (vídeo)
  • German Epilepsymuseum Kork - Famous people who suffered from epilepsy: Saint Paul
  • epilepsy.com - Religious Figures : Saint Paul
  • epilepsy action - St Valentine and others - patron saints of epilepsy : «That this was an epileptic seizure is given even more credence by the fact that sight impediment – including temporary blindness lasting from several hours to several days – has actually been observed as a symptom or a result of an epileptic seizure. Paul himself perhaps provides further evidence of his epilepsy when he talks about his “physical ailment” in his letters; (2 Corinthians 12:7 and in Galatians 4:13-14). This connection between Saint Paul and epilepsy was so strongly perceived that in old Ireland, for example, epilepsy was sometimes known as 'Saint Paul's disease'
Se os sintomas de Paulo descrevem os sintomas de epilepsia, então a probabilidade deve ser elevada. Por exemplo, segundo Actos, foi cercado por uma luz, caiu, teve uma experiência religiosa, ouviu vozes e ficou cego durante três dias. Segundo as suas cartas, teve visões, sentiu-se arrebatado para o Paraíso, desejou que arrancassem os olhos para substituirem os seus, sentia-se esbofeteado por Satanás, notou que escrevia com letras grandes, dizia várias vezes que queria gloriar-se e enumerava as suas fraquezas e tinha uma doença que quem pedacia costumava ser desprezado (a epilepsia era chamada de "morbus insputatus": doença cuspida; era costume cuspir nos epiléticos).


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2. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra que derrubasse alguém de um cavalo?»

Eu não tinha sequer escrito a palavra "cavalo", na Bíblia não é dito que esteve montado num cavalo - apenas que «caindo em terra, ouviu uma voz»  - e não é a queda que provoca epilepsia, por isso a pergunta é irrelevante. Mas sabe-se que os sismos alteram os comportamentos dos animais. Os cavalos ficam agitados durante um sismo antes de ser sentido por humanos. E é comum os epiléticos caírem num ataque de convulsões, porque  a falta de equilíbrio é um dos sintomas de um ataque epilético. É o sintoma mais fácil de associar a um ataque epilético. Na Babilónia era chamada de "doença da queda". (Psychoses of epilepsy in Babylon: The oldest account of the disorder)



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3. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra quando Paulo estivesse montado no cavalo?»
4. «Qual a probabilidade de um terremoto despoletar um ataque de epilepsia?»

É irrelevante se aconteceu quando esteve montado num cavalo...

Os sismos na Palestina e arredores eram muitíssimo frequentes e foram descritos com muita frequência na Bíblia, que até teriam aberto jaulas de prisões, e sabe-se que num sismo a descarga eléctrica de fricção das rochas ao atingir o cérebro provoca um ataque num doente de epilepsia. Esse facto é usado para procurar um tratamento e até um meio de prever terramotos. Perguntar qual é a probabilidade de um terramoto despoletar um ataque de epilepsia num epilético é como perguntar qual é a probabilidade de luzes intermitentes despoletarem um ataque de epilepsia num epilético, como aconteceu com 685 epiléticos no Japão quando viram o Pikachu a brilhar num desenho-animado.

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5. «Qual a probabilidade de uma epilepsia levar à prosopagnosia e cegueira temporária?»

Problemas de visão é um sintoma predominante da epilepsia, que inclui cegueira que dura várias horas ou alguns dias depois de um ataque (sintoma de uma fase pós-ictal). Se alguém tem esse sintoma, muito provavelmente sofre de epilepsia, mesmo se acontecer num cão. É um dos sintomas descritos leva médicos a suspeitarem de que Paulo sofria de epilepsia.

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6. «Qual a probabilidade de um epiléptico sofrer alucinações que transformam seus perseguidos em perseguidores?»

Um meu primo pensou que era Jesus durante um ataque epilético. As alucinações visuais e auditivas com figuras luminosas, alterações de personalidade e sensação de estar a ser perseguido ou de ser alguém muito importante são sintomas da epilepsia. Se alguém caiu subitamente no chão e ficou cega durante três dias, e depois disso considera-se mais importante num contexto religioso e diz que viu ou ouviu Jesus e que sentiu-se perseguido no momento da queda , então provavelmente teve um ataque epilético, especialmente se diz que normalmente tem um mal físico e que sente um "espinho na carne". Mais sintomas de uma doença torna mais provável que seja essa doença. Não a torna mais improvável.
  • Paranoia - The Psychology of Persecutory Delusions: «Persecutory delusions also occur in neurological disorders, such as dementia (Flint, 1991) and epilepsy (Trimble 1992).» ... «Perez, Trimble, Murray, and Reider (1985) report mental state data on 24 consecutive referrals of patients with epilepsy and delusions were much commoner (70%) in individuals with temporal lobe epilepsy
  • Delusions, illusions and hallucinations in epilepsy:1. Elementary phenomena : «Delusional themes commonly include: guilt, worthlessness, ill-health, persecution, reference, grandeur, love, jealousy, poverty,infestation, and religion
  • Neuropsychiatry, Lippincot Williams and Wilkims: «The mechanism for the development of chronic psychosis in epilepsy is not known» ... «A recent study (325) reported persistent symptoms of auditory hallucinations and delusions of persecution»
  • The Epileptic, E. M. Blaiklock (Cambridge Journals) : «'The epileptic may be suspicious with delusions of persecution or elated with delusions of grandeu' (Insanity, G. H. Savage, p. 384)»
  • Epilepsy Society - Ictal, Post-ictal and Interictal Psychosis
Ainda por cima, Saulo era supostamente um judeu ferrenho. E os judeus acreditavam que as doenças (mudez, cegueira, hemorróidas, etc.) eram punições de Deus, como descritas nas Escritutas Hebraicas. Mesmo segundo os Evangelhos, quando Jesus curava, dizia: «Seus pecados foram curados».


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7. «Qual a probabilidade de acontecer, simultaneamente, essas coisas?»

A probabilidade de acontecer tudo simultaneamente a uma pessoa ao acaso é muito baixa. ( Conhecem alguém com os sintomas descritos? ) Mas no Novo Testamento foram descritos sintomas que aconteceram pouco antes da conversão de Paulo e durante a sua vida. A questão não é sobre a probabilidade de tudo ocorrer simultaneamente. A questão é: qual é a probabilidade de não ser epilético, sabendo que sofre um conjunto de determinados sintomas? Ou, qual é a probabilidade de alguém que tem os sintomas características de uma doença não ter a doença? E já agora, qual é a probabilidade de ter sofrido um "golpe de calor", sugerido por Yuri, que tivesse provocado todos os sintomas? Só ele é que inventou uma explicação nos comentários, apesar de ele ter pedido que outros o fizessem.

Não sou especialista em epilepsia, nem sou psicólogo ou neurologista, nem sequer médico. Usei vários artigos de especialistas na matéria que concluíram que é muito provável que Paulo tivesse sofrido de epilepsia. No entanto escrevi «Mas parece que é dado demasiado crédito ao Livro dos Actos» (parágrafo 8).

O meu artigo era uma resposta a um argumento que conclui que a explicação mais plausível para o conteúdo do Novo Testamento é que Jesus realmente ressuscitou em carne e osso. Define-se o que é mais provável ou mais plausível através do que já conhecemos. Se não sabemos se extraterrestres existem e muito menos se visitem a Terra, mas sabemos que existem casos de alucinações, não se conclui que o mais plausível é  que os que dizem que foram abduzidos por extraterrestres foram mesmo abduzidos, especialmente se for um fenómenos muito estudado. O mais plausível é que tenham sofrido de uma alucinação, talvez numa paralisia do sono, se não tiverem a mentir. E se quem tiver os mesmos sintomas de Paulo é diagnosticado como epiléptico, então o mais plausível é que Paulo tenha sofrido de epilepsia. São os sintomas que levam pensar que se sofre de uma determinada doença. E quantos mais sintomas característicos de uma doença tiverem ocorrido, a hipótese não se torna menos plausível. Pelo contrário! O Yuri pensou o contrário...

19 junho, 2010

Lógica e anti-intelectualismo

¶1 Infelizmente em Portugal não se ensina Lógica em Matemática no ensino obrigatório nem no Secundário. Apenas no segundo ano de Filosofia, no 11º ano. Depois, academicamente, só na Universidade. Em Informática até aprende-se a uma linguagem de programação lógica, que é aplicada em Inteligência Artificial, para além das provas de decidibilidade com máquinas abstractas na Teoria da Computação - que permitiu a construção dos computadores modernos -, nas Base-de-Dados, nos fluxos condicionais e nos operações binárias. Esses conhecimentos permitiram a existência da Internet e das aplicações que estão a usar. Permitem as experiências e concursos na robótica. O computador Blue Deep que derrotou Kasparov num jogo de xadrez foi concebido por quem tem esses conhecimentos. A Lógica permite isso tudo, mas não é ensinada e promotores do anti-intelectualismo consideram que sabem melhor usá-la do que alguém que os que dependem dela no seus trabalhos e passatempos. Muitos deles são os mesmos que acham que sabem mais de Biologia do que um biólogo e mais Física do que um físico. Neste artigo apresento algumas noções básicas de lógica que são ensinadas em Introdução de Lógica e desafio-os a usarem um interpretador de PROLOG para testarem o que realmente sabem.

¶2 Os operadores lógicos são símbolos que ligam uma ou mais frases que podem ser verdadeiras ou falsas (proposições, predicados, fórmulas), de tal modo que o valor de verdade da composição dependa do valor de verdade das frases. O operador de negação (¬)  que dá um valor de verdade oposto ao da frase que liga: se é verdadeira, dá falso; se é falsa, dá verdadeiro. O operador de conjunção (∧) liga duas frases e a composição só é verdadeira se as duas frases forem verdadeiras. O operador de disjunção (∨) liga duas frases e a composição só é falsa se uma das frases for falsa.

¶3 Um circuito electrónico pode representar uma composição de frases lógicas - aliás, um conjunto de componentes cujos nomes são referências a operadores lógicos (NOT, AND, OR, etc) por implementarem operações lógicas. Devem ter um caminho de pólo de uma bateria até ao outro pólo (daí o nome "circuito") e por isso são representados por uma linha fechada, mas na imagem seguinte - para ser mais fácil de perceber - supõe-se que as linhas representam um cabo com dois sentidos, como as fichas comuns. Para ser mais intuitivo, imaginem que cada círculo vermelho é um adaptador para ligar-se a outra ficha, tomada ou um candeeiro. A tomada está ligada no adaptador mais à esquerda. Se o circuito for fechado, a lâmpada fica acesa. Se for aberto, fica desligada. Cada ficha representa uma frase e uma das extremidades pode estar virada como uma porta, representando uma frase falsa, caso contrário está ligada e representa uma frase verdadeira. Uma operação de negação é mudar o estado dessa extremidade: se está aberta, fecha; se está fechada, abre. Uma disjunção é representada por uma bifurcação (três adaptadores). Em fichas de dois adaptadores estão representadas conjunções.

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¶4 Em Lógica é irrelevante se uma frase é verdadeira ou falsa - supõe-se que não sabemos. O que interessa é a composição das frases por meio. Uma tabela de verdade permite avaliar todos os casos. Eis um exemplo para "¬(a ∧ b)" (V representa uma frase verdadeira; F representa uma frase falsa):
aba ∧ b¬(a ∧ b)
V V VF
V F FV
F V FV
F F FV

¶5 Chama-se "contradição" (⊥) a uma frase composta que é falsa independentemente dos valores de verdade das frases que compõe:
a ¬a a ∧ ¬a
V F F
F V F

¶6 Aplicando a operação de negação a uma contradição, obtemos uma frase que é sempre verdadeira independentemente das frases que compõe - uma tautologia (⊤):
a ¬a a ∧ ¬a ¬(a ∧ ¬a) ¬a ∨ a
V F F V V
F V F V V

¶7 Obtemos uma frase equivalente (ie: com os mesmos resultados) de uma negação de uma frase composta se negarmos todas as frases e passarmos os operadores de disjunção para conjunção e vice-versa, e retirando o operador de negação de toda a frase composta (leis de De Morgan). Por exemplo, "¬(a ∧ ¬b)" equivale a "¬a ∨ ¬¬b". Notem que a aplicação dupla do operador de negação numa frase equivale à própria frase. Por exemplo, se b é verdadeiro, então ¬b é falso e por isso ¬¬b é verdadeiro.

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¶8 Existem muitos outros operadores lógicos. Quando usamos o termo "disjunção" assumimos que se refere a uma disjunção inclusiva, se não houver uma indicação explícita do contrário. Uma disjunção exclusiva (⊕) é como a inclusiva mas é falsa se as frases que liga forem ambas verdadeiras; ou seja, "a ⊕ b" é equivalente a "(a ∨ b) ∧ ¬(a ∧ b)". Uma implicação (→) de uma frase em relação a outra significa que a primeira frase só é verdadeira se outra também o for. "a → b" (se a então b) equivale a "(a ∧ b) ∨ ¬a" (a e b ou não a). Uma equivalência (↔) entre duas frases significa que se uma forma verdadeira, a outra também é (tenho usado este conceito desde o parágrafo anterior). "a↔b" equivale a "(a ∧ b) ∨ (¬a ∨ ¬b)".

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¶9 Se usarmos variáveis podemos usar quantificadores lógicos para indicar o alcance do uso da variável: se nos referimos a todos (para todos) ou a pelo menos um (existe). O quantificador universal (∀) indica que o uso da variável na frase aplica-se a todos os casos. "∀x: humano(x) → mortal(x)" pode lido como: "para todo o x, se x é humano, então x é mortal" ou "todos os humanos são mortais". É como usar conjunções para todas as instâncias (casos) de uma variável: ( humano(x1) → mortal(x1) ) ∧ ( humano(x2) → mortal(x2) ) ∧ ( humano(x3) → mortal(x3) ) ... O quantificador existencial (∃) indica que existe uma instância da variável que torna uma frase verdadeira. "∃x: humano(x) ∧ mulher(x)" pode ser lido como: "existe um x de tal modo que x é humano e x é mulher" ou "existe pelo menos um humano que é mulher". É o mesmo que usar disjunções para todas as instâncias de uma variável: ( humano(x1) ∧ mulher(x1) ) ∧ ( humano(x2) ∧ mulher(x2) ) ∧ ( humano(x3) ∧ mulher(x3) ) ...

¶10 A negação de uma quantificação universal de uma frase é a quantificação existencial da negação dessa frase: "¬∀x: f(x) ↔ ∃x: ¬f(x)". A negação de uma quantificação existencial de uma frase é a quantificação universal da negação dessa frase: "¬∃x: f(x) ↔ ∀x: ¬f(x)". Por exemplo, "nem todas as bolas são azuis" equivale a "existe pelo menos uma bola que não é azul". "Não existe pelo menos uma bola vermelha" equivale a "todas as bolas não são vermelhas".

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¶11 A partir de várias frases separadas podemos obter uma frase nova. Por exemplo, se "a ∧ b" e "¬b" são verdadeiros, então "a" é verdadeiro (assumindo a Princípio do Terceiro Excluído - ou uma frase é verdadeira, ou é falsa; não há um terceiro valor). Em exames de Lógica pode ser necessário indicar os nomes das propriedades e dos princípios usados para se obter uma frase (a conclusão; ∴) a partir de outras (as premissas). Esse processo é uma demonstração lógica e no conjunto é um argumento.
  • ∀x: humano(x) → mortal(x)
  •  humano(Pedro)
  •  ∴ mortal(Pedro)
  • (∀x: humano(x) → mortal(x)) ↔ (∀x: (humano(x) ∧ mortal(x)) ∨ ¬humano(x))
  •  ( humano(Pedro) ∧ mortal(Pedro) ) ∨ ¬humano(Pedro)
  •  ⊥ humano(Pedro) ∧ ¬humano(Pedro)
  •  ⊥ ( humano(Pedro) ∧ ¬mortal(Pedro) ) ∧ ( humano(Pedro) ∧ mortal(Pedro) )
  •  ∴ humano(Pedro) ∧ mortal(Pedro)
  •  ∴ mortal(Pedro)
¶12 Um argumento transmite a ideia de que se as premissas forem verdadeiras, a conclusão também é verdadeira. Se isso não for verdade, então o argumento é inválido (non sequitur: "não seguem"). Caso contrário, o argumento é válido, independentemente de as premissas ou a conclusão serem falsas. Na Lógica não se trata da verdade das premissas ou conclusões. O que interessa é que num argumento válido se as premissas forem verdadeiras, a conclusão é verdadeira. Se não forem verdadeiras, a conclusão pode ser falsa ou verdadeira. Mas se uma conclusão for uma contradição, prova-se que a conjunção de todas as premissas é falsa (reductio ad absurdum).

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¶13 Este artigo é grande, mas apenas explica um pouco do elementar da Introdução de Lógica para totós. No entanto há quem ache que saiba Lógica, mas não sabe sequer o que está aqui explicado. Argumenta deste modo: «BIOlogia estuda o quê? FISIOlogia estuda o quê? TEOlogia estuda o quê? Vês o teu erro?» (A CIENTOlogia estuda o quê? A ASTROlogia estuda o quê? A CRIPTOZOOlogia estuda o quê? A UFOlogia estuda o quê? A PARAPSICOlogia estuda o quê? A FRENOlogia estuda o quê?) E denigre a experiência e profissão com piadas, como "Dr. Mats, PhD (Cientista Consensual)" e comportando-se como se tivesse autoridade sobre assuntos que não tem experiência, dando lições a quem o tem (curiosidade: se se interessa tanto por Ciência, por que será que não prosseguiu os estudos em Ciência, especialmente em Biologia?) Isso é uma postura anti-intelectualista. Por isso demonstram que não têm interesse em perceber como se chega às conclusões. Por isso a literatura prosélita está cheia de figuras, é muito colorida e escrita como se fossem revistas infantis. A idiotice é mais fácil. Bem, o próximo artigo será sobre falácias.

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Duas páginas do livro "Lógica Matemática - Teorias e exercícios; 10º ano de escolaridade" (1980, edições ASA):

Duas páginas de "Matemática - uma breve introdução" (Timothy Gowers, 2008, gradiva) do capítulo 3 ("Demonstrações"):

 Duas páginas de "Ah, Descobri! - Jogos e diversões matemáticas" (Martin Gardner, 1978, gradiva) do capítulo 4 ("Ah! Lógico"):

Duas páginas de "The Art of Prolog - Advanced Programming Techniques" (1994, MIT) do capítulo 5 ("The Theory of Logic Programming"):

31 maio, 2010

Deus omnipresente, omnisciente, omnipotente e omnibondoso

Professor Alfredo Dinis,

li atentamente comentários dirigidos a Ludwig, que foram redigidos de forma muito clara e julgo que não foram respondidos de forma adequada. Pretendo partilhar a minha opinião sobre os comentários e colocar-lhe uma questão no final, por ser professor de Filosofia, para satisfazer-me uma curiosidade a respeito de uma alegação feita por um dos comentadores. Como tem certamente muito mais experiência na Filosofia, se responder-me com uma crítica e explicando-me os erros nesta redacção, sentir-me-ei muito agradecido pela paciência de lê-lo.

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¶1 Parece-me que ambos os professores, Alfredo e Ludwig, estão a confundir ou a misturar dois problemas distintos: 1) a existência de um ser omnipotente, omnipresente, omnisciente e sumamente bom; e 2) os deveres de um Criador em relação à Sua Criação. Apesar de exposta de forma ingénua, penso que o argumento de Ludwig através de crianças e das minas é válido e parece-me que Alfredo comete uma falsa analogia comparando humanos e uma entidade sobrehumana como se tivessem a mesma condição.

¶2 A existência de algo não depende dos nossos desejos, por isso acho que é tolice não acreditar que um Deus existe só porque é malévolo ou apático. Aqui abstenho-me a essa questão e cinjo-me à questão da existência de um Deus omnipotente, omnisciente, omnipresente e omnibondoso.

¶3 Uma entidade inteligente que não seja omnipresente, pode não ter a oportunidade de testemunhar os males no Mundo. Mesmo que seja omnipotente, talvez não use os seus poderes para poder conhecer o males. E mesmo que testemunhe e conheça esses males, pode acreditar que é impotente se não for omnisciente, talvez limitando-se a sofrer, como um pai impotente a ver os seus filhos a sofrerem, ou incapaz de perceber o que assiste, como um débil mental. Mas isso não é possível se for omnipresente, omnipotente e omnisciente. Ele está presente no meio de todos os males, tem o poder de acabar com eles todos, conhece-os todos e sabe que pode terminá-los. A questão é como agiria se fosse também omnibondoso, não interessando se é o que deveria ou não fazer.

¶4 O Deus tradicional teísta não tem as mesmas limitações dos seres humanos, cuja condição é muitíssimo diferente. Em muitos casos, para evitarmos ou mitigarmos o mal temos de nos sacrificar e arriscar-nos imenso, porque não temos o poder de fazê-lo de outro modo. Basta comparar os humanos comuns com os super-heróis, nos quadradinhos. A diferença de poder não permite que humanos comuns possam salvar vidas como os heróis com poderes sobrehumanos. O super-homem é capaz de proteger alguém de um tiroteio com o seu peito e pára um comboio com as suas próprias mãos, evitando tragédias, e os outros, que não podiam fazer o mesmo, aplaudem e agradecem, ao seu deus benfeitor que os ama. Os anti-heróis têm outras motivações, que os leva a serem muito agressivos em relação a crápulas como os que mataram os seus pais. As personalidades dos personagens determinam as suas motivações, decisões e comportamentos. E esses últimos são indícios do que sentem em relação a outras personagens.

¶5 Noto que no Evangelho de São Lucas encontramos uma parábola famosa que mostra como se distingue alguém que ama o próximo: a parábola do Bom Samaritano (Lucas 10).
- Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?
- Aquele que usou de misericórdia para com ele.
- Vai, e faze tu o mesmo.
¶6 Deus amar-nos não significa fazer-nos o mesmo? Não estará a descrevê-Lo como o sacerdote que não faz nada para ajudar a vítima e apenas lamenta? Não se espera até de uma besta feroz que salve aqueles que ama, como as suas crias e os mais próximos, arriscando até a sua vida? Amamos mais  os nossos filhos, pais e irmãos, por isso somos capazes de nos sacrificar mais por eles do que por desconhecidos. Não interessa se deveria ser assim ou não: o que interessa é que isso ilustra qual é o género de comportamentos que temos em relação a alguém que amamos. Se não tivermos o mesmo poder de um Deus omnipotente, é que limitamo-nos a sofrer, sentido-nos impotentes ou cobardes. Por isso digo que o exemplo de Ludwig é ingénuo: deveria ter ido mais longe, e ter usado como exemplo um nosso filho que amamos imenso. Mas se existe um ser que também nos ama, que sabe que sofremos e pode acabar com o sofrimento, por que é que não age como um pai com poderes ilimitados que quer salvar o seu filho? E se é o Criador, por que é que permitiu um Mundo onde o sofrimento é possível?

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¶7 Se é inadmissível colocar a hipótese de que o teísmo monoteísta é falso ou de que Deus não é sumamente bom, acredito que só é possível aceitar de forma lógica a hipótese da existência de um Deus que não seja omnisciente ou omnipotente. Ou Ele não sabe que o mal (ou a maioria) existe ou é incapaz de concretizar a sua vontade de acabá-lo. E foi incapaz de criar um Mundo sem mal. Por isso apenas é capaz sofrer com quem sofre. O que chamam de "omnipotência" é afinal um poder sobrehumano de  um ser eterno capaz de criar o Universo, mas impotente para o criar sem o mal ou sequer acabar com o sofrimento.

¶8 Filósofos, como Plantinga, podem implicitamente dizer isso mesmo, colocando a hipótese de o bem  precisar do mal - talvez seja impossível de outra forma. Para além de isso refutar a existência de um Deus com as quatro qualidade que referi, parece-me absurdo que permitir o mal seja melhor que evitá-lo, especialmente tendo em conta o mal natural. Quem criar um robô com livre-arbítrio, deve pelo menos implementar algo como as Três Leis da Robótica, para que a criatura evite cometer sofrimento. Se a criatura matasse, mesmo que tivesse vontade própria, o seu criador seria responsabilizado, podendo ser condenado por negligência e homicídio. Não esperaríamos muito mais de um ser muito mais poderoso e sábio, sempre capaz de prever as consequências dos seus actos? E mesmo aceitando a necessidade de permitir que as decisões para cometer sofrimento sejam concretizadas, como é que o argumento aplica-se a males naturais? Os desastres naturais são resultado de demónios que provocam doenças, extraem lava do interior da Terra e cujos sopros são capazes de arrancar árvores? Não me parece que nenhum de nós acredite nisso.

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¶9 O Jairo Entrecosto, nos comentários do Que Treta!, disse que a existência de Deus está provada. Acho que é treta. Acho que não foi provada a existência nem a inexistência de Deus. Existem apenas razões para acreditar ou não acreditar. Se bem me lembro e interpretei correctamente as palavras de Plantinga e William Lane Craig, eles dizem que a existência de Deus não está provada e por isso existem os debates que participam (especialmente Craig). E suponho que a maioria dos filósofos profissionais é descrente - mas baseio-me apenas em poucos dados. Como é professor de Filosofia, certamente conhece mais e melhor do que eu e o Jairo os argumentos sobre essa questão e as opiniões dos filósofos profissionais. Gostaria que nos dissesse se a existência de Deus está provada e qual acha que é a opinião da maioria dos filósofos.

Cumprimentos

08 novembro, 2009

Modelos entre guerras

Com a série respondi a todos os pontos indicados no artigo "Pedro Amaral in Wonderland". Deixo um resumo:
  • Introdução: [contra pessoas]
    • Cerca de 5/3 do artigo de Luciano dedica-se quase exclusivamente a ataques pessoais com "leituras da mente";
    • Luciano acusou-me de dedicar "uma boa parte da triologia" a apegar-me a uma frase. Que é discutida explicitamente e implicitamente em cerca de 8% nessa "triologia";
    • Devemos aprender com os efeitos dos insultos [tema da série];

  • Bizarrices do artigo [1]:
    1. Os primeiro artigo era quase exclusivamente sobre significados de termos, que foram atribuídos por Luciano, que é preciso conhecê-los para perceber que a ciência e religião não estão em conflito, e os "neo-ateus" não percebem esses termos. Cerca de 72% dedica-se a discutir a expressão "ciência corrige-se", que é o que os outros artigos dedicam-se exclusivamente. Nas próprias respostas Luciano reforça a importância dos significados. [img4; diálogos difíceis; não mostrou]
    2. - Tinha respondido que não faz sentido dizer que a Política vence e derrota a si mesma, notando que esses verbos implicam uma competição do sujeito em relação a adversários, que é o caso entre partidos e entre exércitos. E só faz sentido dizer que um grupo X vence Y e derrota Y, se os membros de X em geral cooperem entre si para isso e Y for diferente de Y. Por isso, não faz sentido dizer que algo venceu a si mesmo derrotando-se.
      - Não faz sentido a Política substituir a si mesma porque não há meio de distinguir entre substituir-se e não substituir-se. Só faz sentido dizer que X substitui Y, se e só se X for diferente de Y.
      - É irrelevante se as entidades são ou não são "maiores". O que interessa é as propriedades em questão. Nunca faz sentido dizer "X vence derrotando X, substituindo X", seja qual for X. [img1; não mostrou; diálogos difíceis]
    3. Tinha dito que Luciano com o exemplo da Política, atribuía-me a defesa de uma falácia de composição, mas que não é o caso. Notei que apesar disso, existem excepções, servindo a côr da cadeira, um risco do livro, uma decisão do ministério, a votação do povo e a decisão de um júri como exemplos, e tinha já dado como exemplos os partidos e exércitos. Luciano respondeu-me fora do contexto, dizendo que nele eu respondia ao seu modelo, e não demonstrou a importância da condição de "entidade maior".  [img2; fora do contexto]

  • Bizarrices do artigo [2]: [tornar-se o inimigo (nas respostas)]
    1.  Posso escrever sobre um ou mais pormenores de quaisquer artigos e sobre os assuntos que bem entender. Quem pretende responder a trechos de artigos, mas responde a outra coisa, é que foge dos assuntos. Quem me atribui o que eu não disse, prepara homens-palha. Se consegui responder a trechos dos artigos, mas não abordam os assuntos pretendidos pelo autor, então o problema está nesses trechos. Leiam os textos que são criticados e verifiquem corresponde realmente ao que é criticado. [img1; não mostrou; diálogos difíceis]
    2. Quando se trata de convenções, e se admite-se que existem meios de responder aos problemas que tratam, os meios para isso é a autoridade e a popularidade. Por exemplo, se estudiosos de literatura usam a expressão "a literatura produz" como tendo um sentido e ela é popular, então é legítimo usar essa expressão.
      Os cientistas usam a expressão "fazer ciência", que é popular e compreendida. A ciência, como qualquer actividade, faz-se (ou pratica-se).
    3. Se um artigo não discute um assunto, como um suposto conflito entre ciência e religião, então é uma fuga do assunto e um homem-palha apresentar uma resposta como se tivesse feito. O que escrevi não é verdadeiro nem falso se todas as actividades corrigem-se. Actualizar não é o mesmo que corrigir. Luciano não apresentou um exemplo de correcção da religião.
    4. Se provavelmente não notei aspas ou não é irrelevante se isso não se reflecte nas respostas que apresento. Fui eu que introduzi o termo "processamento" como analogia, por isso uma resposta devia ser segundo os seus termos. Eu tinha dito que tinha cometido um lapso ao relacionar o processamento de um programa com o método, por isso a resposta de Luciano é irrelevante.
      Luciano nunca defendeu a atribuição de acções ao método científico, pelo contrário, dizendo que o método não corrige.
    5. Luciano disse que coloquei definições de ciência que são óbvios de pois de um ponto onde não existem quaisquer definições.
    6. Segundo Luciano, só o refutaria (no quê?) se a correcção fosse a ciência. Não percebo se leu bem o trecho que citou ou se não sabe o que significa "inerente".

  • Bizarrices do artigo [3]:
    1. As analogias que fiz não são sobre juízos de valor. Usei as palavras "bom" e "mau" por serem opostas e para mostrar exemplos de implicações sobre o que Luciano disse sobre "corrige-se" e "evita correcções". O que interessa é os termos serem opostos. X é oposto de Y. "Não X, quer dizer que Y", "não faz sentido dizer que não X, nem Y", "se alguns Y, então X" não implicam juízes de valor. Tinha também dado como exemplo "condena" e "salva" (mas também pode ser "evita condenações"). [img3; fora do contexto; diálogos difíceis]
    2. O mesmo que Bizarrices do artigo [2] 1.
    3. É verdade que "in which" não significa "cujos", mas "em que", "nos quais", "nas quais", "no qual", "na qual" e "onde". [correcções de português]
    4. Não abordei o criacionismo como assunto. O assunto em questão é as distorções do meu texto por parte do Luciano, e num desses textos discute-se se o criacionismo faz parte da ciência. O Luciano é que fugiu do assunto para voltar a essa discussão, citando apenas contextualização do que escrevi. A questão é se se eu defendi que jogar xadrez implica ser campeão de xadrez, como ele sugeriu.
      Para o criacionismo ser uma teoria científica, seria preciso ser suportado pelo método. Não é o caso. No entanto Luciano disse várias vezes que faz parte da ciência e no artigo passou a afirmar que disse é uma má teoria científica, por não ter seguido o método científico. [img2; fora do contexto; definições (condições necessárias)]
~

Na série não respondi apenas ao artigo de Luciano. O objectivo é mostrar como ele responde para que se veja ao espelho e para que os nossos leitores tenham atenção a isso e que evitem comportarem-se como ele. Pelo menos que ele perceba que é muito grosseiro e agressivo, o que poderá afectar como lê e responde, e que o que critica dos outros aplica-se a si mesmo. Coloco alguns exemplos e algumas respostas referidas nesta série:
  1. Luciano: «Notem o que o sujeito escreveu: "Algo é inválido, pois depende de extensa justificação"». Nunca escrevi isso nem algo similar. Eu tinha escrito: «Segundo Luciano não mostrei que» (...) «não faz sentido, porque "a interpretação dependeria" "de uma extensa justificação"»

  2. - Eu: «Segunda as definições que deste, para ser ciência é preciso ser ou derivar de "práticas e pesquisas que tenham sido suportadas pelo método científico"» (...) «Dizer que o criacionismo faz parte da ciência é fazer como uma astróloga portuguesa chamada Maia que dizia "Não negue uma ciência que desconhece", ou como uns astrólogos africanos que dizem ser grandes cientistas. Ou como dizer que sou um campeão de xadrez só porque jogo xadrez.»
    - Luciano: «Na boa, vcs são ruinzinhos de analogia hein. Jogar xadrez não implica em campeão de xadrez, mas sim em ser um enxadrista. Vc pode ser um enxadrista amador... O criacionismo é ciência de amadores. Já foi substituido pelo design inteligente.»

  3. Luciano: «O que é um CAMPEÃO de xadrez? É o mesmo que uma teoria que VENCEU dentre outras teorias... Por isso que o meu exemplo segue incólume. Pois eu disse que o criacionismo não ‘venceu’ nada, e o darwinismo ‘venceu’…»

  4. Há uma falácia de anfibologia que confunde o sentido vulgar de "teoria" com o epistemológico, que é chamada de "a teoria da evolução é só uma teoria". Eu disse que seria uma distorção do argumento "teoria da evolução dos talheres" dizer o Sabino defende a falácia anterior e que a AnswersInGenesis já refutou-a desincentivando-a. Luciano  negou que é uma falácia e que o problema é meu se eu não a sei responder com algo como: «sim, é só uma teoria, mas é uma teoria que É VÁLIDA, e a sua não é».

  5. Segundo Luciano, o criacionismo e memética são teorias científicas ou fazem parte da ciência, apesar de não serem suportadas pelo método científico. Depois disse que o criacionismo é uma má teoria científica, porque não passou o método científico.

  6. "Não X, quer dizer que Y", "não faz sentido dizer que não X, nem Y" - segundo Luciano, se X e Y forem "ser bom" e "ser mau", as frases referem-se a juízos de valor e são falsas analogias como contra-exemplos a frases onde X e Y sejam "corrige-se" e "evita correcções".

  7. Luciano: (...)
    a) «o pessoal que tratou da memética é relaxado. Isso implicaria, na aplicação do modelo, em ter que dizer: “ciência é relaxada» (...)
    b) (...) «“os teóricos do aquecimento global não aceitam correção” tem que ser transformada em “ciência não se corrige»
    c) (...) «eu não acho que ciência se corrige, e nem evita correções»
    Contra-exemplo: "Ele teve aquele deslize, mas é boa pessoa"
    Resposta de Luciano: «não serve como exemplo, pois ter um deslize não implica em não ser boa pessoa. a analogia seria válida se fosse ‘ele teve deslizes e ELE NUNCA TEVE deslizes’ na mesma sentença.»

  8. Cerca de 72% de "Ciência vs Religião: um retardo" dedica-se a discutir a expressão "ciência corrige-se". No restante declara que a ciência é uma actividade profissional expressa fisicamente e que a religião é uma prática espiritual não-profissional. Mas mostra como esses atributos levam a concluir que a ciência e religião não podem estar em conflito.

  9. Os textos de Luciano são disputas de significados atribuídos a termos em frases do que ele propõe responder. Daí ser inadmissível que se diga que a Ciência tem erros ou que a Literatura produz registros da linguagem.

  10. Luciano comparando um argumento sobre "ciência corrige-se" com exemplo em que a Política vence derrotando-se substituindo-se. Num trecho apresentei o Universo, a Política e a Culinária como exemplos para mostrar que não é por ser uma entidade maior que não faz sentido dizer que a Política vence e derrota-se e substitui-se. Luciano, a isso, "respondeu" que não adianta "citar" o exemplo "de uma ferida que cicatrizou" e "o braço se curou", porque o braço não é uma entidade maior nem uma área de conhecimento.

  11. Não é possível vencer e ser derrotado no mesmo contexto, porque as duas acções são opostas.

  12. Não é possível substituir a si mesmo. O substituído perde uma propriedade ao ser transferida para o que o substitui.

  13. É um non sequitur dizer que a transitividade de uma propriedade não se aplica a uma entidade por ser a maior.  Na falácia da composição ser o maior não é uma excepção à regra e entidades maiores têm partes com propriedade transitivas, as indivisíveis é que não.
~

Para consultar os artigos e comentários que referi, notei hoje que parece que o Luciano tem estado a ler o meu blog, pois publicou um novo artigo para responder a um dos meus. Tem as características que tenho exposto na série, mas pelo menos colocou no final algumas sugestões. Lá encontramos expressões como: «apelar à minha piedade», «sua eterna tentativa de sofística», «seus “duplos” aparecem para postar seus textos aqui», «tenta impor um ardil»,«tenta defender ardorosamente a sua idéia de que ciência X religião», «COMPONENTE DE AUTO-AJUDA que os gurus neo ateus», «Pedro segue, fanaticamente», «cerebrinhos vulneráveis como os de Pedro Amaral», «sua eterna tentativa de validar os seus gurus», «Como Pedro sabe que não vai tentar conseguir», «lembrem-se que o cerebrinho dele foi lavado, portanto sem a falsa dicotomia ciência X religião, as muletas dele são quebradas», «estratagemas do Pedro», «o máximo que ele consegue é implementar erística ou sofística», «Foi uma edição, feita por adversário desonesto», «qualquer um que não é retardado consegue perceber», «qualquer pessoa com um QI no mínimo mediano já teria entendido», «todo o cirquinho dele de analogias», «o mesmo aviso que já dei aos amiguinhos dele», «Ô Pedro, burrinho», «Pedro irá fingir que eu não escrevi isso». Comparem com o que ele diz ser "leitura de pensamento" e quando acusa os outros de serem mal-educados e anti-sociais.

O artigo dele tem 15914 caracteres para responder a um artigo com 7575, incluíndo citações, «"(continuação do artigo anterior)"», "(continua)", referências e símbolos para estruturar o texto. Retirando as citações, o artigo dele tem 9244 caracteres e o meu tem 4422. Nos dois casos, o meu artigo é cerca de metade do tamanho. Se alguém fizer acusações, verifiquem realmente se é verdade, nem que façam contas, como no caso do prolixo. E pensem se elas são importantes, mesmo se fossem verdade (Schopenhauer também era prolixo...).


Deixo também umas sugestões dirigidas ao Luciano, que deve estar a ler este artigo:

  1. Nunca faça ataques pessoais se não fazem parte do argumento, e nunca atribua termos preconceituosos. Releia os seus artigos publicados e siga os seus próprios conselhos, especialmente sobre o que chamas de "estratagemas". Tu és um modelo para os leitores.

  2. Procure identificar quem são os objectos ou destinatários de um argumento e o que é argumentado. Se é só para respondê-lo, não o faça para além do que lá está, mesmo que conheça quem argumenta ou saibas que contra-argumenta contra uma parcela de um texto. Se o fizeres, tu é que estás a fugir ao assunto e a complicá-lo.

  3. Antes de dizer que alguém disse algo, tenha o texto com as suas palavras ao lado ou ouça-o, cite-os e coloque referências onde você estiver a responder. Recorrendo apenas à memória eleva o risco de enganos e não ajuda a verificarmos as alegações.

  4. Os sofistas tinham o hábito de fazer jogos de palavras, tinham o poder da palavra. Mas num debate lógico, entende-se que as palavras convenções e podem ser substituídas por incógnitas para a estrutura ser estudada. Use os termos com os significados atribuídos pelos adversários se pretende ter um debate lógico, ao invés de semântico. Siga o seu conselho: pergunte-os. Fiz perguntas sobre as suas definições no Que Treta!, tal como no seu blog, e deixou de respondê-las para fugires do assunto, com insinuações e para discussões semânticas sobre a palavra "religião". Qualquer um pode lá verificar.

  5. Para discutir sobre um grupo, as suas ideias e usar os seus termos, leia o que os seus membros escrevem, assista os seus vídeos, fale e escreva com eles. Por exemplo, sabe o que significa "criacionismo" e "design inteligente"?

  6. Pergunte a diversas pessoas arbitrariamente que não tenham lido o seu blog se o criacionismo é suportado pelo método científico e porquê. Supostamente o divino, transcendental, sobrenatural e sagrado são do domínio espiritual. Pergunte também se o criacionismo não foca no trabalho espiritual e porquê. Pergunte a criacionistas porque é que defendem o criacionismo.

  7. Pergunte a cientistas o que é uma teoria científica, qual é a distinção entre teoria e hipótese, se o criacionismo é uma teoria científica e porquê. Faça as mesmas perguntas a criacionistas. [dicas: Projecto Ockham; Wikipedia; Espaço Científico Cultural; Jornal da Ciência; ]
Pergunte aos outros como entendem os seus textos. Só depois diga que outros são desonestos e cometeram fraude. E chame burrinho a todos os que não aceitam as suas terminologias.

Cumprimentos

(fim)

26 outubro, 2009

Modelos entre guerras - não mostrou

(continuação do artigo anterior)

Neste artigo mostro que podemos distorcer os nossos próprios argumentos, no sentido de não demonstrarmos (ou mostrarmos) o que propunhamos inicialmente como conclusão, concluíndo outra coisa (quer a conclusão seja verdadeira ou falsa).

1) A Política e entidade maior:

Segundo Luciano não mostrei que «A Política ganhou a eleição, vencendo a Política por 11% de votos. Política substitui a Política, que entregará o cargo em 10 de Janeiro» não faz sentido, porque «a interpretação dependeria» «de uma extensa justificação» (prolixo?). Podem ler o contexto das frases aqui.

Dizer que ganhei vencendo-me e substituí-me também não faz sentido. Só se substitui por algo diferente e não se pode ganhar e vencer no mesmo contexto (exemplo: posso ganhar e perder um jogo em situações diferentes, mas não posso fazer os dois ao mesmo tempo). Substituir implica que o que substitui seja diferente do que é substituído. Vencer e ser derrotado implica uma competição - como no caso das eleições -, excepto se tiverem o mesmo significado de "superar-se" (melhorar-se), ou quando se diz "derrotar-se" ou "deixar-se vencer" (desistir, arruinar-se), ou que "venceu o prazo" (terminou o prazo), ... - as palavras têm vários significados.
~

Tinha abordado a componente competitiva remetendo o "substitui" para o ponto 2. O modo como me tinha expressado pode não ter sido muito bom, mas foi suficiente. O que escrevi no parágrafo anterior é suficiente para mostrar que a frase não faz sentido, mas posso explicar-me melhor:

O que vence eleições é os partidos. Neste contexto a Política tem partidos. Se os partidos competem entre si, não faz sentido dizer que o conjunto dos partidos, ou a Política, vence ou ganha. Mas as relações de cooperação dos membros são atribuídos ao conjunto. É o caso das coligações, blocos e aliados, no contexto político (players: políticos). Na guerra também é o caso dos exércitos (players: soldados). Foi esse o género de contra-exemplos, baseados nos exemplos de Luciano, que diz serem red herrings (fuga do assunto), mas não explica porquê, nem que género de red herrings são, dizendo apenas que «nada tem a ver com o» seu «argumento original» (é apenas a definição de red herring).

Exemplo e contra-exemplo, para ser mais claro:
Nos partidos também existem eleições. Por exemplo, os militantes elegem por votos o secretário-geral do partido, que normalmente candidata-se para Primeiro Ministro. Apesar de em eleições em que partidos competem entre si faça sentido dizer que um partido venceu-as e substituiu outro, nunca faz sentido dizer que um partido venceu as eleições derrotando-se e substituindo-se.

Quer seja verdade ou não, "a Ciência venceu a Religião", "a Religião venceu a Ciência", "a Ciência substituiu a Religião" e "a Religião substitui a Ciência" fazem sentido (têm significado, são proposições). Quer dizer que uma diminui  a influência da outra, ou extinguiu a outra, e que as funções atribuídas a uma passaram a ser da outra. Mas "a Ciência venceu derrotando a Ciência substituindo a Ciência" não faz sentido. O que significa?

Nota: Se alguém perguntar por que é que as frases indicadas por Luciano não fazem sentido, é assim que respondo. (n1) Mas é preciso salientar que no seu argumento são tomadas outras considerações que, apesar da explicação que dei ser válida, poderão ser levantadas como objecção, nomeadamente: "a Política é uma entidade maior". Respondo-a a seguir (respondo a questão da atribuição de «todas as ações dos players» para uma próxima).
~

O que faz nuns casos fazer sentido e noutros não, é as propriedades. Não interessa se é uma "entidade maior" ou não. Consideremos o Universo como tudo o que existe. O planeta Terra tem humanos. O Universo tem o planeta Terra. Logo o Universo tem humanos. Formalmente: H T ∧ T U → H U. Na Matemática dizemos que B é uma relação binária transitiva. Se a Política tem partidos e os partidos têm políticos, a Política tem políticos.

Existem actividades e instituições que dizemos que produzem, como a Culinária e restaurantes que produzem alimentos. Se uma propriedade for quantitativa, é possível que a propriedade do todo seja a média do todo, como a classificação de um júri. [ilustração]

Vitorioso, derrotado, substituto e substituído não fazem parte desses tipos de propriedades - só fazem sentido se aplicadas a indivíduos e entidades homogéneas em relação a outras entidades. Um grupo competitivo é heterogéneo - os seus membros estão em conflito. Um grupo cooperativo é homogéneo.
~

Se mostrarem um exemplo de não-"entidade maior" que vença a si mesmo e que substitua a si mesmo, que tenha sentido, os argumentos são refutados. Aliás, para que o argumento de Luciano fosse válido, era o que devia ter feito - afinal de contas, se em nenhum contexto faz sentido, a conclusão dele e a condição de "entidade maior" são irrelevantes (ou como ele diz: "não tem valor argumentativo"). Só conclui-se que as frases não fazem sentido.

(n1) Nota: originalmente a objecção era meramente que afirmar «que o todo possui a mesma propriedade de suas partes ou de uma de suas partes» é um «erro lógico grotesco» de quem «não conhece o guia de falácias ou a natureza desta falácia citada» [p.3] Só na quarta parte da série é que tinha usado o termo "entidade maior" (duas vezes), definido como «o “guarda-chuva” em cima do todo», mas sem que fosse uma condição especial. Nos comentários passou a ser uma exigência, ignorando o argumento original. O único outro artigo com "entidade maior" é o "Pedro Amaral in Wonderland", que estou a responder.


2) "Ciência corrige-se" e Ciência X Religião:
[Bx.y]: ponto y de Bizarrizes do artigo [x], no artigo de Luciano. Exemplo: [B1.1] começa com «Ele afirma».

Luciano diz que minto [B1.1] e que ando perdido [B2.1] porque o artigo (que diz que tentei refutar) era sobre a «falsa dicotomia entre ciência X religião» (nos artigos anteriores era «conflito entre ciência e religião»). Para já, o que respondi foi aos argumentos indicados por Luciano. A via que ele opta para defender que não existe «dicotomia entre ciência X religião» é por discussões semânticas, discutindo o significado de "ciência corrige-se" (como podem verificar se lerem os textos dele: [1], [2], [3], [4]). Segundo ele, pelas definições que apresentou, «é impossível que “ciência se corrija”». E que «“ciência se corrige” como “ciência não se corrige” são afirmações equivocadas». (n2)

Se todos os argumentos de Luciano forem inválidos, não significa que a Ciência corrige-se ou não, nem que existe ou não um conflito entre a Ciência e Religião. Dizer o contrário seria cometer uma falácia da falácia (Argumentum ad Logicam). Mesmo que achasse que apenas um único argumento é inválido, é legítimo tentá-lo refutá-lo. Poderia concordar com as conclusões, mas rejeitar as premissas e considerar os argumentos inválidos. Portanto, se não defendo nos argumentos que existe conflito entre Ciência e Religião, é um red herring (Ignoratio Elenchi) pretender responder-me dizendo que não refutei a premissa de que não há esse conflito ou dicotomia, ou porque não respondi outros argumentos. Se inferirem do que digo que a Religião corrige-se ou não se corrige, fizeram-no por conta própria. «Tu o dizes.»

Para podermos avaliar a premissa de que a Ciência corrige-se e a Religião não, é preciso decidirmos o que significam "Ciência corrige-se" e "Religião corrige-se" - por isso é natural que me dedique primeiro a essa questão. Quem usa essas expressões é que deve explicá-las. Não é atribuindo conceitos a essas expressões sem consultar quem os usa que se refuta a alegação. E é preciso explicar por que é que se algo corrige-se e outro não, então os dois estão em conflito. Se nunca se mostrou a dependência das duas questões, então Luciano não pôde ter mostrado que não há o tal conflito, ou dicotomia, nem quem usa a "Ciência corrige-se" para dizer que há esse conflito (red herring, ou falácia da conclusão irrelevante). Ou seja, Luciano não demonstrou o que propôs demonstrar, cingindo-se a discussões semânticas.

(n2) Nota: Ironicamente, num artigo com uma lista de exemplos de características dos que chama "neo ateus", ele faz referência à Novilíngua (da obra 1984), com uma ligação para a Wikipedia. Tal como indicado por personagens da obra (que li e citei diversas vezes), na Wikipedia é dito que «novilíngua era desenvolvida não pela criação de novas palavras, mas pela "condensação" e "remoção"de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o escopo do pensamento. Uma vez que as pessoas não pudessem se referir a algo, isso passaria a não existir.» (...) «Ao contrário das outras línguas, onde cada vez mais são anexadas novas gírias e conceitos, a novilíngua retira termos, como antónimos e sinónimos.»

25 outubro, 2009

Modelos entre guerras - fora do contexto

(continuação do artigo anterior)

Sou acusado no artigo de Luciano de distorcê-lo e fugir ao assunto. Mas, que ele me desculpe, acredito que ele é que me distorce e foge ao assunto. Não estou a dizer que é intencional. Podemos não ler correctamente as frases e textos, especialmente num monitor: lemos à pressa, estamos cansados, escapam-nos palavras, temos preconceitos que nos levam a parecer que as palavras são outras, etc. Já me aconteceu, por exemplo, com debates com criacionistas. É irrelevante para efeitos de debate se é ou não intencional. O que interessa é que se forem detectados, que o rumo do debate deixe de incluir as incorrecções. E, para nós próprios, interessa que aprendamos com os erros.


1) Criacionismo e xadrez:
Acho que quem lê o contexto do que me é citado verifica claramente que não corresponde ao que me é acusado. Por exemplo, no último ponto das suas respostas ele cita «pode faltar uma condição para eu ser campeão de xadrez, que é ganhar um campeonato de xadrez, tal como falta a aplicação do método científico no criacionismo para ser ciência» e diz que isso é fugir ao assunto. Ironicamente essa frase encontra-se numa secção com o título "Falsas analogias e maus argumentos" e é usada para dar um exemplo de distorção daquilo que digo para que seja dito que fiz uma falsa analogia [leiam também nos objectivos: (...) «responder às acusações de que cometo falsas analogias» (...)].

No primeiro parágrafo digo que ele costuma fazer-me essa acusação e apresento condições para demonstrar que houve essa falácia.

O segundo parágrafo serve para apresentar um exemplo, que julgo ser fácil de perceber («Apresento um exemplo em que ele diz que sou ruim em analogias.») É irrelevante se é sobre o criacionismo, ou outra coisa qualquer: é só um exemplo. A questão é que para dizer que sou ruim em analogias, distorce o que digo e argumenta contra outra coisa (falácia do homem-palha; «Jogar xadrez não implica em campeão de xadrez, mas sim em ser um enxadrista.»), e mantém a premissa que eu pus em causa, ignorando o que eu realmente disseO criacionismo é ciência de amadores. Já foi substituido pelo design inteligente.»). O que Luciano citou é uma explicação da minha comparação no contexto: (...) «é como dizer "que sou um campeão de xadrez só porque jogo xadrez"».

No terceiro parágrafo fiz referência a um artigo onde refuto uma falsa analogia criacionista (a teoria da evolução dos talheres) e dou um exemplo de distorção do argumento criacionista ("a Teoria da Evolução é só uma teoria"). No final sugiro que leiam o contexto original daqueles que respondemos. Portanto, sugiro que leiam o meu texto original e comparem-no com o que Luciano respondeu.

Argumentar com base numa citação fora do contexto é uma faláciaUm texto sem contexto, é pretexto


2) Bom e mau:
No primeiro ponto da mesma secção (Bizarrices do artigo [3]) ele diz que tento supor o que ele pensou, porque não escreveu sobre "bom" e "mau" e raramente escreve sobre juízos de valor. Mas se lerem o que ele citou, podem reparar que não é isso que digo sobre ele. Comparem o parágrafo:
«Talvez para ele quando se diz que algo não é bom, quer dizer que é mau, por isso não faz sentido dizer que algo não é bom, nem é mau. E uma pessoa boa tem de ser perfeita – se faz algumas maldades, não pode ser considerada boa.»
com o ponto 4 de p.3.2.1: «Dizer "x corrige-se e evita correcções" não é uma contradição, do mesmo modo que dizer "x condena e salva" não é uma contradição.», que responde a este argumento: «Provavelmente ele pensou que eu, ao questionar a expressão “ciência se corrige” estava automaticamente dizendo que “ciência não se corrige”. Não, eu não acho que ciência se corrige, e nem evita correções.», que introduz um argumento onde se ignora a Lei do Terceiro Excluído: (...) «não é possível que “ciência se corrige” e “ciência não se corrige” estejam juntas, pois são logicamente contraditórias. Ou é um ou é outro. Mas, na ação de players, ambas ocorrem.».

Portanto, generalizando, ao dizer que X faz/é Y, então é impossível que X não faz/é Y. Com o "talvez para ele" estou a sugerir uma implicação do seu argumento usando casos particulares usados no dia-a-dia, tal como "não gosto nem desgosto", "não é bom nem mau", "ele teve aquele deslize, mas é boa pessoa", etc. Nesses casos notamos que o argumento de Luciano é inválido - não é consistente com o uso comum da linguagem. (n1) Comparem também com os  exemplos do 2º parágrafo da secção "Falácia de composição, essência e acidente" de p.1 . O que eu fiz foi usar contra-exemplos, como também é feito em Fallacy Files.


Notas:
(n1) Tinha-me esquecido da palavra "diferente" no parágrafo em questão. Devia ter escrito: «Entramos num mundo onde a linguagem é completamente diferente daquela que estamos habituados.» (o "completamente" é um exagero)
Numa disjunção de duas proposições contraditórias, se uma delas é falsa, conclui-se que a outra é verdadeira: (¬x ∨ x) ∧ ¬x  → x



3) Móveis e literatura:
Luciano afirma que os exemplos da cadeira e do livro, em p.1 1.e), são falácias do homem-palha com falsas analogias, porque não entendi «ainda o exemplo da entidade maior» (ler próximo artigo): deviam ter sido móveis e literatura. Nesse ítem digo que no argumento com a analogia da Política ele atribui-me a defesa da falácia da composição: «Luciano argumenta como se eu defendesse a falácia da composição, no entanto as teorias não se corrigem.» Como nota, acrescentei que apesar disso, «existem excepções à regra». O exemplo da cadeira e do livro são simples e do dia-a-dia - são fáceis de perceber. As falsas analogias dependem do que se pretende concluir com as analogias delas. Nesse caso nem eram analogias: eram exemplos de "excepções à regra". (Estava a comparar com o quê para serem falsas analogias?)

Notas: 
Também tinha usado como exemplos o exército, o ministério, o júri e o povo. "Móveis" e "móvel" não são nomes colectivos - pode ser dito «os móveis foram queimados». Na Rede Psi é dito que a «literatura produz muito mais do que o simples registro da linguagem». Em "História e linguagens: texto, imagem, oralidade e representações" é dito que a «literatura produz sentimentos». Também produz «o registro da linguagem», «transmissão da experiência», etc. ("Só porque os outros dizem..." - Resposta daqui a dois artigos)



Para concluir:
No próximo artigo escrevo mais sobre distorções. Espero que compreendam a necessidade de dividir as respostas em vários artigos. Existem vários argumentos e contra-argumentos de diferentes géneros e estou a respondê-los tentando evitar o prolixo. Volto a frisar: leiam os textos que são criticados. A suas descrições nas críticas podem não corresponder à verdade, mesmo que lhes seja atribuída a falácia do homem-palha. E antes de fazerem tal acusação, verifiquem os contextos das frases: podem estar a fazer uma injustiça sem que saibam.

Apesar das notas esboçarem argumentos de outra natureza, o propósito deste artigo é apenas mostrar que no artigo de Luciano partes dos meus textos foram distorcidas, sendo citadas fora do contexto. Lembro que não devem fazer ataques pessoais, dizendo que tenho medo por não me ter debruçado noutros assuntos. Eles serão tratados - as notas lembram-no.

(continua)

24 outubro, 2009

Modelos entre guerras - contra pessoas

(continuação do artigo anterior)

As conclusões de um artigo que Luciano comenta começam com uma secção intitulada como "Mundo de Alice". Referia-me às discussões semânticas de Alice com, por exemplo, o Chapeleiro Louco e Humpty Dump, que a confundem, em "Alice's Adventures in Wonderland" e "Through the Looking Glass and what Alice found there" [adquiri "The Complete Illustrated Works of Lewis Carroll", com ambas as histórias, por 10,95€ na Livraria Bertrand]. Esse título serviu de base para o título do artigo de Luciano: Pedro Amaral in Wonderland. No final ele responde aos meus artigos, mas dedica a maior parte do texto a descrever-me, inclusivé com especulações psicanalíticas («Não sei se é algum trauma de infância ou coisa do tipo» (...)] Comete até o que chama de Técnica da Leitura Mental.

Por exemplo, ele diz que tenho medo de responder no seu blog: «o Pedro vai, de novo, correr para o colo de seus amiguinhos, pois possui medo de vir a esse blog» (...) «se ele se traumatiza tanto quando eu refuto as expressões do livro do Carl Sagan» (...).

Como resposta à minha frase «Penso que Luciano, responsável pelo blog Neo-Ateísmo, Um Delírio, refugia-se em discussões de semântica ao invés de discutir o que existe e acontece de facto.», ele diz que é «apenas uma mentira» minha. Se o sentido literal da resposta dada fosse realmente o que queria transmitir, ele estaria a dizer que o que eu penso é mentira - mas suponho que foi apenas falta de atenção ou uma gafe ao exprimir-se. Mas, para além de parecer que me acusa de dizer falsidades intencionalmente, podemos verificar que tenho razões para pensar o que disse. O que Luciano discute nos seus quatro artigos é o significado e validade da expressão "a ciência corrige-se" (para além dos significados de "religião" e "pensamento" noutras discussões). Exemplos no primeiro deles:
  • «Essa turminha com certeza está com algum problema de interpretação básica de conceitos, e até com falhas graves no uso da linguagem estruturada.» (...)
  • «não tem a minima noção do que ciência significa» (...) «tipo de distorção do que significa “a ciência”» (...)
  • «dá mais a impressão de que tal pérola tenha sido escrita por algum disléxico» (...)
  • «Notaram que, por essas definições, é impossível que “ciência se corrija”?» (...)
  • «A definição de ciência segue a mesma de sempre.»
Para além de me acusar de prolixo, ele diz que entre os três artigos, só encontrei um único erro nos seus argumentos, na frase «seria impossível a ciência se corrigir, pois ela não estava errada», e que «boa parte da trilogia de "refutação"» fundamenta-se nessa frase e que apego a «essa frase, como se fosse o OURO para» mim, mas que para ele «não passa de MERDA», porque «os outros dois artigos justamente com uma nova abordagem, permitindo a retificação de pontas abertas do primeiro artigo».

Respondi a artigos que no total perfazem 15 páginas com 49550 caracteres:
Nos meus artigos que Luciano respondeu (mais uma página nos dois primeiros contando com as imagens):
  • ... p.3.1: 4 páginas; 12488 caracteres;
  • ... p.3.2.1: 5 páginas; 14569 caracteres;
  • ... p.3.2.2: 3 páginas; 8407 caracteres;
As respostas foram numeradas para que fossem referenciadas facilmente, tanto por mim, como nas críticas. Respondi à tal proposição (da frase que supostamente apego) em parte na primeira secção de p.3.2.2 (implicitamente) e no ponto 3 e em 4.b), de p.3.2.1. A totalidade dessa primeira secção, os pontos indicados e as citações iniciais nem fazem uma página inteira - tudo isso corresponde a cerca de 8% do conjunto dos artigos. Mas em todos os artigos indicados de Luciano está uma referência a esse argumento, geralmente associado ao argumento de que "ciência corrige-se" é uma falácia de composição:
  • parte 4) «Se um modelo matemático do sistema solar prevê um eclipse e não ocorre o evento, é evidente que o modelo está errado, mas não a ciência.» (...) «Só que isso é totalmente falso, pois na verdade o conjunto das teorias científicas é APENAS uma das partes da ciência.»
  •  parte 3) «É um absurdo afirmar que durante a rotina das vendas, ao se alterar uma oportunidade para “Dead ” (ou seja, alguém pensou que seria uma venda, mas não foi, que é o mesmo que o erro de uma teoria científica), isso implicaria em “O CRM errou e se corrigiu”. Claro que não se corrigiu, pois o sistema já está incorporando essa avaliação.»
  • parte 2) (...) «Popper escreveu “que ciência é uma das atividades humanas nas quais erros são sistematizamente criticados e corrigidos em seu devido tempo” e não “ciência é uma entidade que erra, se critica e corrige seus erros”.»
  • Ciência x Religião) «A ciência só poderia se corrigir se a ciência estivesse errada. Mas não estava. A definição de ciência segue a mesma de sempre.» 
Mas se não fosse assim, não seria legítimo mostrar um único um erro num argumento entre vários? Acho que em vez de insultar quem descobre os meus erros, por mais insignificantes ou irrelevantes que sejam para um argumento, eu devo dar valor devido à descoberta e a quem o descobriu, seja quais tivessem sido as suas intenções. Não desejo estar errado sem sabê-lo: pelo contrário. E os outros ajudam-me a descobrirem os erros.


Para concluir
No próximo artigo respondo às acusações de distorção e mostro como o sentido das minhas frases foram distorcidas. Será que vou ser acusado de me dedicar a responder às acusações feitas a mim? Luciano dedicou quase 3 páginas com 7733 caracteres do no seu artigo a dizer que sou assim-e-assado, incluindo a conclusão. Dedicou outras 2 páginas a responder aos meus artigos como "bizarrices", com 7399 caracteres, apesar de conter o mesmo espírito do resto do artigo. Há que aprender quais são os efeitos nos argumentos com os insultos que fazemos aos outros. E essa postura pode ser contagiosa.

Por exemplo, houve o hábito de ateus acusarem Luciano de censura, apagando ou editando comentários. Ele demorou a aceitar o meu primeiro comentário e removeu links de alguns comentários que enviei - mas acho que nunca os apagou nem os adulterou como dão a entender. É irrelevante, especialmente tendo em conta que estou a escrever aqui, neste blog. Luciano fez o mesmo em relação ao Que Treta!: «O meu blog anda recebendo muitas visitas» (...) «dedicarei as poucas horas que tenho disponíveis para blogar exclusivametne ao meu blog, e não virei mais cá, pois isso toma tempo.» (...) «As próximas respostas serão feitas diretamente em meu blog.» Mas não lhe acusei de ter medo por isso - seria irrelevante. Nuno Gaspar, num comentário, seguiu o exemplo de Luciano, afirmando que tocou-me «no nervo e» eu desatei «aos pinotes a arrufar referências avulsas e desconexas». Entretanto, as respostas aos meus argumentos ficam em segundo plano ou ignoradas. Proponho que mudem essa postura.

(continua)