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13 junho, 2010

Re: A diferença é ser treta

¶1 Ludwig num artigo disse que não concorda «que o Estado gaste dinheiro a contratar padres para os hospitais, a subsidiar a vinda do Papa ou a pagar professores de religião nas escolas públicas» dando como exemplo a «Maia, dos livros da Alexandra Solnado ou do pessoal que fala com os mortos quem enfiar o barrete e julgar que aquilo é mesmo verdade» para explicar as razões.

¶2 Muitos católicos criticaram o modo como foi preparada a vinda do Papa. João César das Neves tinha comentado: «Enquanto os ateus e não-cristãos portugueses foram em geral respeitadores, as críticas, algumas violentas, vieram quase só de quem se diz católico.» Nas críticas houve referências sobre a separação entre Estado e religião, mas não por causa da visita em si, mas pelo incómodo causado aos utentes e despesas exorbitantes do Estado, ainda por cima em crise financeira:
«Consultas e cirurgias adiadas e serviços de saúde a meio gás serão consequências da tolerância de ponto concedido nos dias 11, 13 e 14 de Maio devido à visita do papa e que os utentes criticam. A tolerância de ponto foi decretada pelo Governo» ... «Uma das consequências desta concessão sentir-se-á nos serviços de saúde pública. Hospitais e centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde não vão funcionar como se fosse feriado ou fim-de-semana. | Por esta razão, as consultas e as cirurgias programadas irão realizar nestas instituições. | A medida não agrada ao Movimento dos Utentes dos Serviços de Saúde, com o seu presidente, Manuel Vilas Boas, a lembrar que Portugal tem "um regime republicano e laico" e, por isso, "não tem de obedecer às regras religiosas".» ... «O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) acusa o Governo de ser "incoerente" ao conceder tolerância de ponto para a visita do Papa, o que deverá deixar os serviços de saúde como se existisse uma greve no sector.»
- Global, 6 de Maio de 2010
«É verdade que somos um País maioritariamente católico (inclui-me nos 88% da população que o assume), mas o nosso Estado é laico. É verdade que a vista de um Papa a Portugal acontece poucas vezes, mas o mesmo acontece com outros chefes de Estado. É verdade que as missas papais mobilizam milhares de fiéis com os respectivos condicionantes de trânsito, mas isso também acontece quando há mega-manifestações, e os exemplos são recentes, ou um um europeu de futebol. Tudo isto para concluir que apesar de considerar que Bento XVI deve ser devidamente recebido e que a sua visita deve mobilizar todos os meios humanos e técnicos considerados indispensáveis, apesar de pensar que Cavaco Silva faz bem em acompanhar os momentos públicos de Joseph Ratzinger no nosso País e até aceitar que o Papa deve ser tratado de forma especial, acho que as medidas enunciadas pelo Governo são exageradas. Quais são as razões para as escolas fecharem dia 13, por exemplo? Isso significa que muitos pais faltarão ao trabalho para ficar com elas. E porque foi decretada tolerância de ponto para Lisboa e Porto nas tardes dos dias 11 e 14? Só se for para um hospital ter argumentos para me desmarcar uma consulta nesse dia... às nove da manhã. Um dia de paragem de produtividade no País tem custos. E estes, fazem sentido?»
- Filomena Martins, directora adjunta do Diário de Notícias
¶3 Não podemos também criticar os elefantes brancos? O TGV não tem a ver com religião, por isso não faz qualquer sentido invocar a separação entre Estado e religião. Isso só permite que se fuja da questão, especialmente se for colocada por ateus. Note-se que João Paulo II já tinha visitado Portugal e, que eu saiba, não houve esses problemas.

¶4 Discordo com a opinião de que o Estado não deve suportar a assistência de padres por as crenças religiosas serem treta. Seria errado o Estado pagar a actores para se fazerem passar de Pai Natal nos hospitais? Pode dizer que não, mas se as resposta que deu era para quem considera que o Estado pode também pagar a esses actores, o argumento é mau: o Estado não reconhece que o Pai Natal exista e os adultos sabem que é um actor, ao contrário das crianças, a quem se destina os serviços.

¶5 Se a assistência de um padre ou do Pai Natal tem uma influência positiva na recuperação e bem-estar de um paciente, acho que o dinheiro está a ser usado para o fim específico dos estabelecimentos de saúde e que está a ser bem gasto. Afinal de contas, quem os recebe já tinha a crença. No entanto considero que não deve ser pago se o sacerdote aproveitar-se da situação do paciente, fazendo propaganda, transmitindo a ideia de que a recuperação deve-se a um poder sobrenatural ou de que não precisa do tratamento médico, ou até influenciar de modo a passar a recorrer a certos serviços, aderir comportamentos que não aderia ou ter uma crença que não tinha, como faria um astrólogo, em vez de simplesmente consolá-lo. E quem aceita essa razão, para ser consistente deve aceitar serviços que pessoalmente considerariam ridículos, como de uma stripper, que pode tornar o paciente mais alegre e dar-lhe mais sentido à vida. Caso contrário, podem estar a ser hipócritas. Considero o Pai Natal e o sacerdote ridículos, mas não devemos impor o que consideramos ridículos aos outros porque vivemos melhor com coisas ridículas.

¶6 Será que o Estado tem de pagar os pastéis de natas e a fábrica de ... "dito cujo" das Caldas da Rainha, apesar de serem culturas típicas de Portugal? Não é só por ser cultural que algo deve ser financiado pelo Estado. Seitas religiosas (inclusivé ateias) muito pequenas conseguem não só sobreviver muito bem, mas também conseguem ter sedes com equipamentos de impressão, para distribuição pelo mundo, e espaços de culto espalhados pelo mundo, mesmo sem que lhes paguem para realizarem casamentos, baptizados e funerais. Os padres recebem salário das arquidioceses, que por sua vez recebem os donativos e o dinheiro distribuído pelo Vaticano. Não é como investirem tempo e dinheiro numa pintura, num filme, numa música ou numa peça de teatro, para se expressarem livremente. E as obras de arte e os recintos são do Estado. O Estado não é dono das igrejas, nem as religiões pertencem ao Estado, que supostamente não recebe um tostão delas.

¶7 O Estado está dividido em poderes - Executivo, Legislativo, Judicial -, que estão separados entre si, mas não estão separados do Estado. Mas o Estado é separado da Igreja, que é outro poder. As igrejas católicas pertencem ao Vaticano, que tem as suas propriedades - não pertencem ao Estado. Podem pertencer nos jogos de computador de estratégia, como no Freeciv, para influenciar a população e arrecadar dinheiro, mas isso não é verdade num Estado laico. As pinturas religiosas podem pertencer ao Estado, mas as igrejas não. Os lucros vão para o Estado, não vão para o Vaticano. Mesmo aceitando financiamento de treta, ela deveria, pelo menos, estar em algo semelhante a uma biblioteca, onde sacerdotes informariam sobre as suas religiões, fariam os seus rituais de culto e prestariam os seus serviços. Mas não deveria servir para promover religiões nem discriminar umas de outras, que poderia servir pelo Estado para fins maliciosos ou para religiões influenciarem o Estado. Filmes e documentários sobre o Natal e a Páscoa têm interesse para a cultura, no sentido de conhecimento sobre as religiões, mas não fazer o mesmo com a outras religiões, é fazer propaganda subtil.

27 fevereiro, 2010

Burca

1¶ Simplesmente dizer que não entendem o que criticam não responde às críticas. Não passa de uma observação sem fundamento. Análises de argumentos pouco sofisticados são válidas e muitos são fruto de gente sofisticada. Se são tão maus, por que é que quem critica quem os refuta não concorda que existem e que tão maus como são? Se um ateu escreve ou fala sobre algo relacionado com religião, é provável que cristãos respondem fazendo observações sobre o que julgam ser as suas motivações, o seu conhecimento e sobre o seu desagrado em relação às escolhas dos assuntos pouco sofisticados. Pode ser catalogado de neo-ateu ou excessivamente laicista por algumas das suas opiniões, como o repúdio em relação à burca.

2¶ Pelos vistos, mesmo sem dizer que a burca é um símbolo religioso nem usar essa ideia em argumentos, agora basta um ateu criticar o uso da burca para que se concluir que pretende terminar com os símbolos religiosos. Como o meu crucifixo florescente... Mona Eltahawy, no New York Times, criticou esse tipo de ataques a quem é contra a burca, como aconteceu a Jack Straw. Ela é uma muçulmana que diz que o modo de apoiar as muçulmanas é opor-se aos islamofobas e à burca. E apresentou exemplos de casos em que muçulmanos opunham-se ao uso da burca, nem que seja pelo menos em certos casos por razões de segurança, como nas universidades onde homens podem usar burcas para entrarem nos dormitórios de mulheres. Segundo ela a burca é uma afronta para as muçulmanas e priva a identidade da mulher.

3¶ O lobby The Muslim Canadian Congress [O Congresso Canadiano Muçulmano] convocou o governo para que proibisse o uso da burca e nicab, que consideram ser um símbolo medieval do extremismo misoginista sem fundamento islâmico. Numa entrevista, o seu porta-voz Farzana Hassan afirmou numa entrevista que cobrir a cara é ocultar a sua identidade, sendo uma questão de segurança pública por ser uma práctica comum para se cometer crimes. Aliás, já se cometeram assaltos com burcas, talvez por homens. Em Inglaterra houve uma série de assaltos a joelharias, sem que os bandidos possam ser identificados pelas imagens das câmaras de vigilância [1; 2]. Um banco de Paris foi assaltado também por duas pessoas com burcas. Dois homens, confundidos como mulheres por usarem burca, assaltaram um banco na Bósnia. Na Carolina do Norte alguém vestido com uma burca assaltou um banco. Nem se sabe se foi um homem ou uma mulher, apesar das imagens gravadas:


Terroristas, bombistas suicidas e líderes radicais usam a burca para matar e escapar sem poderem ser identificados, como os ladrões, os carrascos e mercenários, como os ninjas. Na Itália é proibido por Lei cobrir a cara em locais públicos, ocultando a identidade (artigo 5º da lei nº 152, de 22 de Maio de 1975). Na Bélgica existem leis que proíbem o uso de máscaras em locais públicos, excepto durante o Carnaval. Na Turquia - com uma maioria muçulmana - há 85 anos que é proibido usar lenços que cubram a cabeça e pescoço (com excepções), o que é excessivo. O hijab, a al-mira, o xaile, o véu e o chador não cobrem o rosto como fazem a burca e o nicab. Esses dois últimos não são "bocados de panos" e nas outras vestes que também servem de símbolos religiosos, não existem razões para que sejam proibidas. Não se está a propor que se proíba as toucas das freiras, as túnicas dos padres e os quipás dos judeus. Assim é patente o ridículo quando acusam de proporem o fim dos símbolos religiosos, especialmente tendo em consideração que muçulmanos também propõem a proibição das burcas. Não espero que façam as mesmas acusações às muçulmanas que usam hijabs, ou até de um ministro francês muçulmano que diz que a maioria dos muçulmanos é contra a burca - ele é um deles, mas os acusadores, para serem consistentes, deviam mostrar também indignação em relação aos evangélicos cristãos que propõem que muçulmanos sejam expulsos da Europa através do preconceito e implicando que o multuculturalismo implica aceitar o crime.

5¶ Mesmo que existem razões para que não andem pessoas com a cara tapada, há quem compare com ironia o uso da burca com cirurgiões nos blocos operatórios, soldadores nos locais de trabalho, jogadores de hóquei no ringue, esquiadores nas montanhas nevadas, motociclistas numa mota, e uso de cachecóis e de máscaras para proteger a boca e evitar contágio, como se uma máscara de protecção que não impede a identificação tivesse os mesmos problemas da burca. Como se o uso da burca nos locais públicos, em lojas e bancos, tivesse as mesmas razões do uso de uma máscara própria para o local de trabalho ou privado. E como se quem usasse a burca permitisse identificar-se revelando o rosto ou ser revistada. O que interessa é as razões para as proibições, não a ideia abstracta do uso de máscara. A polícia pode possuir armas de fogo nos espaços públicos, mas os civis não podem. Mas podem fazê-lo em locais privados, desde que tenham um certificado, documentos e sigam regras impostas pela Lei. Não vão usar o mesmo tipo de argumentos para defender que haja o direito de possuir e usar armas nas ruas, nas lojas, nos transportes públicos, nos bancos, nas escolas e locais de seviços públicos, pois não? Não esperem que se aceite, por exemplo, que se use máscaras de esqui nas mesmas condições como querem que se permita com a burca.

17 janeiro, 2010

Caridade, organizações, hipocrisia

¶1 Neste mês doei 100€ à UNICEF para ajudar a combater a malária, comprando 25 redes mosquiteiras, mais 100€ à Cruz Vermelha, para financiar os voluntários no Haiti. Com isso posso fazer descontos no IRC com recibos e receber prémios na Amazon, apesar de ignorá-los. Hoje comprei um vela para uma campanha do Hospital de Santa Maria. Por vezes, quando vou trabalhar e chego a casa, sou um bom samaritano que paga bilhetes e almoços e que ajuda uma senhora a transportar o carrinho com o seu bebé, recebendo um "Deus te pague". Uma colega de trabalho já me apanhou em flagrante a pagar um bilhete para o comboio a uma desconhecida. Mas nunca salvei a vida de alguém, como fez o meu pai, ao atirar-se ao mar dos Açores para salvar um homem que se afogava. Penso que normalmente esses actos não são divulgados e os doadores são anónimos - excepto entre celebridades e quando há o objectivo de proseletismo.

¶2 Nos Estados Unidos da América o sector que costuma receber mais donativos em dinheiro é o religioso (~35%), à frente da educação (~13%), da saúde, das ajudas humanitárias, dos benefícios públicos e sociais, da Cultura, do Ambiente e dos Assuntos Internacionais. E é o país com maior doações em dinheiro. A seguir estão por ordem decrescente: Reino Unido (que dá quase metade dos EUA), o Japão, a França, a Alemanha, a Holanda, a Suécia, a Espanha, o Canadá, ... Mas a Suécia, a Noruega e Luxemburgo são os que dão mais do seu produto nacional bruto - os EUA nem estão entre os 30 primeiros. E os americanos que mais doaram foram bilionários ateus: Warrent Buffet (31 biliões de dólares) e Andrew Carnegie (7,2 biliões de dólares). E foi um ateu filantropista que fez a maior doação de sempre a uma igreja - 22,5 milhões de dólares de Robert Wilson. [1; 2; 3; 4; 5; 6; 7; 8]

¶3 Por outro lado são questionáveis as motivações e fins de doações a organizações religiosas, para além dos estatutos de santos. Em Novembro do ano anterior a Igreja Católica em Washington ameaçou o Estado, negando a prestação de serviços sociais se a lei de casamento do mesmo sexo não fosse alterada. Madre Teresa de Calcutá recebeu 1.25 milhões de dólares roubados de Keating, 1.4 milhões de dólares do ditador corrupto do Haiti, Duvalier, 20 milhões de dólares não declarados da KGB pagos a Robert Hanssen e fundos para 150 conventos do corrupto Robert Maxwell - usaram o nome de Madre Teresa, que exigiu contribuições em troca. No entanto o dinheiro não foi usado para aliviar o sofrimento e tratar doenças - pelo contrário, ela promovia a ideia de que o sofrimento dos pobres é bonito «para partilhar a Paixão de Cristo», que é um dom de Deus e um bem para o Mundo. Os pobres e doentes ficavam deitados num tapete, no chão, defecavam na presença uns dos outros e não lhes era permitido visitas de amigos e familiares. As freiras eram obrigadas a obedecerem cegamente, reprimir as emoções e cortar relações com a família. E como a aplicação do dinheiro não é declarada, não se sabe bem para que é usado, para além das actividades religiosas. No entanto há um tabu em relação às críticas. [1; 2; 3; 4; 5; 6]

¶4 Como existe o hábito de acusar ateus de não serem caridosos e de declarar que não existem organizações de caridade atéias - às vezes com uma citação de Salmos 14 - passaram a existir algumas dessas organizações e dias especiais para, por exemplo, ateus doarem sangue e orgãos, como National Day Reason (com eventos para doações de sangue), a Atheist Blood Drive de Atheists Volunteers, Non-Believer Giving Aid / Richard Dawkins Foundation for Reason and Science, Council For Secular Humanism e Earth's Atheist Resistance To Holy Wars And Religious Devastation. Mas ateus podem cometer o mesmo erro de cristãos: foram enviados e-mails de um tal Atheist Charities Website cujo conteúdo era plágio de uma página do site Catholic Charities of San Francisco e fraudulento.

¶5 Existem muitos ateus que fundaram organizações com fins humanitários, como Bill e Melinda Gates, Ayaan Hirsi Ali, Goparaju Ramachandra Ra e Saraswathi Gora, Asa Philip Randolph, Terry Sanderson, Zackie Achmat, Ingrid Newkirk, Henry Stephens Salt, Lance Armstrong, Bob Gedolf, etc. Nessa lista, apenas o casal Goparaju e Saraswathi colocou uma referência ao ateísmo no nome de uma organização que fundaram: Atheism Centre. Religiosos podem abandonar o apoio a uma organização humanitária por saberem que foi fundada por um ateu. E muitos outros ateus foram ou são activistas e volutários por causas humanitárias, como Murlidhar Devidas Amte e Talisma Nasrim, e unem-se a religiosos, incluíndo clérigos, e vice-versa, como o reverendo Michael Scott que se juntou ao Comité dos 100, fundado por Nicolas Hardy Walter com a ajuda de Bertrand Russell, depois de despedir-se da presidência da Campanha Pelo Desarmamento Nuclear. Mas mesmo com o problema de existir preconceitos em relação a organizações cujos nomes fazem referência ao ateísmo, algumas têm histórias que lhes dão sentido, como quando o filho da fundadora Atheist Alliance International foi impedido de se juntar ao Boy Scouts of America porque a mãe é atéia. Mas penso que devia focar mais na discriminação contra os ateus.

¶6 Se alguém acha que não existem organizações humanitárias de ateus, enumerar organizações seculares como se fossem atéias não é uma boa resposta. Existem algumas que são atéias, mas normalmente os fundadores ateus não fazem questão de associar os ateísmo às suas organizações e actos. Quando faço doações ou ajudo alguém, não faço questão de dizer que sou ateu nem faço proseletismo. Do mesmo modo não vejo necessidade de mencionar o ateísmo e a religião no nome das organizações humanitárias, excepto se tiverem o proseletismo como objectivo ou se tiver objectivos políticos ou sociais para que se resolva a descriminação religiosa. Nem interessa a reputação - o que interessa é o que cada um de nós faz. É verdade: com uma pequena pesquisa, podem verificar que é normal os moralistas que interferem nos assuntos pessoais alheios, supostamente de boa reputação, revelarem-se afinal hipócritas.

¶7 O dízimo e ofertas para muitas das igrejas evangélicas são inúteis. São usados para literatura prosélita, "shows da fé" e para proveito próprio dos pastores, como no caso paradigmático do Reino Universal de Deus [1; 2; 3] No YouTube, um evangélico criacionista, conhecido como VenomFangX, com o hábito de criticar os ateus, evolucionistas e muçulmanos como imorais, prometeu usar o dinheiro que era doado para ele evangelizar, a partir de certa quantia, a uma organização canadiana que trata crianças doentes. Não cumpriu o prometido, cometendo uma ilegalidade, abandonando o seu canal com o pretexto de que tem sido alvo de ameaças de ateus, para além do seu site ter sido bloqueado pelos pais. Mas continuou a difamar ateus e dá lições de moral noutro canal e através da escola onde agora vive. [1; 2; 3; 4] Ele começou a fazer vídeos copiando as palestras do evangélico criacionista Kent Hovind, que foi preso por evasão fiscal. Jimmy Swaggart criticava outros evangélicos de infidelidade e a música rock e metálica cristã, mas chorou lágrimas de crocodilo quando descobriu-se que teve relações sexuais com um prostituto masculino. O evangélico Ted Haggard que criticava a homossexualidade como um pecado, segundo a Bíblia, teve também relações homossexuais com um prostituto, mas pediu desculpas aos homossexuais pelo sofrimento que tem causado. Agora foi a vez da metodista conservadora Iris Robinson. Criticou o perdão de Hillary Clinton a seu marido e declarou que a homossexualidade e a sodomia é mais vil do que a pedofilia. Mas afinal tinha um amante filho de um talhante, desviou dinheiro do Estado para ele e depois quis que devolvesse o dinheiro para financiar a igreja da irmã. Com escândalo, o seu marido, primeiro-ministro da Irlanda, despediu-se do cargo e perdoou a sua esposa. [1; 2; 3] E ainda houve uns disparates de Rush Limbaugh e do reverendo Pat Robertson sobre o Haiti. Mas alguns católicos que lerem este artigo vão focar no que eu disse sobre a Igreja Católica e Madre Teresa de Calcutá, sentido-se ofendidos, como os evangélicos ao lerem este parágrafo. Não percebem o texto, mesmo com os negritos.

20 setembro, 2009

Re: Neo-Ateísmo, Um Delírio > Será o comunismo realmente uma religião? > Religião política

Este assunto também estará dividido em duas partes. O seguinte artigo será a segunda parte do anterior. Depois publicarei um artigo sobre o que é que "religião" significa, em sentido lato, na sociologia e psicologia. Por fim, no que diz respeito à semântica, compararei a Religião com, pelo menos, o Senso Comum, a Ciência e a Filosofia.
1) «Deixei que a palavra "Deus" ficasse no fim de um verso. Não pude evitá-lo.» (...)
2) «Somos os sacerdotes do Poder.» (...) «Deus é o Poder.» (...) «O indivíduo só tem poder na medida em que cessa de ser indivíduo.» (...) «se puder realizar uma submissão completa, total, se puder fugir à sua identidade, se puder fundir-se no Partido, então ele é o Partido, e é omnipotente e imortal.» (...) «o Poder é a autoridade sobre todos os entes humanos. Sobre o corpo, mas acima de tudo, sobre a alma.»
3) «É preciso que ames o Grande Irmão. Não basta obedecer-lhe, é preciso amá-lo.»
- in "1984", de George Orwell
(Terceira Parte, tradução de Paulo Santa-Rita; editora Ulisseia, Lda)

«As a young student for the ministry in an earlier incarnation, my peers and I sometimes discussed whether communism is a religion. Some said no, because communism is atheistic, and some said yes, because communism is a comprehen­sive belief system and provides a framework for total devotion. In the end, of course, we agreed that the answer depended upon how one defined religion - Sam McFarland in "Communism as Religion"

«What is known as ‘Marxism’ in France is, indeed, an altogether peculiar product — so much so that Marx once said to Lafargue: ‘Ce qu’il y a de certain c’est que moi, je ne suis pas Marxiste.’»
- Engels, Carta a Eduard Bernstein (1882)
Luciano: (os links foram acrescentados)
1) (...) «Dawkins e Hitchens já chegaram a dizer, então, que as explicações para os crimes dos países comunistas era que ambos traziam alguns elementos de religião.» (...) «era excessivamente focada em colocar o Estado no lugar de um Deus» (...)
2) «A religião é definida como um conjunto de crenças relacionadas com o divino, transcendental e sagrado, juntamente com o conjunto de rituais, códigos morais e práticas que derivam dessas crenças.» (...) «Já o comunismo é um sistema econômico que visa criar uma sociedade sem classes, com abolição da propriedade privada.» (...)
3) «O foco da religião é no espiritual, o foco do comunismo é no plano físico, pois é um sistema político. Ou seja, tentar equiparar ambos já seria inversão de planos
4) «Aliás, o Partido Comunista, na China, defende a opinião de que o Comunismo e a Religião são totalmente opostos. E sem chance de reconciliação.»



Sabem o que é o Juche? É a oficial religião da Coreia do Norte, também conhecida por marxismo-leninismo-kimilsonguismo ou kimilsonguismo. Segundo a Adherents, é a décima religião (do ponto-de-vista sociológico) mais popular do mundo. Segundo a Religion-info, é uma ideologia, filosofia e religião com cerca de 22 milhões membros estimados. Na ReligionNewsBlog é dito que é uma religião que adora Querido Líder Kim Jong-Il, mas cujos membros acusam de heréticos aqueles que dizem ser uma religião, já que são ateus. Na Bibles For The World, é dito que é a maior religião do mundo, a seguir ao Cristianismo, Islamismo, Budismo e Hinduismo, que segundo ela, depois da morte, os crentes irão reunir-se a Kim Jong-Il e que ele, a sua mãe e a esposa são adorados. Segundo a North Korean Christians, é uma religião onde Kim Jong-Sung e o seu filho Kim Jong-Il são adorados como deuses. Na World Net Daily é dito que um cristão, que fugiu da Coreia do Norte para a Coreia do Sul, disse ao ministro que os norte-coreanos acreditam que Kim Il Sung é um deus e pensa que entre 70 e 80 por cento do que diz é semelhante à Bíblia. Segundo o site oficial do governo dos Estados Unidos da América, a personalidade de culto a Kim Jong-Il e ao seu pai resultaram num regime que se aproxima de um estado religioso.

Curiosamente, o Partido Comunista da Rússia pediu que Estaline fosse canonizado. Agora é um santo, com direito a uma imagem na Igreja de Santa Olga, ao lado da Abençoada Matrona de Moscovo, com uma lenda por detrás dessa cena. Bem, ele foi chamado de "um grande amigo da Igreja" durante a Segunda Guerra Mundial... Criou um culto de personalidade em torno dele. Ele era Corifeu da Ciência, Pai das Nações, Génio Brilhante da Humanidade, o Grande Arquitecto do Comunismo, o Jardineiro da Felicidade Humana, etc. Num discurso em 1954, Nikita Khrushchev criticou-o: «É inadmissível e estranho ao espírito Marxista-Leninista elevar uma pessoa, transformando-o num super-homem que possui characterísticas sobrenaturais semelhantes a de um deus. Um homem assim supostamente sabe tudo, pensa por todos, pode fazer tudo, é infalível no seu comportamento».

Antes de Luciano publicar o seu comentário, já devia saber que até cristãos dizem que o comunismo é /ou pode ter a forma de) religião. [12-09-2009 16:43] Arnold Toynbee e Daisaku Ikeda (cristão e budista) escreveram um livro, com o conteúdo em forma de diálogo, com o título "Choose Life - A Dialogue", onde ambos concordam que o Comunismo é uma religião como o Taoísmo e Confucionismo e que a sua mitologia é uma tradução não-teísta do Judaísmo e Cristianismo.

T. S. Eliot (anglo-católico) disse, em 1932 no programa "The Listener", que o Comunismo russo é uma religião e que uma religião só pode ser combatida com outra religião. (Philip Yancey, "Christian Century")

Louis Cassels, editor da coluna "Religion in America" na United Press International, escreveu o livro "What’s the Difference?" onde enumera religiões atéias, incluindo o Comunismo, notando que J. Edgar Hoover (do FBI) considerou que só pode ser entendido como uma fé que exige total dedicação dos seus membros e citando "The Nature of Communism", de Robert V. Daniels, professor emérito de História da Universidade de Vermont.

Segundo Dr. Nut, professor de Religião na Faculdade de Muskingum, no site Prebysterian Historical Society, o Comunismo é uma filosofia e religião materialista, com uma visão completa do mundo e requerendo uma total obediência dos seus membros, que os Cristãos devem rejeitar.

No site OrtodoxPhotos, que apoia a Igreja Ortodoxa, é dito que houve um Cristianismo comunista, como descrito nos Actos dos Apóstolos, e que o comunismo moderno é inimigo do Cristianismo e supostamente é um sistema ateu que renuncia a religião, mas na realidade é uma religião fanática, negra e intolerante.

Mais: Miguel Portas; Middle Town Church; Islam House; Bible Tools; Endireitar; Koleksi Arkib Ucaban; Huascar Terra do Vale;

É óbvio que se a palavra "religião" for definida de tal modo que a crença em pelo menos um deus seja uma condição necessária, então é claro que o Comunismo não é uma religião, segundo tal definição. E por essa definição o Budismo, o Taoísmo, o Confucionismo, o Raelismo, o Jainismo, o Universalismo Unitário, o Satanismo e as religiões Humanistas não são religiões.

Mas havendo cristãos que dizem que associam a palavra "religião" à palavra "comunismo", para formarem frases como "o comunismo é uma religião", convém perceber por que o fazem, especialmente se são, por exemplo, professores de Religião. Membros de um grupo ao dizerem que o grupo a que pertencem não tem determinada propriedade, ou pertence a um determinado conjunto, não implica que seja verdade. E há pessoas que se revelam, ou tornam-se, aquilo que odeiam. Partidos comunistas também dizem que o comunismo oferece "liberdade", que é "democrático", contra as "superstições" e que apoia a "ciência". Aliás, o Marxismo surgiu com a pretensão de ser uma ciência. [Ideas; Marxists; Abrupto; Olhar Marciano; Softpanorama] O que interessa é o que realmente é, não que dizem ser. E além disso existem comunistas cristãos, que aliás defendem que o cristianismo primitivo era comunista. [PartiCraxy; Jesus Is Savior; Study To Answer; Metacosmesis: The Christian Marxism of Frederic Hastings Smyth and the Society of the Catholic Commonwealth]

Suponho que o Luciano ache que existe idolatria no Comunismo. O que é a idolatria? A imagem seguinte representa a relação dos membros de religiões monoteístas com um Deus. Substitui-se "D" por um objecto, humano, animal ou ideia - isso é idolatria. E para mim e para outros, chamamos a isso uma forma de religião - o que difere é o objecto de adoração - e alguém que acredita que existe um Deus mas não o adora não é religioso. O Comunismo é uma religião política. [Wikipedia; IngentaConnect; Experience Festival; Communism and the emmergence of democracy]
Ou se ainda não percebeu:

Daqui a dois artigos escrevo sobre o que é afinal uma religião.

13 junho, 2009

Avaliação da educação

O meu pai é professor de Matemática e há pouco tempo participou numa avaliação do sistema de ensino português. Pelo que percebi, todas as turmas das escolas portuguesas com ensino básico participaram, ao invés de uma amostra fácil de ser analisada.

Os alunos realizaram os testes que duraram uma manhã. Cada teste era um conjunto de folhas A3 dobradas de modo a fazer um livro de 21 perguntas com exemplos para as perceber e montes de desenhos. O meu pai avaliou 50 desses testes com instruções de várias páginas para a classificação das respostas (se é correcta, incorrecta mas os passos demonstram compreensão, se não respondeu, etc.). Mas a classificação de cada resposta não é dada com valores numéricos. Ao invés disso, cada resposta é classificada com um símbolo, como por exemplo, uma cruz. Como se fossem variáveis. As classificações são dadas numa folha com uma tabela. Para além dessa folha, os avaliadores deviam entregar também um ficheiro com uma folha de cálculo em formato Excel com os mesmos dados.

Parece-me que o Ministério da Educação e o Governo vão obter boas notícias dessa avaliação.

04 fevereiro, 2008

Re: what does atheism contribute to society?

No fim-de-semana estive a preparar este vídeo em resposta a um cristão que pergunta que contributos deu o ateísmo à sociedade, para além de comparar o Comunismo ao ateísmo e dizer disparaste sobre a relação entre Nietzsche e o nazismo e números sobre as mortes pelos cristãos e comunistas totalitários. Ambos mataram milhões de pessoas, e é ridículo e perigoso minimizar ambos os casos... Para além de fazer disso uma questão de números e catalogar indivíduos por aquilo que não são numa questão de "nós contra eles"...



Não pretendo ofender ou desprezar cristãos liberais. Por exemplo os Quakers (um grupo cristão) uniram muitas vezes a deístas e ateus em manifestações contra injustiças e na colaboração para um mundo melhor, como na abolição da escravatura, pelos direitos dos homens e mulheres, contra as guerras, etc.

20 janeiro, 2008

Shari'ah: seja bom ou mau, não questionamos

Ontem à noite na BBC World assisti um documentário sobre a Shari'ah (lei islâmica) na Nigéria. Parece que se chama "This World: Inside a Shari'ah Court". Podem assistir o documentário em vídeos no YouTube. Na introdução a apresentadora diz que muçulmanos na Grã-Bretanha querem que lá seja implementada a Shari'ah. A apresentadora é ela própria muçulmana, mas não quer essa lei implementada no país que vive e interroga os seus apoiantes nos próprios tribunais que seguem essa lei.

Quando comecei a assistir o documentário ontem, mostrava como era na Nigéria. Um juiz disse que a Shari'ah é uma lei divina, e por isso ninguém tem o direito de mudá-la, ao contrário da lei humana, tal como os sacerdotes hindus dizem em relação das suas Leis de Manu, que justificam as castas. Segundo o tal juiz, Deus não deve ser discutido, seja para o bem ou para o mal. Ele repara que a apresentadora que faz perguntas sobre a Shari'ah é muçulmana, mas não usa uma hijad para cobrir a cabeça. Segundo a Lei Islâmica é obrigatório as mulheres cobrirem a cabeça, porque não pode atrair homens. Quando a apresentadora disse que estava vestida de modo modesto, e que não atraia homens só por estar com a cabeça descoberta (será que lá os homens são tão fracos e tarados até esse ponto?!), o juiz respondeu: «O Poderoso Alá é o criador. Criou-me, e criou-te. Criou o mundo, e tudo o que existe aqui e no Além. Por isso não questionamos ao Poderoso Alá a razão das suas instruções que nos deu. Não questionamos. Criou-nos, e irá-nos matar a todos, e iremos voltar a Ele. Então para quê questionar? É o criador de tudo. Seja bom ou mau, não questionamos. Devemos obedecer.» Segundo as nigerianas muçulmanas a hijad é confortável, e o antes da Shari'ah havia jogatana, bebedeiras e prostituição, e que um homem costumava bater numa mulher, mas agora com a lei muçulmana está interdito... Um muçulmano ouviu um sermão do juiz quando cumprimentou a apresentadora com um aperto de mão. Como muçulmano, não deveria tocar nas mãos de uma mulher...

No tribunal do juiz o "arguido" deve fazer um juramento por Deus que vai contar a verdade, ou os seus desejos não são concretizados por Alá "aqui ou no Além". Uma mulher dizia que o seu marido não a alimentava devidamente, mas ele negava. Ela aceitou fazer o tal juramento, mas primeiro purificou-se para tocar no Livro Sagrado. Jurou sob o Alcorão que o seu marido não a alimenta há 11 meses. Isso recordou-me os juramentos sob uma Bíblia nos tribunais americanos... O seu marido foi condenado a pagar-lhe uma indemnização de 24.440 naira, o equivalente a 180 libras. Bastou o juramento para o juiz tomar a sua decisão.

Um homem foi acusado de ter roubado algo de um veículo, mas não havia testemunhas. Ele dizia que tinham-lhe pedido para ajudar no a colocar um saco de farinha num veículo, mas enquanto colocava-o, o veículo de carga começou em andamento e o saco caiu. Pessoas começaram a apontá-lo e espancaram-no. A polícia torturou-o, e por isso fez uma confissão falsa. Foi condenado a sofrer 10 chibatadas. O condenado respondeu que levava as chibatadas sem problema, pois já sofreu pior com a polícia (risada geral). Supostamente esses castigos - em vez de um ano de prisão - servem para desincentivar os crimes, mostrando que a sociedade condena-os... Um homem por alcoolismo foi condenado a 80 chibatadas.

Outro homem foi apanhado em flagrante a roubar uma casa. Perguntaram-lhe se era muçulmano. Respondeu que sim, e por isso foi cortado a sua mão direita. Ele diz que está contente por isso. Ninguém pode ser forçado a aceitar a Shari'ah nesse país - os não-Muçulmanos não são julgados segundo essa lei -, mas depois de aceitar não pode apelar para outro tribunal. Surgem problemas quando são envolvidos cristãos e muçulmanos, como o caso de um casal - um é cristão e uma muçulmana -, que disputava a respeito da educação e custódia de uma filha de 13 anos. Teve de ser deliberado que lei devia ser aplicada. Um advogado diz que um menor não deveria ser forçada a mudar de religião, depois casar-se com um Muçulmano e assim não haveria retorno. Politiquices e religião misturadas...

Segundo a Shari'ah as mulheres não são admissíveis como testemunhas em caso de adultério. Se uma mulher for violada, deve poder ter quatro testemunhas para acusar o violador. As mulheres devem gritar nessas ocasiões... e segundo o juiz, se o violador fugir, a mulher gritar e juntarem-se pessoas, ela não é punida. Senão, é condenado por adultério...

Só foram vistos pobres a serem punidos por essa lei divina, que supostamente iria resolver os casos de corrupção... esses ricos são julgados pela lei dos homens.

Para os cristãos que vêem a Bíblia como a Palavra de Deus, tão indiscutível como é indiscutível o Corão para o tal juiz muçulmano, relembro-lhes os seguintes versículos:
Deut 22:23-24 : «Quando houver moça virgem, desposada, e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela, Então trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis, até que morram; a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo; assim tirarás o mal do meio de ti.»
2Co 13:1 : «É esta a terceira vez que vou ter convosco. Por boca de duas ou três testemunhas será confirmada toda a palavra
Heb 10:28 : «Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas.»
Os países teocráticos muçulmanos são uma actualização dessas leis na Bíblia. Homens escreveram leis, como as leis de Hamurabi e de Manu, como acharam ser o melhor quando não havia métodos de perícia modernos, e depois são tidas como leis divinas. Não podem ser consideradas obsoletas: as leis de Deus nunca se tornam obsoletas. Outros usam as leis anteriores e tentam melhorá-las - por exemplo: duas ou três testemunhas não são suficientes; terão de ser quatro. «Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, Queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.» Ex 21:24,25. Será apedrejado, mas não com pedras demasiado pequenas, nem demasiado grandes para que sintam a dor. É que temos de ser claros. E incentiva-se o perdão, mediante uma quantia de dinheiro. Torna tudo mais simples. Assim surgem as leis que devem ser consideradas imutáveis, por serem consideradas de fonte divina, e vemos uma nova versão das Leis de Moisés nas teocracias que aplicam a Shari'ah. Que tal se Deus intervir? Não seriam necessárias, duas, três, quatro testemunha. Afinal, somos meros humanos, e as nossas leis revelam as nossas limitações.


Um professor disse: «Não podem separar Shari'ah do Islão, não podem separar o Islão da Shari'ah. São a mesma coisa.», depois de escrever no quadro. Shari'ah deriva de uma palavra árabe que significa "caminho"; um caminho para Deus. Disse que o «significado legal de Islão é a completa e absoluta submissão (...) Para seguir o Poderoso Alá de acordo com os seus mandamentos. Isso significa que um Muçulmano não tem escolha - sejam quais forem os seus interesses, seja lá o que quiser, ele tem de seguir os mandamentos de Alá, quer goste ou não». É esta a essência das teocracias - supostos governos de Deus (e Esse não é sempre o mesmo em qualquer lugar) - e regimes totalitários - governos de um deus humano, como Estaline e Mao.

21 dezembro, 2007

Adolf Hitler, sobre raças humanas

No Clube Cético o utilizador Buckaroo Banzai colocou essa citação:
«Eu sei perfeitamente bem que não existe tal coisa como raça no sentido científico. Como um político eu preciso de uma idéia que possibilite a abolição da ordem que existiu até hoje e uma imposição de uma inteiramente nova ordem e sua base intelectual. E para esse propósito, a idéia de raça me serve bem.»

Pedi-lhe que indicasse a fonte, e ele indicou duas páginas Web:
Segundo a segunda referência, foi dito por Hermann Rauschning, citando Hitler. Tinha-se juntado ao Partido Nazi, e escreveu "Discursos de Hitler". Note-se que segundo a Wikipedia historiadores consideram suspeitos os conteúdos dessa obra (como Buckaroo Banzai depois faz notar) Nessa segunda referência - com um texto intitulado "Cruel World: The Children of Europe in the Nazi Web", escrito por Lynn H. Nicholas - é dito que Rauschnig, citando Hitler, declarou [traduzido por mim]:
«Sei perfeitamente... que no sentido científico não há tal coisa como raça. Mas vós, como agricultores e criadores de gado, não podem ter as suas criações obtidas com sucesso sem um conceito de raça. E eu, como político, preciso de um conceito que permita a ordem que até aqui existiu em bases histórias seja abolida, uma completa uma nova ordem anti-histórica reforçada e que sejam dadas uma base intelectual... E para esse propósito a concepção de raça serve-me bem... Com o conceito de raça, o Nacional-Socialismo levará a uma revolução que se espalhará pelo mundo.»
De qualquer modo, independentemente da fiabilidade das fontes, há uma lição que se pode retirar desses excertos que nos permite perceber que os termos e conceitos não mudam a realidade (são instrumentos inventados por humanos!), e muitos servem-se de jogos de palavras para atingirem os seus fins. Como os pseudo-filósofos que na sua metafísica confundem o concreto com o abstracto...

13 dezembro, 2007

Politiquices

Nesta semana assisti um documentário da BBC na SIC Notícias, sobre a Venezuela e Hugo Chávez. Num discurso de oito de horas, perguntaram-lhe sobre o investimento em Londres com petróleo, quando na Venezuela há muitos pobres. Chávez disse que a pergunta é estúpida, que quem responde a perguntas estúpidas parece estúpido, e por isso não responde à questão. No entanto esteve 20 minutos a responder...

O Primeiro Ministro José Sócrates deu uma resposta ao mesmo nível. Quando Paulo Portas perguntou-lhe sobre o número de polícias activos, recebeu um argumento ad hominem. Sócrates simplesmente disse que o que sabia é que pelo menos são mais do que quando Paulo era ministro no anterior governo.

No domingo passado Ricardo Araújo parodiava o episódio de Mário Lino a respeito de "Alcochete, jamais". Nesta semana, no Parlamento, negou que o tivesse dito, apesar de o episódio ter sido gravado em vídeo e transmitido nas notícias durante algum tempo. Amnésia? Ou cegueira política.

Algumas ramelas ganhas na política de Luísa Mesquita caíram , quando sofreu a "democracia" do Partido Comunista Português na pele. Foi expulsa do Partido por ter recusado a demissão do cargo de deputada... mesmo tendo sido eleita. E que tal ter um presidente de partido mais jovem para renovar? Ela diz que estão a mentir. Mas como saber se estão mesmo, se os membros aceitam por escrito viverem num pequeno mundo orwelliano com uma ideia invulgar a respeito do que seja a democracia, ou as liberdades, como o chamam.

Deve ser uma democracia à Hugo Chávez, que quando sofre uma derrota diz que a vitória da oposição "es una vitória de mierda", e não deixa os outros falarem na sua vez - deve ser o hábito de monopólio nas suas palestras - , levando com um "Por qué no te callas?". No tal documentário que referi inicialmente, foi mostrado um grupo armado que apoia Chávez de forma fanática, ameaçando as famílias do bairro onde estão. Um deles orgulhosamente afirmava que não havia mais de 7 famílias que não apoiam Chávez. E no fundo ouviram-se tiros durante a entrevista. Pelos vistos esse tipo de coisas é normal nos ditos países democráticos...

E recebemos em Portugal governantes africanos que governam há mais de 23 anos. O ditador racista Mugabe está no seu Governo há 27 anos, que não se compara com o tempo em que Fidel Castro governa Cuba: desde 1959! Fidel Castro discursava na América, na procura de apoios para a preparação de uma revolução que iria derrubar uma ditadura... para haver outra. «Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros.»

Há muita politiquice, com gente que se identifica como membro do seu partido, em vez de indivíduos que pensam por si próprios, capazes de oporem ao próprio partido que estão inseridos. O partido é o corpo, e esses militantes são apenas células. Seguem o partido, e seu líder, como ovelhas, e assim os deputados no Parlamento brigam com falácias para os burros ouvirem, e o camarada no fundo repetir "Muito bem", quando está muito mal. Quando as consciências são absorvidas num grupinho, uniformizando-se, com uma mentalidade de nós contras os outros, como poderá haver cooperação, mesmo nas diferenças? Como poderão aceitar as ideias alheias - da oposição - como boas, ou admitir o erro o mais rapidamente possível para corrigir o mais rapidamente possível, em vez de tentar fazer esquecer com o tempo para parecer que nunca errou.
E quando numa nação há O Partido, todo o povo se torna uma tal célula que se definha se não estiver do lado do Partido. O antigo regime era quase como o actual, mas não era do Partido. E é isso que faz toda a diferença.

Também há uns tantos que se dizem politicamente neutros, mas que apoiam O Ditador Supremo, que eliminará toda a concorrência. O que não é tão diferente dos ditadores humanos...

07 dezembro, 2007

Religião e Liberdade



Segundo o jornalista, Jonh F. Kennedy tinha explicado a razão de o seu catolicismo não interferiu com as suas responsabilidades como presidente: acreditava que a religião era um assunto privado, a separação do Estado e da Igreja deve ser absoluta e as decisões presidenciais devem ser feitas sem qualquer influência externa religiosa. Romney desavergonhadamente comparou-se a esse presidente americano. É candidato à presidência e é um mórmon, repondendo às críticas a respeito da sua fé:
«Deixe-me assegurar-vos que nenhuma autoridade da minha Igreja, ou qualquer outra Igreja, vai exercer influência nas decisões presidenciais.» (...) «Não colocarei qualquer doutrina de qualquer Igreja acima dos deveres do posto e da autoridade soberana da Lei. »
«Segundo as palavras de John Adams, "não temos governo equipado com poder capaz de manejar com a compaixão humana sem restrições morais e religião". "A Constituição", diz ele, "é feita para pessoas religiosas e morais." Liberdade requer religião, tal como religião requer liberdade.» (...)
«Os Fundadores proibiram uma Religião de Estado, mas não apoiaram a eliminação da Religião do espaço público. Somos uma nação em Deus, e em Deus confiamos. Devemos assumir Deus, como fizeram os Fundadores, em cerimónias, em palavras.» (...)
«A nossa grandiosidade não permanecerá sem juízes que respeitam as fundações da Fé à qual a nossa Constituição apoia-se. Tratarei de separar as obrigações do Governo de qualquer religião, mas não separarei-nos de Deus que nos deu liberdade.» (...)
«Procurar remover do dominio público qualquer referência a Deus. A religião é vista como apenas da esfera privada sem qualquer lugar na vida pública. É como se tentassem estabelecer uma nova religião na América: a religião do secularismo. Estão errados.»

Muitos americanos, inclusivé muitos políticos americanos (a maioria?) tem problemas com o laicismo. Num programa da Oprah, Bill O'Reilly disse que há uma "guerra cultural" [1], e parece que é com essa mentalidade que muitos americanos têm, obsecados com os não pensam como eles, tratando tudo como "preto e branco", "nós contra eles", adjectivando tudo como sendo religião, mesmo contradizendo-se, por exemplo falando em "religião do secularismo".

Um Estado Secular é neutro em relação a questões religiosas [2], ao contrário de um Estado Teocrático [3]. Enumere-se as nações teocráticas, e tenha-se entendimento a respeito da História para ser claro que a ideia de a religião requerer liberdade é um absurdo. Muitas religiões são contrárias à liberdade, pretendendo um monopólio.
Nem a liberdade requer religião: requer o direito de adoptar e praticar uma religião, seja monoteísta, politeísta, ateísta e outros "istas", mas também de não adoptarem qualquer religião. A isso se chama liberdade religiosa, e deixa de sê-la quando se requer religião. O secularismo permite a liberdade de manifestar a religião pessoal publicamente, mas os poderes não podem ter influência religiosa e uma pessoa não é obrigada a adoptar rituais religiosos, como fazer um juramento a um deus com uma mão na Bíblia.

E parece que para a maioria do americanos há uma fixação nos Fundadores, sem conseguirem abstrairem-se deles quando se discute a respeito do papel do Estado e da Religião, tentando provar se eram religiosos, cristãos, ou não, como se o correcto e a verdade dependessem das suas crenças e fundação de um País. Se assim fosse, a maioria dos países europeus, inclusivé Portugal, seriam teocracias e estariam a promover cruzadas cristãs, especialmente tendo em vista os incidentes relacionados com muçulmanos.

Essa mentalidade que Romnei deseja promover justificaria casos como sucedeu no Senado, quando um hindu foi interrompido por cristãos extremistas:

Ou a discriminação e perseguição a ateus:


Os Americanos ainda precisam de aprender o que é Liberdade.

Referências:

30 novembro, 2007

Acreditam em todas as palavras desse livro?

«Sou Joseph. Sou de Dallas Texas. E o modo como vão responder a essa pergunta vai mostrar-nos tudo o que precisamos de saber sobre vós. Acreditam em todas as palavras desse livro [a Bíblia Sagrada]? Refiro-me especificamente a este livro que estou a segurar na minha mão. Acreditam nesse livro.»
- foi a 19ª pergunta para políticos no "Republican Debate", realizado no dia 28 de Novembro. Feita por Joseph Dearing, pelo YouTube.

Quando o antigo mayor de Nova Iorque, Giuliani, ia começar a responder, um Ministro quis fazer uma graçola, perguntando-lhe se queria que o ajudasse. Giuliani respondeu:
«Acredito, mas não acredito necessariamente literalmente em tudo. Penso que partes da Bíblia são interpretativas, alegóricas, penso que há parte da Bíblia que são para serem interpretadas num contexto actual. Sim, acredito. Penso que é o maior livro que já foi escrito. Leio-o frequentemente. Li-o muito frequentemente quando passei por crises da minha, e encontrei grande sabedoria nele. E define em grande parte a minha Fé. Mas não acredito no sentido literal, por exemplo, Jonas ter estado na barriga de uma baleia. Sabem, penso que algumas coisa foram lá colocadas como alegorias.»
O governador Gilmore respondeu:
«Acredito que a Bíblia é a Palavra de Deus. Absolutamente. Tento... [aplausos do público] Tento viver segundo ela como puder, mas falho em várias coisas, mas é um guia para a minha vida e para milhões... biliões de pessoas em todo o Mundo. Acredito na Bíblia.»
O apresentador perguntou-lhe: «Isso quer dizer que acredita em todas as suas palavras?» Depois de engasgar-se, respondeu:
«Sabes? Er... Sim... Acredito que é a Palavra de Deus... a Bíblia é a Palavra de Deus. Quero dizer... eu.. [volta a engasgar-se...] interpreto a Palavra de uma maneira diferente daquela que intrepretas, mas leio a Bíblia, acredito que a Bíblia é a Palavra de Deus. Não discordo com a Bíblia e tento viver segundo ela.»
O governador Huckabee respondeu:
«Claro que acredito que a Bíblia é exactamente o que é. É a Palavra de Revelação para nós do próprio Deus. [aplausos] E a verdade é que quando pessoas perguntam se acredito em toda ela... precisam de ter em consideração o sentido mais geral. Acho que com a pergunta pretende-se querer dizer-nos se acreditamos na parte que diz "tirem para fora os vossos olhos"? Ninguém acredita que devemos tirar para fora o nosso olho. É obviamente uma alegoria. Mas a Bíblia tem mensagens que ninguém fica confusa, e que não deixam dúvidas para interpretação: "amem o próximo como a vós próprios", "aquilo que fizerem a esses pequeninos fazem-no a mim". Até fazermos essas pequenas e fáceis coisas de fazer, acho que não vale a pena gastar tempo para discutir a respeito das outras partes que são um pouco mais complicadas. Sou a única pessoa neste palco com um diploma em Teologia, mas não a compreendo plenamente, e não é suposto. Porque a Bíblia é a Revelação de um Deus infinito, e nenhuma pessoa finita vai compreendê-la plenamente, porque se o conseguirem o seu deus é demasiado pequeno.»
Noutro vídeo, Huckabee é questionado sobre se acredita na evolução ou no relato como está descrito na Bíblia. Depois de dizer que é um candidato à presidência, e não para um currículo de Ciências, disse:
«"No princípio, Deus criou o céu e a terra." Para mim é muito simples. Se uma pessoa acredita que foram criadas por esse processo não acredita que foi por acidente e que aconteceu por si mesmo. E a pergunta foi injusta porque questiona-se de uma forma simplística se acreditamos ou não - a meu ver - se existe um Deus ou não. Deixem-me ser bastante claro: acredito que existe um Deus. Acredito que existe um Deus que envolveu-se activamente no processo criativo. Como fez isso, quando o fez e quanto tempo levou? Honestamente não sei. E penso que sabê-lo não me faz um melhor ou pior Presidente. Mas digo o que posso dizer a este país: se querem um presidente que não acredita em Deus, há provavelmente muitas escolhas. Mas se for escolhido como Presidente deste país, terão um que acredita nessas palavras, que Deus criou. São essas palavras que Martin Luther que eu apoio: "Não posso de outra maneira." E não recuarei nessa minha posição. [aplausos do público]»

«Governador, mas... [aplausos do público]... mas... penso que esta pergunta em questão significa: "acredita literalmente que foi em seis dias e que aconteceu há seis mil anos?"»

«Já respondi a essa pergunta. Disse que não sei. O que estou a dizer é que não sei, pois não estava lá. [risos do público] Mas quer acredite que Deus fê-lo em seis dias ou em seis "dias" que representam um período de extenso de tempo, Ele fê-lo! E é isso que é importante. Mas se quiserem acreditar que somos descendentes de um primata, eles podem acreditar nisso. Não sei até quanto irão recuar nisso, mas acredito que todos nessa sala são criações únicas de um Deus que nos conhece e nos ama, e que nos criou para o seu propósito.»


Pois, segundo as estatísticas a maioria absoluta dos americanos não votaria num ateu.
http://www.swivel.com/graphs/compare/8296242
A linha verde, que começa desde próximo de 1960, representa a percentagem de pessoas que votaria num ateu. É retórica política: "acredito, mas..."