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07 setembro, 2010

Memória e abusos

Herman José teve sorte. Tinha sido apontado como um abusador de crianças em Portugal, mas esteve no Brasil num trabalho para a SIC, na altura da suposta violação sexual com um adolescente de 17 anos. Senão, também seria impossível as crianças terem inventado tal acusação. Mas outros não tiveram tanta sorte. Depois de um julgamento com seis anos, todos os arguidos foram considerados culpados e condenados. Quais são as provas? As crianças não inventam. E têm uma memória brilhante. Quem se lembra ainda de Herman José como arguido do caso da Casa Pia?





27 fevereiro, 2010

Burca

1¶ Simplesmente dizer que não entendem o que criticam não responde às críticas. Não passa de uma observação sem fundamento. Análises de argumentos pouco sofisticados são válidas e muitos são fruto de gente sofisticada. Se são tão maus, por que é que quem critica quem os refuta não concorda que existem e que tão maus como são? Se um ateu escreve ou fala sobre algo relacionado com religião, é provável que cristãos respondem fazendo observações sobre o que julgam ser as suas motivações, o seu conhecimento e sobre o seu desagrado em relação às escolhas dos assuntos pouco sofisticados. Pode ser catalogado de neo-ateu ou excessivamente laicista por algumas das suas opiniões, como o repúdio em relação à burca.

2¶ Pelos vistos, mesmo sem dizer que a burca é um símbolo religioso nem usar essa ideia em argumentos, agora basta um ateu criticar o uso da burca para que se concluir que pretende terminar com os símbolos religiosos. Como o meu crucifixo florescente... Mona Eltahawy, no New York Times, criticou esse tipo de ataques a quem é contra a burca, como aconteceu a Jack Straw. Ela é uma muçulmana que diz que o modo de apoiar as muçulmanas é opor-se aos islamofobas e à burca. E apresentou exemplos de casos em que muçulmanos opunham-se ao uso da burca, nem que seja pelo menos em certos casos por razões de segurança, como nas universidades onde homens podem usar burcas para entrarem nos dormitórios de mulheres. Segundo ela a burca é uma afronta para as muçulmanas e priva a identidade da mulher.

3¶ O lobby The Muslim Canadian Congress [O Congresso Canadiano Muçulmano] convocou o governo para que proibisse o uso da burca e nicab, que consideram ser um símbolo medieval do extremismo misoginista sem fundamento islâmico. Numa entrevista, o seu porta-voz Farzana Hassan afirmou numa entrevista que cobrir a cara é ocultar a sua identidade, sendo uma questão de segurança pública por ser uma práctica comum para se cometer crimes. Aliás, já se cometeram assaltos com burcas, talvez por homens. Em Inglaterra houve uma série de assaltos a joelharias, sem que os bandidos possam ser identificados pelas imagens das câmaras de vigilância [1; 2]. Um banco de Paris foi assaltado também por duas pessoas com burcas. Dois homens, confundidos como mulheres por usarem burca, assaltaram um banco na Bósnia. Na Carolina do Norte alguém vestido com uma burca assaltou um banco. Nem se sabe se foi um homem ou uma mulher, apesar das imagens gravadas:


Terroristas, bombistas suicidas e líderes radicais usam a burca para matar e escapar sem poderem ser identificados, como os ladrões, os carrascos e mercenários, como os ninjas. Na Itália é proibido por Lei cobrir a cara em locais públicos, ocultando a identidade (artigo 5º da lei nº 152, de 22 de Maio de 1975). Na Bélgica existem leis que proíbem o uso de máscaras em locais públicos, excepto durante o Carnaval. Na Turquia - com uma maioria muçulmana - há 85 anos que é proibido usar lenços que cubram a cabeça e pescoço (com excepções), o que é excessivo. O hijab, a al-mira, o xaile, o véu e o chador não cobrem o rosto como fazem a burca e o nicab. Esses dois últimos não são "bocados de panos" e nas outras vestes que também servem de símbolos religiosos, não existem razões para que sejam proibidas. Não se está a propor que se proíba as toucas das freiras, as túnicas dos padres e os quipás dos judeus. Assim é patente o ridículo quando acusam de proporem o fim dos símbolos religiosos, especialmente tendo em consideração que muçulmanos também propõem a proibição das burcas. Não espero que façam as mesmas acusações às muçulmanas que usam hijabs, ou até de um ministro francês muçulmano que diz que a maioria dos muçulmanos é contra a burca - ele é um deles, mas os acusadores, para serem consistentes, deviam mostrar também indignação em relação aos evangélicos cristãos que propõem que muçulmanos sejam expulsos da Europa através do preconceito e implicando que o multuculturalismo implica aceitar o crime.

5¶ Mesmo que existem razões para que não andem pessoas com a cara tapada, há quem compare com ironia o uso da burca com cirurgiões nos blocos operatórios, soldadores nos locais de trabalho, jogadores de hóquei no ringue, esquiadores nas montanhas nevadas, motociclistas numa mota, e uso de cachecóis e de máscaras para proteger a boca e evitar contágio, como se uma máscara de protecção que não impede a identificação tivesse os mesmos problemas da burca. Como se o uso da burca nos locais públicos, em lojas e bancos, tivesse as mesmas razões do uso de uma máscara própria para o local de trabalho ou privado. E como se quem usasse a burca permitisse identificar-se revelando o rosto ou ser revistada. O que interessa é as razões para as proibições, não a ideia abstracta do uso de máscara. A polícia pode possuir armas de fogo nos espaços públicos, mas os civis não podem. Mas podem fazê-lo em locais privados, desde que tenham um certificado, documentos e sigam regras impostas pela Lei. Não vão usar o mesmo tipo de argumentos para defender que haja o direito de possuir e usar armas nas ruas, nas lojas, nos transportes públicos, nos bancos, nas escolas e locais de seviços públicos, pois não? Não esperem que se aceite, por exemplo, que se use máscaras de esqui nas mesmas condições como querem que se permita com a burca.

17 janeiro, 2010

Caridade, organizações, hipocrisia

¶1 Neste mês doei 100€ à UNICEF para ajudar a combater a malária, comprando 25 redes mosquiteiras, mais 100€ à Cruz Vermelha, para financiar os voluntários no Haiti. Com isso posso fazer descontos no IRC com recibos e receber prémios na Amazon, apesar de ignorá-los. Hoje comprei um vela para uma campanha do Hospital de Santa Maria. Por vezes, quando vou trabalhar e chego a casa, sou um bom samaritano que paga bilhetes e almoços e que ajuda uma senhora a transportar o carrinho com o seu bebé, recebendo um "Deus te pague". Uma colega de trabalho já me apanhou em flagrante a pagar um bilhete para o comboio a uma desconhecida. Mas nunca salvei a vida de alguém, como fez o meu pai, ao atirar-se ao mar dos Açores para salvar um homem que se afogava. Penso que normalmente esses actos não são divulgados e os doadores são anónimos - excepto entre celebridades e quando há o objectivo de proseletismo.

¶2 Nos Estados Unidos da América o sector que costuma receber mais donativos em dinheiro é o religioso (~35%), à frente da educação (~13%), da saúde, das ajudas humanitárias, dos benefícios públicos e sociais, da Cultura, do Ambiente e dos Assuntos Internacionais. E é o país com maior doações em dinheiro. A seguir estão por ordem decrescente: Reino Unido (que dá quase metade dos EUA), o Japão, a França, a Alemanha, a Holanda, a Suécia, a Espanha, o Canadá, ... Mas a Suécia, a Noruega e Luxemburgo são os que dão mais do seu produto nacional bruto - os EUA nem estão entre os 30 primeiros. E os americanos que mais doaram foram bilionários ateus: Warrent Buffet (31 biliões de dólares) e Andrew Carnegie (7,2 biliões de dólares). E foi um ateu filantropista que fez a maior doação de sempre a uma igreja - 22,5 milhões de dólares de Robert Wilson. [1; 2; 3; 4; 5; 6; 7; 8]

¶3 Por outro lado são questionáveis as motivações e fins de doações a organizações religiosas, para além dos estatutos de santos. Em Novembro do ano anterior a Igreja Católica em Washington ameaçou o Estado, negando a prestação de serviços sociais se a lei de casamento do mesmo sexo não fosse alterada. Madre Teresa de Calcutá recebeu 1.25 milhões de dólares roubados de Keating, 1.4 milhões de dólares do ditador corrupto do Haiti, Duvalier, 20 milhões de dólares não declarados da KGB pagos a Robert Hanssen e fundos para 150 conventos do corrupto Robert Maxwell - usaram o nome de Madre Teresa, que exigiu contribuições em troca. No entanto o dinheiro não foi usado para aliviar o sofrimento e tratar doenças - pelo contrário, ela promovia a ideia de que o sofrimento dos pobres é bonito «para partilhar a Paixão de Cristo», que é um dom de Deus e um bem para o Mundo. Os pobres e doentes ficavam deitados num tapete, no chão, defecavam na presença uns dos outros e não lhes era permitido visitas de amigos e familiares. As freiras eram obrigadas a obedecerem cegamente, reprimir as emoções e cortar relações com a família. E como a aplicação do dinheiro não é declarada, não se sabe bem para que é usado, para além das actividades religiosas. No entanto há um tabu em relação às críticas. [1; 2; 3; 4; 5; 6]

¶4 Como existe o hábito de acusar ateus de não serem caridosos e de declarar que não existem organizações de caridade atéias - às vezes com uma citação de Salmos 14 - passaram a existir algumas dessas organizações e dias especiais para, por exemplo, ateus doarem sangue e orgãos, como National Day Reason (com eventos para doações de sangue), a Atheist Blood Drive de Atheists Volunteers, Non-Believer Giving Aid / Richard Dawkins Foundation for Reason and Science, Council For Secular Humanism e Earth's Atheist Resistance To Holy Wars And Religious Devastation. Mas ateus podem cometer o mesmo erro de cristãos: foram enviados e-mails de um tal Atheist Charities Website cujo conteúdo era plágio de uma página do site Catholic Charities of San Francisco e fraudulento.

¶5 Existem muitos ateus que fundaram organizações com fins humanitários, como Bill e Melinda Gates, Ayaan Hirsi Ali, Goparaju Ramachandra Ra e Saraswathi Gora, Asa Philip Randolph, Terry Sanderson, Zackie Achmat, Ingrid Newkirk, Henry Stephens Salt, Lance Armstrong, Bob Gedolf, etc. Nessa lista, apenas o casal Goparaju e Saraswathi colocou uma referência ao ateísmo no nome de uma organização que fundaram: Atheism Centre. Religiosos podem abandonar o apoio a uma organização humanitária por saberem que foi fundada por um ateu. E muitos outros ateus foram ou são activistas e volutários por causas humanitárias, como Murlidhar Devidas Amte e Talisma Nasrim, e unem-se a religiosos, incluíndo clérigos, e vice-versa, como o reverendo Michael Scott que se juntou ao Comité dos 100, fundado por Nicolas Hardy Walter com a ajuda de Bertrand Russell, depois de despedir-se da presidência da Campanha Pelo Desarmamento Nuclear. Mas mesmo com o problema de existir preconceitos em relação a organizações cujos nomes fazem referência ao ateísmo, algumas têm histórias que lhes dão sentido, como quando o filho da fundadora Atheist Alliance International foi impedido de se juntar ao Boy Scouts of America porque a mãe é atéia. Mas penso que devia focar mais na discriminação contra os ateus.

¶6 Se alguém acha que não existem organizações humanitárias de ateus, enumerar organizações seculares como se fossem atéias não é uma boa resposta. Existem algumas que são atéias, mas normalmente os fundadores ateus não fazem questão de associar os ateísmo às suas organizações e actos. Quando faço doações ou ajudo alguém, não faço questão de dizer que sou ateu nem faço proseletismo. Do mesmo modo não vejo necessidade de mencionar o ateísmo e a religião no nome das organizações humanitárias, excepto se tiverem o proseletismo como objectivo ou se tiver objectivos políticos ou sociais para que se resolva a descriminação religiosa. Nem interessa a reputação - o que interessa é o que cada um de nós faz. É verdade: com uma pequena pesquisa, podem verificar que é normal os moralistas que interferem nos assuntos pessoais alheios, supostamente de boa reputação, revelarem-se afinal hipócritas.

¶7 O dízimo e ofertas para muitas das igrejas evangélicas são inúteis. São usados para literatura prosélita, "shows da fé" e para proveito próprio dos pastores, como no caso paradigmático do Reino Universal de Deus [1; 2; 3] No YouTube, um evangélico criacionista, conhecido como VenomFangX, com o hábito de criticar os ateus, evolucionistas e muçulmanos como imorais, prometeu usar o dinheiro que era doado para ele evangelizar, a partir de certa quantia, a uma organização canadiana que trata crianças doentes. Não cumpriu o prometido, cometendo uma ilegalidade, abandonando o seu canal com o pretexto de que tem sido alvo de ameaças de ateus, para além do seu site ter sido bloqueado pelos pais. Mas continuou a difamar ateus e dá lições de moral noutro canal e através da escola onde agora vive. [1; 2; 3; 4] Ele começou a fazer vídeos copiando as palestras do evangélico criacionista Kent Hovind, que foi preso por evasão fiscal. Jimmy Swaggart criticava outros evangélicos de infidelidade e a música rock e metálica cristã, mas chorou lágrimas de crocodilo quando descobriu-se que teve relações sexuais com um prostituto masculino. O evangélico Ted Haggard que criticava a homossexualidade como um pecado, segundo a Bíblia, teve também relações homossexuais com um prostituto, mas pediu desculpas aos homossexuais pelo sofrimento que tem causado. Agora foi a vez da metodista conservadora Iris Robinson. Criticou o perdão de Hillary Clinton a seu marido e declarou que a homossexualidade e a sodomia é mais vil do que a pedofilia. Mas afinal tinha um amante filho de um talhante, desviou dinheiro do Estado para ele e depois quis que devolvesse o dinheiro para financiar a igreja da irmã. Com escândalo, o seu marido, primeiro-ministro da Irlanda, despediu-se do cargo e perdoou a sua esposa. [1; 2; 3] E ainda houve uns disparates de Rush Limbaugh e do reverendo Pat Robertson sobre o Haiti. Mas alguns católicos que lerem este artigo vão focar no que eu disse sobre a Igreja Católica e Madre Teresa de Calcutá, sentido-se ofendidos, como os evangélicos ao lerem este parágrafo. Não percebem o texto, mesmo com os negritos.

26 dezembro, 2009

Menino Jesus a 15 euros

Nos últimos artigos respondi a Luciano. Entretanto, estive a ler alguns livrism como "A Linguagem de Deus", de Francis S. Collins, onde está «A ciência é progressiva e autocorrige-se», no terceiro capítulo (p. 53). Podemos encontrar cópias de parte parte de "Conjecturas e refutações", de Karl Popper, na Web, e apesar de não encontrar uma cópia da obra completa na livraria onde comprei os outros livros, posso encomendá-lo. Assim espero poder usar essas obras como referência acabando com o pretexto de eu não os ter lido, como resposta aos meus artigos. Mas não é sobre isso que pretendo escrever neste artigo...

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Há alguns dias, em Portugal, podemos encontrar estandartes vermelhos em algumas janelas e varandas. No início, vendo-os ao longe, não percebi bem que figura estava no meio deles - parecia-me um sátiro a saltitar -, mas uma amiga jornalista cristã explicou-me que era o menino Jesus. Uma amiga designer estranhou que o menino Jesus estivesse a ser representado pendurado numa cruz. Expliquei-lhe que o que parecia ser a base da cruz era uma perna com uma sombra castanha, e que o topo era uma auréola como uma que encontrámos em estátuas numa loja chinesa.

Outro amigo designer mostrou-me uma imagem do "Santo Cachorro", desenhado pelo webdesigner Ricardo Mestre, como paródia. São curiosas as respostas. Por exemplo, comentadores dizem que esse último estandarte é, «no máximo, interesseiro» e que o seu autor «vai-se farta(r) de ganhar euros». Mas podemos descarregar a imagem gratuitamente da Web, para além de outras imagens de participantes na página de Facebook de Ricardo Mestre. A imagem é distribuída gratuitamente e parece que não tem existe qualquer contrapartida. Não se pode dizer o mesmo em relação aos estandartes do menino Jesus: são vendidas nas Igrejas Católicas por 15 euros cada um [1, 2, 3, 4]. As igrejas têm direito a receber donativos dos fiéis e têm o direito de vender imagens religiosas, mas como podemos reparar alguns fiéis apresentam respostas injustas e hipócritas e parece-me qu na Igreja Católica finge-se que os seus negócios não o são, por detrás da cortina do moralismo, neste caso, sobre o que entendem ser o sentido do Natal.



Vemos presépios nas lojas, existe publicidade sobre presépios vivos e uma notícia de um presépio roubado, e todos os anos no Natal são dados na TV desenhos-animados, filmes e documentários sobre Jesus, para além de programas com missas nos canais genéricos. No entanto, a Igreja Católica em Portugal e alguns católicos entendem que não existe a consciência (ou a suficiente) de que o Natal está relacionado com o nascimento de Jesus. Pelo menos nas decorações de Natal, por "algumas atitudes ligadas ao «politicamente correcto»". Se essas críticas têm algum sentido, significam que eu e todos os portugueses deveriam fazer presépios em casas e nas lojas no Natal. E, se são consistentes, todos os que vivem noutros países deveriam participar nos seus feriados religiosos, por exemplo, para celebrar o nascimento de Krishna (2 de Setembro) e para adorá-lo (13 de Julho). Eu sigo a tradição de montar um presépio porque gosto - mas tenho o dever de o fazer? E num país com feriados hindus, teria o dever de fazer um presépio para Krishna? E se não o fizesse, conclui-se que seria por uma atitude "politicamente correcta"?

Muitos feriados religiosos, como a de Imaculada Conceição, são apenas dias sem trabalho para muitos. Parece ser de mau tom passar a haver estandartes vermelhos com uma imagem de uma vulva de uma virgem para lembrar o significado dado ao dia 8 de Dezembro pela Igreja Católica, e oficializado pelo Estado Português. E não espero que na Páscoa surgem estandartes de judeus com uma imagem Moisés, outros de cristãos com uma imagem Jesus crucificado e muito menos de pagãos com imagens coelhos, ovos e a deusa Éster [deusa da fertilidade, que deu o nome inglês "Easter" à "Páscoa" - em vez dos festejos de "Passover"].

A verdade é que os significados dos dias dos feriados religiosos divertidos foram outros. A Igreja Católica absorveu-os e alterou-os, para destruir a concorrência, como a Microsoft. Note-se que não foi só com o coelhinho e ovos da Páscoa que os pagãos contribuíram nos feriados religiosos cristãos. A contribuição do paganismo no Natal ainda é notada no nome que alguns povos dão ao seu nome, como "Yule", na Escandinávia, que era um festival de Inverno dos povos germânicos. As decorações natalícias e a árvore de Natal eram proibídas até ao século XIX, por ter havido a crença de estarem associadas ao paganismo e porque o Profeta Jeremias tinha proibido a práctica pagã de cortar árvores para as decorar (Jeremias 10:2-4). A tradição do beijo debaixo de um azevinho, verde com bagas vermelhas, tem origens associadas às e saturnálias. Era também considerado sagrado para os druidas e na Inglaterra acreditava-se que afugentava os trasnos.

No século V, os cristãos não celebravam o Natal e Orígenes até dizia que apenas os pecadores, não os santos, é que celebravam os aniversários. Nos países cristãos anglo-saxónicos acreditava-se que o Natal tem origens pagãs, por isso os festejos natalícios foram proibidos no século XVII, tal como alguns prosélitos os proibem actualmente. Atribui-se o aniversário de Jesus a várias datas, tais como 20 de Maio, 19 e 20 de Abril, 28 de Março, 10 e 6 de Janeiro e 25 de Dezembro. Mas em 274 d.C., o imperador pagão Aurélio tinha proclamado esse dia como o de Dies Natalis Solis Invicti ["O Nascimento do Sol Invencível"]. Em 336 d.C., o convertido Imperador Constantino começou a celebrar o Natal no dia 25 de Dezembro e alguns anos depois o Papa Júlio I associou o nascimento de Jesus a esse dia. [infobritain; Why Christmas?; Wikipedia; History; Catholic Education; The Holiday Spot; Seyaku]

O que tinha significados pagãos, passou a ter outros significados, inclusivé cristãos. Conhecendo as origens das festas, uns repudiam-nas só por acreditarem que são supersticiosas e pagãs. Mas para outros o que interessa é o prazer que partilhamos com os outros, quer seja no Natal, no Carnaval ou no Dia das Bruxas - é isso que torna a participação festiva no Natal popular, ao contrário da Imaculada Conceição. E há também os que criticam os que não parecem dar a mesma importância às suas crenças religiosas através das decorações e notícias. O economista João César das Neves, no Destak, deu novos significados a duas personagens: comparou o Pai Natal com Herodes «gordo e de barbas brancas» e o Imperador Augusto com Obama, apesar do Pai Natal ser inspirado em São Nicolau e o Imperador Octávio Augusto ter sido considerado filho de um Deus e um salvador que iria trazer a Paz ao Mundo (a Pax Romana), tal como Jesus... Segundo ele, o «consumo, prazer, dinheiro, azáfama», muitas «renas, árvores, sinos, trenós, mas poucas manjedouras», e as «montras, anúncios, jornais, televisões» falarem «do Pai Natal ou do Obama em Copenhaga, não de Jesus» são «as condições ideais para o Natal», porque «foi precisamente assim na primeira vez que houve Natal. Quando Jesus nasceu também ninguém lhe ligou nenhuma. Toda a gente se atarefava na sua vida, sem sequer saber do estábulo. As atenções estavam centradas nas árvores, no gado, no consumo, prazer.»

Mas agora o Natal é mais como  "Um Cântico de Natal", de Charles Dickens, onde dedica-se um dia para o descanso do trabalho, para a diversão, para a partilha e para os abusos dos doces - que o avarento Ebenezer Scrooge deprezava antes de se confrontar com os três espíritos do Natal. Uma pena para quem paga 15 euros para ter uma rua com as mesmas decorações vindas da mesma fábrica, em vez de ter uma imagem diferente de um menino Jesus. Talvez se passarem a ter consciência de que 15 euros é muito para um pano e que é suposto servir-se para as dioceses, saberão que o dinheiro afinal tem utilidade. Prefiro usá-lo para o meu prazer e prazer dos outros do que para dar sermões disparatados de moral sobre o que devemos fazer durante os feriados. Especialmente tendo em conta que a Igreja Católica mostrou não ter sentido de humor ao reagir contra um cartoon engraçado de uma igreja anglicana. Talvez devesse aprender mais com outras igrejas cristãs, em vez de parecer sempre ofendida quando ignora-se o "politicamente correcto". Pelo menos quando é ela a envolvida...


07 novembro, 2009

Modelos entre guerras - diálogos difíceis

(continuação do artigo anterior)

Parece que a profecia de Lourenço Serra foi cumprida - pelos vistos, escrevi comentários como Pedro Amaral Meme [humor]. Felizmente Luciano publicou os meus artigos acompanhados com o que deviam ser respostas em comentários, o que nos permite que compará-los. Sugiro-vos um exercício: antes de lerem os seus comentários, leiam primeiro os trechos dos meus artigos que copiou, pensem no que significam e comparem com o que Luciano escreveu.

Se para haver diálogo é necessário que se compreenda os diferentes pontos-de-vista para resolver problemas - mesmo que só teóricos -, julgo que as agressões verbais são obstáculos para o diálogo. Quem as pratica e obriga que os outros sejam educados, está a criar uma armadilha - é comum respondermos aos ataques pessoais, o que permite pretextos para que nos descredibilizem. A atitude agressiva ao defender pontos-de-vista, pode compremeter-nos ao ponto de ser mais difícil identificar e admitir os nossos erros. Passa a ser uma questão pessoal. Mesmo que acreditemos estarmos a ser honestos nos julgamentos, as respostas e atitudes dos adversários poderão ser adulteradas pelo preconceito.

Copiei os tais comentários em forma de quatro imagens (ver abaixo), acrescentei notas e identifiquei os ataques pessoais com fundos vermelhos. Neste artigo elaboro algumas das minhas respostas.


(clicar nas imagens para aumentá-las)

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Nos meus artigos, os trechos com fundo azul são citações. Por exemplo, citei as expressões de Luciano «a interpretação dependeria» «de uma extensa justificação», que ele usa para se referir a duas frases sem sentido. Mas, segundo ele, num comentário, escrevi: «Algo é inválido, pois depende de extensa justificação». Onde é que escrevi isso? A expressão não é encontrada pelo Google, nem neste blog antes deste artigo, nem nos trechos citados por ele. E não concordo que algo possa ser inválido por depender de uma justificação extensa.

Noutra ocasião, ele tinha dito que o criacionismo é «uma parte da ciência em conflito com a ciência», e eu apresentei uma resposta, lembrando que «segunda as definições que» ele deu, «para ser ciência é preciso ser ou derivar de "práticas e pesquisas que tenham sido suportadas pelo método científico"», e eu terminei com uma analogia: é «como dizer que sou um campeão de xadrez só porque jogo xadrez». Mostrei várias vezes uma distorção feita por Luciano da minha analogia, e nos últimos comentários supostamente sobre isso, ele distorceu-a e escreveu como se fosse dele: «O que é um CAMPEÃO de xadrez? É o mesmo que uma teoria que VENCEU dentre outras teorias... Por isso que o meu exemplo segue incólume. Pois eu disse que o criacionismo não ‘venceu’ nada, e o darwinismo ‘venceu’...» Onde é que ele tinha dito isso?

O fundo de côr amarela indica o cerne de um argumento. Por exemplo, se querem mostrar que Luciano não distorceu o que escrevi, devem responder às perguntas com fundo amarelo. Transcrevam dos meus textos aquilo que ele disse que escrevi, indicando as fontes, e indiquem exactamente onde está o seu exemplo.

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Ele nem sequer esclarece dúvidas e equívocos. Tinha-lhe enviado um exemplo de resposta a uma falsa analogia da "teoria dos talheres", do blog de Sabino. No dia seguinte recebi uma notificação por e-mail de um comentário de um "Luciano" nesse blog. Não voltei a encontrar a encontrá-lo, mas usei o caso para exemplificar um argumento homem-palha: «responder à "teoria da evolução dos talheres" como se o Sabino afirmasse que a Teoria da Evolução é só uma teoria (como uma mera hipótese), é distorcer o que ele disse» (...) « Penso que tinha lido uma resposta do género (por isso tinha dito ao Luciano que "li o seu comentário na Lógica do Sabino"), mas não a encontro.» Com uma pesquisa no Google, encontrei um comentário de um "Luciano", mas não parece ser o mesmo Luciano - foi uma mera coincidência.

No último comentário supostamente sobre o exemplo que dei, ele escreve como se eu tivesse dado um exemplo de criacionista a usar esse argumento num debate e como se não soubesse respondê-lo: «se o Pedro Amaral não tem esperteza para dizer algo como “sim, é só uma teoria, mas é uma teoria que É VÁLIDA, e a sua não é” É PROBLEMA DELE». E parece que não compreendeu o argumento, que é uma falácia da anfibologia e de homem-palha, que pode ser encontrado pesquisando por "evolution is just a theory" [exemplos: Wikipedia; Kent Hovind; Geerup; The Atheist Experience;]. É uma confusão entre o sentido vulgar de "teoria" e o sentido epistemológico. Como eu já tinha dito, criacionistas da AnswersInGenesis desincentivam o uso desse argumento: «“Theory” has a stronger meaning in scientific fields than in general usage; it is better to say that evolution is just a hypothesis or one model to explain the untestable past». A Creation Ministries faz o mesmo: «The problem with using the word ‘theory’ in this case is that scientists usually use it to mean a well-substantiated explanation of data.»

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O significado de palavras e expressões são convenções, por isso, só podem ser defendidas por meio da popularidade e da autoridade, se existe meio de mostrar que o uso de uma expressão é legítimo. O mesmo serve para outras convenções, como regras de trânsito, regras de boa-educação e protocolos, como os da Web. Se psicólogos que estudam os efeitos da literatura e historiadores que estudam a História da Linguagem usam a expressão "literatura produz", deve ser legítimo usá-la. E mesmo se não a usassem, também o seria se for entendida.

Para não entrarmos em discussões semânticas e evitarmos correr o risco de cometermos falácias, os termos devem ser usados com os significados aplicados por aqueles que respondemos,  se forem importantes nos argumentos. Por exemplo, é uma falácia da anfibologia elaborar um argumento assumindo que "teoria" de "teoria da evolução" tivesse o sentido vulgar, porque os cientistas usam-no com outro sentido. E o argumento de que CRM e a Ciência não se corrigem, porque é absurdo dizer que erram, é inválido se for como uma resposta para aqueles que aceitam e encontram um sentido na expressão "CRM e Ciência erram", por isso tinha escrito que «é dito várias vezes que a Ciência erra ou que tem erros» e que «eu próprio já o tinha dito antes de conhecer o blog de Luciano».

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Também para não entrarmos em discussões semânticas, deve ser possível descrever formalmente os argumentos, seguindo as regras lógicas, mesmo que por indução, por fuzzy logic ou por um algoritmo.

1.
Ser mutável é poder mudar e ser imutável é não ser mutável, por isso "ciência é mutável e é imutável" é uma contradição lógica: M ∧ ¬M. Se a ciência implica uma contradição, prova-se por reductio ad absurdum que não pode existir. Por exemplo, se implica que se corrije e não se corrije, prova-se que não pode existir. E se negarmos os dois, como alternativa, então conclui-se, aplicando a álgebra de Boole, que corrige-se ou não se corrige: ¬(M ∧ ¬M) ↔ ¬M ∨ M. É necessariamente um ou outro, sem uma terceira alternativa.

 2.
Mas "X corrige-se" não contradiz "X evita correcções" - são apenas opostos. As frases não significam que X corrige-se sempre nem que evita sempre correcções. Como o Luciano escreveu: «um deslize não implica em não ser boa pessoa». Afinal, "X evita correcções" não é o mesmo que "X não se corrige", e o que se corrige não precisa de ser perfeito sem nunca ter evitado correcções.

3.
Ao contrário de "X é mutável" e "X é imutável", que podem ser verdadeiras ou falsas, "X substui X" não tem qualquer significado. Se X e Y são diferentes e X substitui Y, então há uma propriedade Y que deixou de ter e que X passou a ter. O que significa se X for igual a Y? Se tudo fica igual, o que significa o contrário? É ficar igual, levando-nos a concluir que s(X, Y) =  ¬s(X, Y) . Nunca pode existir algo que substitua a si mesmo.

Luciano tinha afirmado que «não é possível que “ciência se corrige” e “ciência não se corrige” estejam juntas», porque «são logicamente contraditórias», mas «na ação de players, ambas ocorrem», e que não acha «que ciência se corrige, e nem evita correções». Usei analogias recorrendo às palavras "bom" e "mau", "gosto" e "desgosto" que Luciano diz serem falsas porque são juízos de valor e configuram situações de neutralidade. Eu já tinha dito que a validade de uma analogia depende do que se pretende demonstrar através dela. Não usei as palavras para juízos de valor - apenas interessa o facto de serem opostas. E a resposta de que são situações de neutralidade requer que se demonstre que afectam o facto de serem opostas. Alguém bom, pode fazer males, tal como o que se corrige, pode evitar correcções, e como alguém que condena, poder salvar ou evitar condenações. Já tinha notado algo semelhante, quando tinha dito que por não estar a dormir, não quer dizer que não durmo. Se evitou uma correcção, não significa que não se corrija. "Não se corrige" não é o mesmo que "evita correcções".

Noto que Luciano não apresentou um exemplo que faça sentido de uma entidade que não seja "maior", que vença derrotando a si mesma substituindo-se, para mostrar que o exemplo que ele apresentou com a Política é bom para o seu argumento e que a condição de entidade maior é necessária, especialmente para dar razão ao argumento de que leva a uma . Pode ser sempre dito que é preciso que assim seja, por uma mera questão de semântica, mas em geral não existem problemas em dizer que, por exemplo, a Culinária e restaurantes produzem alimentos.

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Quanto à pertinência, depende do que estamos a responder. Tenho o direito de focar aspectos concretos de um determinado argumento e só não estarei a ser pertinente se, ao dar a entender que os comento, comentar outra coisa. Se alguém citar trechos do meu blog para os comentá-los, essa pessoa é que estará a ser impertinente se discutir outros assuntos, como se eu fosse obrigado a dedicar-me a eles. Por exemplo, o Que Treta!, de Ludwig, é um blog português popular onde muitas vezes ateus e teístas nos comentários contra-argumentam Ludwig em pequenos aspectos dos seus artigos e comentários [exemplos: 1; 2; 3; 4;]. E ninguém se queixa por causa disso. Quem o fizesse, é que fugia do assunto para não responder.

Luciano, num comentário desse blog, tinha-me dito: «Eu sei que você é educado, e procura o conhecimento». Depois de escrever sobre religião e comunismo, começou a fazer-me insinuações. Quando publiquei o primeiro artigo para responder a essa discussão, fui acusado de «desonestidade intelectual e safadeza» e chamado de «ateu fanático e mentiroso costumaz». Passou a ser um hábito fazer ataques pessoais contra mim e chamar-me de neo-ateu - mas nunca sequer chamei-lhe de cristão, que seria irrelevante. Publiquei um artigo que expõe alguns conhecimentos que adquiri sobre religião, reconhecendo que é enorme e com instruções para saltarem secções, e a partir daí é que passei a ser chamado de prolixo. [valores na última imagem]

Em caracteres, este artigo é aproximadamente 1,5% menor do que "Ciência X Religião: retardo mental". Não precisei de dizer que Luciano é burrinho, que não tem cuidado a ler e que ainda não aprendeu - apesar de achar irónico. E se ele continua a fazer o que mostrei que faz, continua a ser difícil ter um diálogo com ele.

(próximo: fim da série)

03 novembro, 2009

Modelos entre guerras - tornar-se o inimigo

(continuação do artigo anterior)
«Por que vês tu, pois, o argueiro no olho do teu irmão, e não vês a trave no teu olho? Ou como dizes a teu irmão: Deixa-me tirar-te do teu olho o argueiro, quando tens no teu uma trave? Hipócrita, tira primeira a trave do teu olho, e então verás como hás de tirar o argueiro do olho de teu irmão.» (Mateus, 8: 3-5)
Este artigo está intimamente relacionado com o tornar-se inimigo (nas respostas).

Julgo que não é Richard Dawkins, nem qualquer outro ateu, que melhor responde a criacionistas e que mais influência tem nos debates sobre o Design Inteligente: a meu ver, é o biólogo católico Kenneth R. Miller, que ilustra os seus discursos com diagramas, desenhos e com humor, e participou no julgamento de Dover. Ele é popular em muitos sites de ateus, que o admiram e promovem-no. [Exemplos: The Atheist Experience; Atheist Toolbox; The Atheist Jew; FreeThought & Rationalism Discussion Board; Infidels]

No YouTube, DonExodus2, que diz ser católico, é um dos divulgadores da Teoria da Evolução mais populares, considerado um livre pensador por ateus. O youtuber ateu TheAmazingAtheist criticou-o severamente e injustamente num vídeo. Como consequência, vários ateus responderam a esse vídeo, defendendo ferverosamente o católico, e abandonaram o canal do ateu. [Exemplos: ThetaOmega; dinguswad452; eddygoombah; frisbeesANDflipflops; 2freet] Um outro youtuber cristão, conhecido como TogetherForPeace, que publica vídeos especialmente sobre o Cristianismo, é muito respeitado e elogiado por ateus, apesar das divergências. Defendeu o ateu conhecido como Thunderf00t e participou num vídeo com a sexy (neo-)atéia conhecida frisbeesANDflipflops.

Cristãos que são hábeis a criticar os fundamentalistas e a transmitir conhecimentos de forma interessante, podem ser tratados como heróis por ateus. Mesmo outros cristãos inteligentes que divulguem as suas crenças, podem ser tratados com repeito profundo e elogios por ateus, mesmo que discordem. Talvez esses ateus possam ser chamados de "neo-ateus", mas parece que há algo no seu comportamento que se distingue em relação a outros cristãos onde nos debates geralmente há atrito.

A presença de dois ateus, um deles membros do Portal Ateu num programa televisivo, com o padre Joaquim Carreira das Neves, serve de exemplo para o que julgo levar ao mal-estar entre ateus e cristãos. Nesse caso, a culpa é dos ateus, que com a sua postura, pareceram estúpidos, arrogantes e preconceituosos - afinal são como os seus "inimigos"!

Por outro lado, Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, num artigo critica um comunicado da Associação Ateísta Portuguesa (AAP) distorcendo-o.
Nesse comunicado é dito que a associação «defende, a liberdade de crença de todos os religiosos, não se opondo à visita de qualquer líder religioso enquanto tal» e o que critica é que «a visita de Bento XVI a Fátima, em Maio de 2010, seja palco de manobras políticas, com a cumplicidade do Estado».
No entanto o bispo, como resposta, chamando a AAP de "grupinho", simplesmente disse que ela está «indignada com o facto de Bento XVI visitar Fátima», não percebendo «a figura intolerante, ridícula e marginal que assumem» e que deviam respeitar a maioria. [resposta de Ludwig]

Por vezes quando entramos numa cruzada, sem querer, podemos tornar-nos como os nossos inimigos (ou adversários). Cometemos os erros que criticamos e perdemos o fio-à-meada, corrompendo os nossos próprios valores e objectivos. Assim, em vez de contribuirmos para que percebam e detectem falácias, e argumentem de forma razoável, podemos estar a contribuir para o oposto como modelos. Um séquito de seguidores, em vez de responderem racionalmente, alvitam paixões com atitudes anti-sociais, respondendo apenas com ofensas (muitas vezes com palavrões) e com ataques pessoais ou acusações infundadas contra os críticos. E os opositores respondem de uma maneira semelhante - priveligiando uma suposta censura no blog do Luciano naquilo que escrevem.

Em "tornar-se o inimigo (nas respostas)" mostrei em que termos Luciano dirige-se a mim nas respostas, comete os mesmo erros que critica e nem sequer responde ao que escrevo, mas a outra coisa qualquer, quer seja intencionalmente ou não. Fui tratado como "o sujeito", para além de me chamar de "coitado", afirmando que sofro de uma ilusão e que gosto dela. Apresentou conclusões recorrendo à expressão "justificativa infantil", atribuíndo nomes de falácias sem explicar-se, com expressões repetidas várias vezes como "sem valor argumentativo algum" e sempre a dizer, sem explicar-se, que não o refutei ou que o que escrevi não foi negado por ele (mantras?) - será que ele irá responder dizendo que este artigo não o refuta e que é irrelevante? E eu só estou a referir-me à secção Bizarrices do artigo [2], que é apenas cerca de 22,6% de 15142 caracteres em 5 páginas. Ele «já tinha cantado a bola faz tempo», afirmou que tenho «um problema muito sério e triste», inventou a expressão «triologia pedriana», chama-me de «prolixo» e «justificador», chama-me de «coitadinho» que só fica «justificando o motivo pelo qual fez a besteira», associa-me termos como «patético», «fraqueza», «esforço hercúleo», «cara de cachorro pidão», diz que para mim a expressão "a ciência corrige-se" é um mantra, etc, etc. E isso a cerca de 1/3 do seu artigo. Será que vai dizer que escrevi este artigo por eu ter medo, ou qualquer outra especulação sobre as minhas motivações? ("leitura de pensamento") É a mesma atitude do bispo Carlos Azevedo e dos dois ateus que respondiam ao padre Carreira das Neves.

Quem escreve os comentários no seu blog também tem essa atitude, quer sejam cristãos ou ateus. Nos comentários do artigo em questão:
Nuno Gaspar: (...) «O Luciano tocou-lhe no nervo e ele desatou aos pinotes a arrufar referências avulsas e desconexas.»
Pedro Correia: (...) «Ao ler-se com atenção verifica-se que os posts do Luciano têm todos os defeitos grafados pelo José Oiticica, e nenhuma das qualidades apontadas por este.»
Lourenço Serra: (...) «Parece que Thomé está sonhando. O Luciano está correto ao retirar posts de moleques que não sabem argumentar, só ofender. Sou capaz de apostar que logo o Pedro ou João aparecem com outros nicks aqui para prosseguir com suas lamúrias.»
Tomé Santana de Gonçalves: «Nunca que ele volta para argumentar a sério. Voce apagou muitas palavras dele, editou seus próprios posts e deletou alguns dele. Todos na internet estão sendo testemunhas disso. Voce não está a fim de debater honestamente. Voce é um crápula.»

Comecei "tornar-se o inimigo (nas respostas)" com uma citação (supostamente de S. Paulo) dirigida a Tito, onde é dito que os cristãos devem servir de exemplo, com «gravidade, sinceridade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se envergonhe, não tendo nenhum mal que dizer de nós». Podemos tornar-nos modelos tanto para o bem como para o mal. Se somos um mau modelo, sem reparmos, podemos ser a causa de guerras desnecessárias, com quem sentiu-se ofendido e com motivos para dizerem mal. Se um cristão mostrar ser um bom modelo, ateus terão vergonha de o maltratar, e os que não tiverem e fazem-no, são criticados pelos outros.

O próximo artigo será o penúltimo da série Modelos entre guerras - como podem ter reparado o título não foi arbitrário. Depois, um artigo que compila e resume a série - rematando-a. A seguir uma série mais pequena sobre o modelo de Luciano e a suposta dicotomia entre Ciência e Religião, comparando com outras áreas, uma mais pequena sobre a Religião e o Comunismo, e de seguida uma série sobre o livro "Caim", de Saramago - que estou a ler - e interpretações e metáforas. Já agora: estou a ler também "A Linguagem de Deus", de Francis Collins.

Mas antes, deixo-vos duas perguntas: Acham que conseguem argumentar sem recorrer aos ataques pessoais? Qual é a utilidade desses ataques?

(continua)

25 outubro, 2009

Modelos entre guerras - fora do contexto

(continuação do artigo anterior)

Sou acusado no artigo de Luciano de distorcê-lo e fugir ao assunto. Mas, que ele me desculpe, acredito que ele é que me distorce e foge ao assunto. Não estou a dizer que é intencional. Podemos não ler correctamente as frases e textos, especialmente num monitor: lemos à pressa, estamos cansados, escapam-nos palavras, temos preconceitos que nos levam a parecer que as palavras são outras, etc. Já me aconteceu, por exemplo, com debates com criacionistas. É irrelevante para efeitos de debate se é ou não intencional. O que interessa é que se forem detectados, que o rumo do debate deixe de incluir as incorrecções. E, para nós próprios, interessa que aprendamos com os erros.


1) Criacionismo e xadrez:
Acho que quem lê o contexto do que me é citado verifica claramente que não corresponde ao que me é acusado. Por exemplo, no último ponto das suas respostas ele cita «pode faltar uma condição para eu ser campeão de xadrez, que é ganhar um campeonato de xadrez, tal como falta a aplicação do método científico no criacionismo para ser ciência» e diz que isso é fugir ao assunto. Ironicamente essa frase encontra-se numa secção com o título "Falsas analogias e maus argumentos" e é usada para dar um exemplo de distorção daquilo que digo para que seja dito que fiz uma falsa analogia [leiam também nos objectivos: (...) «responder às acusações de que cometo falsas analogias» (...)].

No primeiro parágrafo digo que ele costuma fazer-me essa acusação e apresento condições para demonstrar que houve essa falácia.

O segundo parágrafo serve para apresentar um exemplo, que julgo ser fácil de perceber («Apresento um exemplo em que ele diz que sou ruim em analogias.») É irrelevante se é sobre o criacionismo, ou outra coisa qualquer: é só um exemplo. A questão é que para dizer que sou ruim em analogias, distorce o que digo e argumenta contra outra coisa (falácia do homem-palha; «Jogar xadrez não implica em campeão de xadrez, mas sim em ser um enxadrista.»), e mantém a premissa que eu pus em causa, ignorando o que eu realmente disseO criacionismo é ciência de amadores. Já foi substituido pelo design inteligente.»). O que Luciano citou é uma explicação da minha comparação no contexto: (...) «é como dizer "que sou um campeão de xadrez só porque jogo xadrez"».

No terceiro parágrafo fiz referência a um artigo onde refuto uma falsa analogia criacionista (a teoria da evolução dos talheres) e dou um exemplo de distorção do argumento criacionista ("a Teoria da Evolução é só uma teoria"). No final sugiro que leiam o contexto original daqueles que respondemos. Portanto, sugiro que leiam o meu texto original e comparem-no com o que Luciano respondeu.

Argumentar com base numa citação fora do contexto é uma faláciaUm texto sem contexto, é pretexto


2) Bom e mau:
No primeiro ponto da mesma secção (Bizarrices do artigo [3]) ele diz que tento supor o que ele pensou, porque não escreveu sobre "bom" e "mau" e raramente escreve sobre juízos de valor. Mas se lerem o que ele citou, podem reparar que não é isso que digo sobre ele. Comparem o parágrafo:
«Talvez para ele quando se diz que algo não é bom, quer dizer que é mau, por isso não faz sentido dizer que algo não é bom, nem é mau. E uma pessoa boa tem de ser perfeita – se faz algumas maldades, não pode ser considerada boa.»
com o ponto 4 de p.3.2.1: «Dizer "x corrige-se e evita correcções" não é uma contradição, do mesmo modo que dizer "x condena e salva" não é uma contradição.», que responde a este argumento: «Provavelmente ele pensou que eu, ao questionar a expressão “ciência se corrige” estava automaticamente dizendo que “ciência não se corrige”. Não, eu não acho que ciência se corrige, e nem evita correções.», que introduz um argumento onde se ignora a Lei do Terceiro Excluído: (...) «não é possível que “ciência se corrige” e “ciência não se corrige” estejam juntas, pois são logicamente contraditórias. Ou é um ou é outro. Mas, na ação de players, ambas ocorrem.».

Portanto, generalizando, ao dizer que X faz/é Y, então é impossível que X não faz/é Y. Com o "talvez para ele" estou a sugerir uma implicação do seu argumento usando casos particulares usados no dia-a-dia, tal como "não gosto nem desgosto", "não é bom nem mau", "ele teve aquele deslize, mas é boa pessoa", etc. Nesses casos notamos que o argumento de Luciano é inválido - não é consistente com o uso comum da linguagem. (n1) Comparem também com os  exemplos do 2º parágrafo da secção "Falácia de composição, essência e acidente" de p.1 . O que eu fiz foi usar contra-exemplos, como também é feito em Fallacy Files.


Notas:
(n1) Tinha-me esquecido da palavra "diferente" no parágrafo em questão. Devia ter escrito: «Entramos num mundo onde a linguagem é completamente diferente daquela que estamos habituados.» (o "completamente" é um exagero)
Numa disjunção de duas proposições contraditórias, se uma delas é falsa, conclui-se que a outra é verdadeira: (¬x ∨ x) ∧ ¬x  → x



3) Móveis e literatura:
Luciano afirma que os exemplos da cadeira e do livro, em p.1 1.e), são falácias do homem-palha com falsas analogias, porque não entendi «ainda o exemplo da entidade maior» (ler próximo artigo): deviam ter sido móveis e literatura. Nesse ítem digo que no argumento com a analogia da Política ele atribui-me a defesa da falácia da composição: «Luciano argumenta como se eu defendesse a falácia da composição, no entanto as teorias não se corrigem.» Como nota, acrescentei que apesar disso, «existem excepções à regra». O exemplo da cadeira e do livro são simples e do dia-a-dia - são fáceis de perceber. As falsas analogias dependem do que se pretende concluir com as analogias delas. Nesse caso nem eram analogias: eram exemplos de "excepções à regra". (Estava a comparar com o quê para serem falsas analogias?)

Notas: 
Também tinha usado como exemplos o exército, o ministério, o júri e o povo. "Móveis" e "móvel" não são nomes colectivos - pode ser dito «os móveis foram queimados». Na Rede Psi é dito que a «literatura produz muito mais do que o simples registro da linguagem». Em "História e linguagens: texto, imagem, oralidade e representações" é dito que a «literatura produz sentimentos». Também produz «o registro da linguagem», «transmissão da experiência», etc. ("Só porque os outros dizem..." - Resposta daqui a dois artigos)



Para concluir:
No próximo artigo escrevo mais sobre distorções. Espero que compreendam a necessidade de dividir as respostas em vários artigos. Existem vários argumentos e contra-argumentos de diferentes géneros e estou a respondê-los tentando evitar o prolixo. Volto a frisar: leiam os textos que são criticados. A suas descrições nas críticas podem não corresponder à verdade, mesmo que lhes seja atribuída a falácia do homem-palha. E antes de fazerem tal acusação, verifiquem os contextos das frases: podem estar a fazer uma injustiça sem que saibam.

Apesar das notas esboçarem argumentos de outra natureza, o propósito deste artigo é apenas mostrar que no artigo de Luciano partes dos meus textos foram distorcidas, sendo citadas fora do contexto. Lembro que não devem fazer ataques pessoais, dizendo que tenho medo por não me ter debruçado noutros assuntos. Eles serão tratados - as notas lembram-no.

(continua)

24 outubro, 2009

Modelos entre guerras - contra pessoas

(continuação do artigo anterior)

As conclusões de um artigo que Luciano comenta começam com uma secção intitulada como "Mundo de Alice". Referia-me às discussões semânticas de Alice com, por exemplo, o Chapeleiro Louco e Humpty Dump, que a confundem, em "Alice's Adventures in Wonderland" e "Through the Looking Glass and what Alice found there" [adquiri "The Complete Illustrated Works of Lewis Carroll", com ambas as histórias, por 10,95€ na Livraria Bertrand]. Esse título serviu de base para o título do artigo de Luciano: Pedro Amaral in Wonderland. No final ele responde aos meus artigos, mas dedica a maior parte do texto a descrever-me, inclusivé com especulações psicanalíticas («Não sei se é algum trauma de infância ou coisa do tipo» (...)] Comete até o que chama de Técnica da Leitura Mental.

Por exemplo, ele diz que tenho medo de responder no seu blog: «o Pedro vai, de novo, correr para o colo de seus amiguinhos, pois possui medo de vir a esse blog» (...) «se ele se traumatiza tanto quando eu refuto as expressões do livro do Carl Sagan» (...).

Como resposta à minha frase «Penso que Luciano, responsável pelo blog Neo-Ateísmo, Um Delírio, refugia-se em discussões de semântica ao invés de discutir o que existe e acontece de facto.», ele diz que é «apenas uma mentira» minha. Se o sentido literal da resposta dada fosse realmente o que queria transmitir, ele estaria a dizer que o que eu penso é mentira - mas suponho que foi apenas falta de atenção ou uma gafe ao exprimir-se. Mas, para além de parecer que me acusa de dizer falsidades intencionalmente, podemos verificar que tenho razões para pensar o que disse. O que Luciano discute nos seus quatro artigos é o significado e validade da expressão "a ciência corrige-se" (para além dos significados de "religião" e "pensamento" noutras discussões). Exemplos no primeiro deles:
  • «Essa turminha com certeza está com algum problema de interpretação básica de conceitos, e até com falhas graves no uso da linguagem estruturada.» (...)
  • «não tem a minima noção do que ciência significa» (...) «tipo de distorção do que significa “a ciência”» (...)
  • «dá mais a impressão de que tal pérola tenha sido escrita por algum disléxico» (...)
  • «Notaram que, por essas definições, é impossível que “ciência se corrija”?» (...)
  • «A definição de ciência segue a mesma de sempre.»
Para além de me acusar de prolixo, ele diz que entre os três artigos, só encontrei um único erro nos seus argumentos, na frase «seria impossível a ciência se corrigir, pois ela não estava errada», e que «boa parte da trilogia de "refutação"» fundamenta-se nessa frase e que apego a «essa frase, como se fosse o OURO para» mim, mas que para ele «não passa de MERDA», porque «os outros dois artigos justamente com uma nova abordagem, permitindo a retificação de pontas abertas do primeiro artigo».

Respondi a artigos que no total perfazem 15 páginas com 49550 caracteres:
Nos meus artigos que Luciano respondeu (mais uma página nos dois primeiros contando com as imagens):
  • ... p.3.1: 4 páginas; 12488 caracteres;
  • ... p.3.2.1: 5 páginas; 14569 caracteres;
  • ... p.3.2.2: 3 páginas; 8407 caracteres;
As respostas foram numeradas para que fossem referenciadas facilmente, tanto por mim, como nas críticas. Respondi à tal proposição (da frase que supostamente apego) em parte na primeira secção de p.3.2.2 (implicitamente) e no ponto 3 e em 4.b), de p.3.2.1. A totalidade dessa primeira secção, os pontos indicados e as citações iniciais nem fazem uma página inteira - tudo isso corresponde a cerca de 8% do conjunto dos artigos. Mas em todos os artigos indicados de Luciano está uma referência a esse argumento, geralmente associado ao argumento de que "ciência corrige-se" é uma falácia de composição:
  • parte 4) «Se um modelo matemático do sistema solar prevê um eclipse e não ocorre o evento, é evidente que o modelo está errado, mas não a ciência.» (...) «Só que isso é totalmente falso, pois na verdade o conjunto das teorias científicas é APENAS uma das partes da ciência.»
  •  parte 3) «É um absurdo afirmar que durante a rotina das vendas, ao se alterar uma oportunidade para “Dead ” (ou seja, alguém pensou que seria uma venda, mas não foi, que é o mesmo que o erro de uma teoria científica), isso implicaria em “O CRM errou e se corrigiu”. Claro que não se corrigiu, pois o sistema já está incorporando essa avaliação.»
  • parte 2) (...) «Popper escreveu “que ciência é uma das atividades humanas nas quais erros são sistematizamente criticados e corrigidos em seu devido tempo” e não “ciência é uma entidade que erra, se critica e corrige seus erros”.»
  • Ciência x Religião) «A ciência só poderia se corrigir se a ciência estivesse errada. Mas não estava. A definição de ciência segue a mesma de sempre.» 
Mas se não fosse assim, não seria legítimo mostrar um único um erro num argumento entre vários? Acho que em vez de insultar quem descobre os meus erros, por mais insignificantes ou irrelevantes que sejam para um argumento, eu devo dar valor devido à descoberta e a quem o descobriu, seja quais tivessem sido as suas intenções. Não desejo estar errado sem sabê-lo: pelo contrário. E os outros ajudam-me a descobrirem os erros.


Para concluir
No próximo artigo respondo às acusações de distorção e mostro como o sentido das minhas frases foram distorcidas. Será que vou ser acusado de me dedicar a responder às acusações feitas a mim? Luciano dedicou quase 3 páginas com 7733 caracteres do no seu artigo a dizer que sou assim-e-assado, incluindo a conclusão. Dedicou outras 2 páginas a responder aos meus artigos como "bizarrices", com 7399 caracteres, apesar de conter o mesmo espírito do resto do artigo. Há que aprender quais são os efeitos nos argumentos com os insultos que fazemos aos outros. E essa postura pode ser contagiosa.

Por exemplo, houve o hábito de ateus acusarem Luciano de censura, apagando ou editando comentários. Ele demorou a aceitar o meu primeiro comentário e removeu links de alguns comentários que enviei - mas acho que nunca os apagou nem os adulterou como dão a entender. É irrelevante, especialmente tendo em conta que estou a escrever aqui, neste blog. Luciano fez o mesmo em relação ao Que Treta!: «O meu blog anda recebendo muitas visitas» (...) «dedicarei as poucas horas que tenho disponíveis para blogar exclusivametne ao meu blog, e não virei mais cá, pois isso toma tempo.» (...) «As próximas respostas serão feitas diretamente em meu blog.» Mas não lhe acusei de ter medo por isso - seria irrelevante. Nuno Gaspar, num comentário, seguiu o exemplo de Luciano, afirmando que tocou-me «no nervo e» eu desatei «aos pinotes a arrufar referências avulsas e desconexas». Entretanto, as respostas aos meus argumentos ficam em segundo plano ou ignoradas. Proponho que mudem essa postura.

(continua)

28 dezembro, 2008

Mats - os ateus são os mais supersticiosos

O Monstro de Loch Ness
Para escrever o artigo anterior, fui à procura de patetices que o Mats escreveu nos comentários. Com isso encontrei um artigo dele com o título "Ateus Mais Propensos à Superstição Que Cristãos".
Numa nota ele começa por fazer jogos de palavras (como sempre faz quando usa aspas em palavras): «Prevendo a reacção dos darwinistas, deixem-me dizer que eu não acredito que o "monstro" do Loch Ness seja, ou tenha sido, um "monstro", mas sim um animal normal». É engraçado que nem pensei nisso - mas graças a isso, começarei por lembrar as crenças do sr. Mats. E ainda mais engraçado é que a figura do monstro de Loch Ness é como a de plesiossauro, e que nos artigos dos anos 30 era chamado de "monstro pré-histórico marinho" - um plesiossauro [1]. E é engraçado que qualquer animal que seja gigante, ou feio ou assustador, é um monstro, segundo os dicionários. Se perguntassem ao Mats se ele acredita num monstro de Loch Ness, como responderia? Ele não apoia a criptozoologia?

Comunicação com os mortos e mensagens nos sonhos
No estudo mencionado a crença na comunicação com os mortos está entre as superstições referidas. Mats traduz parte citação feita na sua fonte do seguinte modo: «quanto mais tradicional e evangélico fosse o inquirido menos susceptível ele era de acreditar, por exemplo, na possibilidade de comunicar com os mortos».

Os ateus são mais propensos em acreditar na possibilidade de comunicar com os mortos? Basta dar uma vista de olhos a
sites de ateus sobre ateísmo para repararem na crítica que fazem ao espiritismo e necromância. Na verdade quem acredita nessa capacidade de comunicar com os mortos critica os ateus. O mais ridículo é que Mats sabe muito bem que os destinatários do artigo não acreditam na existência de vida além da morte, mas ele próprio acredita e escreveu artigos a defendê-lo. [2] Na própria Bíblia é dito que o rei Saul, disfarçado, falou com o morto Samuel através de uma bruxa. Com excepções, como o Espiritismo Kardecista, os cristãos acreditam que existe algo de errado no mediunismo. Uns acham que é possível comunicar com os mortos mas é errado segundo a Bíblia e outros acham que na realidade são demónios que estão a comunicar. [3] Se fosse perguntado se acreditam na comunicação com os mortos, como responderiam? Também vão dizer que não acreditam em visões e mensagens divinas durante os sonhos? De onde vieram as vacas gordas e vacas magras, as revelações apocalípticas, a mensagem do anjo a José, as visões de Ezequiel? Dos ateus?

Noto que paranormal é um alegado fenómeno que
transcende as leis naturais e sem explicação científica, como um espírito a saír do corpo, ou qualquer outro fenómeno sobrenatural. Que eu saiba os chamados de naturalistas e materialistas é que não acreditam no paranormal. [4] Mats é que defende que espíritos saem do corpo para que haja testemunhas da existência de um Céu e de um Inferno, e desafia o ateus a encontrarem uma explicação natural. E ele chama-os de naturalistas e materialistas. [3]

Bigfoot, OVNIs e Astrologia
Tenho dois livros chamados "Os deuses que fizeram a Terra e o Céu", de Jean Sendy, e "Eram os deuses astronautas?", de Erich Von Dänken, que defendem que as escrituras sagradas, como a Bíblia, descrevem extraterrestres que tiveram contacto com seres humanos e foram considerados deuses. No primeiro livro a maioria dos capítulos começa com um excerto do Génesis; o último capítulo tem o título "De Moisés à vinda de Cristo". Na religião raelinana os membros são ateus defensores do design inteligente. No site do Movimento Raeliano existem títulos como "Message from the designers" ["Mensagem dos designers"] e "Design Inteligente para Ateus" ["Inteligent Design for Atheists"]. Um dos membros é Glenn, de Londres, que interpreta Jesus numa nova versão de "Jesus Christ SuperStar". Os mensageiros são chamados de "Elohim" ("deuses" em hebraico) - o mesmo nome usado nos dois livros que referi. Isso prova que existem grupos de ateus que têm religiões e partilham as superstições de teístas. A Ciência mostrou ter um enorme valor e foram algumas das suas características foram usadas para serem elaboradas pseudo-ciências, substituindo os anjos, demónios e deuses.

A obra "Um Mundo Infestado de Demónios" apresenta diversos exemplos disso. No 7º capítulo, com o mesmo título do livro, está: «No início dos anos 60 afirmei que as histórias de OVNI eram construídas sobretudo de forma a satisfazerem anseios religiosos. Numa época em que a ciência tornou mais difícil a adesão acrítica às religiões dos tempos antigos, apresenta-se uma alternativa à hipótese de Deus: envoltos num jargão científico, com os seus imensos poderes "explicados" por uma terminologia científica superficial, os deuses e demónios da antiguidade descem do Céu para nos assombrar, para fornecerem visões proféticas e para nos atormentarem com visões de um futuro mais auspicioso.»

No entanto a crença em extraterrestres que visitam a Terra para trazerem mensagens aos humanos não é exclusiva dos raëlianos. Existem muitas organizações cristãs que acreditam nisso, como a Cientologia, Universe People e o Nuwaubianismo, sendo algumas delas destructivas, como a Heaven's Gate, onde realizaram suicídios em massa. Até existem cristãos que dizem que a ufologia apoia o Cristianismo - já que os extraterrestres transmitem mensagens cristãs - e pretendem que seja discutida nas escolas. É claro que os cristãos conservadores colocam aspas na palavra "cristãos" para se referirem às pessoas que têm esse tipo de crenças. [5]

Presumo que o Mats também não acredita que aborda ateus que acreditam em extraterrestres que visitam a Terra. Também não me parece que Mats acredite que acreditam no Pé-Grande e em astrologia. Na AstrologySource é usada a Bíblia para defender a ideia de karma e a astrologia, no artigo "Astrology: A Theological Science" ["Astrologia: uma Ciência Astrológica"]. E segundo Mats, os ateus são os que mais acreditam na "ciência teológica". Que tal procurar conhecer as crenças dos astrólogos a respeito da existência de um Deus? [6; a, b, c, d]

Não sei qual é a relação entre o Pé-Grande e o ateísmo, mas parece ser uma raridade os ateus que acreditam nisso. Nem consigo encontrar um exemplar pesquisando por "atheist bigfoot" no Google. Quanto muito encontrei alguém no Yahoo Answers a dizer que é católico e que acredita que o Pé-Grande existe.
Encontrei no site da "Evolution News", da Discovery Institute, um artigo que começa por mencionar um ateu, chamado Steven Novella, que critica a crença apaixonada de um tal de Dipu Marak na existência do Ieti. Pois claro, ateus e agnósticos são os que em geral gastam tempo a testar experimentalmente as crenças, como a astrologia, e a apelar o espírito céptico, como no caso da existência do Pé-Grande. Curiosamente o artigo do site criacionista usa a mesma fonte do Mats - um artigo no DCExaminer escrito por Logan Gage. Mas perdeu-se uma grande oportunidade de apresentar um ateu que acredite no Ieti ou Pé-Grande. Uma coisa é certa: se fossem aparições de dinossauros e testemunhos de espíritos, iriam para a colecção de provas criacionistas. [7]

Superstições populares e cristãos
Devem ter sido os ateus que inventaram os unicórnios mencionados na Bíblia do Rei Jaime, as sereias, os duendes, os vampiros, os ogres, as bruxas e feiticeiros (objectos de estudos medievais), os sátiros (mencionados em Levítico 17:7 e nos capítulos 13 e 34 no livro de Isaías). Talvez tenham sido os ateus que se lembraram de lançar sal para cegar Satanás. Um homem entre 13 traiu o seu mentor numa sexta-feira, e daí os ateus devem ter tido a inspiração para o azar na sexta-feira treze. Devem ter sido os ateus que se lembraram de cruzar os dedos como um crucifixo. Também lembraram-se do gesto da cruz à frente da boca para que o diabo não entre. Também lembraram-se de levantarem-se com o pé direito para estar do lado direito de Deus, como tradição bíblica. Devem também devem ter inventado a ideia de que uma sombra numa fogueira devora a alma antes da véspera de Natal. Também batem na madeira porque foi o material onde Jesus foi crucificado. E vestem-se de preto nos funerais para não serem reconhecidos pelos espíritos. Os ateus usam rosários nos casamentos católicos para dar sorte. É óbvio que foram ateus que se lembraram de que quebrar espelhos afecta a alma. Também é óbvio que os ateus não atravessa escadas encostadas em paredes por representarem o triângulo da Santa Trindade. "Atchim!" "Santinho." "Deus te abençoe". [8]

Há criacionistas da Nova Terra que usam montagens para defender a descoberta de fósseis de nefelins, gigantes mencionados no Génesis antes do dilúvio. E esses ainda defendem que em Paluxy existem pegadas humanas por cima de pegadas de dinossauros, provando que humanos e dinossauros coexistiram. Segundo um mito urbano, a NASA descobriu que falta um dia e um cristão associou-o ao momento em que Deus parou o Sol, segundo o Livro de Josué. Na AnswersInGenesis esses mitos estão na lista de argumentos que os criacionistas não devem usar.

Existem grupos de criacionistas que opõem-se à vacinação, como originadora de doenças, e que defendem o poder do oxigénio de aumentar a longevidade e tamanho dos seres-vivos, tal como Sabino defendeu em comentários no blog "Que Treta!". Mats questiona num comentário do seu outro blog "Darwinismo":«mostra-me na Bìblia onde essas prácticas são ensinadas».
No canal da TV Cabo que tem um programa da IURD, vi um dos apresentadores a tentar curar miraculosamente uma mulher com câncro da mama através de orações, com uma Bíblia sobre a sua cabeça e uma colega a tocar no seio da doente. Há um site dedicado a esse tipo de coisas chamado "Why God Won't Heal Amputees", com diversos casos concretos e passagens bíblicas. Na web facilmente encontramos vídeos e artigos de exorcismos, alguns deles que levaram à morte de pessoas. "Vade retro, Satanás!" E quantas vezes aconteceu o Final do Mundo? Para quem não é Testemunha de Jeová, cientologista ou mórmon, é fácil reconhecer as supertições das suas religiões. Caso contrário, é muito difícil, tal como é difícil identificar superstições de origem critã ou bíblica se for um literalista bíblico. [9]

São curiosas as origens das superstições, tendo em que os ateus são os mais supersticiosos. E ainda mais curioso o facto de, segundo a Gallup, cerca de 1/4 (com 3% de erro) dos americanos admitem serem supersticiosos numa sondagem. Se todos os ateus da América fossem supersticiosos (cerca de 4%), restariam 21% dos americanos. Uma nota: não encontro qualquer referência à sondagem no site da Gallup referida no artigo citado pelo Mats.

Da fonte
O Mats já tem há muito tempo o hábito de usar fontes criacionistas que referem a outras fontes, em vez de procura aproximar-se o mais possível da fonte original. Por isso comete erros como no artigo "Últimas Palavras Famosas de Ateus". A fonte usada por Mats é de um artigo escrito por um membro da Discovery Institute - uma organização criacionista -, que por sua vez usa como fonte um artigo de opinião no The WallStreet Journal escrita por Mollie Ziegler, uma luterana membra do "Board for Communication Services" e da "Higher Things". Nesse artigo é dito que «os que se descrevem como ateus nem podem ser considerados estritamente racionais», referindo-se a uma sondagem no "Pew Forum on Religion & Public Life's" onde é dito que «21% dos que se dizem ateus acredita num Deus pessoal ou numa força impessoal», «dez por cento dos ateus reza pelo menos uma vez por semana e 12% acredita no Céu.» No "Pew Forum" é dito que isso é uma "medida de erro" ["measurement error"]. Talvez sejam como o Mats, pensando que ser ateu é não frequentar igrejas.

Logan Gage no seu artigo diz que Rodney Stark trabalha na Universidade de Baylor. Basta fazer uma pesquisa no Google pelo título do seu livro para encontrar o site dessa universidade sobre o estudo. Ateus e irreligião são discutidos na mesma secção. Simplesmente diz que o número de ateus não cresceu, a maioria dos europeus não é ateia, cerca de 1/3 dos irreligiosos são ateus materialista, cerca de 2/3 dos irreligiosos acreditam que um Deus existe mas não frequentam igrejas, 32% dos irreligiosos reza frequentemente, cerca de 1/3 deles acredita em Satanás e demónios e metade acredita em anjos e fantasmas.

Na secção sobre cristianismo e superstição, é dito que os cristãos tradicionalistas e conservadores têm menos tendência a acreditar em mensagens nos sonhos, no Pé-Grande, OVNIs, casas assombradas, comunicação com os mortos e astrologia. No próprio texto é dito que «os investigadores dizem que isso mostra que não é a religião em geral que suprime essas crenças, mas sim a religião conservadora.» Segundo o artigo do The WallStreet Journal, entre os que têm tendência a serem supersticiosos estãos os que pertencem a denominações Protestantes liberais.
Isso não é novidade para mim e a razão é fácil de perceber se lerem, por exemplo, a literatura de Testemunhas de Jeovás a respeito dos feriados, astrologia, ocultismo e independência de organizações religiosas (clique na imagem ao lado). Se, por exemplo, digo que não acredito na comunicação com os mortos, quero dizer que não acredito na possibilidade de comunicação com os mortos e quem acha que o faz está iludido ou é uma fraude. No entanto Testemunhas de Jeová, tal como os Evangélicos, acreditam que existe influência demoníaca na comunicação com os mortos. Na realidade dizem não acreditar por motivos igualmente supersticiosos. [3] Ora, no artigo do The WallStreet Journal é dito que Barack Obama acredita no paranormal e Sarah Palin não. Mas Sarah Palin recebe orações de um sacerdote para se proteger de feitiçaria. [10] Devo dizer que saber que Bill Maher promove pseudo-ciência, opondo-se à vacinação, surpreendeu-me, no entanto ele diz que não é ateu acreditando num Deus, por isso não é um ateu propenso à superstição. [11]

Resta perguntar como é que o Mats concluiu que «os ateus são mais propensos à superstição que cristãos». O estudo não sugere nada disso. Segundo o que escreveu, parece que ele acha que «as pessoas que nunca vão a casas de oração» são ateus. Ele sabe muito bem que eu e outros ateus que ele aborda não acreditamos nessas palermices e apenas quis desacreditar-nos com um ad hominem em forma de artigo.

Sigo uma filosofia céptica. Mesmo se o título do seu artigo fosse verdade, isso não me iria colocar no saco desses supersticiosos nem seria o suficiente para concluir que o que escrevo é falso. Como sempre, indico imensas referências para que o que escrevo seja escrutinado. Se Mats realmente acredita mesmo no que disse, então que apresente diversos exemplos para corroborá-lo, tal como faço.

Referências: