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07 setembro, 2010

Memória e abusos

Herman José teve sorte. Tinha sido apontado como um abusador de crianças em Portugal, mas esteve no Brasil num trabalho para a SIC, na altura da suposta violação sexual com um adolescente de 17 anos. Senão, também seria impossível as crianças terem inventado tal acusação. Mas outros não tiveram tanta sorte. Depois de um julgamento com seis anos, todos os arguidos foram considerados culpados e condenados. Quais são as provas? As crianças não inventam. E têm uma memória brilhante. Quem se lembra ainda de Herman José como arguido do caso da Casa Pia?





29 agosto, 2010

Paulo, epilepsia e falácia de probabilidades

Tenho um esboço sobre falácias, mas não continuei a mexer nele por estar ocupado com trabalho e com um portefólio. Mas escrevo este artigo para responder a um comentário de Yuri sobre a hipótese de São Paulo ter sofrido epilepsia, para responder a parte do Argumento do Túmulo Vazio.

No seu blog "Pérolas dos poucos", ele coloca algumas questões:
  1. «Qual a probabilidade de Paulo sofrer de epilepsia?»
  2. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra que derrubasse alguém de um cavalo?»
  3. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra quando Paulo estivesse montado no cavalo?»
  4. «Qual a probabilidade de um terremoto despoletar um ataque de epilepsia?»
  5. «Qual a probabilidade de uma epilepsia levar à prosopagnosia e cegueira temporária?»
  6. «Qual a probabilidade de um epiléptico sofrer alucinações que transformam seus perseguidos em perseguidores?»
  7. «Qual a probabilidade de acontecer, simultaneamente, essas coisas?»
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Comentadores disseram que acreditam que é impossível acontecer tudo simultaneamente ou que é muito pouca, que crer nessa possibilidade é uma questão de fé. Cometem uma falácia de probabilidades que é comum entre criacionistas, para defender um suposto caso de Falácia da Conjunção. Apresento um exemplo através de uma doença crónica que eu tenho:

O meu nome é Pedro Amaral Couto. Sou um homem português que nasceu em São Miguel, mas que vive na Margem Sul da Grande Lisboa. Certa vez pelos doze anos senti-me mal-disposto com o cheiro de arroz de marisco e não conseguia comê-lo. A falta de apetite e os vómitos passaram a ser comuns e comecei a evacuar sangue. Pelos sintomas, a médica de família suspeitou que se tratava de doença de Crohn. Depois de terem sido feitas análises, fui medicado e passei a visitar regularmente um hospital. Fui descobrindo o que não posso comer: caranguejo, caldo-verde e sopas com puré, lacticínios e chocolate. Fiquei a saber que existem doentes que não podem comer bacalhau e outros que só podem comer carne se for triturada. Mais tarde, quando faltava pouco para o dia de meu aniversário, senti febres e uma comichão do traseiro. Tinha um abcesso, que fiquei a saber que era comum na doença de Crohn. No meu aniversário estive deitado numa cama. E celebrei-o com um bolo por cima da barriga. Fui eu que introduzi na Wikipedia o artigo sobre essa doença.

A priori, qual é a probabilidade de isso tudo acontecer? Na Europa, cerca de 7 pessoas em cada 100.000 sofre dessa doença; ie: a probabilidade de alguém ter a doença é de 0,007%. Se a multiplicarem com todas as probabilidades de todas as minhas características relacionadas com doença, terão o valor de tudo simultaneamente. E será muitíssimo mais pequeno. No entanto, foi o que me aconteceu e o diagnóstico foi feito pela descrição dos sintomas. Num caso particular, a probabilidade que interessa é aquela que tem em conta todos os dados conhecidos, o que poderá aumentar muito a probabilidade (que é a medida da nossa ignorância).

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1. «Qual a probabilidade de Paulo sofrer de epilepsia?»


Sobre a hipótese de epilepsia, usei palavras como "especulações" e "supostamente": não existe o mesmo grau de certeza que tenho sobre a minha doença. Mas é fundamentada na comparação feita por médicos dos sintomas de epilepsia com as cartas de Paulo. Nos sites dedicados à epilepsia, São Paulo é usado como exemplo de um epilético e a epilepsia era até chamada de "doença de São Paulo" na Irlanda.
  • PubMed Central - J Neurol Neurosurg Psychiatry - St Paul and temporal lobe epilepsy
  • BBC - Saint Paul (vídeo)
  • German Epilepsymuseum Kork - Famous people who suffered from epilepsy: Saint Paul
  • epilepsy.com - Religious Figures : Saint Paul
  • epilepsy action - St Valentine and others - patron saints of epilepsy : «That this was an epileptic seizure is given even more credence by the fact that sight impediment – including temporary blindness lasting from several hours to several days – has actually been observed as a symptom or a result of an epileptic seizure. Paul himself perhaps provides further evidence of his epilepsy when he talks about his “physical ailment” in his letters; (2 Corinthians 12:7 and in Galatians 4:13-14). This connection between Saint Paul and epilepsy was so strongly perceived that in old Ireland, for example, epilepsy was sometimes known as 'Saint Paul's disease'
Se os sintomas de Paulo descrevem os sintomas de epilepsia, então a probabilidade deve ser elevada. Por exemplo, segundo Actos, foi cercado por uma luz, caiu, teve uma experiência religiosa, ouviu vozes e ficou cego durante três dias. Segundo as suas cartas, teve visões, sentiu-se arrebatado para o Paraíso, desejou que arrancassem os olhos para substituirem os seus, sentia-se esbofeteado por Satanás, notou que escrevia com letras grandes, dizia várias vezes que queria gloriar-se e enumerava as suas fraquezas e tinha uma doença que quem pedacia costumava ser desprezado (a epilepsia era chamada de "morbus insputatus": doença cuspida; era costume cuspir nos epiléticos).


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2. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra que derrubasse alguém de um cavalo?»

Eu não tinha sequer escrito a palavra "cavalo", na Bíblia não é dito que esteve montado num cavalo - apenas que «caindo em terra, ouviu uma voz»  - e não é a queda que provoca epilepsia, por isso a pergunta é irrelevante. Mas sabe-se que os sismos alteram os comportamentos dos animais. Os cavalos ficam agitados durante um sismo antes de ser sentido por humanos. E é comum os epiléticos caírem num ataque de convulsões, porque  a falta de equilíbrio é um dos sintomas de um ataque epilético. É o sintoma mais fácil de associar a um ataque epilético. Na Babilónia era chamada de "doença da queda". (Psychoses of epilepsy in Babylon: The oldest account of the disorder)



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3. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra quando Paulo estivesse montado no cavalo?»
4. «Qual a probabilidade de um terremoto despoletar um ataque de epilepsia?»

É irrelevante se aconteceu quando esteve montado num cavalo...

Os sismos na Palestina e arredores eram muitíssimo frequentes e foram descritos com muita frequência na Bíblia, que até teriam aberto jaulas de prisões, e sabe-se que num sismo a descarga eléctrica de fricção das rochas ao atingir o cérebro provoca um ataque num doente de epilepsia. Esse facto é usado para procurar um tratamento e até um meio de prever terramotos. Perguntar qual é a probabilidade de um terramoto despoletar um ataque de epilepsia num epilético é como perguntar qual é a probabilidade de luzes intermitentes despoletarem um ataque de epilepsia num epilético, como aconteceu com 685 epiléticos no Japão quando viram o Pikachu a brilhar num desenho-animado.

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5. «Qual a probabilidade de uma epilepsia levar à prosopagnosia e cegueira temporária?»

Problemas de visão é um sintoma predominante da epilepsia, que inclui cegueira que dura várias horas ou alguns dias depois de um ataque (sintoma de uma fase pós-ictal). Se alguém tem esse sintoma, muito provavelmente sofre de epilepsia, mesmo se acontecer num cão. É um dos sintomas descritos leva médicos a suspeitarem de que Paulo sofria de epilepsia.

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6. «Qual a probabilidade de um epiléptico sofrer alucinações que transformam seus perseguidos em perseguidores?»

Um meu primo pensou que era Jesus durante um ataque epilético. As alucinações visuais e auditivas com figuras luminosas, alterações de personalidade e sensação de estar a ser perseguido ou de ser alguém muito importante são sintomas da epilepsia. Se alguém caiu subitamente no chão e ficou cega durante três dias, e depois disso considera-se mais importante num contexto religioso e diz que viu ou ouviu Jesus e que sentiu-se perseguido no momento da queda , então provavelmente teve um ataque epilético, especialmente se diz que normalmente tem um mal físico e que sente um "espinho na carne". Mais sintomas de uma doença torna mais provável que seja essa doença. Não a torna mais improvável.
  • Paranoia - The Psychology of Persecutory Delusions: «Persecutory delusions also occur in neurological disorders, such as dementia (Flint, 1991) and epilepsy (Trimble 1992).» ... «Perez, Trimble, Murray, and Reider (1985) report mental state data on 24 consecutive referrals of patients with epilepsy and delusions were much commoner (70%) in individuals with temporal lobe epilepsy
  • Delusions, illusions and hallucinations in epilepsy:1. Elementary phenomena : «Delusional themes commonly include: guilt, worthlessness, ill-health, persecution, reference, grandeur, love, jealousy, poverty,infestation, and religion
  • Neuropsychiatry, Lippincot Williams and Wilkims: «The mechanism for the development of chronic psychosis in epilepsy is not known» ... «A recent study (325) reported persistent symptoms of auditory hallucinations and delusions of persecution»
  • The Epileptic, E. M. Blaiklock (Cambridge Journals) : «'The epileptic may be suspicious with delusions of persecution or elated with delusions of grandeu' (Insanity, G. H. Savage, p. 384)»
  • Epilepsy Society - Ictal, Post-ictal and Interictal Psychosis
Ainda por cima, Saulo era supostamente um judeu ferrenho. E os judeus acreditavam que as doenças (mudez, cegueira, hemorróidas, etc.) eram punições de Deus, como descritas nas Escritutas Hebraicas. Mesmo segundo os Evangelhos, quando Jesus curava, dizia: «Seus pecados foram curados».


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7. «Qual a probabilidade de acontecer, simultaneamente, essas coisas?»

A probabilidade de acontecer tudo simultaneamente a uma pessoa ao acaso é muito baixa. ( Conhecem alguém com os sintomas descritos? ) Mas no Novo Testamento foram descritos sintomas que aconteceram pouco antes da conversão de Paulo e durante a sua vida. A questão não é sobre a probabilidade de tudo ocorrer simultaneamente. A questão é: qual é a probabilidade de não ser epilético, sabendo que sofre um conjunto de determinados sintomas? Ou, qual é a probabilidade de alguém que tem os sintomas características de uma doença não ter a doença? E já agora, qual é a probabilidade de ter sofrido um "golpe de calor", sugerido por Yuri, que tivesse provocado todos os sintomas? Só ele é que inventou uma explicação nos comentários, apesar de ele ter pedido que outros o fizessem.

Não sou especialista em epilepsia, nem sou psicólogo ou neurologista, nem sequer médico. Usei vários artigos de especialistas na matéria que concluíram que é muito provável que Paulo tivesse sofrido de epilepsia. No entanto escrevi «Mas parece que é dado demasiado crédito ao Livro dos Actos» (parágrafo 8).

O meu artigo era uma resposta a um argumento que conclui que a explicação mais plausível para o conteúdo do Novo Testamento é que Jesus realmente ressuscitou em carne e osso. Define-se o que é mais provável ou mais plausível através do que já conhecemos. Se não sabemos se extraterrestres existem e muito menos se visitem a Terra, mas sabemos que existem casos de alucinações, não se conclui que o mais plausível é  que os que dizem que foram abduzidos por extraterrestres foram mesmo abduzidos, especialmente se for um fenómenos muito estudado. O mais plausível é que tenham sofrido de uma alucinação, talvez numa paralisia do sono, se não tiverem a mentir. E se quem tiver os mesmos sintomas de Paulo é diagnosticado como epiléptico, então o mais plausível é que Paulo tenha sofrido de epilepsia. São os sintomas que levam pensar que se sofre de uma determinada doença. E quantos mais sintomas característicos de uma doença tiverem ocorrido, a hipótese não se torna menos plausível. Pelo contrário! O Yuri pensou o contrário...

08 junho, 2010

Ressurreição de Jesus - 2) O túmulo vazio





[imagens ao lado, de cima para baixo: visão de Paulo a caminho para Damasco; visão em Revelação; visão de Pedro; visão de Estêvão; Jesus na Igreja de Éfeso (Scott Hahn)]

¶1 Seguindo o artigo anterior, sugiro que devemos recorrer aos documentos pré-marcanos (anteriores ao Evangelho Segundo Marcos) para conhecermos as crenças dos apóstolos. William Lane Craig fez isso: começou o seu argumento do sepulcro vazio com base numa de uma epístola de Paulo para defender os evangelhos como históricos:
«Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras e que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também. Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo.»
¶2 Mas Paulo não disse que o corpo de Jesus foi colocado num túmulo que foi três dias depois encontrado vazio. Isso é um pressuposto através da leitura dos evangelhos canónicos. O que Paulo disse não é inconsistente com o corpo enterrado, que manteve-se no mesmo lugar em decomposição. Para os judeus, o terceiro dia era uma prova de que estava mesmo morto. Alguns autores hebreus apocalípticos acreditavam na ressurreição do espírito, daí as aparições como as de Damasco, consistentes com as crenças gnósticas e zoroástrica. São Paulo mais à frente continuou com:
«Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos? E com que corpo vêm? Insensato! O que semeias não recobra vida, sem antes morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo da planta que há de nascer, mas o simples grão, como, por exemplo, de trigo ou de alguma outra planta. Deus, porém, lhe dá o corpo como lhe apraz, e a cada uma das sementes o corpo da planta que lhe é própria. Nem todas as carnes são iguais: uma é a dos homens e outra a dos animais; a das aves difere da dos peixes. Também há corpos celestes e corpos terrestres, mas o brilho dos celestes difere do brilho dos terrestres. Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua e outra a claridade das estrelas; e ainda uma estrela difere da outra na claridade. Assim também é a ressurreição dos mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso; semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual. Como está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o segundo Adão é espírito vivificante. Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo veio do céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o homem celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do homem celestial. O que afirmo, irmãos, é que nem a carne nem o sangue podem participar do Reino de Deus; e que a corrupção não participará da incorruptibilidade. Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. É necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade.» 
¶3 O Evangelho Segundo Lucas descreve Jesus ressuscitado com um corpo  com carne e ossos: «apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho». Pois, mas contradiz a transformação para um corpo incorruptível sem carne nem sangue, como os corpos imortais de anjos, dos deuses greco-romanos e dos humanos que passaram para Hades, cujos cadáveres tinham moedas nas bocas ou nos olhos para pagarem o barqueiro Caronte, em vez de voltarem para assobrarem os vivos. Suponho, no entanto, que os cadáveres e as moedas continuavam no mesmo lugar. Flávio Josefo, um fariseu, disse em Antiguidades Judaicas e em Guerras Judaicas que os fariseus acreditavam na imortalidade do espírito e que era introduzido em corpos diferentes na ressurreição. E existem aparições de Elvis Presley (que deram origem ao Elvismo) e agora existem alegações sensacionalistas de que a sua campa foi encontrada vazia. O que isso prova?

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¶4 O maior problema do argumento do túmulo vazio é que baseia-se em documentos que se parecem com boatos que passam nos e-mails e notícias sensacionalistas, e através deles, pressupõe-se o que os apóstolos não escreveram, como se fosse implícito o que foi escrito depois de morrerem, para além de excluir crenças dos apóstolos com o pressuposto de que os judeus não as tinham. O túmulo vazio seria uma prova tão boa, ainda por cima de um rico do Senedrim (em Marcos, um membro de um bouleutēs que não existia...), que se esperava que os apóstolos o mencionassem antes do evangelho de Marcos (quando estavam vivos!), em vez de descreverem apenas visões e vozes no céu, no deserto e nos sonhos, e, se fosse conhecidos publicamente, esperava-se que os seus inimigos os respondessem a tal alegação (qual foi a polémica judaica?). Aliás, nem se sabe onde seria Arimateia - só em Lucas é dito que fica na Judeia - e ainda por cima José de Arimateia seria um discípulo secreto que, começou por ser mencionado em Marcos e parece que os outros evangelhos mais antigos usaram-no como fonte.

¶5 Quais são os historiadores e escolares bíblicos que dizem que são documentos históricos, ainda por cima fidedignos, para que Craig use o que chama de "factos" nas suas premissas? Até teólogos e historiadores cristãos, como John Dominic Crossan (que costuma ser convidado em documentários sobre Jesus), dizem que os evangelhos não são documentos históricos. Deixo algumas referências:
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¶6 O outro problema é fundamentar-se na estranheza da natureza dos testemunhos. Acho que Craig tem razão quando diz que as mulheres, tal como as crianças, não eram consideradas boas testemunhas entre os judeus. Os homens oravam: «Dou-te graças, Senhor, Rei do Universo, por não me teres feito mulher» [Sedar] Mas no Evangelho Segundo Marcos, as mulheres falham na tarefa de testemunhas e os destinatários eram gentis romanos, que tinham várias deusas (Vénus, Ceres, Diana, Vesta, Minerva) e sacerdotisas, e onde os judeus de influência helénica eram liberais e as judias podiam ter a sua propriedade, ter uma educação, serem chamadas para o serviço militar e serem presidentes de sinagogas. Além disso, São Paulo separou a Lei do seu cristianismo, os evangelhos descrevem uma grande aproximidade de Jesus em relação à franja da sociedade [Mc 5:26 ; Mc 10:14; Mt 5] e até o papel de Madalena nos evangelhos, especialmente os apócrifos de Filipe, Tomé e Madalena, deram origem aos conhecidos exageros n'O Código de Da Vinci.

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¶7 Finalmente as conversões dos apóstolos, especialmente de São Paulo: por que é que alguém se torna aquilo que perseguia? Existem algumas especulações dadas por neurologistas ao que é descrito no livro dos Actos. Sabe-se que existe uma relação entre a epilepsia e intensas experiências religiosas, por isso neurologistas especulam que a experiência de São Paulo sugira sofresse de epilepsia do lobo temporal. Supostamente a obsessão em relação aos cristãos levaria-o, ironicamente, a sentir-se perseguido por aqueles que perseguia, numa das suas alucinações: «Saulo, Saulo, por que me persegues?» ... «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.» (At 9:4). Num documentário da Discovery Channel, chamado Saint Paul, é dito que na Palestina a actividade sísmica é muito comum e os terramotos são muito mencionados na Bíblia (em Actos um terramoto destrói as portas de uma prisão), o que leva à ideia de que um abalo terá despoletado um ataque epilético. A epilepsia pode levar à prosopagnosia e cegueira temporária que, juntando a sintomas descritos nas cartas, explica muito bem o evento e mudança.

¶8 Mas parece que é dado demasiado crédito ao Livro dos Actos, tendo em conta que a historicidade desse livro é duvidosa entre escolares. Ainda por cima Actos contradiz sistematicamente as epístolas de Paulo. O modo como ele escreve as cartas leva as ideias de que tinha mau carácter, causando brigas e divisões através de doutrinas que não eram aceites pelos apóstolos, levando à suspeição de que tinha infiltrado no meio dos cristãos para legitimizar a sua teologia. Vridar propõe que o autor de Actos conhecia a Epístola aos Gálatas e que as discrepâncias são intencionais. Teria observado que a descrição da conversão de Paulo compara-o com os profetas Elias, Jeremias e Moisés e que podia ter o intuito de colocar-se acima dos apóstolos em autoridade.

¶9 Por que os apostólos haveriam de morrer por uma mentira? Na Bíblia só está descrita a morte de um apóstolo (para além de Judas): Tiago, irmão de João, morto à espada por ordem de Herodes. Não descreve a sua postura antes de morrer, ao contrário das tradições com origem nos apócrifos sobre a morte dos outros apóstolos, que queriam morrer e até convertiam os carrascos. Mas esses apócrifos foram considerados espúrios e heréticos desde Eusébio, ou os relatos são contraditórios. [1; 2; 3; 4; 5; vid1; vid2; vid3; vid4] . A pergunta assume que os apóstolos morreram pela sua fé, quando nem se sabe como morreram. Mesmo se fossem apanhados e dissessem que foi tudo mentira, seriam libertados?

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¶10 Mas os cristãos eram perseguidos, torturados e condenados à morte pelos romanos. Se imensas pessoas dizem que viram Jesus, por que iriam arriscar a sua vida e até aceitar morrer por essa crença, se mentiam? Ora, a pergunta tem três pressuposições: 1) os discípulos viram Jesus em carne e osso ressuscitado; 2) se tiveram fé numa falsidade, então sabiam que é uma falsidade; 3) não se morre por causa de uma mentira. Existe pelo menos uma pessoa que acha que tem poderes do Dragon Ball, com discípulos, que levou uma ajoelhada na cara até sagrar, para além de ter perdido 5000 dólares. Porque raios se expôs a isso tudo, se sabia que era mentira? Joseph Smith, o fundador do mormonismo que revelou o Livro de Mórmon, foi morto por uma turba antes de ser julgado. Os Smith e os mórmons foram perseguidos por traição. Notem que, supostamente, houve onze testemunhas das suas placas de ouro com o Evangelho de Cristo nas Américas. Conclui-se que o mormonismo é verdadeiro? Jim Jones e David Koresh morreram, com os seus seguidores, motivados pelos seus cultos que lideravam. Será que por isso as suas crenças eram verdadeiras?

¶11 Se um grupo de pessoas está empenhado numa causa que dependia de um homem que amavam, é provável que sintam a sua presença depois da sua morte e tentem justificar com crenças dissonantes o que contradizia todas as suas expectativas. Em Marcos o próprio Herodes acreditava que Jesus era João ressuscitado: «Este é João, que mandei degolar; ressuscitou dentre os mortos.» («Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo»; 6:20). Por outro lado, na obra O Homem Que Se Tornou Deus, Gerald Messadié imagina Jesus safando-se em vez de morrer; no posfácio:
«Surpreendido, igualmente por esta morte prematura, ou mesmo inexplicável, um guarda do Gólgota picou o peito de Jesus com a ponta da sua lancea consequência, era inútil quebrar-lhe as tíbias.» ... «A abundância de água referida por João, e inclusive enterrou-a aí, infligindo-lhe uma profunda ferida, mas como o Jesus não reagiu supôs que estava morto e que, por revela com o mínimo possível de dúvida que a lançada - a lancea tinha uma lâmina chata e afilada - furou a pleura e não o coração. Do coração, decerto que não sairia muita água. A abundância de água concorda com o princípio de pleurisia, que pode ser causada pela exposição prolongada de um corpo nu ao frio» ... «Porém, segundo um médico-legista interrogado, uma ferida infligida a um cadáver pode acarretar um derramamento daquilo a que se chama "sangue de cadáver", fluido constituído por soro e hemoglobina decomposta. Trata-se então de um líquido acastanhado.» ... «E ei que ainda por cima José de Arimateia e Nicodemos se armam em cangalheiros! Além disso, o costume exige que todos os judeus se retirem antes do pôr do Sol para o recinto da Grande Jerusalém. Pelo contrário, afadigam-se no Gólgota a assegurar a inumação de um inimigo público. Um tal comportamento dá que pensar, a menos que se opte pelo cepticismo. Em realidade, uma infracção explica a outra. José de Arimateia e Nicodemos sabem que Jesus não morreu. Daí a ligeireza com que ambos assumem a infracção religiosa.» ...
¶12 É uma explicação baseada na estranheza de comportamentos de personagens, mas o autor (um historiador) coloca-a na perspectica de especulação para explicar as decisões na elaboração seu romance. Até médicos podem pensar que alguém está morto, por deixar de haver batimentos cardíacos, mas que deperta algum tempo depois, até na morgue - é o chamado síndrome de Lázaro, com pelo menos 24 casos documentados desde 1982. Flávio Josefo relatou um caso em que procurou três amigos que tinham sido crucificados e um deles tinha sobrevivido depois de retirado da cruz. Claro que com isso tudo não se conclui que sabemos o que aconteceu, nem sequer que Jesus não ressuscitou. Apenas mostra que temos conhecimentos, baseados na experiência e investigação científica, que explicam como poderia ter acontecido. E o que com este artigo tento mostrar é que os pressupostos de Craig não são o que chama de "factos".

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Notas sobre os comentários:
O artigo longo e os links servem para referências futuras e para quem tiver interessado em informar-se melhor sobre os temas. Agradeço os detalhes e correcções nos comentários que complementem o artigo.

Se os comentários não estiverem relacionados com o artigo, não serão moderados, desde que não tenham links para fazer publicidade ou que choquem através de imagens violentas, ou pornográficas ou com conteúdo ilegal. Não o respondo na caixa de comentários - se disponível, faço-o num artigo. Recomendo que não incentivem discussões alheias nas caixas de artigos nem cedam a provocações. Quem não disser nada sobre o artigo, não tem nada a dizer sobre ele.

26 setembro, 2009

Re: Neo-Ateísmo, Um Delírio > Ciência X Religião > A ciência corrige-se p.2

«Science is a way of thinking much more than it is a body of knowledge.»
- atribuído a Carl Sagan (sem fonte)

(...) «a ciência é mais do que um corpo de conhecimentos; é uma maneira de pensar.»
- Carl Sagan,
in "Um Mundo Infestado de Demónios" (cap. 2; ed. gradiva)

(cap. 3) «Devo notar que emprego o termo "luta pela existência" no sentido geral e metafórico» (...) (cap. 4)«Diz-se que falo da selecção natural como de uma potência activa ou divina; mas quem critica o autor quando fala da atracção ou gravitação, como regendo o movimento dos planetas? Todos sabem o que significam, o que querem exprimir estas expressões metafóricas necessárias à clareza da discussão. É também muito difícil evitar personificar o nome "natureza"» (...)
- Charles Darwin, in "A Origem das Espécies" (tradução do médico e professor Joaquim Dá Mesquita)

«“A Ciência é antes um modo de pensar do que propriamente um conjunto de conhecimentos.” (Carl Sagan) Sagan deve ter confundido “conjunto de conhecimentos” com “corpo de conhecimento”.»
- Luciano Henrique, in "Neo-Ateísmo, um Delírio"

(...) «na situação padrão de ciência, nós não usamos metáforas. Nós tratamos tudo literalmente, pois as afirmações devem ser de testabilidade direta ou indireta.»
- Luciano Henrique, in "Neo-Ateísmo, um Delírio"
Analogias, contexto e falácias da composição
Num comentário do seu blog "Neo-Ateísmo, um Delírio", Luciano Henrique objectou a minha resposta dizendo que cometi o «erro grave é tentar atribuir ação à conceitos inertes» e, «para variar, mais analogias erradas» que, mencionando dois exemplos do artigo, seriam validas «se afirmasse que “A língua portuguesa se corrigiu”» e « “A Informática se corrigiu”». Como podem notar pela resposta, não é a primeira vez que ele acusa-me de fazer analogias falsa. No comentário começa por confundir a 4ª parte da sua série "A difícil arte de dialogar com neo-ateus" com a 3ª parte (que tem o subtítulo "OU Mapeando aqueles que tentam validar uma falácia da composição"), já que o exemplo do CRM está na 3ª mas não na 4ª. E diz que o exemplo que deu fecha a questão a seu favor. Sugiro que siga o seu próprio conselho e que leia bem o que está escrito.

Para defender convenientemente que existe uma falsa analogia, convém que se responda ao que está a ser comparado e ao que se responde com a comparação. Os dois exemplos que ele usou do meu artigo encontram-se no primeiro e segundo parágrafos da secção com o título "Falácia da composição, essência e acidente": 1) «Mesmo que, entre várias redacções, alguns erros não tenham sido corrigidos, dizemos que o professor corrige as redacções.»; 2) «E dizemos que um programador que não corrige os programas limita-se implementá-los sem os testar ou ignorando os bugs e a estrutura do código.» (Claro que ele não usou exemplos como "Durmo e como, mas não estou a dormir nem a comer" que também são muito diferentes de "ciência corrige-se"...) Os dois parágrafos servem de introdução e preparação para os últimos dois parágrafos da mesma secção. No contexto dos exemplos, respondi ao argumento de que dizer que a ciência corrige-se - e até mesmo que cientistas corrigem a ciência - é uma falácia de composição, até com um problema relativo ao princípio de não-contradição (e a lei do terceiro excluído?) e que a ciência é imutável. Portanto, o objectivo dessa secção não é mostrar que a ciência corrige-se. Sugiro que releiam essa secção e que verifiquem se os argumentos de Luciano em questão são válidos, incluíndo a analogia do CRM, em vez de estarem satisfeitos com a questão a ser contornada com um homem-palha.
Fig. 1: segundo Luciano, S não se corrige porque o que é corrigido é uma parte de S.

Todas as palavras foram inventadas por seres humanos e os seus significados são meras convenções. A língua portuguesa é uma convenção, como a Web, e depende dos que a conhecem para existir (o que significa serem corrigidas?). Dizer que um texto tem erros é dizer que viola as regras da língua. Por exemplo, "mabalarismo" está errado porque a palavra que se inventou como convenção para nos comunicarmos é "malabarismo". As linguagens de programação - que são também convenções - é que são homólogas às línguagens naturais, como a portuguesa (a Linguística é que é homóloga à Informática). Os erros de programação são más aplicações da linguagem ou que não seguem a especificação. A má aplicação ao ser corrigida não corrige nem melhora uma linguagem de programação, tal como a má aplicação da Ciência não a piora nem a correcção dessa má aplicação melhora a Ciência. Dizemos nesses casos que nos corrigimos (comparar com «se eu me corrijo, isso não implica em que automaticamente a entidade Administração seja corrigida»).
Fig. 2: A correcção de uma aplicação errada de um conhecimento, por ignorância ou descuido, não corrige o tal conhecimento nem o que formou. Senão dir-se-ia que até os exames escolares corrigiriam o que se ensina aos alunos. S pode corrigir-se. C - o conhecimento - não o pode fazer. A Língua Portuguesa, as linguagens de programação e as teorias são como 2. A Linguística, a Informática e a Ciência são como 1.

A palavra "informática" é muitas vezes usada para se referir a conhecimentos relacionados com o uso de computadores. Nesse sentido, até o uso do rato é informática (existe até o que é chamado de "informática na óptica do utilizador"). Como é apenas um conjunto de conhecimentos, não faz sentido dizer que se corrige. No entanto, no contexto científico, a Informática é uma ciência que faz parte da Matemática. Não é apenas um corpo de conhecimentos, mas também a metodologia que o dá forma e o dinamiza. Aí entramos na segunda secção do meu artigo: "A metodologia que corrige". É aí que defendo que faz sentido dizer que a Ciência corrige-se e até disse que é possível que a Administração corrija-se se for uma entidade que é uma ciência, com um corpo de conhecimentos e metodologia, ou representa um conjunto de pessoas, ao invés de um mero processo. Até fiz uma ilustração para que se perceba a diferença.

A Ciência corrige-se
Nos intervalos do trabalho, costumo ler artigos relacionados com programação informática e tecnologias de informação, como o "The Daily WTF". Na quarta-feira passada foi lá publicado um artigo sobre código que se documenta tão bem que não precisa de comentários. Dizemos que o código documenta a si mesmo, se é fácil de perceber por si mesmo o que faz (ie: produz um efeito no leitor), especialmente recorrendo a bons nomes para variáveis e funções. Caso contrário, é preciso o uso de comentários, com uma linguagem natural, para percebê-lo facilmente. É mais comum dizer que um método ou que uma metodologia corrige [1; 2; 3; 4]. Não são meras fórmulas, como uma receita, mas um processo, uma prática, um modo de proceder. Na primeira secção tinha apresentado exemplos do dia-a-dia, do senso-comum, para sensibilizar o leitor para a segunda secção cujo título implica que existe uma metodologia que corrige. Ora, a Ciência é tanto um corpo de conhecimentos como a metodologia que lhe dá forma. Se fosse apenas o corpo de conhecimentos ou a metodologia, não se percebia o que significava "corrigir-se" - mas não é esse o caso.
Fig 3: «Dizemos que nos corrigimos quando reconhecemos um erro e o emendamos. Não queremos dizer com isso que nos tornamos perfeitos e que não temos muitos outros defeitos.» (...) «Nós corrigimo-nos porque nós próprios somos capazes de mudar as nossas próprias crenças. Existem robôs programados para aprenderem e serem autónomos, que podem corrigir-se» Reparem que muitas vezes quando dizemos que nos corrigimos, referimo-nos a algo externo a nós próprios (como uma gralha num texto) ou a um erro cometido no passado (como uma palavra mal pronunciada).

Na Ciência o mais importante não é o resultado em si - o mais importante é como se chegou a ele. O processo mental que leva a uma crença é o que distingue a Ciência, o Senso Comum, a Filosofia e Religião entre si. Todos evoluem, mas a mudança não implica correcção. Por exemplo, não faz sentido dizer que as línguas têm erros, sendo meras convenções para comunicar. São é melhoradas, do ponto-de-vista daqueles que as utilizam [1; 2]. Na Ciência há uma metodologia que permite identificar os seus próprios erros como tal e que iterativamente são eliminados e substituídos por ideias melhores. Quer dizer, a Filosofia, por exemplo, ajuda nos conceitos e epistemologia, que permite-nos ter uma metodologia e clareza, mas é a própria Ciência que descobre os seus próprios erros e corrige-os. (daqui a 2 artigos elaborarei o que escrevi neste parágrafo)

O livro "O cérebro de Broca - reflexões sobre a beleza da Ciência", de Carl Sagan, tem num final "apêndices ao capítulo 7", em 11 páginas cheias de fórmulas, um gráfico e uma tabela, para analisar as hipóteses do dr. Velikovsky. No início do capítulo 7 está:
«Os cientistas, como os outros seres humanos, têm as suas esperanças e os seus medos, as suas paixões e os seus desencantos - e as suas emoções fortes podem por vezes interromper o curso do pensamento claro e da prática ortodoxa. Contudo, a ciência também se corrige a si mesma. As hipóteses predominantes devem resistir ao confronto com a observação. Os recursos à autoridade são inadmissíveis. Os passos numa discussão fundamentada devem ser revelados a todos os que os quiserem ver. As experiências devem poder reproduzir-se.

A história da ciência está repleta de casos em que teorias e hipóteses previamente aceites foram completamente destornadas para dar lugar a novas ideias que explicam os dados de forma mais apropriada. Como existe uma inércia psicológica compreensível - que dura em geral uma geração -, essas revoluções do pensamento científico são amplamente aceites como um elemento desejável e necessário ao progresso científico.» (...) «A ideia da ciência mais como método que como corpo de conhecimentos não é muito apreciada fora da ciência, nem mesmo em alguns ramos da própria ciência.» [comparem com as citações no início deste artigo] (...) «É frequente que um artigo, revisto depois de ter sido objecto de crítica, acabar por ser aceite para publicação.» [exemplo dado: "Crítica a O Efeito de Júpiter", de J.Meeus (1975) e comentário na Icarus] (...) «A crítica vigorosa é mais constructiva na cência que outras áreas da actividade humana, porque na ciência há padrões adequandos de avaliação com os quais estão de acordo praticantes competentes.»
Continua com cerca de 60 página dedicadas a Immanuel Velikovsky - «As emoções da comunidade científica excederam-se com a publicação de Immanuel Velikovsky, especialmente do seu primeiro livro, Mundos em Colisão, em 1950». Na penúltima página do capítulo está:
«A indignação que parece ter-se apossado de muitos cientistas, em geral calmos, ao colidirem com Mundos em Colisão produziu uma série de consequências.» (...) «Em toda a questão de Velikovsky, o único aspecto pior que a abordagem falsa, ignorante e doutrinária de Velikovsky e de muitos dos seus apoiantes foi a tentativa fracassada, por alguns que se intitulam cientistas, de suprimir os seus escritos. Todo o empreendimento científico sofreu com isto. Velikovsky não faz afirmações sérias, objectivas ou falsificáveis. Não há, pelo menos, nada de hipócrita na recusa rígida do imenso corpo de dados que contradiz os seus argumentos. No entanto, supõe-se que os cientistas estão preparados para entender que as ideias serão julgadas pelo seu mérito se o livre inquérito e o debate vigoroso forem permitidos.
Enquanto os cientistas não derem a Velikovsky a resposta ponderada que o seu trabalho exige, somos responsáveis das confusões velikovskianas.»
Comparem com o que Luciano diz a respeito com o que Sagan escreveu: «deve ter confundido “conjunto de conhecimentos” com “corpo de conhecimento”», não percebeu que «existe o bom profissional, e o mal profissional», que afirmou «que o cientista é alguém infalível e sem fé» e que a «ciência é o único método para descobrir a realidade», etc. Deturpa o primeiro capítulo, de "O Mundo Assombrado por Demónios", com a introdução do taxista (na edição da gradiva: «ele disse-me que estava contente por ser "aquele fulano cientista", pois tinha muitas perguntas a fazer sobre ciência»). Já agora comparem as suas respostas com o que escrevo.

Curiosamente acusou-me de "desonestidade intelectual e safadeza", e "ateu fanático e mentiroso costumaz". Outro chamou-me de louco por associar os termos "idolatria" e "religião" e que sou um ignorante por dizer que existem cristãos comunistas. Incentivo que duvidem de mim e verifiquem por si mesmos o que digo - se estiver errado, agradeço que me corrigem. Pelos vistos Luciano vai por outra via. Já agora: ontem à noite enviei um e-mail para benedictxvi[at]vatican[dot]va . Amanhã escreverei sobre religião, como tinha já dito. Posso ser um fanático que escreve poucos artigos e um mentiroso que coloca as provas das suas mentiras como referência, mas espero que sejam do vosso interesse.

28 junho, 2009

Teste > Mensagens subliminares

Ouçam a letra da música nos três vídeos e tentem cantar seguindo a letra. Todos os vídeos têm legendas...





02 maio, 2009

Matemática e senso comum

Num concurso deves escolher uma de entre três portas. Por detrás de uma delas está um carro - que queres ganhar. Por detrás de cada uma das outras duas, está um bode - que não te interessa. Depois de escolheres uma porta, o apresentador abre uma das outras, revelando um bode (ele sabia qual a porta com o carro). Pergunta se queres manter a tua escolha ou se queres mudar para a outra porta fechada. Ganhas o que estiver por detrás da próxima porta que escolheres. Qual é a decisão mais razoável, se é que existe uma? Responda antes de continuar a ler.



Quando escolhes uma porta entre três, tens 1/3 de probabilidade para ter acertado no carro e 2/3 para ter calhado um bode. Sem saber onde está o carro, era indiferente a porta que escolhes. Depois de teres escolhido uma porta, sem saber o que tem, é aberta uma das outras portas e ficas a saber que lá tinha um bode. Desta vez podes escolher entre duas portas. É irrelevante se manténs ou não a tua escolha, como da outra vez, mas desta vez com 1/2 de probabilidade de acertar no carro, seja que porta escolheres, não é? Isso é o que o nosso senso comum nos diz - mas está errado.

Na primeira escolha que fizeste, o mais provável é teres escolhido uma porta com um bode e haver um carro numa das outras portas - isso não muda com a segunda situação. Pelo menos uma das outras portas tem de ter necessariamente um bode. Uma das portas é aberta e ficas a saber que tinha um bode. Mesmo que com isso passes a ter duas opções, continua a ser verdade que é mais provável que a porta que tinhas escolhido há um bode e que numa das outras há um carro.

Para muitos isso ainda faz confusão (apesar de uma variante com mais portas tornar mais fácil a compreensão da solução), mas já se testou empiricamente esse problema - mudando a porta ganhou-se mais vezes o carro. Pode fazer uma simulação neste programa em Java e executar este código Perl que prova empiricamente a solução. E a seguir mostro um diagrama para veja que a melhor opção é mudar de porta:





Estão a ver para crer.
Para a próxima, vamos medir distâncias e ir para além do nosso senso comum, numa quinta dimensão...

08 março, 2009

Teste: Atenção

Clique na imagem abaixo para assistir um vídeo. Conte os passes feitos pela equipa vestida de branco para testar a sua atenção [Psicologia > Distúrbio do Défice da Atenção]. No final é apresentada a resposta certa.
Se o vídeo não funciona ou quiser mais testes semelhantes, experimente os seguintes links (em inglês):
Do The Test
YouTube > dothetest
Pesquisa no Google Videos

10 maio, 2008

Superstição e adoração

Há pouco assisti um documentário da National Geographic sobre uns testes realizados a símios e humanos. Não vi desde o início, apenas quando estava a ser testado o uso de ferramentas por chimpanzés e orangotangos.

Uma banana foi pendurada à frente de uma jaula de uma orangotango, e era inacessível com o uso das mãos. Foi deixada uma ferramenta na jaula, e a orangotanga usou-a como anzol para aproximar a banana e assim conseguiu recolhê-la e comê-la. Antes de dormir, levou a ferramenta consigo e escondeu-a debaixo da palha que servia de cama. Após 14 horas ela dirigiu-se para as grades lavando a ferramenta e usou-a novamente. Portanto, houve calculismo (planeamento).

Depois foi mostrada uma experiência com chimpanzés. Num viveiro foram colocados pacotes com mel, que só era acessível através de um orifício por onde não cabia um dedo. Os chimpanzés não foram treinados, e só podiam usar objectos que estivessem ao redor sem ajuda. Um dos chimpanzés pegou num pauzinho, retirou os pequenos ramos até ficar só com um "palito" e inseriu-o no orifício para obter o mel. Outros chimpanzés, que pareciam ser mais novos, estavam a observar atentamente ao seu redor e copiaram-no. Já tinham sido observados casos semelhantes que demonstram que símios têm a capacidade de adquirirem culturas, como o caso clássico da macaca que usava água do mar para limpar as batatas e os grãos de cereais. Chimpanzés até têm modos diferentes de cumprimentar consoante a região: uns beijam-se, outros apertam as mãos, outros abraçam-se. Conhecem-se cerca de 40 culturas diferentes entre os chimpanzés, mas existem milhares entre os seres humanos. Ao contrário dos humanos, os chimpanzés não ensinam activamente os seus companheiros: eles aprendem por meio de observação e depois tentam imitar através de tentativa e erro.

Ainda vi um último teste. Foi mostrada uma caixa opaca com uma vara no topo, e dois buracos: um no topo debaixo da vara, e outro tapado com uma portinhola. Uma senhora mostrou a uma criança como obtinha uma guloseima do interior da caixa através de vários passos, que no conjunto eram complicados. A criança, depois de observar como era feito, imitou os gestos para conseguir a guloseima. A mesma experiência foi realizada com um chimpanzé. O chimpanzé ao ver a tal senhora, cumprimentou-a com um abraço e analizando a sua face. Observou os passos para retirar a guloseima, e fez o mesmo.
Para a criança e para o chimpanzé foi feito o mesmo com uma outra caixa, desta vez transparente (fiz um esboço da caixa, mostrado à direita). E notava-se que era desnecessário realizar os passos iniciais - bastava fazer o último para conseguir o objectivo (não era preciso bater na caixa, afastar a vara para enfiar um pau no orifício do topo e retirar a vara completamente... bastava abrir a portinhola para retirar a guloseima). A criança repetiu fielmente todos os passos, inclusivé os desnecessários. Segundo o documentário, a experiência foi realizada com várias crianças de várias partes do mundo, e todas fizeram o mesmo. O chimpanzé apenas realizou o último para conseguir o que queria, apesar de observar aqueles passos todos anteriores, mas também notando, pelo interior da caixa (era transparente...) que eram desnecessários. Superou as crianças humanas.

Pensei que isso pudesse explicar as surpestições. Talvez sejam vestígios de rituais que tinham as suas razões (ou explicações meramente intuitivas) na sua origem, mas que permaneceram em contextos desnecessários. Richard Dawkins, no seu documentário "The Enemies of Reason" [em português: "Os Inimigos da Razão"] apresenta uma experiência do psicólogo Burrhus Skinner com pombos que pode explicar a origem de muitas superstições. Uns pombos recebiam alimento de uma máquina ao carregarem num determinado botão (havia três). Depois programou a máquina para oferecer comida aleatoriamente. Um pombo, no momento de virar a cabeça, viu comida a sair da máquina. Foi uma mera coincidência. Mas ele passou a reagir como se tivesse havido causa-e-efeito, sendo o virar a cabeça a causa do surgimento da comida. Por vezes a comida aparecia, e assim o pombo adquiriu uma superstição. Se fosse usado numa argumentação para justificar a superstição, seria cometida uma falácia causal. Por isso na Ciência as variáveis nas experiências são controladas e existem testes em branco (ou de controle) e duplo cegos:

A superstição é contrária a esses testes, e justifica-se com estórias fantasiosas para explicá-las e até poderão dar origem a uma dogmática. Pretende-se assim tornar irrefutável a qualquer crítica e dúvida (não falseável). É com a origem da Filosofia, questionando as convenções dogmáticas e deixando fluir a imaginação com diversas hipóteses, que abriu-se caminho para o que chamamos de Ciência.

Uns dias antes de ter assistido o documentário na National Geographic, tinha visto uma publicidade de um western que me lembrou algo semelhante, no que diz respeito a surpestições. Um cowboy entrava num acampamento de índios para se encontrar com a sua amada, apesar de aqueles "peles vermelhas" e os "caras pálidas" estarem em guerra. Pensei que para mostrar que estava lá em paz, poderia ajoelhar-se expondo a cabeça e as costas - ou seja, numa postura indefesa, como muitos outros animais fazem. Lembro-me de um chimpanzé fazer algo semelhante depois de ter sido derrotado num combate, e o malvado do vencedor mordeu-o.
Muitos povos asiáticos inclinam-se para cumprimentarem (vénia) e até podem ajoelhar-se para pedirem desculpa ou mostrarem gratidão. Os europeus beijavam-se (os Russos ainda mantêm essa tradição), mas passaram a apertar as mãos a partir da Idade Média para evitar apunhaladas traiçoeiras. Associamos as vénias e o acto de ajoelhar aos rituais religiosos. Segundo o Antigo Testamento da Bíblia faziam-no para pedirem desculpa e como demonstração de respeito, o que passou a ser um acto exclusivo a um Deus (adoração). Segundo a Strong's H1288 o termo hebraico "barak" significa: ajoelhar-se, louvar, abençoar ou ser abençoado ou adorado. É usado em Génesis 1:22 (Deus abençoa a Sua criação), tal como em Gen 24:11 (servo de Abraão faz os camelos ajoelharem-se para beberem água). O termo hebreu "shachah" significa: ajoelhar-se, prostrar-se (em homenagem)... e é usado nas traduzões para indicar adoração. Por exemplo, é usado em Gen 24:26, e a "Almeida Corrigida e Revisada Fiel" verte para "Então inclinou-se aquele homem e adorou ao Senhor". No entanto é também usado em 2Sa 9:6 onde é dito que alguém "prostrou com o rosto por terra e inclinou-se" diante de David. O "inclinou-se" na King James Translation é "did reverence" (mostrou respeito). É igualmente usado em Êxodo 23:24 para dizer "não te inclinarás diante dos seus deuses", em Deu 29:26 para dizer "serviram a outros deuses, e se inclinaram diante deles" (no KJT o "inclinaram" é "worshipped" - i.e: adoraram) e em 1Samuel 15:25 para dizer "para que adore ao Senhor". O mesmo termo hebraico é usado em 1Samuel 2:36, onde está escrito numa tradução "todo aquele que restar da tua casa virá a inclinar-se diante dele por uma moeda de prata e por um bocado de pão". O termo é usado em Gen 18:2 para dizer que Abraão "inclinou-se à terra" à frente de três homens (alguns dirão que é a Trindade...). Mas o mesmo Abraão faz um gesto, cujo termo para indicar adoração Deus é usado para descrevê-lo: «Então se levantou Abraão, inclinou-se diante do povo da terra, diante dos filhos de Hete.» (Gen 23:7) para agradecer a permissão dada para sepultar a sua mulher morta. O mesmo termo é usado em Gen 24:48, começando com "E inclinando-me adorei ao Senhor". Aqui o "inclinando-se" traduz o termo hebraico "qadad". "Adorei" é que traduz o mesmo termo que serve para indicar o que Abraão fez a outros seres humanos, tal como em Exôdo 34:8 para dizer que "E Moisés apressou-se, e inclinou a cabeça à terra, adorou" Deus. O termo é usado para indicar que um servo "inclinou sobre o seu rosto em terra diante do rei" (2Sa 14:33) e que uma mulher "se prostrou perante o rei" (1Reis 1:16; 1:31), e quando esse futuro rei - David - faz o mesmo a Saul: "E, olhando Saul para trás, Davi se inclinou com o rosto em terra, e se prostrou" (1Sa 24:8). É interessante que é usado também em Provérbios 12:25 ("A ansiedade no coração deixa o homem abatido, mas uma boa palavra o alegra.").

Afinal o que é adorar? Uma superstição com origem no acto de ajoelhar-se, prostrar-se, inclinar-se, etc. para mostrar respeito aos reis e gratidão para quem nos ajuda?

06 janeiro, 2008

Duplipensar e Intocáveis

«Crimedeter á a faculdade de deter, de paralisar no limiar
e como que por instinto qualquer pensamento perigoso.
Inclui a faculdade de não admitir analogias, de não observar erros de lógica,
de não compreender os argumentos mais simples e hostis ao Ingsoc
e de aborrecer ou repudiar qualquer sucessão de pensamentos
que possa tomar rumo herético. Crimedeter, em suma, significa estupidez protectora.»

- "1984", de George Orwell

«Quando aparecem os fundamentalistas estamos demasiado
habituados à ideia de que a religião não deve ser discutida.»

- Richard Dawkins

"Sempre que um tabu é destruído, algo de bom acontece, algo vitalizante.
Tabus, afinal de tudo, são apenas uma amarra incómoda, o produto de doenças mentais,
podemos dizer, de pessoas assustadoras que não tinham a coragem para viver
e que estão debaixo da falsa aparência de moralidade
e religião que foi imposta nessas coisas sobre nós"

- Henry Miller

«Isto é sobre a aceitação ou recusa do princípio que é possível rir de,
ou até mesmo só criticiar, uma mentalidade, uma religião, um meio de entender espiritualidade.»

- Vittorio Feltri


No artigo anterior tinha mostrado mensagens que recebi há pouco tempo e conteúdos de um canal no YouTube de um fanático. Na última mensagem que recebi de um muçulmano, ele diz que:
  1. odeia aqueles que fazem vídeos maldosos sobre o Islão;
  2. odeia judeus em toda a sua alma;
  3. o Islão proíbe o ódio;
  4. por isso, não odeia judeus: simplesmente não se dá com eles;
Não reparam nas contradições? Ele odeia mas não odeia!



"naomi94isaCUNT" critica o que chama de "ateus militantes", que, segundo ele, propagam a intolerância e ódio em relação aos muçulmanos. Hoje fui ver a minha conta do "deviantart", e fiquei surpreendido com críticas muito severas - incluíndo nomes dirigidos a mim - por causa de um "cartoon"sobre casos de violência praticados por muçulmanos.


Muslim peace by ~pedroac on deviantART

Chamaram-me de estúpido e idiota ["loser": falhado], que provavelmente só conheço o que é dito nas notícias, que o "cartoon" é muito ofensivo, que não começaram a guerra, que foi o "presidente do ocidente" que a começou, que os muçulmanos que fazem coisas más não são verdadeiros muçulmanos, que não devia atacar outras religiões, etc.
Tive de explicar o "cartoon" aos muçulmanos que me criticaram de modo tão severo, indiquei "links" para as mensagens que recebi há pouco tempo, e que deveriam criticar essas atitudes e não alguém que fez um "cartoon" a criticá-las.
Será a isso que "naomi94isaCUNT" chama de militância atéia? Será isso que chama de propagação de intolerância e ódio?

De qualquer modo, ele critica severamente os ateus, cristão e judeus. Até usa palavrões para adjectivá-los. Num comentário que enviou no dia 4 de Janeiro, diz [traduzido]:
«Para todos os cristãos atrasados mentais ["retarded"] que me perguntam como é que o cristianismo é politeísta; seus tolos, nem sequer sabem o que a palavra significa, pois não? Vocês adoram 3 deuses; diabos ["hell"], vocês nem sequer adoram um deus; adoram um homem que nasceu de uma mulher e morreu; estão a dizer-me que deus pode nascer e morrer? Seus *****, são piores que os pagãos; como podem acreditar num livro corrupto com mais de 100 contradições. Os judeus nojentos ["dirty"] e cristãos corromperam-no, e agora têm o livro mais ridículo que já foi feito. Parabéns, judeus e cristãos.»
Ele também escreveu no dia 10 do mês anterior [traduzido]: «A ciência não é um milagre, seu *****. Ciência tem falhas; o Corão não tem falhas e Maomé era um ileterado, mas sabia que a terra tinha a forma de um ovo»

No dia anterior:
«Olha quem falha. Vocês, ***** ocidentais, mataram mais povos do que nós, especialmente se contarem com pequenos bebés inocentes em clínicas de aborto, e as vossas mulheres vestem-se como ***** inúteis, enquanto os homens têm sexo ********* entre eles, com o vosso pequeno governo tolerante à homossexualidade. ******, seus hipócratas. Se querem ser imorais, que sejam entre vocês e Alá, mas isso não significa que temos de tolerar o uso das vossas mentes perversas para criticar o Islão e os nossos profetas sagrados
Parece que ele frequenta canais de ateus para colocar comentários do género. Ou seja, não podemos criticá-lo, nem à sua religião e adorados profetas (ele até diz que Maomé é mais próximo e amado pelos muçulmanos do que as próprias famílias [dia 5]), mas ele tem o direito de adjectivar ateus e religiosos com palavrões, e fazer críticas que também servem para o que ele acha intocável (acontece muito com quem acha que tem a posse da Verdade e que julga que certos livros, ideias e pessoas são sagrados.).
Critica cristãos por acreditarem num livro com "mais de 100 contradições, mas o Corão parece também estar recheada delas [1]. Diz que o seu livro é corrupto - como foi ensinado pelo Corão - e que é ridículo, mas muitos outros acham que o Corão é o livro mais ridículo que já foi feito [2]. Em "Deus Não é Grande", de Hitchens, tem um capítulo chamado "«O Selo Humilde da Sua Origem»: Os Primórdios Corruptos da Religião", que refere a origem do Corão e outros livros sagrados. Porque motivos os xiitas e sunitas lutam entre si? "CapnOrdinary" critica a ideia de que "não houve nada antes do Islão" ["There was nothing before Islam!"]: nos governos muçulmanos tenta-se apagar a História antes dos Islão das suas nações, como por exemplo, destruindo as estátuas de Buda. Acreditam que não houve uma cultura pré-islâmica: eram os "dias de ignorância". Até a origem da ideia absurda de que a Terra tem a forma de um ovo pode ser explicada através das crenças orientais no "ovo cósmico" [3].



Erivelton, no ClubeCético, também tem a particularidade do duplipensar, mas aplicada à própria Bíblia. Umas vezes parece acreditar numa coisa, outras vezes no oposto, ou critica algo, mas se descobre-se que também aplica-se na Bíblia, afirma que acredita aquilo que não acredita. Confuso? Já coloquei exemplos neste blog. Repito o mais óbvio; ele disse:
«Já pensou mente de macaco e do pescoço para baixo, ser humano ou mente de ser humano e do pescoço para baixo, corpo de macaco? Isto não seria uma evoluçao ideal de acôrdo com uma evolução cêga
e «Gostaria de deixar por hoje para estudo uma evolução cega digna de aceitação: O centauro»
Quando ficou a saber que a Bíblia fala de sátiros - parte homens, parte bodes -, respondeu-me: «É justamente neste tipo de evolução que eu realmente acreditaria, mas a ensinada por Darwin está longe de muitos aceitarem.»
Ou seja:
  1. ser parte macaco e parte humano está de acordo com uma "evolução cega";
  2. ser parte cavalo e parte humano está de acordo com uma "evolução cega";
  3. ele não acredita na "evolução cega" (ele dedica grande parte do tópico a dizer isso);
  4. acredita numa evolução que desse origem um ser que é parte bode e parte humano;
E é claro que sou chamado de arrogante se notar e explicar essas óbvias contradições. Até mesmo se usar dicionários de hebraico e grego, e usar análises dos textos hebraicos de judeus que sabem hebraico para refutar a sua "codificação da Bíblia". Ele diz que eu e os judeus não somos donos da Verdade - «A única pessoa que possui a verdade se existir é um só: Deus», diz ele. Basta-lhe dizer o que acredita, sem justificar-se. Não conhece hebraico, mas sabe mais que os que estudaram, aprenderam, e sabem ler, escrever e falar a língua. Devem ser todos arrogantes. Então ele deve ser Deus!


Um tal de Jetro Bernardo, no mesmo fórum, iniciou um tópico com o título "«Contradições da Bíblia» - O Tópico Furado!!!". Pensei que o texto que ele colocou na primeira mensagem fosse de sua autoria, mas muito depois é que reparei nas letras pequenas no final. Começa com a pergunta: «Como você pode crer numa Bíblia que está cheia de contradições?». Destaco o seguintes trecho:
«Uma das coisas a que nós recorremos com respeito a possíveis contradições é a honestidade. Não devemos minimizar ou exagerar o problema e precisamos sempre começar, dando ao autor o benefício da dúvida. Esta é a regra para a literatura em geral, e deve ser usada também neste caso. Vemos muitas vezes as pessoas querendo empregar regras diferentes quando se trata de examinar a Bíblia, e a isto sem dúvida nos contrapomos.
O que é contradição? O princípio da não contradição que é a base de todo pensamento lógico, afirma que uma coisa não pode ser ao mesmo tempo "a" e "não-a". Em outras palavras, não pode estar chovendo e não-chovendo ao mesmo tempo.
Se alguém conseguir demonstrar uma violação deste princípio na Escritura, em tal caso e somente neste caso pode ser provada uma contradição. Por exemplo, se a Bíblia dissesse – e isso ela não faz – que Jesus morreu crucificado em Jerusalém e em Nazaré ao mesmo tempo, isto certamente seria um erro.
Ao encontrar possíveis contradições, é de extrema importância lembrar que duas afirmações podem diferir entre si sem serem contraditórias. Algumas pessoas não sabem distinguir entre contradição e diferença
Mas quando chega o momento da verdade, Jetro volta atrás...
Fiz uma simples pergunta: «Quais foram as últimas palavras de Jesus, antes de morrer crucificado?»Ele respondeu: «Segundo o relato Bíblico de Lucas Ele disse: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito"». Pergunto-lhe: «E segundo João, Marcos e Mateus?» Ele então escreveu:
«Ah.. vc quer chegar ao "Deus meu por que me desamparaste" ?

Se for isso, eu poderia dizer que Ele estava representando o pecado de toda a humanidade e isso, talvez, tenha Lhe deixado sem sentir a Deus temporariamente.

Mas eu, por mim mesmo, acredito que Ele tenha sentido muita dor e seu lado Homem, se exprimiu fortemente.»
É claro que isso não é satisfatório. Pedi numa mensagem: «permita que Jetro primeiro cite as passagens nos evangelhos de Marcos, Mateus e João, para percebermos quais foram as últimas palavras de Jesus.» Foi fugindo às perguntas. Insisti:
«Jetro,
até no WikiQuote pode-se ler citações das últimas palavras de Jesus.

Basta:
1) abrir no final de cada evangelho;
2) procurar pelo capítulo onde se descreve a condenação de Jesus;
3) ir lendo até dizer que morrer;
4) escreva uma mensagem com o versículo sobre o momento da morte, e o versículo que antecede, para cada evangelho;

Se apenas o evangelho de Lucas descreve-se a morte de Jesus, é claro que isso torna-se impossível. Mas posso mostrar facilmente que todos os evangelhos descrevem a sua morte.»
Finalmente dá uma resposta:
«Ok... busquei na Net e achei isso ai:

... Mt 27:46...
Por volta da hora nona exclamou Jesus em alta voz: Eli, Eli, lemá sabactâni, que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?

... ou em Lc 23:46 ...
Jesus clamou com grande voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. Havendo dito isto, expirou.

... ou em João 19:30?
Quando Jesus recebeu o vinagre, disse: Está consumado! E inclinando a cabeça, entregou o espírito

Acho que basta né?

Pelo que vejo cada um falou uma coisa... espero que você não me pergunte "porque". Very Happy
»
Quanto à questão «Por que ela é diferente para diferentes evangelistas? Pode começar explicando qual o nome do pai de José.», ele por fim respondeu que não sabe.
Escrevi:
«É preciso um ateu para dar a resposta? Hihi!
O pai de José é Heli e Jacó. Como vês, não tive dificuldade em responder citando a Bíblia.»

Simplesmente respondeu: «Very Happy Agora que já sabes, voltemos ao assunto. Wink»
Uau!

Ao demonstrar outras contradições (segundo o texto de introdução) usando uma tradução da Bíblia com referências do hebraico e grego, e lógica, disse-me que a minha "lógica é extremamente limitada". A partir daí passou a fazer ataques pessoais para denegrir-me.

Quando questionado sobre o que é uma contradição, respondeu:
«Segundo o Dicionário, contradizer é derivado do Latim contradicere.
- dizer o contrário do que se tinha afirmado.

É óbvio que se tivermos o objetivo de descobrir quem foi o Pai de José certamente teremos dificuldades.

Eu diria que uma contradição Bíblica seria algo que atinja um ponto relevante da Doutrina Bíblica como por exemplo, os ensinamentos de Jesus ou o plano de salvação que é o que Exclusivamente importa e pelo que, a Bíblia foi escrita.»
Bastava apontar para este site: http://judeus.blogspot.com. Mas nem vale a pena. Como devem ter notado é dada uma redefinição vaga e subjectiva, para impedir qualquer teste objectivo e permititir qualquer desculpa, e já se notou o seu óbvio "duplipensar".


Quem põe em causa as suas doutrinas é arrogante e idiota. Quem aceita "sim e não" ao mesmo tempo, e com esse tipo de argumentário, é humilde e sábio. Mesmo quem diz uma coisa dessas a respeito do final do 2º capítulo de 2 Reis [Servus Servorum, no "Fórum Evangélico"]:
«Mesmo que não haja um problema de tradução, ou seja, que as ursas tenham matado 42 crianças, lembremos-nos do seguinte: Essas crianças já tinham maturidade suficiente para caçoar de um profeta, e estavam andando em um bando numeroso, ao invés de estarem auxiliando suas famílias nas tarefas do dia-a-dia. Na prática, excluindo, claro, o pessoal pró direitos humanos dos bandidos, estatuto da criança e do adolescente – ECA, e os que acham que todo mundo é bom e sempre tem de ter uma nova oportunidade, creio que o cidadão comum não é muito fã dos anjinhos da FEBEM, pois sabe muito bem do que eles são capazes.

Outra coisa a se pensar é o seguinte: Se eles tivessem fugido, certamente não seria possível que duas ursas matassem 42 pessoas! Sinceramente, isso me leva a crer que a afronta foi tal, que esses indivíduos tiveram a audácia de enfrentar os animais enviados por Deus, na tentativa de derrotar o Senhor, e se deram mal


Se não fosse um crente religioso a dizer tais coisas, notava-se o ridículo e a imoralidade... Não podem criticar uma religião, "mesmo se justificarem". Nem é permitido fazer "cartoons" (em vez de criticarem os que matam os "cartoonistas", criticam os "cartoons": «falta de respeito pelos símbolos religiosos», disse a Igreja) [4]. É intocável... sagrada.

Referências: