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29 agosto, 2010

Paulo, epilepsia e falácia de probabilidades

Tenho um esboço sobre falácias, mas não continuei a mexer nele por estar ocupado com trabalho e com um portefólio. Mas escrevo este artigo para responder a um comentário de Yuri sobre a hipótese de São Paulo ter sofrido epilepsia, para responder a parte do Argumento do Túmulo Vazio.

No seu blog "Pérolas dos poucos", ele coloca algumas questões:
  1. «Qual a probabilidade de Paulo sofrer de epilepsia?»
  2. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra que derrubasse alguém de um cavalo?»
  3. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra quando Paulo estivesse montado no cavalo?»
  4. «Qual a probabilidade de um terremoto despoletar um ataque de epilepsia?»
  5. «Qual a probabilidade de uma epilepsia levar à prosopagnosia e cegueira temporária?»
  6. «Qual a probabilidade de um epiléptico sofrer alucinações que transformam seus perseguidos em perseguidores?»
  7. «Qual a probabilidade de acontecer, simultaneamente, essas coisas?»
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Comentadores disseram que acreditam que é impossível acontecer tudo simultaneamente ou que é muito pouca, que crer nessa possibilidade é uma questão de fé. Cometem uma falácia de probabilidades que é comum entre criacionistas, para defender um suposto caso de Falácia da Conjunção. Apresento um exemplo através de uma doença crónica que eu tenho:

O meu nome é Pedro Amaral Couto. Sou um homem português que nasceu em São Miguel, mas que vive na Margem Sul da Grande Lisboa. Certa vez pelos doze anos senti-me mal-disposto com o cheiro de arroz de marisco e não conseguia comê-lo. A falta de apetite e os vómitos passaram a ser comuns e comecei a evacuar sangue. Pelos sintomas, a médica de família suspeitou que se tratava de doença de Crohn. Depois de terem sido feitas análises, fui medicado e passei a visitar regularmente um hospital. Fui descobrindo o que não posso comer: caranguejo, caldo-verde e sopas com puré, lacticínios e chocolate. Fiquei a saber que existem doentes que não podem comer bacalhau e outros que só podem comer carne se for triturada. Mais tarde, quando faltava pouco para o dia de meu aniversário, senti febres e uma comichão do traseiro. Tinha um abcesso, que fiquei a saber que era comum na doença de Crohn. No meu aniversário estive deitado numa cama. E celebrei-o com um bolo por cima da barriga. Fui eu que introduzi na Wikipedia o artigo sobre essa doença.

A priori, qual é a probabilidade de isso tudo acontecer? Na Europa, cerca de 7 pessoas em cada 100.000 sofre dessa doença; ie: a probabilidade de alguém ter a doença é de 0,007%. Se a multiplicarem com todas as probabilidades de todas as minhas características relacionadas com doença, terão o valor de tudo simultaneamente. E será muitíssimo mais pequeno. No entanto, foi o que me aconteceu e o diagnóstico foi feito pela descrição dos sintomas. Num caso particular, a probabilidade que interessa é aquela que tem em conta todos os dados conhecidos, o que poderá aumentar muito a probabilidade (que é a medida da nossa ignorância).

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1. «Qual a probabilidade de Paulo sofrer de epilepsia?»


Sobre a hipótese de epilepsia, usei palavras como "especulações" e "supostamente": não existe o mesmo grau de certeza que tenho sobre a minha doença. Mas é fundamentada na comparação feita por médicos dos sintomas de epilepsia com as cartas de Paulo. Nos sites dedicados à epilepsia, São Paulo é usado como exemplo de um epilético e a epilepsia era até chamada de "doença de São Paulo" na Irlanda.
  • PubMed Central - J Neurol Neurosurg Psychiatry - St Paul and temporal lobe epilepsy
  • BBC - Saint Paul (vídeo)
  • German Epilepsymuseum Kork - Famous people who suffered from epilepsy: Saint Paul
  • epilepsy.com - Religious Figures : Saint Paul
  • epilepsy action - St Valentine and others - patron saints of epilepsy : «That this was an epileptic seizure is given even more credence by the fact that sight impediment – including temporary blindness lasting from several hours to several days – has actually been observed as a symptom or a result of an epileptic seizure. Paul himself perhaps provides further evidence of his epilepsy when he talks about his “physical ailment” in his letters; (2 Corinthians 12:7 and in Galatians 4:13-14). This connection between Saint Paul and epilepsy was so strongly perceived that in old Ireland, for example, epilepsy was sometimes known as 'Saint Paul's disease'
Se os sintomas de Paulo descrevem os sintomas de epilepsia, então a probabilidade deve ser elevada. Por exemplo, segundo Actos, foi cercado por uma luz, caiu, teve uma experiência religiosa, ouviu vozes e ficou cego durante três dias. Segundo as suas cartas, teve visões, sentiu-se arrebatado para o Paraíso, desejou que arrancassem os olhos para substituirem os seus, sentia-se esbofeteado por Satanás, notou que escrevia com letras grandes, dizia várias vezes que queria gloriar-se e enumerava as suas fraquezas e tinha uma doença que quem pedacia costumava ser desprezado (a epilepsia era chamada de "morbus insputatus": doença cuspida; era costume cuspir nos epiléticos).


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2. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra que derrubasse alguém de um cavalo?»

Eu não tinha sequer escrito a palavra "cavalo", na Bíblia não é dito que esteve montado num cavalo - apenas que «caindo em terra, ouviu uma voz»  - e não é a queda que provoca epilepsia, por isso a pergunta é irrelevante. Mas sabe-se que os sismos alteram os comportamentos dos animais. Os cavalos ficam agitados durante um sismo antes de ser sentido por humanos. E é comum os epiléticos caírem num ataque de convulsões, porque  a falta de equilíbrio é um dos sintomas de um ataque epilético. É o sintoma mais fácil de associar a um ataque epilético. Na Babilónia era chamada de "doença da queda". (Psychoses of epilepsy in Babylon: The oldest account of the disorder)



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3. «Qual a probabilidade de haver um tremor de terra quando Paulo estivesse montado no cavalo?»
4. «Qual a probabilidade de um terremoto despoletar um ataque de epilepsia?»

É irrelevante se aconteceu quando esteve montado num cavalo...

Os sismos na Palestina e arredores eram muitíssimo frequentes e foram descritos com muita frequência na Bíblia, que até teriam aberto jaulas de prisões, e sabe-se que num sismo a descarga eléctrica de fricção das rochas ao atingir o cérebro provoca um ataque num doente de epilepsia. Esse facto é usado para procurar um tratamento e até um meio de prever terramotos. Perguntar qual é a probabilidade de um terramoto despoletar um ataque de epilepsia num epilético é como perguntar qual é a probabilidade de luzes intermitentes despoletarem um ataque de epilepsia num epilético, como aconteceu com 685 epiléticos no Japão quando viram o Pikachu a brilhar num desenho-animado.

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5. «Qual a probabilidade de uma epilepsia levar à prosopagnosia e cegueira temporária?»

Problemas de visão é um sintoma predominante da epilepsia, que inclui cegueira que dura várias horas ou alguns dias depois de um ataque (sintoma de uma fase pós-ictal). Se alguém tem esse sintoma, muito provavelmente sofre de epilepsia, mesmo se acontecer num cão. É um dos sintomas descritos leva médicos a suspeitarem de que Paulo sofria de epilepsia.

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6. «Qual a probabilidade de um epiléptico sofrer alucinações que transformam seus perseguidos em perseguidores?»

Um meu primo pensou que era Jesus durante um ataque epilético. As alucinações visuais e auditivas com figuras luminosas, alterações de personalidade e sensação de estar a ser perseguido ou de ser alguém muito importante são sintomas da epilepsia. Se alguém caiu subitamente no chão e ficou cega durante três dias, e depois disso considera-se mais importante num contexto religioso e diz que viu ou ouviu Jesus e que sentiu-se perseguido no momento da queda , então provavelmente teve um ataque epilético, especialmente se diz que normalmente tem um mal físico e que sente um "espinho na carne". Mais sintomas de uma doença torna mais provável que seja essa doença. Não a torna mais improvável.
  • Paranoia - The Psychology of Persecutory Delusions: «Persecutory delusions also occur in neurological disorders, such as dementia (Flint, 1991) and epilepsy (Trimble 1992).» ... «Perez, Trimble, Murray, and Reider (1985) report mental state data on 24 consecutive referrals of patients with epilepsy and delusions were much commoner (70%) in individuals with temporal lobe epilepsy
  • Delusions, illusions and hallucinations in epilepsy:1. Elementary phenomena : «Delusional themes commonly include: guilt, worthlessness, ill-health, persecution, reference, grandeur, love, jealousy, poverty,infestation, and religion
  • Neuropsychiatry, Lippincot Williams and Wilkims: «The mechanism for the development of chronic psychosis in epilepsy is not known» ... «A recent study (325) reported persistent symptoms of auditory hallucinations and delusions of persecution»
  • The Epileptic, E. M. Blaiklock (Cambridge Journals) : «'The epileptic may be suspicious with delusions of persecution or elated with delusions of grandeu' (Insanity, G. H. Savage, p. 384)»
  • Epilepsy Society - Ictal, Post-ictal and Interictal Psychosis
Ainda por cima, Saulo era supostamente um judeu ferrenho. E os judeus acreditavam que as doenças (mudez, cegueira, hemorróidas, etc.) eram punições de Deus, como descritas nas Escritutas Hebraicas. Mesmo segundo os Evangelhos, quando Jesus curava, dizia: «Seus pecados foram curados».


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7. «Qual a probabilidade de acontecer, simultaneamente, essas coisas?»

A probabilidade de acontecer tudo simultaneamente a uma pessoa ao acaso é muito baixa. ( Conhecem alguém com os sintomas descritos? ) Mas no Novo Testamento foram descritos sintomas que aconteceram pouco antes da conversão de Paulo e durante a sua vida. A questão não é sobre a probabilidade de tudo ocorrer simultaneamente. A questão é: qual é a probabilidade de não ser epilético, sabendo que sofre um conjunto de determinados sintomas? Ou, qual é a probabilidade de alguém que tem os sintomas características de uma doença não ter a doença? E já agora, qual é a probabilidade de ter sofrido um "golpe de calor", sugerido por Yuri, que tivesse provocado todos os sintomas? Só ele é que inventou uma explicação nos comentários, apesar de ele ter pedido que outros o fizessem.

Não sou especialista em epilepsia, nem sou psicólogo ou neurologista, nem sequer médico. Usei vários artigos de especialistas na matéria que concluíram que é muito provável que Paulo tivesse sofrido de epilepsia. No entanto escrevi «Mas parece que é dado demasiado crédito ao Livro dos Actos» (parágrafo 8).

O meu artigo era uma resposta a um argumento que conclui que a explicação mais plausível para o conteúdo do Novo Testamento é que Jesus realmente ressuscitou em carne e osso. Define-se o que é mais provável ou mais plausível através do que já conhecemos. Se não sabemos se extraterrestres existem e muito menos se visitem a Terra, mas sabemos que existem casos de alucinações, não se conclui que o mais plausível é  que os que dizem que foram abduzidos por extraterrestres foram mesmo abduzidos, especialmente se for um fenómenos muito estudado. O mais plausível é que tenham sofrido de uma alucinação, talvez numa paralisia do sono, se não tiverem a mentir. E se quem tiver os mesmos sintomas de Paulo é diagnosticado como epiléptico, então o mais plausível é que Paulo tenha sofrido de epilepsia. São os sintomas que levam pensar que se sofre de uma determinada doença. E quantos mais sintomas característicos de uma doença tiverem ocorrido, a hipótese não se torna menos plausível. Pelo contrário! O Yuri pensou o contrário...

13 junho, 2010

Re: A diferença é ser treta

¶1 Ludwig num artigo disse que não concorda «que o Estado gaste dinheiro a contratar padres para os hospitais, a subsidiar a vinda do Papa ou a pagar professores de religião nas escolas públicas» dando como exemplo a «Maia, dos livros da Alexandra Solnado ou do pessoal que fala com os mortos quem enfiar o barrete e julgar que aquilo é mesmo verdade» para explicar as razões.

¶2 Muitos católicos criticaram o modo como foi preparada a vinda do Papa. João César das Neves tinha comentado: «Enquanto os ateus e não-cristãos portugueses foram em geral respeitadores, as críticas, algumas violentas, vieram quase só de quem se diz católico.» Nas críticas houve referências sobre a separação entre Estado e religião, mas não por causa da visita em si, mas pelo incómodo causado aos utentes e despesas exorbitantes do Estado, ainda por cima em crise financeira:
«Consultas e cirurgias adiadas e serviços de saúde a meio gás serão consequências da tolerância de ponto concedido nos dias 11, 13 e 14 de Maio devido à visita do papa e que os utentes criticam. A tolerância de ponto foi decretada pelo Governo» ... «Uma das consequências desta concessão sentir-se-á nos serviços de saúde pública. Hospitais e centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde não vão funcionar como se fosse feriado ou fim-de-semana. | Por esta razão, as consultas e as cirurgias programadas irão realizar nestas instituições. | A medida não agrada ao Movimento dos Utentes dos Serviços de Saúde, com o seu presidente, Manuel Vilas Boas, a lembrar que Portugal tem "um regime republicano e laico" e, por isso, "não tem de obedecer às regras religiosas".» ... «O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) acusa o Governo de ser "incoerente" ao conceder tolerância de ponto para a visita do Papa, o que deverá deixar os serviços de saúde como se existisse uma greve no sector.»
- Global, 6 de Maio de 2010
«É verdade que somos um País maioritariamente católico (inclui-me nos 88% da população que o assume), mas o nosso Estado é laico. É verdade que a vista de um Papa a Portugal acontece poucas vezes, mas o mesmo acontece com outros chefes de Estado. É verdade que as missas papais mobilizam milhares de fiéis com os respectivos condicionantes de trânsito, mas isso também acontece quando há mega-manifestações, e os exemplos são recentes, ou um um europeu de futebol. Tudo isto para concluir que apesar de considerar que Bento XVI deve ser devidamente recebido e que a sua visita deve mobilizar todos os meios humanos e técnicos considerados indispensáveis, apesar de pensar que Cavaco Silva faz bem em acompanhar os momentos públicos de Joseph Ratzinger no nosso País e até aceitar que o Papa deve ser tratado de forma especial, acho que as medidas enunciadas pelo Governo são exageradas. Quais são as razões para as escolas fecharem dia 13, por exemplo? Isso significa que muitos pais faltarão ao trabalho para ficar com elas. E porque foi decretada tolerância de ponto para Lisboa e Porto nas tardes dos dias 11 e 14? Só se for para um hospital ter argumentos para me desmarcar uma consulta nesse dia... às nove da manhã. Um dia de paragem de produtividade no País tem custos. E estes, fazem sentido?»
- Filomena Martins, directora adjunta do Diário de Notícias
¶3 Não podemos também criticar os elefantes brancos? O TGV não tem a ver com religião, por isso não faz qualquer sentido invocar a separação entre Estado e religião. Isso só permite que se fuja da questão, especialmente se for colocada por ateus. Note-se que João Paulo II já tinha visitado Portugal e, que eu saiba, não houve esses problemas.

¶4 Discordo com a opinião de que o Estado não deve suportar a assistência de padres por as crenças religiosas serem treta. Seria errado o Estado pagar a actores para se fazerem passar de Pai Natal nos hospitais? Pode dizer que não, mas se as resposta que deu era para quem considera que o Estado pode também pagar a esses actores, o argumento é mau: o Estado não reconhece que o Pai Natal exista e os adultos sabem que é um actor, ao contrário das crianças, a quem se destina os serviços.

¶5 Se a assistência de um padre ou do Pai Natal tem uma influência positiva na recuperação e bem-estar de um paciente, acho que o dinheiro está a ser usado para o fim específico dos estabelecimentos de saúde e que está a ser bem gasto. Afinal de contas, quem os recebe já tinha a crença. No entanto considero que não deve ser pago se o sacerdote aproveitar-se da situação do paciente, fazendo propaganda, transmitindo a ideia de que a recuperação deve-se a um poder sobrenatural ou de que não precisa do tratamento médico, ou até influenciar de modo a passar a recorrer a certos serviços, aderir comportamentos que não aderia ou ter uma crença que não tinha, como faria um astrólogo, em vez de simplesmente consolá-lo. E quem aceita essa razão, para ser consistente deve aceitar serviços que pessoalmente considerariam ridículos, como de uma stripper, que pode tornar o paciente mais alegre e dar-lhe mais sentido à vida. Caso contrário, podem estar a ser hipócritas. Considero o Pai Natal e o sacerdote ridículos, mas não devemos impor o que consideramos ridículos aos outros porque vivemos melhor com coisas ridículas.

¶6 Será que o Estado tem de pagar os pastéis de natas e a fábrica de ... "dito cujo" das Caldas da Rainha, apesar de serem culturas típicas de Portugal? Não é só por ser cultural que algo deve ser financiado pelo Estado. Seitas religiosas (inclusivé ateias) muito pequenas conseguem não só sobreviver muito bem, mas também conseguem ter sedes com equipamentos de impressão, para distribuição pelo mundo, e espaços de culto espalhados pelo mundo, mesmo sem que lhes paguem para realizarem casamentos, baptizados e funerais. Os padres recebem salário das arquidioceses, que por sua vez recebem os donativos e o dinheiro distribuído pelo Vaticano. Não é como investirem tempo e dinheiro numa pintura, num filme, numa música ou numa peça de teatro, para se expressarem livremente. E as obras de arte e os recintos são do Estado. O Estado não é dono das igrejas, nem as religiões pertencem ao Estado, que supostamente não recebe um tostão delas.

¶7 O Estado está dividido em poderes - Executivo, Legislativo, Judicial -, que estão separados entre si, mas não estão separados do Estado. Mas o Estado é separado da Igreja, que é outro poder. As igrejas católicas pertencem ao Vaticano, que tem as suas propriedades - não pertencem ao Estado. Podem pertencer nos jogos de computador de estratégia, como no Freeciv, para influenciar a população e arrecadar dinheiro, mas isso não é verdade num Estado laico. As pinturas religiosas podem pertencer ao Estado, mas as igrejas não. Os lucros vão para o Estado, não vão para o Vaticano. Mesmo aceitando financiamento de treta, ela deveria, pelo menos, estar em algo semelhante a uma biblioteca, onde sacerdotes informariam sobre as suas religiões, fariam os seus rituais de culto e prestariam os seus serviços. Mas não deveria servir para promover religiões nem discriminar umas de outras, que poderia servir pelo Estado para fins maliciosos ou para religiões influenciarem o Estado. Filmes e documentários sobre o Natal e a Páscoa têm interesse para a cultura, no sentido de conhecimento sobre as religiões, mas não fazer o mesmo com a outras religiões, é fazer propaganda subtil.

12 junho, 2010

Re: Miscelânia criacionista: ciência infantil

¶1 Li o artigo «Miscelânia criacionista: ciência infantil». Antes de explicar como se obteve a conclusão de que a nossa espécie procriou com neandertais, Ludwig escreveu:
«Por feitio ou deformação profissional custa-me aldrabar as explicações. Por isso infligi aos meus filhos respostas que crianças com dois ou três anos não tinham paciência para ouvir, e muitas vezes me viraram as coisas a meio e foram brincar.»
¶2 Ora, parece óbvio que não tem jeito para dar explicações a putos. Previa-se qual seria o género de birras em forma de ad hominems que iriam usar sem lerem o artigo. Talvez o truque seja o uso de desenhos:
¶3 O que está a vermelho explica como é que os cientistas descobriram que a procriação ocorreu pelo ADN. H refere-se a humanos modernos e N refere-se a neandertais.

¶4 Ainda por cima evolucionistas já suspeitavam disso há anos - tenho seguido artigos e documentários sobre o assunto - e foram evolucionistas que o descobriram, resolvendo a questão - e agora criacionistas ficam com os louros?! [PubMed (1999); The Independent (2004); ScienceForums (2005) Cosmos (2006); Panda Thumb (2006); DailyTech (2010); Wikipedia]

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¶5 Por que é que os evolucionistas colocaram essa hipótese se contradiz a Teoria da Evolução?! Há mais de um século, Charles Darwin, em Origem das Espécies, descreveu a evolução envolvendo hibridização - no oitavo capítulo, com o título "Hybridism"... [The Origin of The Species; Wikipedia]

¶6 Ou seja: a ideia dos evolucionistas era que dariam híbridos, como os híbridos de leões e trigres (liger), de zebras e cavalos (zorce), lobos com cães, camelos com lamas, leões com leopardos, ursos polares com ursos pardos, ovelha (ou carneiro) com bode (ou cabra), etc.



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¶7 As diferenças entre humanos modernos e neandertais:



¶8 E a comparação de crânios humanos de espécies diferentes:



¶9 Acham que esses crânios todos são da mesma espécie?!

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¶10 Noto que o tipo de prova usado para a conclusão de hibridismo tem sido rejeitado pelos criacionistas - pelo ADN -, pois leva a conclusões sobre a ancestralidade comum que rejeitam. Se prova-se que uma semente tem cerca de 2000 anos pelo processo de datação por carbono que rejeitam, acham que isso é uma prova do Criacionismo (porquê?). Eu achava que interessava que o modo como se chega às conclusões é que era importante! Em que é que isso dá? Num artigo da National Geographic com a tal notícia há uma ligação para um artigo sobre a descoberta de uma árvore com cerca de 9500 anos - os criacionistas da Nova Terra acreditam que a Terra tem cerca de 6000 anos. É triste, não é?

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¶11 Então, finalmente, explico o tipo de resposta que o Ludwig respondeu. Suponham que defendem que acreditam em poderes mágicos e que passam o tempo no fórum de James Randi para refutá-lo. Dizem-lhes que provaram que Penn e Teller têm poderes mágicos porque fizeram bolas e uma batata aparecerem e desaparecerem. Mostram-vos como é feito o truque:


¶12 Então respondem dizendo que falaram tanto só para dizer no final que os defensores dos poderes mágicos nunca têm razão e que fazem raciocínios tendenciosos assim:
  1. O defensor dos poderes mágicos diz uma coisa
  2. O que nega poderes mágicos diz o contrário.
  3. A ciência mostra que a posição do defensor dos poderes mágicos é a que mais se ajusta aos dados.
  4. Os que negam poderes mágicos mudam a sua posição, e dizem que o que eles queriam dizer é o que a ciência veio mostrar.
¶13 Reparem no diagrama que coloquei no início e comparem com o texto de Ludwig e as referências que indicou. O Mats respondeu ao que ele disse? Ele poderia chamar o "Ludwig" de tolo, como fazia Jesus segundo os evangelhos, ou algo pior, mas contra-argumentar o que escreveu. Mas optou pela falácia do ad hominem abusivo e circunstancial, como um puto. Mas não foi pior que a do Carlos Ricardo Soares... Mas eles lêem os artigos que comentam? E ainda admiram-se se lhes tratarem como putos.

¶14 Já agora: como é que respondem a um geocentrista que diz que a Ciência provou o Geocentrismo?!

08 junho, 2010

Ressurreição de Jesus - 2) O túmulo vazio





[imagens ao lado, de cima para baixo: visão de Paulo a caminho para Damasco; visão em Revelação; visão de Pedro; visão de Estêvão; Jesus na Igreja de Éfeso (Scott Hahn)]

¶1 Seguindo o artigo anterior, sugiro que devemos recorrer aos documentos pré-marcanos (anteriores ao Evangelho Segundo Marcos) para conhecermos as crenças dos apóstolos. William Lane Craig fez isso: começou o seu argumento do sepulcro vazio com base numa de uma epístola de Paulo para defender os evangelhos como históricos:
«Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras e que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também. Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo.»
¶2 Mas Paulo não disse que o corpo de Jesus foi colocado num túmulo que foi três dias depois encontrado vazio. Isso é um pressuposto através da leitura dos evangelhos canónicos. O que Paulo disse não é inconsistente com o corpo enterrado, que manteve-se no mesmo lugar em decomposição. Para os judeus, o terceiro dia era uma prova de que estava mesmo morto. Alguns autores hebreus apocalípticos acreditavam na ressurreição do espírito, daí as aparições como as de Damasco, consistentes com as crenças gnósticas e zoroástrica. São Paulo mais à frente continuou com:
«Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos? E com que corpo vêm? Insensato! O que semeias não recobra vida, sem antes morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo da planta que há de nascer, mas o simples grão, como, por exemplo, de trigo ou de alguma outra planta. Deus, porém, lhe dá o corpo como lhe apraz, e a cada uma das sementes o corpo da planta que lhe é própria. Nem todas as carnes são iguais: uma é a dos homens e outra a dos animais; a das aves difere da dos peixes. Também há corpos celestes e corpos terrestres, mas o brilho dos celestes difere do brilho dos terrestres. Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua e outra a claridade das estrelas; e ainda uma estrela difere da outra na claridade. Assim também é a ressurreição dos mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso; semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual. Como está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o segundo Adão é espírito vivificante. Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo veio do céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o homem celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do homem celestial. O que afirmo, irmãos, é que nem a carne nem o sangue podem participar do Reino de Deus; e que a corrupção não participará da incorruptibilidade. Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. É necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade.» 
¶3 O Evangelho Segundo Lucas descreve Jesus ressuscitado com um corpo  com carne e ossos: «apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho». Pois, mas contradiz a transformação para um corpo incorruptível sem carne nem sangue, como os corpos imortais de anjos, dos deuses greco-romanos e dos humanos que passaram para Hades, cujos cadáveres tinham moedas nas bocas ou nos olhos para pagarem o barqueiro Caronte, em vez de voltarem para assobrarem os vivos. Suponho, no entanto, que os cadáveres e as moedas continuavam no mesmo lugar. Flávio Josefo, um fariseu, disse em Antiguidades Judaicas e em Guerras Judaicas que os fariseus acreditavam na imortalidade do espírito e que era introduzido em corpos diferentes na ressurreição. E existem aparições de Elvis Presley (que deram origem ao Elvismo) e agora existem alegações sensacionalistas de que a sua campa foi encontrada vazia. O que isso prova?

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¶4 O maior problema do argumento do túmulo vazio é que baseia-se em documentos que se parecem com boatos que passam nos e-mails e notícias sensacionalistas, e através deles, pressupõe-se o que os apóstolos não escreveram, como se fosse implícito o que foi escrito depois de morrerem, para além de excluir crenças dos apóstolos com o pressuposto de que os judeus não as tinham. O túmulo vazio seria uma prova tão boa, ainda por cima de um rico do Senedrim (em Marcos, um membro de um bouleutēs que não existia...), que se esperava que os apóstolos o mencionassem antes do evangelho de Marcos (quando estavam vivos!), em vez de descreverem apenas visões e vozes no céu, no deserto e nos sonhos, e, se fosse conhecidos publicamente, esperava-se que os seus inimigos os respondessem a tal alegação (qual foi a polémica judaica?). Aliás, nem se sabe onde seria Arimateia - só em Lucas é dito que fica na Judeia - e ainda por cima José de Arimateia seria um discípulo secreto que, começou por ser mencionado em Marcos e parece que os outros evangelhos mais antigos usaram-no como fonte.

¶5 Quais são os historiadores e escolares bíblicos que dizem que são documentos históricos, ainda por cima fidedignos, para que Craig use o que chama de "factos" nas suas premissas? Até teólogos e historiadores cristãos, como John Dominic Crossan (que costuma ser convidado em documentários sobre Jesus), dizem que os evangelhos não são documentos históricos. Deixo algumas referências:
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¶6 O outro problema é fundamentar-se na estranheza da natureza dos testemunhos. Acho que Craig tem razão quando diz que as mulheres, tal como as crianças, não eram consideradas boas testemunhas entre os judeus. Os homens oravam: «Dou-te graças, Senhor, Rei do Universo, por não me teres feito mulher» [Sedar] Mas no Evangelho Segundo Marcos, as mulheres falham na tarefa de testemunhas e os destinatários eram gentis romanos, que tinham várias deusas (Vénus, Ceres, Diana, Vesta, Minerva) e sacerdotisas, e onde os judeus de influência helénica eram liberais e as judias podiam ter a sua propriedade, ter uma educação, serem chamadas para o serviço militar e serem presidentes de sinagogas. Além disso, São Paulo separou a Lei do seu cristianismo, os evangelhos descrevem uma grande aproximidade de Jesus em relação à franja da sociedade [Mc 5:26 ; Mc 10:14; Mt 5] e até o papel de Madalena nos evangelhos, especialmente os apócrifos de Filipe, Tomé e Madalena, deram origem aos conhecidos exageros n'O Código de Da Vinci.

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¶7 Finalmente as conversões dos apóstolos, especialmente de São Paulo: por que é que alguém se torna aquilo que perseguia? Existem algumas especulações dadas por neurologistas ao que é descrito no livro dos Actos. Sabe-se que existe uma relação entre a epilepsia e intensas experiências religiosas, por isso neurologistas especulam que a experiência de São Paulo sugira sofresse de epilepsia do lobo temporal. Supostamente a obsessão em relação aos cristãos levaria-o, ironicamente, a sentir-se perseguido por aqueles que perseguia, numa das suas alucinações: «Saulo, Saulo, por que me persegues?» ... «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.» (At 9:4). Num documentário da Discovery Channel, chamado Saint Paul, é dito que na Palestina a actividade sísmica é muito comum e os terramotos são muito mencionados na Bíblia (em Actos um terramoto destrói as portas de uma prisão), o que leva à ideia de que um abalo terá despoletado um ataque epilético. A epilepsia pode levar à prosopagnosia e cegueira temporária que, juntando a sintomas descritos nas cartas, explica muito bem o evento e mudança.

¶8 Mas parece que é dado demasiado crédito ao Livro dos Actos, tendo em conta que a historicidade desse livro é duvidosa entre escolares. Ainda por cima Actos contradiz sistematicamente as epístolas de Paulo. O modo como ele escreve as cartas leva as ideias de que tinha mau carácter, causando brigas e divisões através de doutrinas que não eram aceites pelos apóstolos, levando à suspeição de que tinha infiltrado no meio dos cristãos para legitimizar a sua teologia. Vridar propõe que o autor de Actos conhecia a Epístola aos Gálatas e que as discrepâncias são intencionais. Teria observado que a descrição da conversão de Paulo compara-o com os profetas Elias, Jeremias e Moisés e que podia ter o intuito de colocar-se acima dos apóstolos em autoridade.

¶9 Por que os apostólos haveriam de morrer por uma mentira? Na Bíblia só está descrita a morte de um apóstolo (para além de Judas): Tiago, irmão de João, morto à espada por ordem de Herodes. Não descreve a sua postura antes de morrer, ao contrário das tradições com origem nos apócrifos sobre a morte dos outros apóstolos, que queriam morrer e até convertiam os carrascos. Mas esses apócrifos foram considerados espúrios e heréticos desde Eusébio, ou os relatos são contraditórios. [1; 2; 3; 4; 5; vid1; vid2; vid3; vid4] . A pergunta assume que os apóstolos morreram pela sua fé, quando nem se sabe como morreram. Mesmo se fossem apanhados e dissessem que foi tudo mentira, seriam libertados?

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¶10 Mas os cristãos eram perseguidos, torturados e condenados à morte pelos romanos. Se imensas pessoas dizem que viram Jesus, por que iriam arriscar a sua vida e até aceitar morrer por essa crença, se mentiam? Ora, a pergunta tem três pressuposições: 1) os discípulos viram Jesus em carne e osso ressuscitado; 2) se tiveram fé numa falsidade, então sabiam que é uma falsidade; 3) não se morre por causa de uma mentira. Existe pelo menos uma pessoa que acha que tem poderes do Dragon Ball, com discípulos, que levou uma ajoelhada na cara até sagrar, para além de ter perdido 5000 dólares. Porque raios se expôs a isso tudo, se sabia que era mentira? Joseph Smith, o fundador do mormonismo que revelou o Livro de Mórmon, foi morto por uma turba antes de ser julgado. Os Smith e os mórmons foram perseguidos por traição. Notem que, supostamente, houve onze testemunhas das suas placas de ouro com o Evangelho de Cristo nas Américas. Conclui-se que o mormonismo é verdadeiro? Jim Jones e David Koresh morreram, com os seus seguidores, motivados pelos seus cultos que lideravam. Será que por isso as suas crenças eram verdadeiras?

¶11 Se um grupo de pessoas está empenhado numa causa que dependia de um homem que amavam, é provável que sintam a sua presença depois da sua morte e tentem justificar com crenças dissonantes o que contradizia todas as suas expectativas. Em Marcos o próprio Herodes acreditava que Jesus era João ressuscitado: «Este é João, que mandei degolar; ressuscitou dentre os mortos.» («Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo»; 6:20). Por outro lado, na obra O Homem Que Se Tornou Deus, Gerald Messadié imagina Jesus safando-se em vez de morrer; no posfácio:
«Surpreendido, igualmente por esta morte prematura, ou mesmo inexplicável, um guarda do Gólgota picou o peito de Jesus com a ponta da sua lancea consequência, era inútil quebrar-lhe as tíbias.» ... «A abundância de água referida por João, e inclusive enterrou-a aí, infligindo-lhe uma profunda ferida, mas como o Jesus não reagiu supôs que estava morto e que, por revela com o mínimo possível de dúvida que a lançada - a lancea tinha uma lâmina chata e afilada - furou a pleura e não o coração. Do coração, decerto que não sairia muita água. A abundância de água concorda com o princípio de pleurisia, que pode ser causada pela exposição prolongada de um corpo nu ao frio» ... «Porém, segundo um médico-legista interrogado, uma ferida infligida a um cadáver pode acarretar um derramamento daquilo a que se chama "sangue de cadáver", fluido constituído por soro e hemoglobina decomposta. Trata-se então de um líquido acastanhado.» ... «E ei que ainda por cima José de Arimateia e Nicodemos se armam em cangalheiros! Além disso, o costume exige que todos os judeus se retirem antes do pôr do Sol para o recinto da Grande Jerusalém. Pelo contrário, afadigam-se no Gólgota a assegurar a inumação de um inimigo público. Um tal comportamento dá que pensar, a menos que se opte pelo cepticismo. Em realidade, uma infracção explica a outra. José de Arimateia e Nicodemos sabem que Jesus não morreu. Daí a ligeireza com que ambos assumem a infracção religiosa.» ...
¶12 É uma explicação baseada na estranheza de comportamentos de personagens, mas o autor (um historiador) coloca-a na perspectica de especulação para explicar as decisões na elaboração seu romance. Até médicos podem pensar que alguém está morto, por deixar de haver batimentos cardíacos, mas que deperta algum tempo depois, até na morgue - é o chamado síndrome de Lázaro, com pelo menos 24 casos documentados desde 1982. Flávio Josefo relatou um caso em que procurou três amigos que tinham sido crucificados e um deles tinha sobrevivido depois de retirado da cruz. Claro que com isso tudo não se conclui que sabemos o que aconteceu, nem sequer que Jesus não ressuscitou. Apenas mostra que temos conhecimentos, baseados na experiência e investigação científica, que explicam como poderia ter acontecido. E o que com este artigo tento mostrar é que os pressupostos de Craig não são o que chama de "factos".

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Notas sobre os comentários:
O artigo longo e os links servem para referências futuras e para quem tiver interessado em informar-se melhor sobre os temas. Agradeço os detalhes e correcções nos comentários que complementem o artigo.

Se os comentários não estiverem relacionados com o artigo, não serão moderados, desde que não tenham links para fazer publicidade ou que choquem através de imagens violentas, ou pornográficas ou com conteúdo ilegal. Não o respondo na caixa de comentários - se disponível, faço-o num artigo. Recomendo que não incentivem discussões alheias nas caixas de artigos nem cedam a provocações. Quem não disser nada sobre o artigo, não tem nada a dizer sobre ele.

31 maio, 2010

Deus omnipresente, omnisciente, omnipotente e omnibondoso

Professor Alfredo Dinis,

li atentamente comentários dirigidos a Ludwig, que foram redigidos de forma muito clara e julgo que não foram respondidos de forma adequada. Pretendo partilhar a minha opinião sobre os comentários e colocar-lhe uma questão no final, por ser professor de Filosofia, para satisfazer-me uma curiosidade a respeito de uma alegação feita por um dos comentadores. Como tem certamente muito mais experiência na Filosofia, se responder-me com uma crítica e explicando-me os erros nesta redacção, sentir-me-ei muito agradecido pela paciência de lê-lo.

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¶1 Parece-me que ambos os professores, Alfredo e Ludwig, estão a confundir ou a misturar dois problemas distintos: 1) a existência de um ser omnipotente, omnipresente, omnisciente e sumamente bom; e 2) os deveres de um Criador em relação à Sua Criação. Apesar de exposta de forma ingénua, penso que o argumento de Ludwig através de crianças e das minas é válido e parece-me que Alfredo comete uma falsa analogia comparando humanos e uma entidade sobrehumana como se tivessem a mesma condição.

¶2 A existência de algo não depende dos nossos desejos, por isso acho que é tolice não acreditar que um Deus existe só porque é malévolo ou apático. Aqui abstenho-me a essa questão e cinjo-me à questão da existência de um Deus omnipotente, omnisciente, omnipresente e omnibondoso.

¶3 Uma entidade inteligente que não seja omnipresente, pode não ter a oportunidade de testemunhar os males no Mundo. Mesmo que seja omnipotente, talvez não use os seus poderes para poder conhecer o males. E mesmo que testemunhe e conheça esses males, pode acreditar que é impotente se não for omnisciente, talvez limitando-se a sofrer, como um pai impotente a ver os seus filhos a sofrerem, ou incapaz de perceber o que assiste, como um débil mental. Mas isso não é possível se for omnipresente, omnipotente e omnisciente. Ele está presente no meio de todos os males, tem o poder de acabar com eles todos, conhece-os todos e sabe que pode terminá-los. A questão é como agiria se fosse também omnibondoso, não interessando se é o que deveria ou não fazer.

¶4 O Deus tradicional teísta não tem as mesmas limitações dos seres humanos, cuja condição é muitíssimo diferente. Em muitos casos, para evitarmos ou mitigarmos o mal temos de nos sacrificar e arriscar-nos imenso, porque não temos o poder de fazê-lo de outro modo. Basta comparar os humanos comuns com os super-heróis, nos quadradinhos. A diferença de poder não permite que humanos comuns possam salvar vidas como os heróis com poderes sobrehumanos. O super-homem é capaz de proteger alguém de um tiroteio com o seu peito e pára um comboio com as suas próprias mãos, evitando tragédias, e os outros, que não podiam fazer o mesmo, aplaudem e agradecem, ao seu deus benfeitor que os ama. Os anti-heróis têm outras motivações, que os leva a serem muito agressivos em relação a crápulas como os que mataram os seus pais. As personalidades dos personagens determinam as suas motivações, decisões e comportamentos. E esses últimos são indícios do que sentem em relação a outras personagens.

¶5 Noto que no Evangelho de São Lucas encontramos uma parábola famosa que mostra como se distingue alguém que ama o próximo: a parábola do Bom Samaritano (Lucas 10).
- Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?
- Aquele que usou de misericórdia para com ele.
- Vai, e faze tu o mesmo.
¶6 Deus amar-nos não significa fazer-nos o mesmo? Não estará a descrevê-Lo como o sacerdote que não faz nada para ajudar a vítima e apenas lamenta? Não se espera até de uma besta feroz que salve aqueles que ama, como as suas crias e os mais próximos, arriscando até a sua vida? Amamos mais  os nossos filhos, pais e irmãos, por isso somos capazes de nos sacrificar mais por eles do que por desconhecidos. Não interessa se deveria ser assim ou não: o que interessa é que isso ilustra qual é o género de comportamentos que temos em relação a alguém que amamos. Se não tivermos o mesmo poder de um Deus omnipotente, é que limitamo-nos a sofrer, sentido-nos impotentes ou cobardes. Por isso digo que o exemplo de Ludwig é ingénuo: deveria ter ido mais longe, e ter usado como exemplo um nosso filho que amamos imenso. Mas se existe um ser que também nos ama, que sabe que sofremos e pode acabar com o sofrimento, por que é que não age como um pai com poderes ilimitados que quer salvar o seu filho? E se é o Criador, por que é que permitiu um Mundo onde o sofrimento é possível?

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¶7 Se é inadmissível colocar a hipótese de que o teísmo monoteísta é falso ou de que Deus não é sumamente bom, acredito que só é possível aceitar de forma lógica a hipótese da existência de um Deus que não seja omnisciente ou omnipotente. Ou Ele não sabe que o mal (ou a maioria) existe ou é incapaz de concretizar a sua vontade de acabá-lo. E foi incapaz de criar um Mundo sem mal. Por isso apenas é capaz sofrer com quem sofre. O que chamam de "omnipotência" é afinal um poder sobrehumano de  um ser eterno capaz de criar o Universo, mas impotente para o criar sem o mal ou sequer acabar com o sofrimento.

¶8 Filósofos, como Plantinga, podem implicitamente dizer isso mesmo, colocando a hipótese de o bem  precisar do mal - talvez seja impossível de outra forma. Para além de isso refutar a existência de um Deus com as quatro qualidade que referi, parece-me absurdo que permitir o mal seja melhor que evitá-lo, especialmente tendo em conta o mal natural. Quem criar um robô com livre-arbítrio, deve pelo menos implementar algo como as Três Leis da Robótica, para que a criatura evite cometer sofrimento. Se a criatura matasse, mesmo que tivesse vontade própria, o seu criador seria responsabilizado, podendo ser condenado por negligência e homicídio. Não esperaríamos muito mais de um ser muito mais poderoso e sábio, sempre capaz de prever as consequências dos seus actos? E mesmo aceitando a necessidade de permitir que as decisões para cometer sofrimento sejam concretizadas, como é que o argumento aplica-se a males naturais? Os desastres naturais são resultado de demónios que provocam doenças, extraem lava do interior da Terra e cujos sopros são capazes de arrancar árvores? Não me parece que nenhum de nós acredite nisso.

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¶9 O Jairo Entrecosto, nos comentários do Que Treta!, disse que a existência de Deus está provada. Acho que é treta. Acho que não foi provada a existência nem a inexistência de Deus. Existem apenas razões para acreditar ou não acreditar. Se bem me lembro e interpretei correctamente as palavras de Plantinga e William Lane Craig, eles dizem que a existência de Deus não está provada e por isso existem os debates que participam (especialmente Craig). E suponho que a maioria dos filósofos profissionais é descrente - mas baseio-me apenas em poucos dados. Como é professor de Filosofia, certamente conhece mais e melhor do que eu e o Jairo os argumentos sobre essa questão e as opiniões dos filósofos profissionais. Gostaria que nos dissesse se a existência de Deus está provada e qual acha que é a opinião da maioria dos filósofos.

Cumprimentos

24 janeiro, 2010

Problema do Mal no Haiti e nos comentários do Que Treta!

¶1 Quem não vive debaixo de uma rocha, sabe que houve um sismo no Haiti que praticamente devastou o país. Segundo Hugo Chávez, foi um ataque do EUA ao Haiti. Para Pat Robertson, o país estava amaldiçoado depois de um pacto com o Diabo. Seguindo consistentemente a resposta de Plantinga ao Problema do Mal, esses desastres naturais podem ser explicados como fruto do livre-arbítrio de demónios. Para criacionistas bíblicos, como o "perspectiva", é simples: Deus criou o mundo perfeito, com uma árvore envenenada. O primeiro casal de humanos desobedeceu a Deus comendo frutos da árvore e por isso todos nós temos problemas hereditários, como o envelhecimento, doenças, morte e necessidade de matar para sobreviver, para além dos outros seres-vivos terem os mesmos problemas, e existirem desastres naturais e comportamentos predatórios. Um dos modos de Deus controlar o mal dos humanos foi através de um dilúvio global, depois usou um sacrifício humano e agora temos duas escolhas: «viver do pecado, da morte, do sofrimento e da maldição», ou «a oferta gratuita que o Criador nos faz de podermos viver com Deus numa Criação inteiramente restaurada». Como se responde a respostas dessas? A resposta de "perspectiva" foi dada num comentário a um artigo do Que Treta!, e foi apenas ele que apresentou uma resposta - descreve um Deus negligente mas calculista, tirano com a bondade típica do Pai Estaline, com um plano rebuscado e idiota... mas respondeu, apesar de ser um spammer. Basta que comparem os conteúdos dos artigos e dos comentários. Também questiono como se responde a tais comentários...

¶2 Vejamos por exemplo o primeiro comentário de António Parente, que é o mais interessante. Segundo ele, o artigo (ou a "ideia" de Ludwig) é inviesado porque «Culpa Deus pelo sismo mas quando fala no "antibiótico" aí, alto lá, já é a "ciência", Deus não tem nada com isso» (...) «Ou considera que Deus é responsável por tudo aquilo que considera bom e mau ou então só considerá-lo mau quando lhe interessa e exceluí-lo do bom não me parece muito justo.» É interessante porque o mesmo tipo de crítica pode ser colocada aos teístas do Deus omnipotente e omnibondoso. Gente como o "perspectiva" é enviesada nessa questão: Deus é responsável por tudo o que é bom e as suas criações são os responsáveis exclusivas pelos males. Parece-me que a existência de um ser que é a causa sem causa, omnipotente e omnisciente implica que é responsável por tudo o que advir da criação, mas os outros comentadores não apresentam as suas posições.

¶3 Deístas não rezam a Deus por petição porque Ele não interfere com o Mundo. A oração e adoração são inapropriados no panteísmo, já que nesse caso Deus não é pessoal. O teísmo não implica orações de petição, mas segundo os evangelistas e autores das epístolas bíblicas, é recomendado (aliás, uma obrigação) entre os cristãos, para pedirem ajuda, sabedoria e perdão. (Mateus 6:9-13; Mateus 7:11; Mateus 7:7-8; Marcos 11:24; João 14:13-14; Tiago 1:5-8; Filipenses 4:6; Romanos 8:26-27; Efésios 3:2; Tiago 5:14-16) O Vaticano aceita a oração de petição - «O Homem é um mendigo de Deus» - , desde que se reconheça com humildade que não sabemos orar. Mas para António Parente, Ludwig fez «uma crítica ingénua à religiosidade popular que usa muito a oração de petição» e «os seus leitores crentes são um pouco mais sofisticados intelectualmente». Também não devem ser como o Dom Arcebispo Armando, que explica o exorcismo praticado por doutorados em Teologia, Psicologia ou Sociologia, numa página inteira do Destak. Mas não explicam como são.

¶4 Jairo Entrecosto nem sabe se o Deus omnipotente e omnisciente fez a Terra de modo a ter terramotos. Questiona o que os ateus fariam se fossem Deus, se acabavam com o sofrimento, a morte e com os sismos. E diz que os ateus julgam Deus, caso exista, com um desafio: «Comuniquem uma sentença: refiram aquilo que Deus, a existir, teria a obrigação de fazer no imediato». Pois eu digo que se um Deus omnipotente, omnisciente e omnibondoso existisse, nem sequer se punha a questão de acabar com os males: eles não existiriam à partida. Programadores que criam mundos virtuais apenas implementam os males "naturais" intencionalmente (excluíndo os bugs e as limitações físicas dos computadores) e, mesmo sendo infalíveis, sem poderes nem conhecimentos absolutos, implementam mecanismos de segurança para que males informáticos sejam evitados - e as vontades e consciências dos utilizadores continuam intactas. Se uma máquina for capaz de autonomamente praticar o mal, o seu criador é considerado culpado por esse mal, nem que seja por negligência. Seria eticamente obrigado a implementar algo como as Leis da Robótica. Até em filmes, como o Robocop, os argumentistas são capazes de pensar em seres com vontades e consciências, mas incapazes de realizarem o que se considera indesejável. E nós, mesmo sem termos criado o Mundo, não deixamos de punir e ajudar, mesmo que opunha os "livre-arbítrios" - o que quer dizer que somos mais bondosos do que um Deus omnipotente. No entanto, como pode uma formiga julgar um pé enorme que está sobre ela? O pé pode esmagá-lo antes de haver discussões. Mas, mesmo assim, existe um filme com o título "God on Trial", que pode ser visto no YouTube.

¶5 Mas nada disso responde ao artigo de Ludwig. Afinal de contas, os "leitores crentes um pouco mais sofisticados intelectualmente" do que os que praticam a "religiosidade popular" concordam com ele ou discordam? E com o quê? Acham que cristãos vêem o sismo do Haiti de forma diferente? É verdade que «os católicos vêem neste sofrimento uma prova do amor de Deus» e que, oram ao Senhor «pelas vítimas desta catástrofe» «implorando de Deus consolo e alívio do seu sofrimento»? Se são católicos, oraram seguindo o convite do Papa? Eu ainda não percebi. E mesmo se percebesse, julgo que teria a mesma dificuldade em respondê-los, tal como tenho em relação ao "perpectiva" e ao Hugo Chávez.

08 novembro, 2009

Modelos entre guerras

Com a série respondi a todos os pontos indicados no artigo "Pedro Amaral in Wonderland". Deixo um resumo:
  • Introdução: [contra pessoas]
    • Cerca de 5/3 do artigo de Luciano dedica-se quase exclusivamente a ataques pessoais com "leituras da mente";
    • Luciano acusou-me de dedicar "uma boa parte da triologia" a apegar-me a uma frase. Que é discutida explicitamente e implicitamente em cerca de 8% nessa "triologia";
    • Devemos aprender com os efeitos dos insultos [tema da série];

  • Bizarrices do artigo [1]:
    1. Os primeiro artigo era quase exclusivamente sobre significados de termos, que foram atribuídos por Luciano, que é preciso conhecê-los para perceber que a ciência e religião não estão em conflito, e os "neo-ateus" não percebem esses termos. Cerca de 72% dedica-se a discutir a expressão "ciência corrige-se", que é o que os outros artigos dedicam-se exclusivamente. Nas próprias respostas Luciano reforça a importância dos significados. [img4; diálogos difíceis; não mostrou]
    2. - Tinha respondido que não faz sentido dizer que a Política vence e derrota a si mesma, notando que esses verbos implicam uma competição do sujeito em relação a adversários, que é o caso entre partidos e entre exércitos. E só faz sentido dizer que um grupo X vence Y e derrota Y, se os membros de X em geral cooperem entre si para isso e Y for diferente de Y. Por isso, não faz sentido dizer que algo venceu a si mesmo derrotando-se.
      - Não faz sentido a Política substituir a si mesma porque não há meio de distinguir entre substituir-se e não substituir-se. Só faz sentido dizer que X substitui Y, se e só se X for diferente de Y.
      - É irrelevante se as entidades são ou não são "maiores". O que interessa é as propriedades em questão. Nunca faz sentido dizer "X vence derrotando X, substituindo X", seja qual for X. [img1; não mostrou; diálogos difíceis]
    3. Tinha dito que Luciano com o exemplo da Política, atribuía-me a defesa de uma falácia de composição, mas que não é o caso. Notei que apesar disso, existem excepções, servindo a côr da cadeira, um risco do livro, uma decisão do ministério, a votação do povo e a decisão de um júri como exemplos, e tinha já dado como exemplos os partidos e exércitos. Luciano respondeu-me fora do contexto, dizendo que nele eu respondia ao seu modelo, e não demonstrou a importância da condição de "entidade maior".  [img2; fora do contexto]

  • Bizarrices do artigo [2]: [tornar-se o inimigo (nas respostas)]
    1.  Posso escrever sobre um ou mais pormenores de quaisquer artigos e sobre os assuntos que bem entender. Quem pretende responder a trechos de artigos, mas responde a outra coisa, é que foge dos assuntos. Quem me atribui o que eu não disse, prepara homens-palha. Se consegui responder a trechos dos artigos, mas não abordam os assuntos pretendidos pelo autor, então o problema está nesses trechos. Leiam os textos que são criticados e verifiquem corresponde realmente ao que é criticado. [img1; não mostrou; diálogos difíceis]
    2. Quando se trata de convenções, e se admite-se que existem meios de responder aos problemas que tratam, os meios para isso é a autoridade e a popularidade. Por exemplo, se estudiosos de literatura usam a expressão "a literatura produz" como tendo um sentido e ela é popular, então é legítimo usar essa expressão.
      Os cientistas usam a expressão "fazer ciência", que é popular e compreendida. A ciência, como qualquer actividade, faz-se (ou pratica-se).
    3. Se um artigo não discute um assunto, como um suposto conflito entre ciência e religião, então é uma fuga do assunto e um homem-palha apresentar uma resposta como se tivesse feito. O que escrevi não é verdadeiro nem falso se todas as actividades corrigem-se. Actualizar não é o mesmo que corrigir. Luciano não apresentou um exemplo de correcção da religião.
    4. Se provavelmente não notei aspas ou não é irrelevante se isso não se reflecte nas respostas que apresento. Fui eu que introduzi o termo "processamento" como analogia, por isso uma resposta devia ser segundo os seus termos. Eu tinha dito que tinha cometido um lapso ao relacionar o processamento de um programa com o método, por isso a resposta de Luciano é irrelevante.
      Luciano nunca defendeu a atribuição de acções ao método científico, pelo contrário, dizendo que o método não corrige.
    5. Luciano disse que coloquei definições de ciência que são óbvios de pois de um ponto onde não existem quaisquer definições.
    6. Segundo Luciano, só o refutaria (no quê?) se a correcção fosse a ciência. Não percebo se leu bem o trecho que citou ou se não sabe o que significa "inerente".

  • Bizarrices do artigo [3]:
    1. As analogias que fiz não são sobre juízos de valor. Usei as palavras "bom" e "mau" por serem opostas e para mostrar exemplos de implicações sobre o que Luciano disse sobre "corrige-se" e "evita correcções". O que interessa é os termos serem opostos. X é oposto de Y. "Não X, quer dizer que Y", "não faz sentido dizer que não X, nem Y", "se alguns Y, então X" não implicam juízes de valor. Tinha também dado como exemplo "condena" e "salva" (mas também pode ser "evita condenações"). [img3; fora do contexto; diálogos difíceis]
    2. O mesmo que Bizarrices do artigo [2] 1.
    3. É verdade que "in which" não significa "cujos", mas "em que", "nos quais", "nas quais", "no qual", "na qual" e "onde". [correcções de português]
    4. Não abordei o criacionismo como assunto. O assunto em questão é as distorções do meu texto por parte do Luciano, e num desses textos discute-se se o criacionismo faz parte da ciência. O Luciano é que fugiu do assunto para voltar a essa discussão, citando apenas contextualização do que escrevi. A questão é se se eu defendi que jogar xadrez implica ser campeão de xadrez, como ele sugeriu.
      Para o criacionismo ser uma teoria científica, seria preciso ser suportado pelo método. Não é o caso. No entanto Luciano disse várias vezes que faz parte da ciência e no artigo passou a afirmar que disse é uma má teoria científica, por não ter seguido o método científico. [img2; fora do contexto; definições (condições necessárias)]
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Na série não respondi apenas ao artigo de Luciano. O objectivo é mostrar como ele responde para que se veja ao espelho e para que os nossos leitores tenham atenção a isso e que evitem comportarem-se como ele. Pelo menos que ele perceba que é muito grosseiro e agressivo, o que poderá afectar como lê e responde, e que o que critica dos outros aplica-se a si mesmo. Coloco alguns exemplos e algumas respostas referidas nesta série:
  1. Luciano: «Notem o que o sujeito escreveu: "Algo é inválido, pois depende de extensa justificação"». Nunca escrevi isso nem algo similar. Eu tinha escrito: «Segundo Luciano não mostrei que» (...) «não faz sentido, porque "a interpretação dependeria" "de uma extensa justificação"»

  2. - Eu: «Segunda as definições que deste, para ser ciência é preciso ser ou derivar de "práticas e pesquisas que tenham sido suportadas pelo método científico"» (...) «Dizer que o criacionismo faz parte da ciência é fazer como uma astróloga portuguesa chamada Maia que dizia "Não negue uma ciência que desconhece", ou como uns astrólogos africanos que dizem ser grandes cientistas. Ou como dizer que sou um campeão de xadrez só porque jogo xadrez.»
    - Luciano: «Na boa, vcs são ruinzinhos de analogia hein. Jogar xadrez não implica em campeão de xadrez, mas sim em ser um enxadrista. Vc pode ser um enxadrista amador... O criacionismo é ciência de amadores. Já foi substituido pelo design inteligente.»

  3. Luciano: «O que é um CAMPEÃO de xadrez? É o mesmo que uma teoria que VENCEU dentre outras teorias... Por isso que o meu exemplo segue incólume. Pois eu disse que o criacionismo não ‘venceu’ nada, e o darwinismo ‘venceu’…»

  4. Há uma falácia de anfibologia que confunde o sentido vulgar de "teoria" com o epistemológico, que é chamada de "a teoria da evolução é só uma teoria". Eu disse que seria uma distorção do argumento "teoria da evolução dos talheres" dizer o Sabino defende a falácia anterior e que a AnswersInGenesis já refutou-a desincentivando-a. Luciano  negou que é uma falácia e que o problema é meu se eu não a sei responder com algo como: «sim, é só uma teoria, mas é uma teoria que É VÁLIDA, e a sua não é».

  5. Segundo Luciano, o criacionismo e memética são teorias científicas ou fazem parte da ciência, apesar de não serem suportadas pelo método científico. Depois disse que o criacionismo é uma má teoria científica, porque não passou o método científico.

  6. "Não X, quer dizer que Y", "não faz sentido dizer que não X, nem Y" - segundo Luciano, se X e Y forem "ser bom" e "ser mau", as frases referem-se a juízos de valor e são falsas analogias como contra-exemplos a frases onde X e Y sejam "corrige-se" e "evita correcções".

  7. Luciano: (...)
    a) «o pessoal que tratou da memética é relaxado. Isso implicaria, na aplicação do modelo, em ter que dizer: “ciência é relaxada» (...)
    b) (...) «“os teóricos do aquecimento global não aceitam correção” tem que ser transformada em “ciência não se corrige»
    c) (...) «eu não acho que ciência se corrige, e nem evita correções»
    Contra-exemplo: "Ele teve aquele deslize, mas é boa pessoa"
    Resposta de Luciano: «não serve como exemplo, pois ter um deslize não implica em não ser boa pessoa. a analogia seria válida se fosse ‘ele teve deslizes e ELE NUNCA TEVE deslizes’ na mesma sentença.»

  8. Cerca de 72% de "Ciência vs Religião: um retardo" dedica-se a discutir a expressão "ciência corrige-se". No restante declara que a ciência é uma actividade profissional expressa fisicamente e que a religião é uma prática espiritual não-profissional. Mas mostra como esses atributos levam a concluir que a ciência e religião não podem estar em conflito.

  9. Os textos de Luciano são disputas de significados atribuídos a termos em frases do que ele propõe responder. Daí ser inadmissível que se diga que a Ciência tem erros ou que a Literatura produz registros da linguagem.

  10. Luciano comparando um argumento sobre "ciência corrige-se" com exemplo em que a Política vence derrotando-se substituindo-se. Num trecho apresentei o Universo, a Política e a Culinária como exemplos para mostrar que não é por ser uma entidade maior que não faz sentido dizer que a Política vence e derrota-se e substitui-se. Luciano, a isso, "respondeu" que não adianta "citar" o exemplo "de uma ferida que cicatrizou" e "o braço se curou", porque o braço não é uma entidade maior nem uma área de conhecimento.

  11. Não é possível vencer e ser derrotado no mesmo contexto, porque as duas acções são opostas.

  12. Não é possível substituir a si mesmo. O substituído perde uma propriedade ao ser transferida para o que o substitui.

  13. É um non sequitur dizer que a transitividade de uma propriedade não se aplica a uma entidade por ser a maior.  Na falácia da composição ser o maior não é uma excepção à regra e entidades maiores têm partes com propriedade transitivas, as indivisíveis é que não.
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Para consultar os artigos e comentários que referi, notei hoje que parece que o Luciano tem estado a ler o meu blog, pois publicou um novo artigo para responder a um dos meus. Tem as características que tenho exposto na série, mas pelo menos colocou no final algumas sugestões. Lá encontramos expressões como: «apelar à minha piedade», «sua eterna tentativa de sofística», «seus “duplos” aparecem para postar seus textos aqui», «tenta impor um ardil»,«tenta defender ardorosamente a sua idéia de que ciência X religião», «COMPONENTE DE AUTO-AJUDA que os gurus neo ateus», «Pedro segue, fanaticamente», «cerebrinhos vulneráveis como os de Pedro Amaral», «sua eterna tentativa de validar os seus gurus», «Como Pedro sabe que não vai tentar conseguir», «lembrem-se que o cerebrinho dele foi lavado, portanto sem a falsa dicotomia ciência X religião, as muletas dele são quebradas», «estratagemas do Pedro», «o máximo que ele consegue é implementar erística ou sofística», «Foi uma edição, feita por adversário desonesto», «qualquer um que não é retardado consegue perceber», «qualquer pessoa com um QI no mínimo mediano já teria entendido», «todo o cirquinho dele de analogias», «o mesmo aviso que já dei aos amiguinhos dele», «Ô Pedro, burrinho», «Pedro irá fingir que eu não escrevi isso». Comparem com o que ele diz ser "leitura de pensamento" e quando acusa os outros de serem mal-educados e anti-sociais.

O artigo dele tem 15914 caracteres para responder a um artigo com 7575, incluíndo citações, «"(continuação do artigo anterior)"», "(continua)", referências e símbolos para estruturar o texto. Retirando as citações, o artigo dele tem 9244 caracteres e o meu tem 4422. Nos dois casos, o meu artigo é cerca de metade do tamanho. Se alguém fizer acusações, verifiquem realmente se é verdade, nem que façam contas, como no caso do prolixo. E pensem se elas são importantes, mesmo se fossem verdade (Schopenhauer também era prolixo...).


Deixo também umas sugestões dirigidas ao Luciano, que deve estar a ler este artigo:

  1. Nunca faça ataques pessoais se não fazem parte do argumento, e nunca atribua termos preconceituosos. Releia os seus artigos publicados e siga os seus próprios conselhos, especialmente sobre o que chamas de "estratagemas". Tu és um modelo para os leitores.

  2. Procure identificar quem são os objectos ou destinatários de um argumento e o que é argumentado. Se é só para respondê-lo, não o faça para além do que lá está, mesmo que conheça quem argumenta ou saibas que contra-argumenta contra uma parcela de um texto. Se o fizeres, tu é que estás a fugir ao assunto e a complicá-lo.

  3. Antes de dizer que alguém disse algo, tenha o texto com as suas palavras ao lado ou ouça-o, cite-os e coloque referências onde você estiver a responder. Recorrendo apenas à memória eleva o risco de enganos e não ajuda a verificarmos as alegações.

  4. Os sofistas tinham o hábito de fazer jogos de palavras, tinham o poder da palavra. Mas num debate lógico, entende-se que as palavras convenções e podem ser substituídas por incógnitas para a estrutura ser estudada. Use os termos com os significados atribuídos pelos adversários se pretende ter um debate lógico, ao invés de semântico. Siga o seu conselho: pergunte-os. Fiz perguntas sobre as suas definições no Que Treta!, tal como no seu blog, e deixou de respondê-las para fugires do assunto, com insinuações e para discussões semânticas sobre a palavra "religião". Qualquer um pode lá verificar.

  5. Para discutir sobre um grupo, as suas ideias e usar os seus termos, leia o que os seus membros escrevem, assista os seus vídeos, fale e escreva com eles. Por exemplo, sabe o que significa "criacionismo" e "design inteligente"?

  6. Pergunte a diversas pessoas arbitrariamente que não tenham lido o seu blog se o criacionismo é suportado pelo método científico e porquê. Supostamente o divino, transcendental, sobrenatural e sagrado são do domínio espiritual. Pergunte também se o criacionismo não foca no trabalho espiritual e porquê. Pergunte a criacionistas porque é que defendem o criacionismo.

  7. Pergunte a cientistas o que é uma teoria científica, qual é a distinção entre teoria e hipótese, se o criacionismo é uma teoria científica e porquê. Faça as mesmas perguntas a criacionistas. [dicas: Projecto Ockham; Wikipedia; Espaço Científico Cultural; Jornal da Ciência; ]
Pergunte aos outros como entendem os seus textos. Só depois diga que outros são desonestos e cometeram fraude. E chame burrinho a todos os que não aceitam as suas terminologias.

Cumprimentos

(fim)