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12 junho, 2010

Objectivo, relativo, absoluto, subjectivo

¶1 Se a lógica depende da palavra, isso não implica que um logicista tenha o dom da palavra, como um retórico. Pode ter todos os conceitos necessários para um problema e conseguir relacioná-los de modo a representar todos os passos até chegar a uma conclusão, como jogadas de xadrez, mas não conseguir expressar-se de forma adequada para outros. E há quem saiba convencer, mas infelizmente só conhece dois conceitos e uma forma de os relacionar. Assim chega-se à ideia de que objectivo é essencialmente o mesmo que absoluto e que opõe-se ao subjectivo. Pode usar as quatro palavras "absoluto", "objectivo", "relativo" e "subjectivo", mas tem apenas dois conceitos delas e apenas uma relação entre eles ao torná-los todos contraditórios. Todos nós temos esse género de limitações que podem ser ultrapassadas. Procuremos ultrapassá-las, nem que seja um pouco, num tema que tem dado pano para mangas: a moral.

¶2 Uma palavra pode ter vários significados. Tomemos a palavra "moral". O significado de "moral" em "o moral dos soldados" não é o mesmo que em "a moral da história", que por sua vez não é o mesmo que "a moral católica", que por sua vez não é o mesmo que "Hitler era moral". Essa palavra terá muitos outros significados fora da convenção e do uso vulgar, que a experiência moldou com a intuição. No contexto deste artigo, se dizem que há uma moral de Hitler, aceitam que é legítima e correcta (ética normativa). Se, por exemplo, determina que o genocídio é bom, então aceitam que assim é. A moral é o que determina (correctamete) se um comportamento é bom ou ou mau e é isso que se discute quando se fala em moral e dizem que é objectiva, absoluta, imutável e universal. Não nos façamos de parvos como se significasse regras de conduta de uma sociedade, grupo ou indivíduo, referindo-se apenas a um relativismo descriptivo.

¶3 Se a moral não é questão de opinião, mas de razão, a distinção entre o moral do imoral não pode ser apenas porque sim - dito de outra forma: porque é verdade. x porque y é equivalente a y então x. «"x é bom" é verdadeiro então "x é bom"» é uma tautologia que não acrescenta nada nem explica como é que se identifica o que é bom. Se a ideia é que a intuição dá-nos a resposta, então podemos ter respostas contraditórias de pessoas diferentes, com intuições diferentes, e assim a moral não é diferente de meras opiniões. Se é a razão que nos dá a resposta, uma teoria ética pode explicar a distinção entre o moral e o imoral com passos lógicos que formem um argumento. Existem várias teorias, como a Teoria dos Mandamentos Divinos, o Kantianismo, o Utilitarismo, o Contractualismo, o Colectivismo e o Objectivismo. Quem participa em discussões sobre ética, pelo menos como amador, sabe que defensores da Teoria dos Mandamentos acusam outras teorias de serem relativas ou subjectivas e, portanto, são meras opiniões ou convenções. Parece que o cerne da crítica está nos conceitos que têm de "relatividade", "subjectividade", "absolutividade" e "objectividade", por isso é neles que foco neste artigo.

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¶4 Qual é a posição do ponto y? Se estiver no ponto x, posso responder: «3 unidades para a direita e 1 unidade para cima» (tomando os lados dos quadrados como uma unidade). Estando no ponto x, podia dizer que do canto superior esquerdo A fica: «3 unidades para a direita e duas unidades para baixo». Do ponto fica: «2 unidades para baixo e 1 unidade para a esquerda». Todas as respostas estão correctas, apesar das coordenadas serem diferentes. Mas é claro que existem respostas erradas: «do ponto A, y fica 1 unidade à direita e 2 para baixo» é falso. A verdade sobre uma posição depende de um referencial (ex: em relação ao ponto x), por isso é uma verdade relativa - um proposição que é verdadeira consoante o contexto.

¶5 Por exemplo, «está a chover» é verdadeiro ou falso consoante o lugar e o tempo. O valor de verdade de «está frio» depende do tempo, do lugar e de uma referência (é uma comparação implícita). Em «sinto frio» depende do sujeito, num determinado lugar e tempo - nesse caso também é uma verdade subjectiva - depende de pelo menos uma mente, porque o objecto está no sujeito.

¶6 Mas ser subjectivo não significa necessariamente que é relativo: pode não ser relativa se depender de apenas uma única mente, como na Teoria dos Mandamentos Divinos. Se «matar é mau» é verdadeiro porque Deus o disse, então é subjectivo. Se é verdadeiro independentemente do lugar, tempo, dos envolvidos, da situação e de qualquer outro contexto, então é uma verdade absolutista.

¶7 Quando faço uma medição, preciso de recorrer à minha mente para usar o medidor e ler o valor (por isso é subjectiva), que não é exactamente igual àquilo que meço, mesmo que o processo seja automatizado - uma das primeiras coisas que se aprende nas aulas de Laboratório de Física é calcular uma margem de erro através de várias medições. Dizemos que uma medida é uma aproximação de uma propriedade de algo que está fora da mente. Essa propriedade, por não depender de uma mente para existir, é objectiva - o objecto está fora do sujeito.

¶8 A Ciência não é o mundo real, mas um modelo que o representa. Se é uma criação mental humana, então é subjectiva, no entanto isso não implica que seja arbitrária - por exemplo, a ideia de que o ponto de ebulição da água é 100ºC não existe por uma decisão arbitrária. Os circuitos electrónicos podem ter um díodo semicondutor e existe o conceito de díodo ideal que explica como os díodos funcionam. Ambos são invenções humanas, mas a existência do díodo ideal é impossível fora da imaginação e isso não quer dizer que as conclusões a partir dele sejam meras opiniões. Se os números, os pontos, figuras geométricas e outras estruturas matemáticas existem apenas na mente - e por isso são entidades subjectivas -, isso não significa que um teorema seja uma mera opinião. Se um ponto, que não tem dimensões, não existe independentemente da mente, isso não quer dizer que a distância mínima entre dois pontos não seja um segmento de recta... na Geometria Euclediana.

¶9 Para o fim deste artigo, não interessa se concordam ou não com os exemplos em particular. Se forem platonistas matemáticos, não concordam com o último exemplo que dei, mas podem perceber o ponto-de-vista de um formalista matemático. O que interessa é esta ideia: quem acredita que uma entidade é subjectiva pode racionalmente concluir que proposições sobre ela são verdadeiras ou falsas. Por exemplo, a dor é subjectiva, mas isso não quer dizer que o que um médico diz sobre ela seja mera opinião.

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¶10 Existem muitíssimas doutrinas filosóficas sobre a moralidade. Segundo as teorias morais consequencialismo, distingue-se o bem e o mal pelas consequências. No Consequencialismo Subjectivista, distingue-se também pelas intenções. No Consequencialismo Objectivista, a distinção é feita pelas acções em si. Utilitarismo não quer dizer que o bem significa o mesmo que útil... É consequencialista objectivista e determina o valor moral de uma acção segundo a distribuição e quantidade resultante de certas propriedades nos seres sentientes: um acto bom maximiza o bem («the greatest good for the greatest number of people») e minimiza o mal, um acto mau faz o contrário. O mais conhecido é o Utilitarismo Clássico, que é consequencialista objectivista universalista hedonista (hedonismo: o prazer é o único bem, o sofrimento é o único mal).

¶11 Dito isso, não percebo como é que algumas pessoas concluem que ideia o Utilitarismo defende que o bem e o mal são opiniões ou convenções e que por isso não se poderia fazer julgamentos morais. Concluo exactamente o contrário, independentemente de concordar ou não com a teoria moral. Por exemplo, um violador causa sofrimento às suas vítimas, por isso fico embasbacado quando respondem com "segundo quem? segundo o violador?". O Utilitarismo é relativista (depende das consequências: prender arbitrariamente é mau porque faz o preso sofrer, mas prender um violador para evitar sofrimento), mas não depende de opiniões.

¶13 Devemos dar o lugar no autocarro? Alguém com uma deficiência nas pernas, sofrendo imenso enquanto aguenta-se de pé, não deve dar o lugar. Os que têm mais força e equilíbrio é que devem dar o lugar aos que têm mais dificuldade. Que dieta devemos ter? Se todos seguíssem a mesma dieta, muitos ficariam doentes - depende pelo menos da constituição física, dos hábitos e da saúde. Isso é relativista e verdadeiro independentemente de opiniões. Há alguém que discorda? Porquê?

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¶12 O Utilitarismo é só um exemplo; existem muitas outras teorias. Apresentei alguns conceitos e o exemplo do Utilitarismo para verificarem que existem muito mais hipóteses sobre a moral do que podiam pensar.
Sugestões para se informarem mais:
¶13 Por fim, tendo em conta o que leram, pergunto: por que raios acham que quem acha que não é preciso existir Deus para existir a moral não tem legitimidade para fazer julgamentos morais? Gostaria de uma justificação clara. Para uma outra vez publicarei um artigo sobre o argumento da moral.

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Notas sobre os comentários:
Se os comentários não estiverem relacionados com o artigo, não serão moderados, desde que não tenham links para fazer publicidade ou que choquem através de imagens violentas, ou pornográficas ou com conteúdo ilegal. Não o respondo na caixa de comentários - se disponível, faço-o num artigo. Recomendo que não incentivem discussões alheias nas caixas de artigos nem cedam a provocações. Quem não disser nada sobre o artigo, não tem nada a dizer sobre ele.

09 maio, 2010

Meta-ética: moral e imoral

1¶ Mesmo para um sujeito isolado, único em toda a existência, existem coisas que são boas e outras que são más. Sensações agradáveis são boas. Sensações desagradáveis são más. É bom conseguir concluir projectos com sucesso. Tomar decisões informadas é bom. Não tomar decisões por ignorância ou ser responsável de resultados indesejáveis é mau. É bom ser livre de fazer o que deseja, é mau não poder o que tem vontade. Se não existir qualquer sujeito, tudo isso deixa de fazer sentido, deixando de existir o belo, nem o feio, nem o prazer, nem o sofrimento, nem o amor, nem o ódio, nem o bem, nem o mal.

2¶ Existem gradações de bem e de mal, tal como existem grandações de prazer e de sofrimento e maiores e menores vontades (e como a lógica fuzzy), e existem decisões e acções neutras. Estar paralisado num deserto escaldante durante dias até morrer de sede ou de fome é muito pior que uma leve comichão no nariz que pode ser aliviada ao esfregá-lo. Na imagem seguinte está uma representação dessa ideia (abaixo) e uma alternativa (acima).


3¶ O que é bom a curto prazo pode ter consequências muito más a médio ou longo prazo e vice-versa. Esperar e trabalhar arduamente pode ser desagradável, mas a paciência e deligência podem compensar. Podemos ter limitações e o mundo pode não ser perfeito, mas podemos pesar os prós e contras em curto, médio e longo prazo, avaliar os riscos e fazer sacrifícios para obtermos um bem, como um engenheiro. A imagem seguinte é um gráfico que representa um exemplo dessa ideia. O excesso pode ser muito bom no momento em que é praticado, mas com o tempo os seus efeitos são maus e podem influenciar a percepção da realidade ou limitar a liberdade que tinha.
3¶ Existindo dois sujeitos, o que foi dito nos parágrafos aplica-se a cada um deles e aos dois como um todo. Pode ser que um projecto de um dos sujeitos seja mais facilmente concluído com a ajuda do outro. Ou até mesmo seja apenas possível com cooperação. E assim poderão construir ferramente e mudar o ambiente de modo a viverem com mais conforto, liberdade e felicidade. Além disso se um deles estiver em apuros, o outro pode ajudá-lo. Ou podem prejudicarem-se.
4¶ Cometer um acto imoral é fazer um mal para alguém. Em certas situações devemos cometer males - por exemplo, ferir alguém que pretende cometer homicídio. Mas não deixa de ser imoral. O dever não é evitar o que é imoral - o que é impossível se não somos capazes de controlar tudo o que nos rodeia. Outras decisões são piores - por exemplo, deixar que se cometa um homicídio -, e o dever é escolher a melhor, por vezes entre tantas más. Para o podermos fazer de forma eficaz, precisamos de nos colocar na pele dos outros - sentir empatia. A psicopatia é uma doença (que pode ser hereditária) caracterizada por falta dessa capacidade cognitiva. São incapazes de colocar no lugar do outros, não conseguem ter sentimentos, não sentem remorsos, são frios e manipuladores. [Há algum tempo deu um episódio do Dr. House sobre o tema: trailer1, trailer2, argumento, erros.] Como o psicopata é tem essa incapacidade cognitica, é um ser imoral.

5¶ O pastor Ted Haggard é um exemplo de alguém que parece que aprendeu que o que fazia em relação aos homossexuais era imoral. A postura dele mudou muito depois de se descobrir que ele é homossexual e que tinha relações sexuais com um prostituto, pedindo desculpa aos homossexuais:




6¶ Mesmo para um egoísta em geral a melhor estratégia é não fazer mal aos outros e fazer o bem. Se Ted Haggard tivesse razão quando julgava os homossexuais, o razoável seria ele próprio sofrer o mesmo. Talvez tivesse sentido o que podiam ter sentido os homossexuais, especialmente os cristãos, ao ouvirem os sermões, e aprendeu que não queria ter Ted Haggards.

7¶ Os seres sociais instintivamente protegem os membros do seu grupo e cooperam com o grupo, porque identificam-se com o grupo e os seus membros. São apenas morais com o próximo. Ted Haggard, ao ser apanhado, passou a pertencer ao grupo dos homossexuais e ele deve ter sentido como um dos seus membros. Os humanos têm mais experiência em lidar com grupos diferentes em espaços geográficos distantes e até de espécies diferentes, têm maior capacidade de fazer experiências mentais para planear e prever e são capazes de transmitir mais eficazmente o que aprenderam em forma de cultura. A História é um trajecto de muitos Ted Haggards e os nossos conceitos de moralidade e imoralidade são produtos dela. Não só sentimos dor quando fazem mal aos nossos próximos, mas também a todos os seres sentientes. Percebemos que eles sentem dor, que têm desejos... em suma: têm poder de subjectividade, como nós. E ao percebermos isso, percebemos no senso-comum o que é ser moral e o que é ser imoral, mesmo continuando a ser um problema filosófico complexo que não foi ainda resolvido.

08 novembro, 2009

Modelos entre guerras

Com a série respondi a todos os pontos indicados no artigo "Pedro Amaral in Wonderland". Deixo um resumo:
  • Introdução: [contra pessoas]
    • Cerca de 5/3 do artigo de Luciano dedica-se quase exclusivamente a ataques pessoais com "leituras da mente";
    • Luciano acusou-me de dedicar "uma boa parte da triologia" a apegar-me a uma frase. Que é discutida explicitamente e implicitamente em cerca de 8% nessa "triologia";
    • Devemos aprender com os efeitos dos insultos [tema da série];

  • Bizarrices do artigo [1]:
    1. Os primeiro artigo era quase exclusivamente sobre significados de termos, que foram atribuídos por Luciano, que é preciso conhecê-los para perceber que a ciência e religião não estão em conflito, e os "neo-ateus" não percebem esses termos. Cerca de 72% dedica-se a discutir a expressão "ciência corrige-se", que é o que os outros artigos dedicam-se exclusivamente. Nas próprias respostas Luciano reforça a importância dos significados. [img4; diálogos difíceis; não mostrou]
    2. - Tinha respondido que não faz sentido dizer que a Política vence e derrota a si mesma, notando que esses verbos implicam uma competição do sujeito em relação a adversários, que é o caso entre partidos e entre exércitos. E só faz sentido dizer que um grupo X vence Y e derrota Y, se os membros de X em geral cooperem entre si para isso e Y for diferente de Y. Por isso, não faz sentido dizer que algo venceu a si mesmo derrotando-se.
      - Não faz sentido a Política substituir a si mesma porque não há meio de distinguir entre substituir-se e não substituir-se. Só faz sentido dizer que X substitui Y, se e só se X for diferente de Y.
      - É irrelevante se as entidades são ou não são "maiores". O que interessa é as propriedades em questão. Nunca faz sentido dizer "X vence derrotando X, substituindo X", seja qual for X. [img1; não mostrou; diálogos difíceis]
    3. Tinha dito que Luciano com o exemplo da Política, atribuía-me a defesa de uma falácia de composição, mas que não é o caso. Notei que apesar disso, existem excepções, servindo a côr da cadeira, um risco do livro, uma decisão do ministério, a votação do povo e a decisão de um júri como exemplos, e tinha já dado como exemplos os partidos e exércitos. Luciano respondeu-me fora do contexto, dizendo que nele eu respondia ao seu modelo, e não demonstrou a importância da condição de "entidade maior".  [img2; fora do contexto]

  • Bizarrices do artigo [2]: [tornar-se o inimigo (nas respostas)]
    1.  Posso escrever sobre um ou mais pormenores de quaisquer artigos e sobre os assuntos que bem entender. Quem pretende responder a trechos de artigos, mas responde a outra coisa, é que foge dos assuntos. Quem me atribui o que eu não disse, prepara homens-palha. Se consegui responder a trechos dos artigos, mas não abordam os assuntos pretendidos pelo autor, então o problema está nesses trechos. Leiam os textos que são criticados e verifiquem corresponde realmente ao que é criticado. [img1; não mostrou; diálogos difíceis]
    2. Quando se trata de convenções, e se admite-se que existem meios de responder aos problemas que tratam, os meios para isso é a autoridade e a popularidade. Por exemplo, se estudiosos de literatura usam a expressão "a literatura produz" como tendo um sentido e ela é popular, então é legítimo usar essa expressão.
      Os cientistas usam a expressão "fazer ciência", que é popular e compreendida. A ciência, como qualquer actividade, faz-se (ou pratica-se).
    3. Se um artigo não discute um assunto, como um suposto conflito entre ciência e religião, então é uma fuga do assunto e um homem-palha apresentar uma resposta como se tivesse feito. O que escrevi não é verdadeiro nem falso se todas as actividades corrigem-se. Actualizar não é o mesmo que corrigir. Luciano não apresentou um exemplo de correcção da religião.
    4. Se provavelmente não notei aspas ou não é irrelevante se isso não se reflecte nas respostas que apresento. Fui eu que introduzi o termo "processamento" como analogia, por isso uma resposta devia ser segundo os seus termos. Eu tinha dito que tinha cometido um lapso ao relacionar o processamento de um programa com o método, por isso a resposta de Luciano é irrelevante.
      Luciano nunca defendeu a atribuição de acções ao método científico, pelo contrário, dizendo que o método não corrige.
    5. Luciano disse que coloquei definições de ciência que são óbvios de pois de um ponto onde não existem quaisquer definições.
    6. Segundo Luciano, só o refutaria (no quê?) se a correcção fosse a ciência. Não percebo se leu bem o trecho que citou ou se não sabe o que significa "inerente".

  • Bizarrices do artigo [3]:
    1. As analogias que fiz não são sobre juízos de valor. Usei as palavras "bom" e "mau" por serem opostas e para mostrar exemplos de implicações sobre o que Luciano disse sobre "corrige-se" e "evita correcções". O que interessa é os termos serem opostos. X é oposto de Y. "Não X, quer dizer que Y", "não faz sentido dizer que não X, nem Y", "se alguns Y, então X" não implicam juízes de valor. Tinha também dado como exemplo "condena" e "salva" (mas também pode ser "evita condenações"). [img3; fora do contexto; diálogos difíceis]
    2. O mesmo que Bizarrices do artigo [2] 1.
    3. É verdade que "in which" não significa "cujos", mas "em que", "nos quais", "nas quais", "no qual", "na qual" e "onde". [correcções de português]
    4. Não abordei o criacionismo como assunto. O assunto em questão é as distorções do meu texto por parte do Luciano, e num desses textos discute-se se o criacionismo faz parte da ciência. O Luciano é que fugiu do assunto para voltar a essa discussão, citando apenas contextualização do que escrevi. A questão é se se eu defendi que jogar xadrez implica ser campeão de xadrez, como ele sugeriu.
      Para o criacionismo ser uma teoria científica, seria preciso ser suportado pelo método. Não é o caso. No entanto Luciano disse várias vezes que faz parte da ciência e no artigo passou a afirmar que disse é uma má teoria científica, por não ter seguido o método científico. [img2; fora do contexto; definições (condições necessárias)]
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Na série não respondi apenas ao artigo de Luciano. O objectivo é mostrar como ele responde para que se veja ao espelho e para que os nossos leitores tenham atenção a isso e que evitem comportarem-se como ele. Pelo menos que ele perceba que é muito grosseiro e agressivo, o que poderá afectar como lê e responde, e que o que critica dos outros aplica-se a si mesmo. Coloco alguns exemplos e algumas respostas referidas nesta série:
  1. Luciano: «Notem o que o sujeito escreveu: "Algo é inválido, pois depende de extensa justificação"». Nunca escrevi isso nem algo similar. Eu tinha escrito: «Segundo Luciano não mostrei que» (...) «não faz sentido, porque "a interpretação dependeria" "de uma extensa justificação"»

  2. - Eu: «Segunda as definições que deste, para ser ciência é preciso ser ou derivar de "práticas e pesquisas que tenham sido suportadas pelo método científico"» (...) «Dizer que o criacionismo faz parte da ciência é fazer como uma astróloga portuguesa chamada Maia que dizia "Não negue uma ciência que desconhece", ou como uns astrólogos africanos que dizem ser grandes cientistas. Ou como dizer que sou um campeão de xadrez só porque jogo xadrez.»
    - Luciano: «Na boa, vcs são ruinzinhos de analogia hein. Jogar xadrez não implica em campeão de xadrez, mas sim em ser um enxadrista. Vc pode ser um enxadrista amador... O criacionismo é ciência de amadores. Já foi substituido pelo design inteligente.»

  3. Luciano: «O que é um CAMPEÃO de xadrez? É o mesmo que uma teoria que VENCEU dentre outras teorias... Por isso que o meu exemplo segue incólume. Pois eu disse que o criacionismo não ‘venceu’ nada, e o darwinismo ‘venceu’…»

  4. Há uma falácia de anfibologia que confunde o sentido vulgar de "teoria" com o epistemológico, que é chamada de "a teoria da evolução é só uma teoria". Eu disse que seria uma distorção do argumento "teoria da evolução dos talheres" dizer o Sabino defende a falácia anterior e que a AnswersInGenesis já refutou-a desincentivando-a. Luciano  negou que é uma falácia e que o problema é meu se eu não a sei responder com algo como: «sim, é só uma teoria, mas é uma teoria que É VÁLIDA, e a sua não é».

  5. Segundo Luciano, o criacionismo e memética são teorias científicas ou fazem parte da ciência, apesar de não serem suportadas pelo método científico. Depois disse que o criacionismo é uma má teoria científica, porque não passou o método científico.

  6. "Não X, quer dizer que Y", "não faz sentido dizer que não X, nem Y" - segundo Luciano, se X e Y forem "ser bom" e "ser mau", as frases referem-se a juízos de valor e são falsas analogias como contra-exemplos a frases onde X e Y sejam "corrige-se" e "evita correcções".

  7. Luciano: (...)
    a) «o pessoal que tratou da memética é relaxado. Isso implicaria, na aplicação do modelo, em ter que dizer: “ciência é relaxada» (...)
    b) (...) «“os teóricos do aquecimento global não aceitam correção” tem que ser transformada em “ciência não se corrige»
    c) (...) «eu não acho que ciência se corrige, e nem evita correções»
    Contra-exemplo: "Ele teve aquele deslize, mas é boa pessoa"
    Resposta de Luciano: «não serve como exemplo, pois ter um deslize não implica em não ser boa pessoa. a analogia seria válida se fosse ‘ele teve deslizes e ELE NUNCA TEVE deslizes’ na mesma sentença.»

  8. Cerca de 72% de "Ciência vs Religião: um retardo" dedica-se a discutir a expressão "ciência corrige-se". No restante declara que a ciência é uma actividade profissional expressa fisicamente e que a religião é uma prática espiritual não-profissional. Mas mostra como esses atributos levam a concluir que a ciência e religião não podem estar em conflito.

  9. Os textos de Luciano são disputas de significados atribuídos a termos em frases do que ele propõe responder. Daí ser inadmissível que se diga que a Ciência tem erros ou que a Literatura produz registros da linguagem.

  10. Luciano comparando um argumento sobre "ciência corrige-se" com exemplo em que a Política vence derrotando-se substituindo-se. Num trecho apresentei o Universo, a Política e a Culinária como exemplos para mostrar que não é por ser uma entidade maior que não faz sentido dizer que a Política vence e derrota-se e substitui-se. Luciano, a isso, "respondeu" que não adianta "citar" o exemplo "de uma ferida que cicatrizou" e "o braço se curou", porque o braço não é uma entidade maior nem uma área de conhecimento.

  11. Não é possível vencer e ser derrotado no mesmo contexto, porque as duas acções são opostas.

  12. Não é possível substituir a si mesmo. O substituído perde uma propriedade ao ser transferida para o que o substitui.

  13. É um non sequitur dizer que a transitividade de uma propriedade não se aplica a uma entidade por ser a maior.  Na falácia da composição ser o maior não é uma excepção à regra e entidades maiores têm partes com propriedade transitivas, as indivisíveis é que não.
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Para consultar os artigos e comentários que referi, notei hoje que parece que o Luciano tem estado a ler o meu blog, pois publicou um novo artigo para responder a um dos meus. Tem as características que tenho exposto na série, mas pelo menos colocou no final algumas sugestões. Lá encontramos expressões como: «apelar à minha piedade», «sua eterna tentativa de sofística», «seus “duplos” aparecem para postar seus textos aqui», «tenta impor um ardil»,«tenta defender ardorosamente a sua idéia de que ciência X religião», «COMPONENTE DE AUTO-AJUDA que os gurus neo ateus», «Pedro segue, fanaticamente», «cerebrinhos vulneráveis como os de Pedro Amaral», «sua eterna tentativa de validar os seus gurus», «Como Pedro sabe que não vai tentar conseguir», «lembrem-se que o cerebrinho dele foi lavado, portanto sem a falsa dicotomia ciência X religião, as muletas dele são quebradas», «estratagemas do Pedro», «o máximo que ele consegue é implementar erística ou sofística», «Foi uma edição, feita por adversário desonesto», «qualquer um que não é retardado consegue perceber», «qualquer pessoa com um QI no mínimo mediano já teria entendido», «todo o cirquinho dele de analogias», «o mesmo aviso que já dei aos amiguinhos dele», «Ô Pedro, burrinho», «Pedro irá fingir que eu não escrevi isso». Comparem com o que ele diz ser "leitura de pensamento" e quando acusa os outros de serem mal-educados e anti-sociais.

O artigo dele tem 15914 caracteres para responder a um artigo com 7575, incluíndo citações, «"(continuação do artigo anterior)"», "(continua)", referências e símbolos para estruturar o texto. Retirando as citações, o artigo dele tem 9244 caracteres e o meu tem 4422. Nos dois casos, o meu artigo é cerca de metade do tamanho. Se alguém fizer acusações, verifiquem realmente se é verdade, nem que façam contas, como no caso do prolixo. E pensem se elas são importantes, mesmo se fossem verdade (Schopenhauer também era prolixo...).


Deixo também umas sugestões dirigidas ao Luciano, que deve estar a ler este artigo:

  1. Nunca faça ataques pessoais se não fazem parte do argumento, e nunca atribua termos preconceituosos. Releia os seus artigos publicados e siga os seus próprios conselhos, especialmente sobre o que chamas de "estratagemas". Tu és um modelo para os leitores.

  2. Procure identificar quem são os objectos ou destinatários de um argumento e o que é argumentado. Se é só para respondê-lo, não o faça para além do que lá está, mesmo que conheça quem argumenta ou saibas que contra-argumenta contra uma parcela de um texto. Se o fizeres, tu é que estás a fugir ao assunto e a complicá-lo.

  3. Antes de dizer que alguém disse algo, tenha o texto com as suas palavras ao lado ou ouça-o, cite-os e coloque referências onde você estiver a responder. Recorrendo apenas à memória eleva o risco de enganos e não ajuda a verificarmos as alegações.

  4. Os sofistas tinham o hábito de fazer jogos de palavras, tinham o poder da palavra. Mas num debate lógico, entende-se que as palavras convenções e podem ser substituídas por incógnitas para a estrutura ser estudada. Use os termos com os significados atribuídos pelos adversários se pretende ter um debate lógico, ao invés de semântico. Siga o seu conselho: pergunte-os. Fiz perguntas sobre as suas definições no Que Treta!, tal como no seu blog, e deixou de respondê-las para fugires do assunto, com insinuações e para discussões semânticas sobre a palavra "religião". Qualquer um pode lá verificar.

  5. Para discutir sobre um grupo, as suas ideias e usar os seus termos, leia o que os seus membros escrevem, assista os seus vídeos, fale e escreva com eles. Por exemplo, sabe o que significa "criacionismo" e "design inteligente"?

  6. Pergunte a diversas pessoas arbitrariamente que não tenham lido o seu blog se o criacionismo é suportado pelo método científico e porquê. Supostamente o divino, transcendental, sobrenatural e sagrado são do domínio espiritual. Pergunte também se o criacionismo não foca no trabalho espiritual e porquê. Pergunte a criacionistas porque é que defendem o criacionismo.

  7. Pergunte a cientistas o que é uma teoria científica, qual é a distinção entre teoria e hipótese, se o criacionismo é uma teoria científica e porquê. Faça as mesmas perguntas a criacionistas. [dicas: Projecto Ockham; Wikipedia; Espaço Científico Cultural; Jornal da Ciência; ]
Pergunte aos outros como entendem os seus textos. Só depois diga que outros são desonestos e cometeram fraude. E chame burrinho a todos os que não aceitam as suas terminologias.

Cumprimentos

(fim)

07 novembro, 2009

Modelos entre guerras - diálogos difíceis

(continuação do artigo anterior)

Parece que a profecia de Lourenço Serra foi cumprida - pelos vistos, escrevi comentários como Pedro Amaral Meme [humor]. Felizmente Luciano publicou os meus artigos acompanhados com o que deviam ser respostas em comentários, o que nos permite que compará-los. Sugiro-vos um exercício: antes de lerem os seus comentários, leiam primeiro os trechos dos meus artigos que copiou, pensem no que significam e comparem com o que Luciano escreveu.

Se para haver diálogo é necessário que se compreenda os diferentes pontos-de-vista para resolver problemas - mesmo que só teóricos -, julgo que as agressões verbais são obstáculos para o diálogo. Quem as pratica e obriga que os outros sejam educados, está a criar uma armadilha - é comum respondermos aos ataques pessoais, o que permite pretextos para que nos descredibilizem. A atitude agressiva ao defender pontos-de-vista, pode compremeter-nos ao ponto de ser mais difícil identificar e admitir os nossos erros. Passa a ser uma questão pessoal. Mesmo que acreditemos estarmos a ser honestos nos julgamentos, as respostas e atitudes dos adversários poderão ser adulteradas pelo preconceito.

Copiei os tais comentários em forma de quatro imagens (ver abaixo), acrescentei notas e identifiquei os ataques pessoais com fundos vermelhos. Neste artigo elaboro algumas das minhas respostas.


(clicar nas imagens para aumentá-las)

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Nos meus artigos, os trechos com fundo azul são citações. Por exemplo, citei as expressões de Luciano «a interpretação dependeria» «de uma extensa justificação», que ele usa para se referir a duas frases sem sentido. Mas, segundo ele, num comentário, escrevi: «Algo é inválido, pois depende de extensa justificação». Onde é que escrevi isso? A expressão não é encontrada pelo Google, nem neste blog antes deste artigo, nem nos trechos citados por ele. E não concordo que algo possa ser inválido por depender de uma justificação extensa.

Noutra ocasião, ele tinha dito que o criacionismo é «uma parte da ciência em conflito com a ciência», e eu apresentei uma resposta, lembrando que «segunda as definições que» ele deu, «para ser ciência é preciso ser ou derivar de "práticas e pesquisas que tenham sido suportadas pelo método científico"», e eu terminei com uma analogia: é «como dizer que sou um campeão de xadrez só porque jogo xadrez». Mostrei várias vezes uma distorção feita por Luciano da minha analogia, e nos últimos comentários supostamente sobre isso, ele distorceu-a e escreveu como se fosse dele: «O que é um CAMPEÃO de xadrez? É o mesmo que uma teoria que VENCEU dentre outras teorias... Por isso que o meu exemplo segue incólume. Pois eu disse que o criacionismo não ‘venceu’ nada, e o darwinismo ‘venceu’...» Onde é que ele tinha dito isso?

O fundo de côr amarela indica o cerne de um argumento. Por exemplo, se querem mostrar que Luciano não distorceu o que escrevi, devem responder às perguntas com fundo amarelo. Transcrevam dos meus textos aquilo que ele disse que escrevi, indicando as fontes, e indiquem exactamente onde está o seu exemplo.

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Ele nem sequer esclarece dúvidas e equívocos. Tinha-lhe enviado um exemplo de resposta a uma falsa analogia da "teoria dos talheres", do blog de Sabino. No dia seguinte recebi uma notificação por e-mail de um comentário de um "Luciano" nesse blog. Não voltei a encontrar a encontrá-lo, mas usei o caso para exemplificar um argumento homem-palha: «responder à "teoria da evolução dos talheres" como se o Sabino afirmasse que a Teoria da Evolução é só uma teoria (como uma mera hipótese), é distorcer o que ele disse» (...) « Penso que tinha lido uma resposta do género (por isso tinha dito ao Luciano que "li o seu comentário na Lógica do Sabino"), mas não a encontro.» Com uma pesquisa no Google, encontrei um comentário de um "Luciano", mas não parece ser o mesmo Luciano - foi uma mera coincidência.

No último comentário supostamente sobre o exemplo que dei, ele escreve como se eu tivesse dado um exemplo de criacionista a usar esse argumento num debate e como se não soubesse respondê-lo: «se o Pedro Amaral não tem esperteza para dizer algo como “sim, é só uma teoria, mas é uma teoria que É VÁLIDA, e a sua não é” É PROBLEMA DELE». E parece que não compreendeu o argumento, que é uma falácia da anfibologia e de homem-palha, que pode ser encontrado pesquisando por "evolution is just a theory" [exemplos: Wikipedia; Kent Hovind; Geerup; The Atheist Experience;]. É uma confusão entre o sentido vulgar de "teoria" e o sentido epistemológico. Como eu já tinha dito, criacionistas da AnswersInGenesis desincentivam o uso desse argumento: «“Theory” has a stronger meaning in scientific fields than in general usage; it is better to say that evolution is just a hypothesis or one model to explain the untestable past». A Creation Ministries faz o mesmo: «The problem with using the word ‘theory’ in this case is that scientists usually use it to mean a well-substantiated explanation of data.»

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O significado de palavras e expressões são convenções, por isso, só podem ser defendidas por meio da popularidade e da autoridade, se existe meio de mostrar que o uso de uma expressão é legítimo. O mesmo serve para outras convenções, como regras de trânsito, regras de boa-educação e protocolos, como os da Web. Se psicólogos que estudam os efeitos da literatura e historiadores que estudam a História da Linguagem usam a expressão "literatura produz", deve ser legítimo usá-la. E mesmo se não a usassem, também o seria se for entendida.

Para não entrarmos em discussões semânticas e evitarmos correr o risco de cometermos falácias, os termos devem ser usados com os significados aplicados por aqueles que respondemos,  se forem importantes nos argumentos. Por exemplo, é uma falácia da anfibologia elaborar um argumento assumindo que "teoria" de "teoria da evolução" tivesse o sentido vulgar, porque os cientistas usam-no com outro sentido. E o argumento de que CRM e a Ciência não se corrigem, porque é absurdo dizer que erram, é inválido se for como uma resposta para aqueles que aceitam e encontram um sentido na expressão "CRM e Ciência erram", por isso tinha escrito que «é dito várias vezes que a Ciência erra ou que tem erros» e que «eu próprio já o tinha dito antes de conhecer o blog de Luciano».

~

Também para não entrarmos em discussões semânticas, deve ser possível descrever formalmente os argumentos, seguindo as regras lógicas, mesmo que por indução, por fuzzy logic ou por um algoritmo.

1.
Ser mutável é poder mudar e ser imutável é não ser mutável, por isso "ciência é mutável e é imutável" é uma contradição lógica: M ∧ ¬M. Se a ciência implica uma contradição, prova-se por reductio ad absurdum que não pode existir. Por exemplo, se implica que se corrije e não se corrije, prova-se que não pode existir. E se negarmos os dois, como alternativa, então conclui-se, aplicando a álgebra de Boole, que corrige-se ou não se corrige: ¬(M ∧ ¬M) ↔ ¬M ∨ M. É necessariamente um ou outro, sem uma terceira alternativa.

 2.
Mas "X corrige-se" não contradiz "X evita correcções" - são apenas opostos. As frases não significam que X corrige-se sempre nem que evita sempre correcções. Como o Luciano escreveu: «um deslize não implica em não ser boa pessoa». Afinal, "X evita correcções" não é o mesmo que "X não se corrige", e o que se corrige não precisa de ser perfeito sem nunca ter evitado correcções.

3.
Ao contrário de "X é mutável" e "X é imutável", que podem ser verdadeiras ou falsas, "X substui X" não tem qualquer significado. Se X e Y são diferentes e X substitui Y, então há uma propriedade Y que deixou de ter e que X passou a ter. O que significa se X for igual a Y? Se tudo fica igual, o que significa o contrário? É ficar igual, levando-nos a concluir que s(X, Y) =  ¬s(X, Y) . Nunca pode existir algo que substitua a si mesmo.

Luciano tinha afirmado que «não é possível que “ciência se corrige” e “ciência não se corrige” estejam juntas», porque «são logicamente contraditórias», mas «na ação de players, ambas ocorrem», e que não acha «que ciência se corrige, e nem evita correções». Usei analogias recorrendo às palavras "bom" e "mau", "gosto" e "desgosto" que Luciano diz serem falsas porque são juízos de valor e configuram situações de neutralidade. Eu já tinha dito que a validade de uma analogia depende do que se pretende demonstrar através dela. Não usei as palavras para juízos de valor - apenas interessa o facto de serem opostas. E a resposta de que são situações de neutralidade requer que se demonstre que afectam o facto de serem opostas. Alguém bom, pode fazer males, tal como o que se corrige, pode evitar correcções, e como alguém que condena, poder salvar ou evitar condenações. Já tinha notado algo semelhante, quando tinha dito que por não estar a dormir, não quer dizer que não durmo. Se evitou uma correcção, não significa que não se corrija. "Não se corrige" não é o mesmo que "evita correcções".

Noto que Luciano não apresentou um exemplo que faça sentido de uma entidade que não seja "maior", que vença derrotando a si mesma substituindo-se, para mostrar que o exemplo que ele apresentou com a Política é bom para o seu argumento e que a condição de entidade maior é necessária, especialmente para dar razão ao argumento de que leva a uma . Pode ser sempre dito que é preciso que assim seja, por uma mera questão de semântica, mas em geral não existem problemas em dizer que, por exemplo, a Culinária e restaurantes produzem alimentos.

~

Quanto à pertinência, depende do que estamos a responder. Tenho o direito de focar aspectos concretos de um determinado argumento e só não estarei a ser pertinente se, ao dar a entender que os comento, comentar outra coisa. Se alguém citar trechos do meu blog para os comentá-los, essa pessoa é que estará a ser impertinente se discutir outros assuntos, como se eu fosse obrigado a dedicar-me a eles. Por exemplo, o Que Treta!, de Ludwig, é um blog português popular onde muitas vezes ateus e teístas nos comentários contra-argumentam Ludwig em pequenos aspectos dos seus artigos e comentários [exemplos: 1; 2; 3; 4;]. E ninguém se queixa por causa disso. Quem o fizesse, é que fugia do assunto para não responder.

Luciano, num comentário desse blog, tinha-me dito: «Eu sei que você é educado, e procura o conhecimento». Depois de escrever sobre religião e comunismo, começou a fazer-me insinuações. Quando publiquei o primeiro artigo para responder a essa discussão, fui acusado de «desonestidade intelectual e safadeza» e chamado de «ateu fanático e mentiroso costumaz». Passou a ser um hábito fazer ataques pessoais contra mim e chamar-me de neo-ateu - mas nunca sequer chamei-lhe de cristão, que seria irrelevante. Publiquei um artigo que expõe alguns conhecimentos que adquiri sobre religião, reconhecendo que é enorme e com instruções para saltarem secções, e a partir daí é que passei a ser chamado de prolixo. [valores na última imagem]

Em caracteres, este artigo é aproximadamente 1,5% menor do que "Ciência X Religião: retardo mental". Não precisei de dizer que Luciano é burrinho, que não tem cuidado a ler e que ainda não aprendeu - apesar de achar irónico. E se ele continua a fazer o que mostrei que faz, continua a ser difícil ter um diálogo com ele.

(próximo: fim da série)

01 novembro, 2009

Modelos entre guerras - definições (condições necessárias)

(continuação do artigo anterior)

Definição de "quadrado": um rectângulo cujos lados têm o mesmo comprimento.

Encontramos duas condições necessárias: 1) ser um rectângulo; 2) ter todos os lados com o mesmo comprimento. Essas condições são suficientes para designar um quadrado. Com condições necessárias e suficientes, temos uma definição. [Crítica na rede; Dicionário Escolar de Filosofia]
Outras definições: Um rectângulo é um paralelograma com todos os ângulos internos rectos. Um paralelogramo é um quadrilátero cujos lados opostos têm o mesmo comprimento e são paralelos entre si. Um quadrilátero é um polígono com apenas quatro lados. Um triângulo é um polígono com apenas três lados. Um polígono é uma figura geométrica plana formada que é uma linha fechada formada por uma sequência de um número finito de segmentos de recta. Uma circunferência é uma figura plana geométrica que consiste numa linha curva fechada cujos pontos estão localizados à mesma distância (raio) de determinado ponto fixo (centro).
Vamos supor que alguém diz que um triângulo é um quadrado. Afinal de contas, os triângulos são polígonos. E suponhamos que alguém diz que um rectângulo não é um quadrilátero, porque um polígono com quatro lados é um polígono com quatro lados iguais. E quem o contradiz, é acusado de ser desonesto, que quer colocar os triângulos entre os feios e não quer admitir os defeitos dos quadrados, e apresenta um exemplo, como argumento, de alguém que propôs que as circunferências são quadrados. É absurdo, não é?

Dizer que um rectângulo é um quadrado, é como dizer que um xadrezista é um campeão de xadrez, só porque joga xadrez. Falta uma condição necessária: ganhar um campeonato de xadrez. Agora imaginem que ele diz que isso é uma analogia falsa porque «jogar xadrez não implica em campeão de xadrez, mas sim em ser um enxadrista». Já escrevi sobre essa acusação de falsa analogia noutro artigo. Aqui escrevo sobre o argumento por detrás dessa analogia (que não era o propósito do outro artigo). Acho que, para começar, o melhor é contextualizar a metáfora da geometria com a discussão que representa (apesar de com isso poder correr o risco de ser acusado de prolixo). Se já conhecem a história, simplesmente passem por cima de "definições" e "diálogo" (com letras mais pequenas).
~

~ definições ~

Definições de "ciência", segundo Luciano:
  • «corpo de conhecimento adquirido através das práticas e pesquisas que tenham sido suportadas pelo método científico»
  • «sistema de aquisição de conhecimento baseado no método científico»
Definições de "religião", segundo Luciano:
  • (visão do todo) «o conjunto de crenças relacionadas ao divino, sobrenatural, sagrado, transcendental, etc.»
  • (visão individual) «o conjunto de práticas religiosas, junto com o código moral, que se deriva dessa crença»

~ diálogo ~

Eu: «Segundo a primeira definição dada, uma religião não entra em conflito com a ciência se as crenças que compõem não entram no domínio da ciência ou se [não] implica uma postura contrária daquelas que se exige na ciência. Por exemplo criacionismo é a crença de que Deus criou o Universo ou que criou os moldes para tudo o que existe, como uma instância de cada espécie. Isso é uma crença que relacionada com o divino, por isso pertence à religião. Se não concorda, a definição está errada.»


Luciano: (a interpretar-meVamos estruturar o argumento para ficar mais fácil (e ver se há falácia nele):
(a) Cientistas criacionistas acham que a Bíblia deve também servir como explicação científica
(b) Essa explicação é feita através de uma teoria chamada criacionismo
(c) O criacionismo entra em conflito com a ciência
(d) Logo, a religião entra em conflito com a ciência (nesse caso)


Eu sei que você é educado, e procura o conhecimento. Mas que é falácia, isso é.»

Eu: «não vejo como a estrutura formal que indicaste corresponde ao que citaste. Repara que estou a seguir a definição que apresentaste: «o conjunto de crenças relacionadas ao divino, sobrenatural, sagrado, transcendental, etc.» Se X é uma crença e está relacionada com o divino, pertence à (ou a uma) religião.
O que eu disse é que o criacionismo é uma crença que pertence a esse conjunto, já que está relacionada com o divino: é um caso particular de Design Inteligente(citando-me: «Isso é uma crença que relacionada com o divino, por isso pertence à religião»). E nós consideramos que entra em conflito com a ciência (posso elaborar, mas é irrelevante se ambos aceitamos a proposição).
»

Luciano:
«Ficou melhor. Mas só para te esclarecer: o conjunto de todas as crenças religiosas, seriam das crenças formalmente religiosas, como os sistemas religiosos, os códigos escritos. A minha religião tem séculos de existência, o mesmo vale para judaísmo e islamismo. É a isso que eu me referia.

O criacionismo é basicamente uma crença de cientistas cristãos que resolveram levar a Bíblia 100% ao pé da letra. O criacionismo não é "uma parte da religião em conflito com a ciência" mas sim "uma parte da ciência em conflito com a ciência". Veja que Dawkins criou a teoria memética só para ser uma "anti-religião". Ele queria criar uma entidade externa (não-material) que tivesse ação (os memes). Memética não é "ateísmo em conflito com a ciência".»

~

Reparem que Luciano disse que o criacionismo é uma parte da ciência e serviu como outro exemplo a memética, que serviu para um argumento de um seu artigo:  a «Teoria da Memética, criada por Richard Dawkins» «Não passou pelo método científico, foi chamada de “teoria científica” por alguns cientistas, e ninguém passou o crivo do método científico em cima dela. Para piorar, nem é falseável.»

Vejamos: ninguém passou a memética pelo crivo do método científico e nem é falseável, mas serviu para os seus argumentos, como se tratasse de uma teoria científica, porque "alguns cientistas" chamaram-na de "teoria científica". É o "triângulo é um quadrado" - não satisfaz as condições necessárias! Mesmo pela definição dada por Luciano, o que nunca foi suportado pelo método científico, não pode ser considerado ciência. E aceitando que o que distingue a condição que distingue a ciência é a falseabilidade, então a memética não faz parte da ciência. É uma pseudo-ciência, se fazem passá-la de ciência, ou quanto muito uma proto-ciência, se está a seguir o processo que pode permitir que se torne uma teoria científica.

Por isso  o Supremo Tribunal Americano, depois de ouvir cientistas como testemunhas, que explicaram o que é uma ciência, considerou que a Creation Science e o criacionismo não fazem parte da ciência e por isso não pode ser incluído nas aulas de ciências. Daí surgiu como resposta o Design Inteligente. No caso Kitzmiller v. Dover, o professor Behe, por exemplo, disse que segundo a sua definição diferente de "ciência", a astrologia seria também uma ciência, e admitiu que não existem testes que validem premissas do Design Inteligente, como a complexidade irredutível. O juiz Jones, escolhido pelo presidente George W. Bush, decidiu que o Design Inteligente não é uma teoria científica, que é apenas um produto do criacionismo e que é de natureza religiosa. Até um juiz evangélico conservador, perante os factos, teve de chegar a essas conclusões. [Wikipedia; Wikisource; UMKC School of Law; Cornel University Law School; Find Law; Talk Origins; Vídeos: Dover Trial - Intelligent Design Get's It's Day In Court]


Resumindo e concluíndo, dizer que o criacionismo e memética são ou pertencem à ciência, segundo os termos de Luciano, é dizer formalmente:
1) ∀x ∈ Z : x ∈ X ↔ a(x)
2) ∃y ∈ Z : ¬a(y)
3) y ∈ X
... o que é logicamente absurdo.

(continua)

31 outubro, 2009

Modelos entre guerras - correcções de português

(continuação do artigo anterior)

"In which"
«The history of science, like the history of all human ideas, is a history of irresponsible dreams, of obstinacy, and of error. But science is one of the very few human activities — perhaps the only onein which errors are systematically criticized and fairly often, in time, corrected.»
Num artigo eu tinha escrito que "in which" significa "cujos". Luciano, como resposta no seu blog, disse que eu estava errado - «a tradução correta», de parte da segunda frase, é: «Mas a ciência é uma das raras atividades humanas – talvez a única – em que erros são sistematicamente criticados…». Ele apresentou uma tradução correcta e é verdade que cometi um erro, mas não apresentou uma explicação, optando a via da ofensa com: «sendo direto e sem ser prolixo, fica tudo mais fácil». Apresento um exemplo de como acho que Luciano deveria ter respondido.

a) Como é que deveria estar se o sentido fosse o mesmo que "cujos"?
Se significasse "cujos", em vez de "in which", deveria estar "of which" ou "whose". "Cujo" é equivalente a "dos quais", "do qual", "das quais" e "da qual", consoante o número e género, e "de que" e "de quem". Portanto, a palavra é um pronome relativo que indica posse. [Wikcionário; Ciberdúvidas; Língua Portuguesa; Gramática on-line] A palavra "whose" também é um pronome relativo que indica posse, com antecedente e consequente, e é equivalente a "of which". [dictionary.com; Grammar Quizzes; Wikibooks]

b) O que significa "em que"?
O termo é equivalente a "no qual", "nos quais", "na qual" e "nas quais", consoante o número e género, e sinónimo de "onde", se usado como pronome relativo (ou advérbio relativo) com valor circuntancial de lugar. Por vezes "cujo" é incorrectamente usado quando se deve usar um desses termos. O termo inglês "in which" é um advérbio relativo, que na escrita formal substitui "where" (em português significa "onde") . Exemplo: «The world in which we live», ie: «O mundo em que vivemos.» ("no qual" ou "onde" em vez de "em que" seria igualmente correcto);  [BBC - Learning English; Wikipedia; English Grammar Online; babla]

~

Metáfora
Tinha cometido outro erro quando disse que "Ciência corrige-se" não é uma metáfora. Pareceu-me fazer sentido, depois ter escrito um artigo em que dou exemplos de acções atribuídas a seres inanimados. Mas lembrei-me que muitas vezes li sobre natureza como uma personificação (por exemplo, Charles Darwin no 3º capítulo de Origem das Espécies disse que é «muito difícil evitar personificar o nome "natureza"»). Pensei que dizer que "Ciência corrige-se" não é uma metáfora só faria sentido se o acto de corrigir fosse entendido como uma abstracção no mesmo nível - aparentemente não é o caso da natureza.

Tinha enviado uma mensagem no site Ciberdúvidas, em que pergunto se "o método corrige" e "a ciência corrige-se" são metonímias. Não recebi uma notificação para ler a resposta, mas depois de me ter lembrado do exemplo da natureza, procurei por ela e encontrei-a. "O método corrige", "a ciência corrige-se" e "a filosofia corrige-se" são uma metonímias, «porque se referem as pessoas que corrigem pelo instrumento que lhes permite a correcção», sendo que a «relação é de contiguidade, embora aqui o espaço considerado seja mental e comunicacional». Os dois últimos casos são também personificações. Mas nesses três casos «a metonímia faz parte dos próprios meios de representação do discurso corrente, pelo que podemos aqui falar de uma metonímia fixada no próprio sistema linguístico» - catacreses.

Exemplos de catacreses: "pernas da cadeira", "cabeça do alfinete", "dente de alho" (bulbilho), "dentes do serrote", "pele do tomate", "leito do rio", "asa do vaso", "árvore genealógica", "macaco do carro", "pé-de-cabra", "céu da boca", "planta do pé", "raiz do dente", "vinagre de maçã", "marmelada de laranja", "corpo do artigo", "casca do pão", "folha de papel", "trânsito engarrafado", "azulejo amarelo" (azulejo: peça de decoração azul), "embarcar no avião", "aterrar em Marte", "bolsa de valores", "nicho do mercado", "valor líquido", "rato do computador", "raízes da equação", "quadrado de um inteiro", "raiz quadrada", "número primos", "leis naturais", "Via Láctea", "anéis de Saturno", "buraco negro", "cadeia de ADN", etc.

A metáfora do software que eu tinha apresentado revela o meu erro. Apesar de na nossa linguagem estarem embutidas acções atribuídas a programas informáticos e ao software, na realidade os dois não fazem literalmente essas acções. Isso é mais claro nos programas. Vejam essa imagem. As instruções dos programas são armazenadas nas memórias secundárias (disco-duro, CDs, DVDs, etc) e transferidas para a memória primária (RAM) antes de serem executadas pelo CPU. Atribuímos acções a programas - ou associamos verbos aos programas como sujeitos de orações - através daquilo que o hardware faz, como formas de catacreses. As entidades e eventos que atribuímos a imagens no monitor são metafóricas - são só imagens, como um reflexo num espelho (nós não somos o reflexo). Dizer que um programa faz algo corresponde aos "acontecimentos" representados pelas imagens e outros eventos do hardware (como a ejecção do leitor de CDs e som das colunas), mas na realidade não passa de instruções que são representadas nas memórias, cujos sinais, que representam de outra forma as tais instruções, são passados para CPU, que afecta o hardware restante...  Mesmo dizer que as instruções são armazenadas na memória é tão correcto como dizer que se escreveu uns números numa folha: os números são abstracções. Num papel só podem estar as suas representações.

(continua)

18 outubro, 2009

Re: Neo-Ateísmo, Um Delírio > Ciência X Religião > p. 3.2.2

(continuação do artigo anterior)

Conclusões e contra-argumentos:

  • Mundo de Alice
A Ciência corrige-se ou não se corrige? Nem um nem outro, segundo o Luciano. Entramos num mundo onde a linguagem é completamente diferente daquela que estamos habituados. E quem tentar embrenhar-se nela, verá que é difícil dialogar com o Luciano. É preciso arte para isso. Talvez para ele quando se diz que algo não é bom, quer dizer que é mau, por isso não faz sentido dizer que algo não é bom, nem é mau. E uma pessoa boa tem de ser perfeita - se faz algumas maldades, não pode ser considerada boa. Nem não-boa. Mas, curiosamente a Ciência gera benefícios porque cientistas geram benefícios. Só que não se corrige, porque seria atribuir acções de uma parte da Ciência a ela própria e porque cienstistas não corrigiram certas ideias, como a hipótese dos multiversos, a memética e a teoria do aquecimento global de origem antropogénica. É um equivoco quando se diz que a Ciência não se corrige, mas pelos vistos pode-se dizer «o método não se corrige». Agora imaginem que quem defende tais coisas é considerado alguém que usa bem as palavras e que argumenta bem. É esse o mundo de Luciano, como tivéssemos atravessado o espelho de Alice onde os personagens são confusos.
  • Corrigir ou não corrigir... ou nem uma nem outra (¬(x ∨ ¬x))
Sobre o exemplo do CRM, ele diz que é absurdo dizer que a Ciência erra como dizer que o CRM erra. Mas se pesquisar no Google repara que é dito várias vezes que a Ciência erra ou que tem erros - eu próprio já o tinha dito antes de conhecer o blog de Luciano. [Scientific American História - Os grandes erros da Ciência; Ciência - A Vela no Escuro; Observatório de Imprensa; Que Treta! (comentário); Crítica: revista de Filosofia; Science Blogs; Discovery; The Report at VIII International Scientific Conference] Reparem na citação de Karl Popper: «The history of science, like the history of all human ideas, is a history of irresponsible dreams, of obstinacy, and of error. But science is one of the very few human activities — perhaps the only onein which errors are systematically criticized and fairly often, in time, corrected.» [Science : Conjectures and Refutations] "In which" significa "cujos" - se referisse a pessoas, seria "whom". Portanto, refere-se aos erros na Ciência - a "ciência é uma das poucas actividades humanas - talvez a única - cujos erros são sistematicamente criticado e geralmente corrigidos a tempo". E pelos vistos Popper tinha muita falta de imaginação com o "perhaps the only one" (ou se fosse um "neo-ateu" a dizê-lo). Afinal de contas, a Ciência tem ou não tem erros? Se for dito que não tem erros, transmite-se a ideia de que é perfeita e é dado óptimo material para os criacionistas.

Portanto, Luciano disse: «Implicaria em “O CRM errou e se corrigiu”» E concluiu com isso: «Claro que não se corrigiu, pois o sistema já está incorporando essa avaliação. O sistema é justamente para existir essa avaliação.» Comparem com 2.d)4) e 2.d)7) do artigo anterior. O sistema é um meio para atingir um fim. Se uso um martelo para bater num prego, o martelo bate no prego, mesmo que requeira a acção de alguém para isso. Por outro lado, se robôs são construídos para fabricarem carros, sem intervenção humana, os robôs é que fabricariam os carros, autononamente, mesmo sem terem consciência para terem intenção. É mais fácil de perceber isso do que com ideias. A relação entre ideias e o sistema nervoso é como a relação entre o software e o hardware. O software não é palpável - é simplesmente uma abstracção do que é representado no hardware: não é um caso particular de representação num determinado armazenamento - é uma generalização que ignora como a informação é representada, daí dizer que é uma abstracção. Apesar de imaterial, tal como uma ideia, o software afecta o hardware e interage com outro software. Se for um corrector ortográfico, detecta e corrige erros ortográficos. É num sentido similar que dizemos que métodos, sistemas e processos podem corrigir. No caso de uma entidade abstracta que seja um método e conhecimento, essa entidade corrige-se.

E se segundos os padrões de linguistica de Luciano é incorrecto dizer que um sitema corrige-se, o que interessa se as pessoas percebem o que quer dizer, tal como percebem quando ele diz que a Pixar inova? A língua é para servir o Homem, não é para o Homem ser servo dela.
  • Falsas analogias e maus argumentos
Luciano poderá dizer que até agora apresentei falsas analogias e más metáforas - ele até disse que tentei umas 10 analogias e que não são consistentes. Convém que ele mostre que as percebe e que responda ao que pretendem ilustrar. Reparem que no ponto 5.a) faço isso: a analogia pretende levar a uma conclusão, mas o que é comparado tem propriedades que negam o que se pretendia concluir. No caso em questão, pretende-se mostrar que a Ciência não realiza acções - os cientistas é que o fazem. E compara-os com a Pixar, atribuindo-lhe uma acção similar aos dos cientistas. Quais são as objecções em relação a "Ciência corrige-se"? Apliquem-nas ao exemplo da Pixar.

Apresento um exemplo em que ele diz que sou ruim em analogias. Ele disse, num comentário do Que Treta!, que o criacionismo é "uma parte da ciência em conflito com a ciência". Segundo a definição que ele tinha apresentado de "ciência", a aplicação do método científico é uma condição para que uma ideia faça parte do corpo de conhecimentos, que define a ciência - condição essa que não existe no criacionismo. Depois de lhe respondido com essa objecção (com mais palavras), acabei por dizer que o que ele disse é como os astrólogos que afirmam que a astrologia é uma ciência e que eles são cientistas, ou é como dizer «que sou um campeão de xadrez só porque jogo xadrez». Isto é: pode faltar uma condição para eu ser campeão de xadrez, que é ganhar um campeonato de xadrez, tal como falta a aplicação do método científico no criacionismo para ser ciência.
Resposta do Luciano: «Jogar xadrez não implica em campeão de xadrez, mas sim em ser um enxadrista. Vc pode ser um enxadrista amador... O criacionismo é ciência de amadores. Já foi substituido pelo design inteligente.» Ele responde como se eu estivesse a defender que jogar xadrez implica ser campeão de xadrez e insiste que o criacionismo faz parte da ciência.

Já agora, responder à "teoria da evolução dos talheres" como se o Sabino afirmasse que a Teoria da Evolução é só uma teoria (como uma mera hipótese), é distorcer o que ele disse - ele nunca usou esse argumento, que, aliás, é desincentivado pela AnswersInGenesis. Penso que tinha lido uma resposta do género (por isso tinha dito ao Luciano que «li o seu comentário na Lógica do Sabino»), mas não a encontro. De qualquer modo Luciano disse que cometi um «erro gravíssimo ao TENTAR refutar o Sabino» ao tentar «criar um conflito entre ciência e religião» e por isso preciso «de lições de argumentações». Convém primeiro que mostre onde é que faço tal coisa quando respondi ao Sabino.

Sabendo que Luciano tem o hábito de distorcer, é suposto perceberem que devem procurar as frases originais daqueles que ele acusa. Não é só a ele que o devem fazer: façam a mim, quer confiem ou não em mim. Sejam cépticos, pois podem ser vítimas de citações fora do contexto e de falácias do homem-palha. É irrelevante se estou desesperado, se não sei usar as palavras, se sou uma anta, um estulto, um imbecil, um fanático, nem sequer se nem sei ler o que está escrito - para provar que há uma falsa analogia deve perceber para que serve, o que é comparado e identificar as propriedades do comparado que negam a conclusão.

É claro que as metáforas não são perfeitas, caso contrário, por exemplo, estaria a afirmar que a Ciência e o software são o mesmo. O método científico não é um programa informático nem selecção artificial. O conhecimento não é memória nem uma rede neuronal. As metáforas servem apenas para explicar mais facilmente uma ideia através de ilustrações. Devem abstrair-se das metáforas e não levarem-nas longe demais. Vejam a vossa área de trabalho (desktop) no monitor. Está cheia de metáforas como as janelas, pastas, ficheiros e lixo. Mas se foram levadas longe demais, em vez de ajudar, atrapalham. Por exemplo, simular as limitações dos ficheiros em papel para que os ficheiros do computador pareçam mais com os físicos só atrapalha. Mas mesmo que não tendo as mesmas limitações, a metáfora é útil. E é desse modo que deve ser avaliada o seu mérito.

(continua na próxima semana)