05 junho, 2010

Ressurreição de Jesus - 1) Os Evangelhos

«E os principais dos sacerdotes e todo o concílio buscavam algum testemunho contra Jesus, para o matar, e não o achavam. Porque muitos testificavam falsamente contra ele, mas os testemunhos não eram coerentes. E, levantando-se alguns, testificavam falsamente contra ele, dizendo: "Nós ouvimos-lhe dizer: Eu derribarei este templo, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens." E nem assim o testemunho deles era coerente.» (Marcos 14)
¶1 A importância da incoerência dos testemunhos é óbvia e os teólogos da Idade Média já tinham noção das discrepâncias entre os evangelhos. Santo Agostinho, para defendê-los, comentou: «ou o manuscrito é defeituoso, ou o texto original foi mal traduzido, ou que eu não o entendi.» (carta 82 a São Jerónimo) No século II, Taciano escreveu um Evangelho em sírio chamado Diatessaron ("feito de quatro ingredientes"), cujo objectivo era harmonizar os quatro evangelhos canónicos sem as discrepâncias.

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¶2 Alguns trechos desses evangelhos foram acrescentados muito depois dos originais, como as duas versões finais do Evangelho Segundo Marcos, consoante a tradução, a seguir a «e nada diziam a ninguém porque temiam» (16:8; vide Manuscrito Alexandrino, Manuscrito Sinaítico e o O Códice Regius). Sir Isaac Newton, em An Historical Account of Two Notable Corruptions of Scripture, notou que o Comma Johanneum (I João 5:7-8) foi introduzido pela primeira vez introduzido numa tradução da Bíblia na terceira edição do Novo Testamento de Erasmo, mesmo sem qualquer documento anterior que o justificasse. Esses versículos não existiam e por isso nenhum teólogo o mencionava. Algumas passagens bíblicas e até alguns livros inteiros do Novo Testamento são consideradas pseudografias, mesmo por teólogos, como as epístolas a Timótio e aos Efésios e a Segunda Epístola de Pedro. Claro que isso tudo não prova que não houve uma ressurreição de Jesus, mas apresenta-nos uma explicação para as contradições e demonstra que devemos ser prudentes em relação às cópias e traduções.

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¶3 Mas noutras passagens fundamentais existem inconsistências. Eis por exemplo a descrição dos primeiros testemunhos do túmulo vazio:
    • Mateus: Madalena e Maria foram ver o túmulo;
    • Marcos: Madalena, Maria e Salomé foram;
    • Lucas: Madalena, Maria, Joana e outras mulheres foram ver o túmulo;
    • João: Madalena foi ver o túmulo;
    • Mateus: houve um terramoto durante a descida de um anjo que rolou a pedra do túmulo e sentou-se sobre ela;
    • Marcos: a pedra enorme já estava revolvida e ao entrarem no sepulcro as mulheres viram um jovem sentado à direita;
    • Lucas: as mulheres entraram no sepulcro e pararam junto delas dois homens;
    • João: Madalena viu que o sepulcro estava vazio e por isso foi ter com Pedro e João (o discípulo amado) para dizer que levaram o corpo;

    • Mateus: as mulheres correram para contar a boa-nova, mas entretanto encontraram Jesus; prostaram-se para lhe beijarem os pés e ele disse para dizer aos seus irmãos para irem para Galileia para o verem;
    • Marcos: as mulheres fugiram assustadas sem contar nada a ninguém;
    • Lucas: as mulheres foram contar as boas-novas aos apóstolos e a outros;
    • João: Pedro e João encontraram o sepulcro vazio. Madalena chorou junto do sepulcro e viu dois anjos sentados onde jazia o corpo. Ao voltar-se para trás, viu Jesus, que foi o primeiro a contar-lhe as boas-novas.
(A imagem seguinte é um esquema que ilustra a harmonização forçada de todas as narrativas)
¶4 O evangelho mais antigo (Segundo Marcos), ao contrário dos outros, termina dizendo que as mulheres não contaram as boas-novas (se ignorarmos as versões adicionadas, que contradizem o versículo 8), terminando abruptamente como o início. Talvez para justificar por que é que a história não era amplamente conhecida durante cerca de 40 anos até à escrita dos evangelhos, com as mulheres como testemunhas, em vez dos apóstolos, incluíndo Paulo, que já teriam morrido e que nas suas cartas descreviam Jesus ressuscitado como uma aparição em transes (I Cor 9:1; 15:5-8; At 7:55; 11:4-8). Cerca de 10 anos mais tarde, com o Evangelho Segundo Mateus, são mencionados guardas que foram instruídos para dizerem que o corpo foi roubado - sugerindo que a polémica do desaparecimento do corpo era recente - e é dito que os discípulos encontram Jesus. Mais 10 anos depois, em Lucas, é dito que Jesus disse que não é um espírito - talvez uma resposta aos gnósticos. E em João até há uma resposta àqueles que duvidam através de Tomé.
(Nota: A datação dos sinópticos definida pela maioria dos escolares baseiam-se em conjecturas - estive supô-las que estão correctas.)

¶5 Notem que apesar de assumidos como resultados de testemunhos, os Evangelhos Canónicos têm descrições de acontecimentos privados (as tentações no deserto, a oração no Jardim das Oliveiras, o interrogatório e o julgamento em portas fechadas, a traição e arrependimento de Judas, encontros secretos com Nicodemos e José de Arimateia, o processo que levou à condenação de João Baptista). E apesar das discrepâncias, 89% do material de Marcos é encontrado em Mateus, e  72% é encontrado em Lucas, sugerindo que Marcos foi usado como fonte para os outros, daí serem chamados de Evangelhos Sinópticos (syn=juntos; opticus=visto), daí a conjectura do Documento Q. Por isso não podem servir de confirmação mútua.

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¶6 As incoerências não implicam que as narrações não tenham uma base de verdade. As histórias são recontadas com modificações, algumas com o intuito de assegurar a veracidade das mesmas e refutar pormenores de outras versões. Os apócrifos são fruto de muitas tradições cristãs, como o nascimento na manjedoura e o número e nomes dos magos. Segundo os Evangelhos da Infância (de Tiago e Tomé), Jesus em criança era um traquinas, abusando dos seus poderes, e compreendeu as suas responsabilidades depois de ter sido acusado de ter morto outra criança. Nos Actos de Paulo, São Paulo converteu um leão que falava. Muitos desses apócrifos foram considerados heréticos e fantasiosos pela Igreja. O que isso tudo quer dizer é que os evangelhos a partir do de Marcos não são fidedignos. Quanto muito, têm algum fundo de verdade sobre o cristianismo do período pré-marcano que foi sendo distorcido com o tempo. Começo o próximo artigo com o argumento do túmulo vazio, de William Lane Craig.

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31 maio, 2010

Deus omnipresente, omnisciente, omnipotente e omnibondoso

Professor Alfredo Dinis,

li atentamente comentários dirigidos a Ludwig, que foram redigidos de forma muito clara e julgo que não foram respondidos de forma adequada. Pretendo partilhar a minha opinião sobre os comentários e colocar-lhe uma questão no final, por ser professor de Filosofia, para satisfazer-me uma curiosidade a respeito de uma alegação feita por um dos comentadores. Como tem certamente muito mais experiência na Filosofia, se responder-me com uma crítica e explicando-me os erros nesta redacção, sentir-me-ei muito agradecido pela paciência de lê-lo.

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¶1 Parece-me que ambos os professores, Alfredo e Ludwig, estão a confundir ou a misturar dois problemas distintos: 1) a existência de um ser omnipotente, omnipresente, omnisciente e sumamente bom; e 2) os deveres de um Criador em relação à Sua Criação. Apesar de exposta de forma ingénua, penso que o argumento de Ludwig através de crianças e das minas é válido e parece-me que Alfredo comete uma falsa analogia comparando humanos e uma entidade sobrehumana como se tivessem a mesma condição.

¶2 A existência de algo não depende dos nossos desejos, por isso acho que é tolice não acreditar que um Deus existe só porque é malévolo ou apático. Aqui abstenho-me a essa questão e cinjo-me à questão da existência de um Deus omnipotente, omnisciente, omnipresente e omnibondoso.

¶3 Uma entidade inteligente que não seja omnipresente, pode não ter a oportunidade de testemunhar os males no Mundo. Mesmo que seja omnipotente, talvez não use os seus poderes para poder conhecer o males. E mesmo que testemunhe e conheça esses males, pode acreditar que é impotente se não for omnisciente, talvez limitando-se a sofrer, como um pai impotente a ver os seus filhos a sofrerem, ou incapaz de perceber o que assiste, como um débil mental. Mas isso não é possível se for omnipresente, omnipotente e omnisciente. Ele está presente no meio de todos os males, tem o poder de acabar com eles todos, conhece-os todos e sabe que pode terminá-los. A questão é como agiria se fosse também omnibondoso, não interessando se é o que deveria ou não fazer.

¶4 O Deus tradicional teísta não tem as mesmas limitações dos seres humanos, cuja condição é muitíssimo diferente. Em muitos casos, para evitarmos ou mitigarmos o mal temos de nos sacrificar e arriscar-nos imenso, porque não temos o poder de fazê-lo de outro modo. Basta comparar os humanos comuns com os super-heróis, nos quadradinhos. A diferença de poder não permite que humanos comuns possam salvar vidas como os heróis com poderes sobrehumanos. O super-homem é capaz de proteger alguém de um tiroteio com o seu peito e pára um comboio com as suas próprias mãos, evitando tragédias, e os outros, que não podiam fazer o mesmo, aplaudem e agradecem, ao seu deus benfeitor que os ama. Os anti-heróis têm outras motivações, que os leva a serem muito agressivos em relação a crápulas como os que mataram os seus pais. As personalidades dos personagens determinam as suas motivações, decisões e comportamentos. E esses últimos são indícios do que sentem em relação a outras personagens.

¶5 Noto que no Evangelho de São Lucas encontramos uma parábola famosa que mostra como se distingue alguém que ama o próximo: a parábola do Bom Samaritano (Lucas 10).
- Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?
- Aquele que usou de misericórdia para com ele.
- Vai, e faze tu o mesmo.
¶6 Deus amar-nos não significa fazer-nos o mesmo? Não estará a descrevê-Lo como o sacerdote que não faz nada para ajudar a vítima e apenas lamenta? Não se espera até de uma besta feroz que salve aqueles que ama, como as suas crias e os mais próximos, arriscando até a sua vida? Amamos mais  os nossos filhos, pais e irmãos, por isso somos capazes de nos sacrificar mais por eles do que por desconhecidos. Não interessa se deveria ser assim ou não: o que interessa é que isso ilustra qual é o género de comportamentos que temos em relação a alguém que amamos. Se não tivermos o mesmo poder de um Deus omnipotente, é que limitamo-nos a sofrer, sentido-nos impotentes ou cobardes. Por isso digo que o exemplo de Ludwig é ingénuo: deveria ter ido mais longe, e ter usado como exemplo um nosso filho que amamos imenso. Mas se existe um ser que também nos ama, que sabe que sofremos e pode acabar com o sofrimento, por que é que não age como um pai com poderes ilimitados que quer salvar o seu filho? E se é o Criador, por que é que permitiu um Mundo onde o sofrimento é possível?

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¶7 Se é inadmissível colocar a hipótese de que o teísmo monoteísta é falso ou de que Deus não é sumamente bom, acredito que só é possível aceitar de forma lógica a hipótese da existência de um Deus que não seja omnisciente ou omnipotente. Ou Ele não sabe que o mal (ou a maioria) existe ou é incapaz de concretizar a sua vontade de acabá-lo. E foi incapaz de criar um Mundo sem mal. Por isso apenas é capaz sofrer com quem sofre. O que chamam de "omnipotência" é afinal um poder sobrehumano de  um ser eterno capaz de criar o Universo, mas impotente para o criar sem o mal ou sequer acabar com o sofrimento.

¶8 Filósofos, como Plantinga, podem implicitamente dizer isso mesmo, colocando a hipótese de o bem  precisar do mal - talvez seja impossível de outra forma. Para além de isso refutar a existência de um Deus com as quatro qualidade que referi, parece-me absurdo que permitir o mal seja melhor que evitá-lo, especialmente tendo em conta o mal natural. Quem criar um robô com livre-arbítrio, deve pelo menos implementar algo como as Três Leis da Robótica, para que a criatura evite cometer sofrimento. Se a criatura matasse, mesmo que tivesse vontade própria, o seu criador seria responsabilizado, podendo ser condenado por negligência e homicídio. Não esperaríamos muito mais de um ser muito mais poderoso e sábio, sempre capaz de prever as consequências dos seus actos? E mesmo aceitando a necessidade de permitir que as decisões para cometer sofrimento sejam concretizadas, como é que o argumento aplica-se a males naturais? Os desastres naturais são resultado de demónios que provocam doenças, extraem lava do interior da Terra e cujos sopros são capazes de arrancar árvores? Não me parece que nenhum de nós acredite nisso.

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¶9 O Jairo Entrecosto, nos comentários do Que Treta!, disse que a existência de Deus está provada. Acho que é treta. Acho que não foi provada a existência nem a inexistência de Deus. Existem apenas razões para acreditar ou não acreditar. Se bem me lembro e interpretei correctamente as palavras de Plantinga e William Lane Craig, eles dizem que a existência de Deus não está provada e por isso existem os debates que participam (especialmente Craig). E suponho que a maioria dos filósofos profissionais é descrente - mas baseio-me apenas em poucos dados. Como é professor de Filosofia, certamente conhece mais e melhor do que eu e o Jairo os argumentos sobre essa questão e as opiniões dos filósofos profissionais. Gostaria que nos dissesse se a existência de Deus está provada e qual acha que é a opinião da maioria dos filósofos.

Cumprimentos

30 maio, 2010

Sentido da vida: igual ou livre

Os jogos da série de vídeo-jogos Metal Gear Solid tornaram-se os meu favoritos. Já comprei 3 para a PSP Go e tenho uma demonstração grátis do Metal Gear Solid: Peace Walker. São tecnicamente muito bons e venceram vários prémios. Oiçam o tema musical e vejam as suas imagens. Mas são apenas cerejas por cima do bolo. A jogabilidade é original e exige paciência e estratégia. Apesar de serem jogos de acção, somos incentivados a evitar matar os inimigos, especialmente no Portable Ops e no Peace Walker. Os personagens jogáveis podem encostar-se em paredes e espreitarem, esconderem-se debaixo de objectos e usar meios de ataque e defesa não letal. Até com seringas anestésicas.

Mas não é só jogo. Têm também estórias e temas filosóficos cativantes. Apesar de ser um jogo de acção, que envolve guerra e espionagem, promove o pacifismo e critica a manipulação dos governos através de militares. Aborda temas como a lealdade, o sentido da vida, os efeitos da censura na sociedade e a influências dos genes, memes, cena e sentido (gene, meme, scene, sense) na personalidade.


- «I will not allow the world to be a playground for abstract national interest and petty political gambits. I will use the superior force of arms to achieve superior force of will. Thus I will make the world whole again. For I am the Successor, and this is my calling.»
- «You're nothing but a dictator.» ... «You use fear to keep your soldiers in line. You use words to deceive your allies. You exploit those who look up to you as a mentor and then you throw them away. The country you're building is no heaven for soldiers. The place they are looking is outside your 'heaven'.»
- «Open your eyes, Snake. This is our calling. It's all part of a greater mission. Compared to this calling, the individual wills of individual soldiers are meaningless. Those who have no calling must be given one by those who do. They must follow the teachings of those with a greater will.» ... «It is my calling. And I will bestow it upon others. The countless masses with no wills of their own must devote their life to a higher cause. They must give their trivial lives, their petty contentment. They must sacrifice all their energies to the cause - pour their feeble lives into it.» ... «Snake, the only thing you need is a calling. Your country can't save you. Neither can your old teacher, nor your so called friends. Join me, Jack. I will give you your calling.»
- «I'll find my own. You and your phony ideals can go to hell.»

É assim que se discute sobre qual será o sentido da vida. Os que defendem que devemos suprimir as nossas vontades, devotando as nossas vidas a causas superiores não reparam que era esse ideal de ditadores como Hitler e Estaline. Podem considerar que o que fizeram é repugnante, mas é a práctica das suas teorias, mesmo que com muito boas intenções. No blog De Rerum Natura são dados exemplos desses tipos de idealismos (o igualitarismo, em particular) colocados em práctica:
«Mas, antes disso, quero lembrar que mesmo quando se apresentou como um projecto generoso acabou sempre, historicamente, quando as circunstâncias o permitiram e não foi travado a tempo, na crueldade mais odiosa. Não podia ser de outro modo, como facilmente se compreende. Um dos exemplos mais recentes é o do Cambodja de Pol Pot: começou na escola e terminou nos campos de extermínio. Não é ficção aquilo de que falo.»
Um ano antes de morrer, Pol Pot disse numa entrevista: «Não me juntei ao movimento da resistência para matar pessoas, para matar uma nação. Olhem para mim agora. Sou um selvagem? A minha consciência está tranquila.» Se não aceitam a concretização de uma teoria, ela foi refutada. No caso do Comunismo, para todos serem iguais, é preciso acabar com a liberdade. E isso requer um deus, nem que seja humano, impondo moralismos e modos de vida, e restrigindo o que podem ler, ouvir e ver (no De Rerum Natura: «por isso que os regimes totalitários impõem a censura e queimam os livros»). Isso porque descobriram qual é o sentido da vida. Se formos nós a definir sentidos para as nossas vidas, não precisamos de ditadores das nossas vidas. Nem temos de ser ditadores das vidas dos outros. Só precisaríamos de aceitar o que conhecemos - como as nossas vontades e a dos outros -, sem necessidade de impôr uma invenção que nem resulta.

Por que é que devemos ter em conta as nossas vontades e as vontades dos outros, em vez de desprezá-las e seguir uma Causa Maior contrária a todas as vontades? Por que é que não devemos fazer o que não resulta?

09 maio, 2010

Meta-ética: moral e imoral

1¶ Mesmo para um sujeito isolado, único em toda a existência, existem coisas que são boas e outras que são más. Sensações agradáveis são boas. Sensações desagradáveis são más. É bom conseguir concluir projectos com sucesso. Tomar decisões informadas é bom. Não tomar decisões por ignorância ou ser responsável de resultados indesejáveis é mau. É bom ser livre de fazer o que deseja, é mau não poder o que tem vontade. Se não existir qualquer sujeito, tudo isso deixa de fazer sentido, deixando de existir o belo, nem o feio, nem o prazer, nem o sofrimento, nem o amor, nem o ódio, nem o bem, nem o mal.

2¶ Existem gradações de bem e de mal, tal como existem grandações de prazer e de sofrimento e maiores e menores vontades (e como a lógica fuzzy), e existem decisões e acções neutras. Estar paralisado num deserto escaldante durante dias até morrer de sede ou de fome é muito pior que uma leve comichão no nariz que pode ser aliviada ao esfregá-lo. Na imagem seguinte está uma representação dessa ideia (abaixo) e uma alternativa (acima).


3¶ O que é bom a curto prazo pode ter consequências muito más a médio ou longo prazo e vice-versa. Esperar e trabalhar arduamente pode ser desagradável, mas a paciência e deligência podem compensar. Podemos ter limitações e o mundo pode não ser perfeito, mas podemos pesar os prós e contras em curto, médio e longo prazo, avaliar os riscos e fazer sacrifícios para obtermos um bem, como um engenheiro. A imagem seguinte é um gráfico que representa um exemplo dessa ideia. O excesso pode ser muito bom no momento em que é praticado, mas com o tempo os seus efeitos são maus e podem influenciar a percepção da realidade ou limitar a liberdade que tinha.
3¶ Existindo dois sujeitos, o que foi dito nos parágrafos aplica-se a cada um deles e aos dois como um todo. Pode ser que um projecto de um dos sujeitos seja mais facilmente concluído com a ajuda do outro. Ou até mesmo seja apenas possível com cooperação. E assim poderão construir ferramente e mudar o ambiente de modo a viverem com mais conforto, liberdade e felicidade. Além disso se um deles estiver em apuros, o outro pode ajudá-lo. Ou podem prejudicarem-se.
4¶ Cometer um acto imoral é fazer um mal para alguém. Em certas situações devemos cometer males - por exemplo, ferir alguém que pretende cometer homicídio. Mas não deixa de ser imoral. O dever não é evitar o que é imoral - o que é impossível se não somos capazes de controlar tudo o que nos rodeia. Outras decisões são piores - por exemplo, deixar que se cometa um homicídio -, e o dever é escolher a melhor, por vezes entre tantas más. Para o podermos fazer de forma eficaz, precisamos de nos colocar na pele dos outros - sentir empatia. A psicopatia é uma doença (que pode ser hereditária) caracterizada por falta dessa capacidade cognitiva. São incapazes de colocar no lugar do outros, não conseguem ter sentimentos, não sentem remorsos, são frios e manipuladores. [Há algum tempo deu um episódio do Dr. House sobre o tema: trailer1, trailer2, argumento, erros.] Como o psicopata é tem essa incapacidade cognitica, é um ser imoral.

5¶ O pastor Ted Haggard é um exemplo de alguém que parece que aprendeu que o que fazia em relação aos homossexuais era imoral. A postura dele mudou muito depois de se descobrir que ele é homossexual e que tinha relações sexuais com um prostituto, pedindo desculpa aos homossexuais:




6¶ Mesmo para um egoísta em geral a melhor estratégia é não fazer mal aos outros e fazer o bem. Se Ted Haggard tivesse razão quando julgava os homossexuais, o razoável seria ele próprio sofrer o mesmo. Talvez tivesse sentido o que podiam ter sentido os homossexuais, especialmente os cristãos, ao ouvirem os sermões, e aprendeu que não queria ter Ted Haggards.

7¶ Os seres sociais instintivamente protegem os membros do seu grupo e cooperam com o grupo, porque identificam-se com o grupo e os seus membros. São apenas morais com o próximo. Ted Haggard, ao ser apanhado, passou a pertencer ao grupo dos homossexuais e ele deve ter sentido como um dos seus membros. Os humanos têm mais experiência em lidar com grupos diferentes em espaços geográficos distantes e até de espécies diferentes, têm maior capacidade de fazer experiências mentais para planear e prever e são capazes de transmitir mais eficazmente o que aprenderam em forma de cultura. A História é um trajecto de muitos Ted Haggards e os nossos conceitos de moralidade e imoralidade são produtos dela. Não só sentimos dor quando fazem mal aos nossos próximos, mas também a todos os seres sentientes. Percebemos que eles sentem dor, que têm desejos... em suma: têm poder de subjectividade, como nós. E ao percebermos isso, percebemos no senso-comum o que é ser moral e o que é ser imoral, mesmo continuando a ser um problema filosófico complexo que não foi ainda resolvido.

06 março, 2010

Meta-ética: comparação de dois modelos

«Se o Líder disser sobre um tal evento, "Nunca aconteceu" - bem, nunca aconteceu.
Se disser que dois e dois são cinco - bem, dois e dois são cinco.»
- em 1984, de George Orwell
1¶ À esquerda está um diagrama que representa uma teoria ética centrada numa única entidade (1º modelo). À direita está um diagrama que representa uma teoria ética que  depende de todos os sujeitos sem preferência por uma parte (2º modelo).

2¶ Vamos supor que entre quatro sujeitos, existe uma criança, o seu pai, a sua mãe e um pedófilo. Definimos quais dos sujeitos são clicando no botão seguinte: criança: -; pai: - ; mãe: - ; pedófilo: -;
 1) No 1º modelo, se o pedófilo for o sujeito a, então ele pode definir que é bom abusar sexuamente uma criança, não interessando o que a criança, o pai, a mãe dizem, pensam ou sentem. Esse pedófilo poderá até ser o Criador ou o ser mais forte que existe - seja lá o que define a autoridade moral como tal. Se o sujeito a for a criança, os seus caprichos definem a moral. Se a for um dos pais, se decidir capar ou torturar o pedófilo, isso seria bom.
 2) O 2º modelo requer 2n+n relações (n é o número de sujeitos) e a avaliação é mais complexo. Se tivermos em consideração todos os sujeitos, podemos notar várias propriedades das suas relações e possíveis consequências:
  a) O pedófilo pode desejar abusar da criança. Mas a criança e os pais não querem. Existem conflitos de interesses. 
  b) O pedófilo não gostaria de ser violado, quando era uma criança não era do seu interesse ter relações sexuais com um adulto e se tivesse filhos provavelmente não gostaria que fossem abusados. Não quereria que outros fossem como ele.
  c) O pedófilo não poderia abusar uma criança sem que exista crianças. É um possível agente do mal que inflinge os outros.
  d) Uma vítima sexual é traumatizada com mais intensidade e é mais afectada do que quem gosta de algo mas não pode fazê-lo. Quer dizer, o abusado sofre um mal maior.
  e) O pedófilo pode satisfazer-se de outros modos sem prejudicar os outros (masturbação, bonecas), afastar-se de crianças e tentar tratar-se. Ele tem a liberdade de optar por várias vias, que uma vítima não teria. 
  f) O pais podem tentar prevenir que o seu filho seja abusado e/ou punir o pedófilo destruíndo-o, ou maximizando o seu sofrimento ou através de um mal menor.
  g) Todos podem melhorar as sua vidas com colaboração entre si. Quem mais prejudica recebe menos ajuda dos outros e arrisca-se mais a ser prejudicado.
  etc.

3¶ Com essa experiência espera-se tornar clara a distinção entre 1) algo ser bom para a autoridade moral por ser bom e 2) algo ser bom por ser bom para a autoridade moral. O primeiro caso é como dizer que para alguém 2+2=4 porque 2+2=4. O segundo é como dizer que 2+2=4 porque para alguém 2+2=4. Se o segundo caso for verdadeiro, é um caso fortuito se a autoridade absoluta for amorosa. Não é uma contigência, podendo ter-nos calhado um canalha, como um pedófilo sem escrúpulos - e o abuso de crianças seria bom por definição. Se uma autoridade considerar que 2+2=5, então é. É o que acontece no 1º modelo.

4¶ O 2º modelo, pelo contrário, não exige nem tem alguém para definir o bem e o mal. Tem em consideração todos os sujeitos, sem que nenhum deles seja uma referência absoluta, e como as suas acções afectam os outros directa ou indirectamente, como um grafo com valores nos vértices e arestas, representando um estado. Se alguns membros de uma comunidade foram prejudicados por alguém, os outros têm interesse em impedi-lo. Tomando um sujeito arbitrariamente, cada uma das suas decisões dá origem a um estado, que podem influenciar as decisões de outros sujeitos. As decisões são como arestas (ou ramos) de um gravo em árvore, com os vértices representando cada estado. Cada decisão é pontuada de acordo com a qualidade do estado que produz. Resolver um problema moral é resolver um problema sobre grafos com uma busca de caminhos.

5¶ Para quem não percebeu o parágrafo anterior, uma analogia pode ajudar: é como jogar xadrez. Antes de fazermos uma jogada, imaginamos como várias jogadas influenciam a decisão do adversário e classificamos cada uma delas. Se for má, voltamos mentalmente atrás, construindo uma árvore. É evidente quando alguém perde num jogo de xadrez, mesmo uma autoridade do xadrez perde num jogo. Não se ganha por ser uma autoridade do xadrez a dizer que ganhou, mesmo que seja o inventor do jogo. Desse modo, alguém considerado uma autoridade moral, mesmo que tenha criado o Universo e definido como funciona, não implica que o que define ser bom ou mau o seja (o Universo é como o tabuleiro e peças, o modo como funciona é como as regras do jogo, cada decisão tomada é como uma jogada). A desvantagem do 2º modelo é a sua complexidade e dificuldade práctica em imaginar todos os efeitos das nossas decisões, e muitas vezes até mesmo todas as decisões possíveis.

6¶ Quem não aceita as implicações do 1º modelo, não acredita realmente nele. Se não aceitam a ideia de que se uma autoridade moral fosse um pedófilo que diz que a pedofilia é boa, então é, então não acreditam que algo é bom pela natureza ou mandamentos da autoridade moral. Nem sequer admitem que é  uma ditadura. Notem que as suas decisões serem boas por coincidirem com o 2º modelo, não é o mesmo que o 1º modelo. Uma forma de contornar esse problema é dizer que a autoridade, o 2º modelo e talvez outras propriedades, como a existência, são simplesmente o mesmo. Nesse caso, a Referência Absoluta é o próprio bem.

28 fevereiro, 2010

Meta-ética: dois modelos

«Aqui estou eu, apreciador da vida, sem querer morrer, apreciador do prazer e averso à dor. Suponhamos que alguém me rouba a vida... não seria prazeroso ou agradável para mim. Se eu, por outro lado, devesse roubar a vida de quem aprecia a vida, que não quer morrer, que aprecia o prazer e é averso à dor, não seria algo prazeroso ou agradável para ele. Para um estado que não é prazeroso ou agradável para mim também não deve sê-lo para ele; e se um estado não é prazeroso e agradável para mim, como posso eu infligi-lo a outros?» - Samyutta Nikaya v.353 
«Aqueles que vêem com ternura um dono de escravos e com frieza em relação aos escravos, nunca se colocam na posição dos últimos - que panorama desanimador, sem sequer a esperança de mudança! Imaginem-vos a possibilidade, de alguma vez acontecer a vós, de vossas esposas e pequenos filhos - os objectos que a nature leva a que o escravo considere ser dele - serem tiradas de vós e serem vendidas como bestas ao primeiro licitante!» - Darwin, in A Viagem do Beagle
«Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.» (...) «Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas» - Mateus 7:1-2,12

«Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil.» - Mateus 5:25-26
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1¶ Segundo a Teoria dos Mandamentos Divinos, bem é aquilo que Deus manda fazer e o mal é o proíbe fazer. Portanto, Deus é a única referência absoluta para se definir o que é o bem e o mal e, segundo cristãos bíblicos, fá-lo através das Escrituras. Por exemplo, segundo Guilherme de Occam, se Deus manda matar, então é bom matar. Assim justifica os homicídios e despojos dos hebreus. Apesar de ser um universalismo moral, é também um individualismo ético subjectivista (1), por depender da atitude de uma pessoa - Deus. Comparando com a educação de moral que um pai dá, é como responder às questões morais: «Porque eu digo» ou «Porque eu mando».

2¶ O que proponho é que para decidir se uma decisão é boa ou má, deve-se considerar o efeito que tem em todos os sujeitos, sem dar preferência a um deles ou a uma parte. É semelhante à Regra de Ouro, que a maioria das religiões, no entanto tomo em conta que o outro é diferente e devemos ter isso em conta numa avaliação moral. Na Regra de Ouro, comparando com a educação de pai é como dizer algo como: «Gostas/queres que te façam o mesmo?» Eu, por outro lado, questiono o que seria se fosse o outro, tendo em consideração a sua natureza, e considero que o que é do nosso interesse, ou que é bom para nós, não é necessariamente o gostamos ou queremos (pelos no curto prazo). Por exemplo, é do interesse da criança que estude para o futuro, apesar de não gostar nem querê-lo. E num mundo imperfeito muitas vezes é necessário recorrer a males temporários para ter um bem, por exemplo provocar dor para salvar uma vida, ou isolar alguém que prejudica grandemente outros, como o ladrão, o homicida e o violador.

3¶ Infelizmente existe uma tendência para distorcer essa última posição, limitando as alternativas à primeira, numa falsa dicotomia ou tricotomia, a outras que não aceito numa orgia de homens-palhas. A imagem seguinte mostra diagramas com os dois modelos (1 e 4) e outros dois que os que defendem o primeiro impingem como únicas alternativas ao seu:
 

4¶ O primeiro diagrama representa um individualismo ético: depende apenas de um único indivíduo ("A"). Em geral quem defende-o na forma da Teoria dos Mandamentos Divinos, impinge os modelos representados no segundo e terceiro diagramas. O segundo, tal como o primeiro, apenas uma parte define o que é bom e o que é mau, mas ela é maior que apenas um indivíduo. (Se uma sociedade que dissesse que a escravatura fosse boa, então seria?) No terceiro o bem e o mal é como o gosto: depende apenas de um sujeito. É a apenas nesse caso que costumam chamar de subjectivo. (E para o pedófilo?) O que defendo é o quarto modelo, que é muito mais complexo que os restantes casos.

5¶ Se existisse apenas um sujeito, ele depende apenas de si mesmo. Mas se ao deixar cair uma pedra na cabeça sentir dor, isso não seria mau para ele por uma opinião, tal como não se sente frio ou calor por opiniões. Se gosta de música alta e não lhe prejudica, então é bom ouvi-la.
Suponhamos que ele cria outro sujeito - passam a existir 4 relações: os sujeitos devem considerar o que é bom e mau para si mesmos e para o outro (conto com duas relações). Estes dois casos devem ser estudados isoladamente antes das generalizaçoes. Se o criador um sádico poderoso, não quer dizer que torturar a criatura seja boa. Ele deve ter em consideração a criatura. Se ela também gosta da mesma música alta e não lhe for prejudicial, então é bom tocá-la para ambos a ouvirem. Caso contrário seria mau - por isso é que existem os auscultadores...
Se for criado outro sujeito, passam a existir 9 relações. Com quatro sujeitos, seriam 16 relações. Para um sujeito em abstracto o melhor é um modelo com essas relações. Noutro modelo, corre o risco de calhar numa situação em que não é representativo numa avaliação moral.
Nesse modelo a existência de Deus é irrelevante para o que é bom e o que é mau. Para Deus ser bom, deve considerar o que é bom para todos. Mas é relevante para a Teoria dos Mandamentos Divinos. Para um seu proponente, não existiria moral ou um indivíduo ou grupo seriam a Referência Absoluta. Seguindo a sua lógica, ao visualizarem estarem errados, concluem que matar é tão bom ou mau como salvar uma vida, ou se a autoridade divina devia-se ao seu poder, a distinção entre bem e mal dependeria dos mais poderosos ou da maioria. São os que questionam por que é que devemos ter em consideração os outros que dizem que poderiam ser maus para connosco, ou não dariam valor ao bem, se fossem ateus racionais.

7¶ Além disso a sua teoria moral implica que se Deus for um sádico que dissesse que devíamos lutar uns contra os outros até à morte, então as guerras seriam boas. Podem pensar que resolvem o imbróglio dizendo que não é essa a natureza de Deus, mas isso seria admitir que nem eles acreditam que o bem e o mal é ditado por Deus: «reconhecemos que o sagrado é amado por Deus por ser sagrado, e não que é sagrado por ser amado» (in Êutífron, de Platão). Como convencem Deus, um ser omnipotente, que é errado torturar? Nem a Bíblia defende que o bem significa o mesmo que mandamentos divinos. Os profetas dão os seus "porque", "portanto" e "para que", como nas parábolas, e alguns até colocam em causa a justiça divina: «Não faria justiça o Juiz de toda a terra?»

(1) Correcção: o individualismo ético subjectivista não se refere apena a um indivíduo. Proposto por Protágoras, ignifica que existem tantos bens e tantos males quanto o número de sujeitos.

27 fevereiro, 2010

Burca

1¶ Simplesmente dizer que não entendem o que criticam não responde às críticas. Não passa de uma observação sem fundamento. Análises de argumentos pouco sofisticados são válidas e muitos são fruto de gente sofisticada. Se são tão maus, por que é que quem critica quem os refuta não concorda que existem e que tão maus como são? Se um ateu escreve ou fala sobre algo relacionado com religião, é provável que cristãos respondem fazendo observações sobre o que julgam ser as suas motivações, o seu conhecimento e sobre o seu desagrado em relação às escolhas dos assuntos pouco sofisticados. Pode ser catalogado de neo-ateu ou excessivamente laicista por algumas das suas opiniões, como o repúdio em relação à burca.

2¶ Pelos vistos, mesmo sem dizer que a burca é um símbolo religioso nem usar essa ideia em argumentos, agora basta um ateu criticar o uso da burca para que se concluir que pretende terminar com os símbolos religiosos. Como o meu crucifixo florescente... Mona Eltahawy, no New York Times, criticou esse tipo de ataques a quem é contra a burca, como aconteceu a Jack Straw. Ela é uma muçulmana que diz que o modo de apoiar as muçulmanas é opor-se aos islamofobas e à burca. E apresentou exemplos de casos em que muçulmanos opunham-se ao uso da burca, nem que seja pelo menos em certos casos por razões de segurança, como nas universidades onde homens podem usar burcas para entrarem nos dormitórios de mulheres. Segundo ela a burca é uma afronta para as muçulmanas e priva a identidade da mulher.

3¶ O lobby The Muslim Canadian Congress [O Congresso Canadiano Muçulmano] convocou o governo para que proibisse o uso da burca e nicab, que consideram ser um símbolo medieval do extremismo misoginista sem fundamento islâmico. Numa entrevista, o seu porta-voz Farzana Hassan afirmou numa entrevista que cobrir a cara é ocultar a sua identidade, sendo uma questão de segurança pública por ser uma práctica comum para se cometer crimes. Aliás, já se cometeram assaltos com burcas, talvez por homens. Em Inglaterra houve uma série de assaltos a joelharias, sem que os bandidos possam ser identificados pelas imagens das câmaras de vigilância [1; 2]. Um banco de Paris foi assaltado também por duas pessoas com burcas. Dois homens, confundidos como mulheres por usarem burca, assaltaram um banco na Bósnia. Na Carolina do Norte alguém vestido com uma burca assaltou um banco. Nem se sabe se foi um homem ou uma mulher, apesar das imagens gravadas:


Terroristas, bombistas suicidas e líderes radicais usam a burca para matar e escapar sem poderem ser identificados, como os ladrões, os carrascos e mercenários, como os ninjas. Na Itália é proibido por Lei cobrir a cara em locais públicos, ocultando a identidade (artigo 5º da lei nº 152, de 22 de Maio de 1975). Na Bélgica existem leis que proíbem o uso de máscaras em locais públicos, excepto durante o Carnaval. Na Turquia - com uma maioria muçulmana - há 85 anos que é proibido usar lenços que cubram a cabeça e pescoço (com excepções), o que é excessivo. O hijab, a al-mira, o xaile, o véu e o chador não cobrem o rosto como fazem a burca e o nicab. Esses dois últimos não são "bocados de panos" e nas outras vestes que também servem de símbolos religiosos, não existem razões para que sejam proibidas. Não se está a propor que se proíba as toucas das freiras, as túnicas dos padres e os quipás dos judeus. Assim é patente o ridículo quando acusam de proporem o fim dos símbolos religiosos, especialmente tendo em consideração que muçulmanos também propõem a proibição das burcas. Não espero que façam as mesmas acusações às muçulmanas que usam hijabs, ou até de um ministro francês muçulmano que diz que a maioria dos muçulmanos é contra a burca - ele é um deles, mas os acusadores, para serem consistentes, deviam mostrar também indignação em relação aos evangélicos cristãos que propõem que muçulmanos sejam expulsos da Europa através do preconceito e implicando que o multuculturalismo implica aceitar o crime.

5¶ Mesmo que existem razões para que não andem pessoas com a cara tapada, há quem compare com ironia o uso da burca com cirurgiões nos blocos operatórios, soldadores nos locais de trabalho, jogadores de hóquei no ringue, esquiadores nas montanhas nevadas, motociclistas numa mota, e uso de cachecóis e de máscaras para proteger a boca e evitar contágio, como se uma máscara de protecção que não impede a identificação tivesse os mesmos problemas da burca. Como se o uso da burca nos locais públicos, em lojas e bancos, tivesse as mesmas razões do uso de uma máscara própria para o local de trabalho ou privado. E como se quem usasse a burca permitisse identificar-se revelando o rosto ou ser revistada. O que interessa é as razões para as proibições, não a ideia abstracta do uso de máscara. A polícia pode possuir armas de fogo nos espaços públicos, mas os civis não podem. Mas podem fazê-lo em locais privados, desde que tenham um certificado, documentos e sigam regras impostas pela Lei. Não vão usar o mesmo tipo de argumentos para defender que haja o direito de possuir e usar armas nas ruas, nas lojas, nos transportes públicos, nos bancos, nas escolas e locais de seviços públicos, pois não? Não esperem que se aceite, por exemplo, que se use máscaras de esqui nas mesmas condições como querem que se permita com a burca.