«E os principais dos sacerdotes e todo o concílio buscavam algum testemunho contra Jesus, para o matar, e não o achavam. Porque muitos testificavam falsamente contra ele, mas os testemunhos não eram coerentes. E, levantando-se alguns, testificavam falsamente contra ele, dizendo: "Nós ouvimos-lhe dizer: Eu derribarei este templo, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens." E nem assim o testemunho deles era coerente.» (Marcos 14)¶1 A importância da incoerência dos testemunhos é óbvia e os teólogos da Idade Média já tinham noção das discrepâncias entre os evangelhos. Santo Agostinho, para defendê-los, comentou: «ou o manuscrito é defeituoso, ou o texto original foi mal traduzido, ou que eu não o entendi.» (carta 82 a São Jerónimo) No século II, Taciano escreveu um Evangelho em sírio chamado Diatessaron ("feito de quatro ingredientes"), cujo objectivo era harmonizar os quatro evangelhos canónicos sem as discrepâncias.
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¶2 Alguns trechos desses evangelhos foram acrescentados muito depois dos originais, como as duas versões finais do Evangelho Segundo Marcos, consoante a tradução, a seguir a «e nada diziam a ninguém porque temiam» (16:8; vide Manuscrito Alexandrino, Manuscrito Sinaítico e o O Códice Regius). Sir Isaac Newton, em An Historical Account of Two Notable Corruptions of Scripture, notou que o Comma Johanneum (I João 5:7-8) foi introduzido pela primeira vez introduzido numa tradução da Bíblia na terceira edição do Novo Testamento de Erasmo, mesmo sem qualquer documento anterior que o justificasse. Esses versículos não existiam e por isso nenhum teólogo o mencionava. Algumas passagens bíblicas e até alguns livros inteiros do Novo Testamento são consideradas pseudografias, mesmo por teólogos, como as epístolas a Timótio e aos Efésios e a Segunda Epístola de Pedro. Claro que isso tudo não prova que não houve uma ressurreição de Jesus, mas apresenta-nos uma explicação para as contradições e demonstra que devemos ser prudentes em relação às cópias e traduções.
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¶3 Mas noutras passagens fundamentais existem inconsistências. Eis por exemplo a descrição dos primeiros testemunhos do túmulo vazio:
- Mateus: Madalena e Maria foram ver o túmulo;
- Marcos: Madalena, Maria e Salomé foram;
- Lucas: Madalena, Maria, Joana e outras mulheres foram ver o túmulo;
- João: Madalena foi ver o túmulo;
- Mateus: houve um terramoto durante a descida de um anjo que rolou a pedra do túmulo e sentou-se sobre ela;
- Marcos: a pedra enorme já estava revolvida e ao entrarem no sepulcro as mulheres viram um jovem sentado à direita;
- Lucas: as mulheres entraram no sepulcro e pararam junto delas dois homens;
- João: Madalena viu que o sepulcro estava vazio e por isso foi ter com Pedro e João (o discípulo amado) para dizer que levaram o corpo;
- Mateus: as mulheres correram para contar a boa-nova, mas entretanto encontraram Jesus; prostaram-se para lhe beijarem os pés e ele disse para dizer aos seus irmãos para irem para Galileia para o verem;
- Marcos: as mulheres fugiram assustadas sem contar nada a ninguém;
- Lucas: as mulheres foram contar as boas-novas aos apóstolos e a outros;
- João: Pedro e João encontraram o sepulcro vazio. Madalena chorou junto do sepulcro e viu dois anjos sentados onde jazia o corpo. Ao voltar-se para trás, viu Jesus, que foi o primeiro a contar-lhe as boas-novas.
¶4 O evangelho mais antigo (Segundo Marcos), ao contrário dos outros, termina dizendo que as mulheres não contaram as boas-novas (se ignorarmos as versões adicionadas, que contradizem o versículo 8), terminando abruptamente como o início. Talvez para justificar por que é que a história não era amplamente conhecida durante cerca de 40 anos até à escrita dos evangelhos, com as mulheres como testemunhas, em vez dos apóstolos, incluíndo Paulo, que já teriam morrido e que nas suas cartas descreviam Jesus ressuscitado como uma aparição em transes (I Cor 9:1; 15:5-8; At 7:55; 11:4-8). Cerca de 10 anos mais tarde, com o Evangelho Segundo Mateus, são mencionados guardas que foram instruídos para dizerem que o corpo foi roubado - sugerindo que a polémica do desaparecimento do corpo era recente - e é dito que os discípulos encontram Jesus. Mais 10 anos depois, em Lucas, é dito que Jesus disse que não é um espírito - talvez uma resposta aos gnósticos. E em João até há uma resposta àqueles que duvidam através de Tomé.
(Nota: A datação dos sinópticos definida pela maioria dos escolares baseiam-se em conjecturas - estive supô-las que estão correctas.)
¶5 Notem que apesar de assumidos como resultados de testemunhos, os Evangelhos Canónicos têm descrições de acontecimentos privados (as tentações no deserto, a oração no Jardim das Oliveiras, o interrogatório e o julgamento em portas fechadas, a traição e arrependimento de Judas, encontros secretos com Nicodemos e José de Arimateia, o processo que levou à condenação de João Baptista). E apesar das discrepâncias, 89% do material de Marcos é encontrado em Mateus, e 72% é encontrado em Lucas, sugerindo que Marcos foi usado como fonte para os outros, daí serem chamados de Evangelhos Sinópticos (syn=juntos; opticus=visto), daí a conjectura do Documento Q. Por isso não podem servir de confirmação mútua.
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¶6 As incoerências não implicam que as narrações não tenham uma base de verdade. As histórias são recontadas com modificações, algumas com o intuito de assegurar a veracidade das mesmas e refutar pormenores de outras versões. Os apócrifos são fruto de muitas tradições cristãs, como o nascimento na manjedoura e o número e nomes dos magos. Segundo os Evangelhos da Infância (de Tiago e Tomé), Jesus em criança era um traquinas, abusando dos seus poderes, e compreendeu as suas responsabilidades depois de ter sido acusado de ter morto outra criança. Nos Actos de Paulo, São Paulo converteu um leão que falava. Muitos desses apócrifos foram considerados heréticos e fantasiosos pela Igreja. O que isso tudo quer dizer é que os evangelhos a partir do de Marcos não são fidedignos. Quanto muito, têm algum fundo de verdade sobre o cristianismo do período pré-marcano que foi sendo distorcido com o tempo. Começo o próximo artigo com o argumento do túmulo vazio, de William Lane Craig.
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